Amizades

A pequena de 4 anos recebeu ontem a melhor amiga para dormir em casa pela primeira vez. A mãe emocionada com todas as recordações das melhores amigas que dormiram em casa quando criança, tão raros e preciosos eram esses momentos, tão importantes, tão felizes. Criança brinca bem mesmo é com outra criança, a imaginação que voa com facilidade entre uma cena e outra do mundo incrível que se inventam. Adulto tem as asas enferrujadas, a gente logo cansa de imaginar que é um leão bonzinho que vai atravessar a ponte e dormir naquela casinha de sofá meio apertada. As costas doem e a gente se projeta já encostados no sofá preguiçosamente com um livro nas mãos. Crianças têm uma disposição incansável para o risco. Não teria como ser diferente, já que suas vidas são repletas de incontáveis descobertas das tantas primeiras vezes que experimentam isso ou aquilo do melhor ou do pior que a vida nos oferece. A dádiva das primeiras vezes que rareiam quando o tempo passa e nos encontramos melhor acomodados no sofá do que na savana sendo leões gentis.

Nessa primeira vez ouvi de longe minha filha e a melhor amiga inventarem mil mundos ali dentro da casinha de madeira do jardim. Cada uma num vestido cor-de-rosa, o da amiga emprestado por minha filha, a pequena em flores de cerejeira e a pequena em grandes flores de rosa e azul, rodando a saia do vestido como princesas e escalando muros e prateleiras como heroínas.

Elas riram, choraram, brigaram umas mil vezes. Uma dizendo que a outra era má, que nem era assim tão bonita, que não eram mais amigas, que de todo modo não viriam nem convidariam mais para aquela casa. Coisas de quem tem medo de perder e se precipita em se desfazer primeiro. Nem as crianças suportam bem os riscos do amor e da amizade. A amizade que se desfez para ser resgatada no instante seguinte, as duas conversando sobre lobos que aparecem em pesadelos na hora de dormir. Conversando e conversando deitadas sob as cobertas de uma noite fria, cada uma com um doudou nas mãos, o medo dos lobos e dos monstros e a afirmação de não ter medo. De lobos, de monstros, de nada. As conversas sem fim da hora de dormir entre amigas, aquela cumplicidade única e insubstituível que eu mesma tive com minhas melhores amigas. Aquelas desde sempre. Aquelas que duram para sempre.

As minhas melhores amigas estão bem longe daqui. Mas cada vez que as encontro há encontro. E é a melhor sensação, aquela de uma intimidade que não foi perdida, aquela do como se fosse ontem. Aquela de duas pequenas conversando de pijamas embaixo das cobertas enquanto um adulto grita ao longe que é hora de dormir. E as risadas abafadas. E a graça de viver tudo aquilo como quem descobre algo de extraordinário nesse mundo.

A pequena e a melhor amiga acordaram hoje mais cedo que de costume. Cochichando, rindo e se esgueirando pelo corredor até virem ver se mais alguém estava acordada. O irmão pequenino acorda no quarto ao lado e sai correndo atrás delas. Ele gargalha abertamente enquanto grita o nome da amiga da pequena. E corre atrás da beleza daquela amizade que também é dele. Porque amor de amigo tem essa capacidade de englobar tudo e todos que a gente ama. Pela simples razão de nos ser importante.

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3 comentários em “Amizades

  1. Adoro ver a pequena e suas amigas. Outro dia passou a tarde na casa de uma melhor amiga. Amou. Eu nunca tive essa experiência de passar a tarde com amigas, ou de dormir na casa de amigas, ou de trazer amigas em casa. Meu pai era do tipo que achava isso um absurdo. E minha mãe faleceu quando eu tinha dois anos. Sinto falta de amigas assim. E ainda hoje vejo que sou meio distante de amigas e amigos.Amizade é tudo de bom.

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