O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

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Como querer Caetanear…

Hoje o dia nasceu verão. Quente, abafado, quase Brasil. E em meio ao cotidiano mais banal de uma segunda-feira tão boba quanto qualquer outra veio subindo aquele banzo que só quem está longe há muito tempo conhece.

A moleza do verão que me deixou a vida inteira meio prostrada e com a cabeça em algodão doce, metáfora mais linda que aprendi por aqui recentemente com um sujeito que de tão melancólico já não sabe mais o que é viver diferente de um morto vivo. E o trajeto pela estrada, as montanhas ao fundo, aquele céu azul, aquele ar de férias…

Cresceu um buraco ali no peito e então lembrei do Djavan. Pai e mãe, ouro de mina. Quem escreve letras e músicas tão lindas que décadas depois são ainda capazes de te pegar numa curva de estrada e te arremessar direto para os recônditos mais distantes da tua história?

Me digam onde nesse mundo alguém conseguiu torcer palavra em poesia e criar esse buraco entre o peito e o estômago melhor que esses nossos músicos que eu vou lá. Aquele gozo da descoberta da palavra que virou outra coisa ali nas tripas da gente, um gozo que é metade prazer e metade dor. Reconhecimento, alguém descobriu o que vai por entre nossas entranhas.

Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul… cantou a Gal, cantora favorita de toda a vida do meu pai, quase uma tara, um fetiche nessa voz dessa mulher que conseguiu concentrar toda gostosura em voz de um jeito que deixava todo muito doido. Mais ou menos como no Ney, quando rebolava e cantava e dava aquela vontade de comer o sujeito junto com todas as suas letras.

Música que meu pai ouvia no toca-discos ali de casa, o jornal entre as mãos, aquele cheiro de fim de semana, o sol entrando pela janelona, passarinho cantando em uma ruela de São Paulo que nem parecia cidade grande. Música tocando no toca-fitas do carro rodando pela estrada de verão até chegar na praia. Dia de sol, aquele verão que cola e mela a pele, aquele salgado de verão que entra pelos poros e faz aquele bem tão sublime que dura quase um ano inteiro. Música tocando no meu carro com as amigas de faculdade, primeira vez, primeiras férias, primeiras músicas, o verde daquela costa de margeia a estrada de Ubatuba, o mar ao fundo, o azul, as montanhas, aquele verde selvagem que não existe aqui, um verde caótico de natureza pura e simples, jamais domesticada.

Foi um instante e eu estava ali e aqui, lá longe e aqui, naquela história e no hoje. Essa estrada linda cercada de montanha e de mar e do verde daqui, árida porque é verão e toda vida que explodiu em cores começa a torrar, a torrar e é o começo do fim da beleza que vai voltar sempre, mais para frente, num outro dia, porque ainda bem ainda temos as estações e aqui as estações se sucedem e nos garantem que a beleza volta. O ar seco do verão que não mela, a falta que faz o sal na pele, aquela sensação de estar viva. Hoje foi assim nessa segunda boba, mistura de ontem e de hoje, de lá e daqui, como apenas quem começa a estar longe há muito tempo entende.

Pasárgada

O amigo do rei tem sempre, em todo lugar. Aqui é o chegado do produtor de vinho. Ele, o rei do castelo. Os outros, os amigos do rei. Ele soberano no topo da sua colina, entre mar e montanha, dominando através de olhos e vinhedos o mundo todo contido em seu olhar. Os outros prensados no buraco do vilarejo ali embaixo de seus pés.

Aqui todo mundo tem história e na história tem briga, tiro de fuzil, gente que não gosta de gente por um sem número de motivos cruciais tão tolos quanto a ignorância da própria desimportância. Pessoas erigem muralhas contra outras pessoas por razões que insistem em ignorar a evidente insignificância de nosso ser. No final, como me disse um garoto de 11 anos: “vou morrer”. No final morremos todos e o mundo não se paralisará nem por um segundo por conta disso. Por que a espécie humana é a única que, frente à sua insignificância, se fecha em uma armadura de negação, delírio de grandeza e violência? Vai entender…

Daqui desse lugar das pequenas diferenças e dos tolos conflitos pelos pequenos poderes cotidianos tão banais, tão pueris, olho para o que acontece aí, nesse lugar que foi minha vida durante quase uma vida inteira. Aí o rei do castelo e os amigos do rei chegaram a um nível de negação de sua própria insignificância tão violento, tão perverso que para garantirem a palavra final eles estão dispostos a trucidar um país inteiro. Síndrome do vira-lata que precisa dar uma de leão. Custe o que custar.

Assassinam Marielle, assassinam um garoto que teve a ousadia de ser preto, pobre e botar o uniforme para ir para a escola em um dia em que, simplesmente, era dia de sair atirando em todo mundo. Maré de mortos. Controle populacional, política de extermínio de quem não importa, de quem nunca importou. Foda-se escrito em letras garrafais sobre os corpos de pessoas mortas dia e noite sem razão nenhuma. Nunca as obras de Antonio Manuel e de Rosângela Rennó foram tão atuais. Nunca as obras, as letras, os versos, as músicas foram tão obsoletos, tão pouco condizentes com a realidade que é ainda pior que o pior. Nunca foram tão pouco perto de tudo isso que se escancara na nossa cara dia após dia. Os artistas se envergonham de poderem criar enquanto um menino toma um punhado de tiros e morre sem entender como é que o ser humano padrão ali do outro lado do fuzil não o viu. Como é que ele não viu? Como é que ele não me viu? Como é que ele não viu quem eu era? Olhar que atravessa como bala o menino transparente que é ninguém.

Ele não era amigo do rei. Foi isso. Ele era apenas um insignificante que não teve condições de mascarar sua insignificância com a aura de amigo do rei para poder esquecer um pouco de quem era. Marcos. Ele era o Marcos. Tenho ao menos 3 Marcos que amo nessa vida e, se fosse um deles, estaria despedaçada. Se fosse um dos meus filhos, estaria despedaçada. E o problema que não chega a ser um é que estou totalmente despedaçada. Como se fosse um dos meus. Porque É um dos meus. A política do avestruz não funciona por aqui faz tempo. Mas, aparentemente, por aí e para uma imensa maioria das pessoas, funciona muito bem.

Os seres humanos por aí torcendo para o Brasil na Copa enquanto mais agrotóxicos serão ingeridos cotidianamente por cada indivíduo, inclusive pelas crianças. Todas. Não adianta comprar orgânico. Nem deixar de comer frutas, verduras e carnes e passar a comer apenas biscoito e batatas fritas. No final, morremos todos. Alguns sem nem ao menos terem vivido.

Prédios desabam, gente morre soterrada, assassinada, baleada e a massa vai continuar bebendo do próprio veneno enquanto olha para o outro lado, aquele da telinha, e se regozija em passar para a segunda fase. Não é comigo. Foda-se. Mas não se culpem, futebol é jogo, é arte, é coração, é algo que não se explica. Não é hora de fazer política, é hora de comer veneno gritando gol e idolatrando um cara como Neymar. O Brasil é realmente a cara do Brasil.

Imagino o Temer e seus asseclas. Ele é o rei do castelo. Eles são amigos do rei. Não precisam nem mais disfarçar suas crenças ou suas intenções. A violência de seus propósitos é tão abjeta que as pessoas não conseguem percebê-la a não ser como máscara. Piada. Situação passageira e sem importância. O abjeto fragmentado em mil derivados para não revelar a verdade do que é: o terror puro e simples. Hannah Arendt nunca foi tão atual. Deveríamos todos assistir ao julgamento de Eichmann em Nuremberg para quando formos levados a dizer: “mas eu não sabia”, “estava apenas seguindo ordens”. A leveza típica da negação daqueles que preferem se abster em suas vidinhas de poliana ao invés de arcar com o peso insustentável de estarem vivos em um tempo como o nosso. Ninguém quer se responsabilizar por isso que estamos vivendo. Foda-se. A psicanálise nunca foi tão atual e tão indesejável, a nos lembrar incomodamente que, sim, a responsabilidade no final é tão somente sua. Que você saiba ou não.

Mas, tudo bem, não se preocupem. Vocês não estão sozinhos. Palestinos são fuzilados diariamente. Trump separa crianças de seus pais nas fronteiras com o México e as engaiola como no pior pesadelo nazista revivido. Milhares e milhares de refugiados não chegam mais às praias da Europa pois são resgatados, maltratados, violentados, escravizados e reenviados para morrer nalgum canto discreto pelos países que aceitaram fazer o serviço sujo. O verão europeu está garantido, ufa! Como a Copa, Brasil passou para a segunda fase. Vamos tomar uma breja / verre de vin para comemorar?

Quando a música retorna.

Sou daquelas pessoas que sempre teve trilha sonora. Bailarina, a música acompanhava os passos, fazia mover o corpo. A música era corpo.

Mesmo depois que o ballet se foi, a dança ficou e a música também. Música do rádio e do toca discos do meu pai, lendo jornal ao som de Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal. Música de minhas primeiras músicas, discos comprados com a mesada nunca suficiente. Música das festas, primeiros bailes, domingueiras, música eletrônica, festas, lambada, forró, raves… Uma música toca, uma memória retorna, uma época, uma situação. Coisa de rir. Ou de chorar.

Os tempos sem trilha sonora foram tempos difíceis. Tempos em que os sons e as palavras perderam sentido. Acrescentar um som a algumas situações teria sido dor demais. Dor traduzida na dor das canções que traduziriam minha dor demasiado bem para poder olhá-las de frente. Silêncio. Houveram épocas de silêncio.

Depois que ele surgiu na minha vida, a música durou pouco tempo, tão pouco tempo quanto a ilusão do grande amor. Nossa filha nasceu, houve um tanto de música que logo escorreu no ralo das decepções, da falta de apoio, da solidão. Por alguns anos escutar música me feria de morte, até que ela voltou forçada, como uma violência da traição. As músicas que eles escutavam agora invadiam meus ouvidos, prolongamentos dos encontros deles forçados no meu cotidiano. Minhas músicas e minha sensibilidade usadas como isca por quem não tinha o que mostrar nem oferecer.

No desespero, enviava-lhe músicas, na esperança que as minhas suplantassem as dela. Na esperança que ele finalmente entendesse. Ele voltou. Mas apenas para não voltar. Voltou com aquelas músicas e com a convicção de ter vivido algo extraordinário. Às minhas custas, às nossas custas, pagamos todos o preço mais caro pela prioridade absoluta dada aos desejos realizados à qualquer preço. Ela se foi à fórceps, as músicas ficaram como agulhas que rasgam a pele a cada vez que se repetem em algum lugar desavisado.

Essas músicas recentes, elas me doem em lugares que nem consigo explicar. A única sonoridade tolerável por um bom tempo foram as músicas das crianças que embalam nossos trajetos de carro entre casa, creche, escola. Músicas tolas, músicas belas, músicas cantadas com eles, risadas, poder cantar gritado no carro. Agora não mais sozinha, mas com eles. Senti vontade de mostrar minhas músicas para eles, mas o que mostrar? Fomos fazendo listas do que amamos eu e eles, uma Palavra Cantada ali, uma Madonna acolá, Sting, Galinha Pintadinha, Vaiana, Frozen, Rei Leão…

As músicas eletrônicas, as músicas brasileiras, as músicas francesas… tudo ganhou um ar meio fake, forçado, fora de esquadro, distante de mim. Quem eu fui, não sou mais, as músicas deixaram de servir perfeitamente. Como as roupas, os sapatos, as palavras, as frases que sempre me definiram, as verdades, os gostos… Tudo arrastado na avalanche da vida e eu junto.

Daí, outro dia, quis enviar uma música. O que mandar? O que não estaria totalmente contaminado pelo amargor da vida vivida como decepção do sonho negado? Procurei nos arquivos, na memória, nas músicas das crianças, nas músicas recentes… nada.

Em um concerto de um senegalês em um vilarejo de 250 habitantes teve alguém que veio tocar do meu lado. Faz vinho e ama música. Descobri Gäel Faye e as músicas do exílio. Lembrei das músicas debaixo d’água dos filmes de Nery e Gautier… Mergulhar fundo, se lançar… e dançar

Fui tentar oferecer uma música e ela voltou para mim.

Minha mais recente trilha sonora. Sem dor. Ou sem amargor. Ou sem amarDOR.

Apenas vento nos cabelos e a sensação de estar planando em algum lugar ainda cheio de beleza e de vida: aqui.

Pra não dizer que não falei das flores…

Uma das minhas descobertas nessa vida francesa e, especialmente, no campo, são as estações do ano. No Brasil temos verão e inverno, ou um combinado de dias mais ou menos quentes e mais ou menos chuvosos o ano todo. Aqui, a primavera explode dia após dia em cores, formas e perfumes variados. E as flores selvagens que brotam do nada são de uma beleza extrama. Vontade de contemplar e ao mesmo tempo de sair explodindo também em cores e em vida.

Ou algo assim:

Quem gosta de vinho?

Noutro dia escrevi sobre os vinhos naturais, biodinâmicos e bio aqui na França, uma “moda” que começou há mais de uma década e se reforça dia a dia. Em um mundo preocupado em comer saudável e em diminuir tanto quanto possível a quantidade de pesticidas, hormônios e outras químicas com as quais nos envenenamos enquanto comemos, nada mais coerente que se preocupar também com beber saudável. Afinal, não tem muito glamour pensar que você está tomando Monsanto junto com aquele bordeaux de 500 reais, né?

Algumas pessoas por aqui defendem que o vinho natural sempre existiu porque sempre existiram viticultores que não seguiram muito a onda de trabalhar com produtos demais, nem se renderam ao mercado em busca de um sabor fácil, redondo e padrão. Esses viticultores já não trucavam muito o vinho e continuaram não fazendo. Outros perceberam a importância de voltar às bases e foram testar novas velhas maneiras de cultivar, tratar a vinha e produzir o vinho. E uns ainda sentem a pressão atual por um vinho mais limpo e menos padronizado e começam a lançar uma “fornada” bio em meio à produção costumeira. Sinal dos tempos?

Um amigo enólogo me disse outro dia que o vinho que ele aprendeu como sendo vinho é esse das tecnologias, dos pesticidas, das interferências na fabricação. Esse gosto é o que ele entende como “a verdade” do vinho. E segundo essa verdade, um vinho natural não é um bom vinho. Por isso que a maior parte deles não entra nas denominações controladas, pois não se enquadram nos parâmetros do que deve ser um bordeaux, um bourgogne… Então eles são labelizados como vin du paysvin de France, títulos que costumam ser dados a vinhos “menores”. Alguns preferem denominar-se vins libres.

Um vinho livre é aquele que não segue a receita para ser isso ou aquilo, não segue as cépages para poder ser considerado tal ou qual tipo de vinho. Ele mistura, inventa. Ou como disse tão sabiamente esse amigo enólogo, é o vinho que te permite descobrir o que estava escondido por trás daqueles outros cheios de química.

O que existe por detrás de um vinho redondo e arrumadinho?

Eles brincam.

Temos aqui um jardim. E eles brincam. Muito.

Antes, vivendo em apartamento meio sombrio no centro da cidade, a bagunça era maior, brinquedo jogado para todo lado, crianças pulando e gritando, nervosas e entediadas ao longo do dia, precisávamos sair para tomar ar, sol, desanuviar.

Então veio a campagne, o jardim, o sol entre as folhas, as estações do ano entrando pelas janelas.

A natureza tem um efeito direto e quase mágico sobre as pessoas. Pena que nos esquecemos disso empilhados uns sobre os outros, sem horizonte a respirar ar de escapamento. A luz que entra pela janela de manhã regula o sono, o frescor da brisa batendo nas ventas desperta e traz energia, o verde acalma a respiração e o peito.

As crianças acusaram a mudança. Os brinquedos ficam mais arrumados, as explosões motoras acontecem lá fora. Elas descobrem os insetos, as plantas, os ritmos e os sons do cotidiano no campo. O terraço vira a varanda de um castelo, os galhos de árvore viram espadas em um duelo, eles querem plantar as flores e ficam felizes quando descobrem os morangos avermelhando na horta.

Agora mesmo tem um passarão preto pesando em um galho da cerejeira selvagem que, até poucas semanas atrás estava coberta de flores rosas e de um perfume delicado e estonteante. Ele se joga de um galho ao outro e as árvores sacodem de tão brutal visita.

Sim, as crianças assistem filmes na TV. E brincam com seus brinquedos. O pequeno ama os quebra-cabeças e pode passar uma boa hora montando e desmontando 20 peças sobre o tapete da sala. Ou então enfileirar todos os animais de sua arca, imitando o som de cada um deles. Ambos dançam quando a música preenche o espaço, rodando e criando passos insuspeitos recém saídos de seus corpos criativos. Ela ama desenhar, pintar e, principalmente, escrever os nomes. Descobrir as letras que fazem um nome faz com que ela ria, mistério das coisas que viram palavras. Eles pedem que leiamos estórias e depois recontam um ao outro folheando os livros. E brincam.

Lá foram se jogam na rede, guardando o pedaço de brasilidade que lhes cabe e que os aproxima da infância que eu vivi, ao menos um pouquinho. Brincam de casinha e inventam mil cenas curiosas entre leões, unicórnios brilhantes, heróis, princesas, bichos, monstros. Ela por vezes o arrasta pelo braço para seu mundo e ele concorda em participar. Noutras não quer, vai fazer sua vida ali do lado, fascinado por alguma descoberta que insiste em partilhar conosco. Olha, mamãe, olha! Olha, mamãe!

Dizer que a vida é melhor no campo pode parecer coisa de baba cool abestalhado e talvez seja. Porque a vida no campo é mais dura que isso para quem trabalha no campo. Basta ver a rotina dos produtores de vinho daqui para entender que é zero glamour e muito suor. Mas experimentar uma vida melhor, mais simples e mais rica vivendo próxima e com a natureza é legítimo, mesmo para uma urbanóide de toda a vida como eu. Basta ter sensibilidade e abertura para perceber a diferença.

O passarão está ali petiscando pelo chão. E agora voltou a fazer terremoto sobre as árvores. Olha, crianças!