Da cidade grande para o meio dos vinhedos – parte 2

Então, como veio a paulistana parisiense parar no meio dos vinhedos do sul da França?

Aquilo que move as pessoas que se instalam em um outro país não foge muito de uma dessas opções: fugir de um ambiente marcado por algum conflito ou guerra, buscar uma condição vida melhor – sobretudo economicamente, propostas de trabalho e/ou de estudos mais ou menos temporárias, situações afetivo-familiares. Meu caso é esse último: fiquei por conta dos assuntos do coração. E como o cara-metade mora aqui no Sul, e como meu projeto de pós-doutorado parisiense terminou, e como decidimos ter um filho… a solução mais razoável era a de que eu viesse.

Eis-me aqui, na região dos Pyrénées-Orientales, uma das regiões mais ao sul da França, na fronteira com a Espanha. Entre o mar e a montanha. Por montanha leia-se os Pirineus, vulgo montanha de verdade, com direito a altas altitudes, neve e pista de ski no inverno. Natureza. Muita natureza. Das grandes megalópoles para a maior cidade dessa região foi como sair de um lugar habitado para, digamos, o meio de um deserto?! O choque total…

É bem simples: você quer sair num domingo e está tudo fechado. Você quer ir a um restaurante numa segunda-feira e 99% deles estão fechados. Você quer ir ao supermercado e ele está… fechado. A farmácia? Fechada. As lojas? Fechadas, muitas delas, do meio dia às 15 horas. Todos os dias. Porque as pessoas fazem a siesta. No inverno? Ruas vazias. No verão? Praias cheias demais. E, no entanto…

Foi minha pequena que me ensinou alguma coisa também nesse ponto. Muito antes do segundinho chegar, examinando de perto cada florzinha, cada folha, caminhando tranquilamente pelo parque, feliz sob o sol, em meio à natureza. A alegria dessa conexão me fez perceber que um lugar pacato poderia ser o melhor lugar para se viver. Sobretudo com filhos pequenos. Existem coisas mais importantes que restaurantes descolados e galerias de arte. Ao menos para mim. E para eles. Mesmo que seja tão legal ir a bons restaurantes. E ter milhares de filmes à disposição nos muitos cinemas da cidade. E poder ir ao supermercado às dez da noite. É legal mas… é disso tudo que uma pessoa precisa realmente?

E qual não é minha surpresa quando a oportunidade de mudar do apartamento no centro da cidade pacata para uma casa me faz encontrar uma num vilarejo de pouco mais de 200 pessoas em meio aos vinhedos. Mais calmo que isso só se fosse um bangalô no meio do mato. Ah, mas aqui não tem mato. Nem bangalô. Tem refúgio de pedra na montanha, serve?

Dizem que a gente não encontra o que procura, mas o que necessitava mesmo sem o saber. Aqui encontramos.

IMG_20180301_160742_289

 

Da cidade grande para o meio dos vinhedos – parte 1

Sempre fui uma pessoa urbana. Urbana assim, a poucas quadras da avenida Paulista. Urbana daquelas que gostam de andar em dias de sol e céu azul nessa imensa avenida coalhada de gente a olhar os reflexos em prédios de vidro. Urbana daquelas que amam arquitetura e o vão livre do MASP. Urbana daquelas que nasceram e viveram em cidade grande praticamente a vida toda.

Vida de cidade grande é muito boa. Para quem tem o mínimo de condições de aproveitá-la, claro. Coisa que eu não sabia até virar gringa no país dos outros. Então, na minha vida paulistana o prazer era descobrir novos restaurantes descolados e com boa comida mesmo em bairros distantes. Ou convidar e ser convidada para a casa dos amigos. Ou as visitas às galerias de arte sempre maravilhosas.

A noite paulistana tem qualquer coisa de insuperável. Todas as tribos de todos os gêneros se cruzam sem necessariamente se encontrar. Mas é sempre possível encontrar um lugar e uma tribo com quem se divertir, dançar, escutar boa música, rir… A noite paulista é interminável, pode durar um fim de semana inteiro e acabar com a sua segunda-feira, te nocauteando por muitos dias em que o trabalho se arrasta e você só pensa com saudades na sua cama quentinha. A noite paulistana pode ser rude, violenta, suja como o dia, como a cidade. Mas pode revelar também seus mil encantos secretos aos quais apenas os iniciados conseguem aceder. Ah, a noite paulistana daquela minha vida de antigamente…

Mas então veio Paris. E Paris é… bom… Paris é Paris. Cheia de clichês e de lugares comuns. Mas de uma beleza estonteante. Estou convencida que Paris é como aquelas pessoas extremamente belas, ela ofusca todos os seus defeitos e crueldades através daquela luz amarelo-alaranjada que ilumina suas ruas e prédios a cada noite. Uma luz difusa que envolve de mistérios e de promessas de descobertas essa cidade espetacular. Existe sempre uma Paris a se oferecer para cada par de olhos encantados como se fosse exclusiva, a Paris de cada um jurando fidelidade eterna em troca do amor eterno que cada qual lhe dedica, para sempre cativo.

Para além do deleite de viver em uma cidade bonita, Paris te ensina a viver em um mundo onde é possível ser mais livre, ter menos medo. Parece paradoxal falar em liberdade e ausência de medo em um lugar que foi alvo de uns tantos atentados terroristas recentemente. Mas ainda assim é essa sensação que se pode sentir por aquelas ruas.

Minha experiência definitiva em Paris ocorreu bem cedo, voltando de uma balada. As amigas com quem fui não queriam partir e me sugeriram que eu voltasse para casa sozinha. A pé. As quatro horas da manhã. Achei que elas estavam de brincadeira e perguntei onde poderia pegar um táxi. Minha casa não era muito longe dali e elas é que acharam que eu estava de brincadeira. “Vai a pé”. “Sozinha? A essa hora? Não é perigoso?”. Diante da risada francesa delas achei melhor ceder. E numa noite de outono qualquer do ano de 2011 essa que vos escreve descobriu que existem um mundo em que uma mulher pode andar pelas ruas de madrugada sozinha até sua casa. Sem que nada lhe aconteça. Cruzando outras mulheres no caminho que fazem o mesmo. Sem que nada lhes aconteça. Sim, existe violência em Paris e existe violência contra as mulheres em Paris. Mas você pode andar pela rua de madrugada sozinha sem que ninguém te ameace de nenhuma forma. E isso para uma paulistana convicta é um argumento decisivo.

Continua aqui

IMG_20180130_083133_434

 

Amizades

A pequena de 4 anos recebeu ontem a melhor amiga para dormir em casa pela primeira vez. A mãe emocionada com todas as recordações das melhores amigas que dormiram em casa quando criança, tão raros e preciosos eram esses momentos, tão importantes, tão felizes. Criança brinca bem mesmo é com outra criança, a imaginação que voa com facilidade entre uma cena e outra do mundo incrível que se inventam. Adulto tem as asas enferrujadas, a gente logo cansa de imaginar que é um leão bonzinho que vai atravessar a ponte e dormir naquela casinha de sofá meio apertada. As costas doem e a gente se projeta já encostados no sofá preguiçosamente com um livro nas mãos. Crianças têm uma disposição incansável para o risco. Não teria como ser diferente, já que suas vidas são repletas de incontáveis descobertas das tantas primeiras vezes que experimentam isso ou aquilo do melhor ou do pior que a vida nos oferece. A dádiva das primeiras vezes que rareiam quando o tempo passa e nos encontramos melhor acomodados no sofá do que na savana sendo leões gentis.

Nessa primeira vez ouvi de longe minha filha e a melhor amiga inventarem mil mundos ali dentro da casinha de madeira do jardim. Cada uma num vestido cor-de-rosa, o da amiga emprestado por minha filha, a pequena em flores de cerejeira e a pequena em grandes flores de rosa e azul, rodando a saia do vestido como princesas e escalando muros e prateleiras como heroínas.

Elas riram, choraram, brigaram umas mil vezes. Uma dizendo que a outra era má, que nem era assim tão bonita, que não eram mais amigas, que de todo modo não viriam nem convidariam mais para aquela casa. Coisas de quem tem medo de perder e se precipita em se desfazer primeiro. Nem as crianças suportam bem os riscos do amor e da amizade. A amizade que se desfez para ser resgatada no instante seguinte, as duas conversando sobre lobos que aparecem em pesadelos na hora de dormir. Conversando e conversando deitadas sob as cobertas de uma noite fria, cada uma com um doudou nas mãos, o medo dos lobos e dos monstros e a afirmação de não ter medo. De lobos, de monstros, de nada. As conversas sem fim da hora de dormir entre amigas, aquela cumplicidade única e insubstituível que eu mesma tive com minhas melhores amigas. Aquelas desde sempre. Aquelas que duram para sempre.

As minhas melhores amigas estão bem longe daqui. Mas cada vez que as encontro há encontro. E é a melhor sensação, aquela de uma intimidade que não foi perdida, aquela do como se fosse ontem. Aquela de duas pequenas conversando de pijamas embaixo das cobertas enquanto um adulto grita ao longe que é hora de dormir. E as risadas abafadas. E a graça de viver tudo aquilo como quem descobre algo de extraordinário nesse mundo.

A pequena e a melhor amiga acordaram hoje mais cedo que de costume. Cochichando, rindo e se esgueirando pelo corredor até virem ver se mais alguém estava acordada. O irmão pequenino acorda no quarto ao lado e sai correndo atrás delas. Ele gargalha abertamente enquanto grita o nome da amiga da pequena. E corre atrás da beleza daquela amizade que também é dele. Porque amor de amigo tem essa capacidade de englobar tudo e todos que a gente ama. Pela simples razão de nos ser importante.

IMG_20180225_161353_847

De novo?

Ou ainda? Ou novamente? Ou de tudo um pouco. Porque gosto de escrever e porque sinto falta de escrever. Porque não quero escrever “apenas” sobre filhos. Mas quero escrever sobre filhos. E sobre maternidade. E sobre ser mulher. E sobre ser gringa num país estrangeiro. E sobre arte. E sobre psicanálise. E sobre jardim. E sobre vinhos. E sobre mudanças. E em português. Sem nenhuma aporrinhação para traduzir para o francês. Na língua mãe sem novo acordo ortográfico, de bom ou de mau humor. Prolixa, barroca, cheia de volteios. Sem a obrigação de compartilhar. Ou de me fazer entender.

É, a vida tem dessas coisas e eu de volta por aqui.

IMG_20180213_090504_068