Quem gosta de vinho?

 

O vinho segue os ritmos e os caprichos da natureza e o inverno é a época da poda, da taille. O primeiro gesto que o vigneron faz para preparar as vinhas para a colheita do ano. Então, todas as manhãs quando saio com as crianças para a escola, a paisagem de vinhas é entremeada de carros esparsos estacionados em estradas de terra. E um ou dois indivíduos que se movem lentamente entre as vinhas, meticulosamente cortando alguns galhos, num gesto preciso. As vinhas adquirem variadas formas, uns galhos finos brotando dos pés, uns galhos compridos, outros tão curtos… A paisagem das vinhas nessa época é em tons de marrom e ocre, sem folhas, sem flores, sem frutos, apenas as linhas retas da terra revirada, os fios, as vinhas… A montanha nevada ao fundo e as amendoeiras em flor dizem que nesse encontro de estações alguma coisa germina. Alguma coisa se prepara.

O primeiro vinho pelo qual me apaixonei nessa região foi o vinho de Collioure. Como se não bastasse a essa cidadezinha ser uma das mais charmosas da região, na beira do mar, cheia de estreitas ladeiras e construções antigas, Collioure com seu exclusivo farol, seu forte no centro da cidade impressiona artistas desde os 1900. Encantados pela luz, pelas cores, pela paisagem, pelo magnífico encontro entre montanha e mar, não poucos ali se instalaram, de maneira mais ou menos perene, a pintar a beleza contida de uma cidade encravada entre o azul do mar, a tour Madeloco solo rochoso entre o preto acinzentado e o marrom sanguíneo, tudo sempre mais explosivo e monumental do que ela. E as vinhas… Collioure é cercada de vinhas penduradas em montanhas íngremes e impossíveis, um capricho do homem a se impor em lugares tão improváveis. E o vinho desse lugar… Os tintos são poderosos e deixam uma lembrança longa na boca. Sem pesar, sem amargar, eles são redondos e ricos, uma benção. E os brancos… ah, os brancos. Amar vinhos brancos foi algo que descobri aqui na França, eles têm gostos tão variados, tão surpreendentes. E os de Collioure são cheios de sabor.

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Para saber mais sobre a taille. Outro texto.

Cansada…

… de você. Y’ en a marre… do seu egoísmo, do seu discurso autocentrado. Sua indiferença. Sua maneira de usar as pessoas.

Nós, uma vitrine para mostrar aquilo que você não tem. Nós, uma esponja da sua infelicidade. Como patos preparados a se tornarem foie gras, sufocados com tudo o que você nos enfia goela abaixo. Você fala, fala, fala até se esvaziar de toda a sua merda que sou forçada a engolir enquanto duas crianças clamam por atenção sem receber nada, privados de mim por sua causa, sempre privados, afastados, interceptados em pleno vôo porque você, sim você, sempre você precisa de atenção, precisa de mais, precisa de tudo. E quando você lembra que eles existem é para dar aquilo que você quer, quando você quer… e deixá-los falar sozinhos quando não te convém.

Há cerca de um ano você olhava para eles enojado e não hesitava em dizer que eles te cansavam. E que sua vida era sufocante, chata, sem sentido e infeliz.

Então, por que voltou? O que está fazendo aqui além de vampirizar nossas vidas, nossa existência, nossas alegrias, nossas riquezas?

Você é um predador, você tem todos os direitos. Seu desejo é seu guia absoluto e tudo é permitido se você assim o quer. Porque você faz o que quer, você faz o que quer, você faz o que quer. Você faz o que quer, custe o que custe. Aos outros. Porque você nunca paga conta alguma.

Quantas vezes sinto nojo, nojo, nojo de você. Tanto nojo que chego quase a vomitar todo esse nojo da pessoa que você é. E daquela que me tornei de tanto conviver com você.

A pessoa que me tornei, perdida, vazia, triste. Lutando a cada dia para sobreviver e para encontrar forças. Em algum lugar. Sem tirar das crianças, sem pesar sobre eles. Enquanto você fala, fala, fala das desgraças que chegam como consequência de seus próprios atos. Escrotos. Desonestos. Perversos.

E você ainda se vê como vítima de uma perseguição da qual você não seria em nada responsável. Por que você voltou?

Por que prometeu mundos e fundos e se comporta como quem não deve nada, como quem não deve reparar nada, como quem faz um favor?

Trilha sonora do dia: 🎼🎧🎤

Eu gostaria de…

… ser capaz ainda daquilo que aqui chamam de insouciance. Uma certa inocência, uma certa despreocupação. Mas parece que isso é privilégio de uns tantos jovens. E de uns tantos qua nunca tiveram filhos. E de uns tantos que nunca foram viver em outro país. E de uns tantos que nunca foram traídos. Cada experiência de vida nos marca no seu melhor e no seu pior, quer queiramos ou não. Não existe isso de jogar para debaixo do tapete esperando que o tempo traga esquecimento e indiferença. Existem rios de superfície calma por onde transitam intensas correntezas. Ou o recalcado sempre retorna, se quisermos ser psicanalíticos.

O problema da perda da inocência é que é algo que não se refaz. Como em Matrix, o filme. Uma vez que você escolhe o comprimido vermelho não têm mais volta. Alguns acontecimentos da vida fazem o mesmo com a gente, sem precisar de comprimido algum. A experiência de análise também pode agir assim. Então, para aqueles cuja perspectiva de uma maior consciência de si mesmo possa parecer aterrorizante, nada disso é uma boa idéia. Viver é perigoso. Viver nos aproxima de verdades muitas vezes indesejáveis.

O pior em perder a inocência é o pesar, essa dor profunda e silenciosa que pesa no peito e extravasa em suspiros. Perder a confiança não apenas em uma pessoa, mas nas pessoas em geral. Saber que palavras são fumaça e projetos de vida são certezas que perdemos em um instante. Nada é tão sólido que não possa mudar. Nem o amor não é garantia de nada. O amor é palavra, é fumaça, é rio que corre entre os dedos. Perder a confiança em uma pessoa e no seu amor, perder a confiança nas pessoas e nas garantias que o amor parecia dar. Isso é perder muito. Mas é algo que umas tantas pessoas vivem. Todos os dias. E vivem depois sendo outra pessoa, bem diferente de tudo o que foram até então.

O horror…

Em algum momento dos últimos dois anos parei de me manifestar frente aos acontecimentos quotidianos catastróficos que povoam as notícias e timelines de todo ser humano minimamente conectado. Parei, cansei, cheguei num ponto de esgotamento com tanta indignidade, com tanta violência, com tanta incompreensão. Parei sem deixar de acompanhar, sem fazer o avestruz, apenas porque as palavras pareciam não mais fazer sentido. Palavras perderam o peso e a potência face aos acontecimentos e escorreram por entre os dedos… Inúteis.

Mas aí assassinaram Marielle ontem. No Brasil, no meu país que já praticamente não reconheço mais. No meu país desfigurado por um golpe de estado, destroçado pela destruição do pouco de acesso à uma certa civilidade que havíamos construído e empesteado por acontecimentos sempre mais escabrosos, sempre mais ultrajantes mataram Marielle. Mulher. Preta. Vereadora. De esquerda. Da favela. Mataram essa mulher. Mataram uma mulher. Mataram uma entidade. E não deu para ficar de boca fechada. Ao menos para vomitar. Para gritar. Para chorar.

Meu pai era estudante nos anos 60. Meu pai lutou contra a ditadura nos anos 60. No congresso de Ibiúna em que ele foi preso, se escondeu no chiqueiro com outros colegas quando souberam que a polícia estava ali. Num chiqueiro. A luta é realmente desigual. De um lado, uma geração de jovens cheios de utopias que busca se proteger em um chiqueiro. Do outro, idiotas com poder. E armas.

Meu pai foi preso pelo que acreditava ser o mundo no qual queria viver. E pelo qual devia lutar. Meu pai teve amigos presos. Torturados. Assassinados. Meu pai viu seu mundo ser destroçado e se reconstruir. Ele pode ter esperança, perdê-la para reencontrá-la 20 anos depois. Ele pode ver seu mundo tornar-se possível de novo. Apenas para testemunhar no dia de ontem o retorno do fim. Meu pai e tantos outros da sua geração estão vivendo no espaço de uma vida uma morte que se repete duas vezes. Dois assassinatos. Um país inteiro que desaba duas vezes no abismo dos mesmos erros, das mesmas escolhas. Compulsão à repetição ?

Ando aqui pelas ruas e cruzo a polícia. Eu tenho medo da polícia. Tenho medo da polícia porque sou brasileira. Tenho medo da polícia porque sou mulher. Tenho medo da polícia porque sou de esquerda. Nem 7 anos de vida de gringa me tiraram o medo da polícia. Porque polícia é, no entender das minhas entranhas, sinônimo de assassinato.

Mas não é toda polícia. Mas você não é pobre. Nem preta. Nem vive mais aqui. E assim surge todo argumento desqualificador da dor do outro, do grito do outro, do asco do outro. Relativizemos para tirar o peso das palavras. Mas tanta gente assassinada todo dia e você… Tem gente que persiste na ma-fé de parecer não entender. Exatamente quando entenderam muito bem o que está em jogo.

Os alemães que moravam ao lado dos campos de concentração e que, ao fim da guerra, obrigados a visitá-los, desviavam os olhos horrorizados e juravam não ter percebido nada. Queimavam gente no seu quintal e você não percebeu ?

Tem um golpe de estado acontecendo, tem uma ditadura se instaurando, tem um genocídio organizado contra as únicas pessoas capazes de um levante (sim, pobres, pretos e favelados, só eles têm o poder de reinventar a guilhotina) e você não tem visto nada de estranho no seu quintal ?

Porque nós, a classe média intelectual esclarecida, nós não fazemos revolução nenhuma. Estamos domesticados no resguardo de nossos poucos privilégios. Amansados. Podemos fazer junto, no embalo que as ações alheias podem dar ao pensamento, mas sozinhos não podemos fazer nada. Perdemos nossa capacidade de fúria. Por isso o genocídio. Porque os idiotas armados e no poder entenderam muito bem quem são essas pessoas que uma hora vão se encher. Uma hora o fio estica tanto que arrebenta. E daí a coisa vai explodir. Melhor matar antes.

Há poucos dias meus filhos conversaram em francês entre eles. O choque, eles falam espontaneamente numa língua que não é a minha, que não é a deles. Que não é a deles que os vejo brasileiros. Meus filhos são brasileiros.

Mas meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Depois de ontem, meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Do Brasil que eu conhecia, do Brasil no qual existi. O Brasil meu país desapareceu ontem. Ele virou outra coisa que não sei o que vai ser. Um turning point. Sem o consolo da esperança da geração do meu pai de estar lutando pelo que nunca tiveram. Sem o risco calculado de esconder pessoas em casa, sem nunca poder perguntar quem, como, porque a essas pessoas sem rostos dos 70. Sem a crença reencontrada nas vias políticas do final dos 80. Sem as apostas, as conquistas, toda essa gente que pela primeira vez pode existir nos 90. E ter voz. Aqui, agora, tudo o que pode ser conquistado pode ser perdido. Eis o que fizemos com essa repetição. Nada se estabelece além da certeza de que o chão no qual pisamos não é sólido. Um país onde a perversão virou lei ?

Há alguns anos atrás, quando esse capítulo infame começou a ser escrito nas nossas barbas, com uma amiga brasileira que vive por aqui comentávamos a tristeza de, pela primeira vez, não termos mais vontade de voltar. O sonho de voltar, eterno paradoxo do migrante. Ontem, pela primeira vez experimentei não poder mais voltar. Pela primeira vez tive medo de voltar. Pela primeira vez tive medo pelos meus filhos. Pela primeira vez tive medo pelos meus pais, pela minha família, pelos meus amigos, por todos que ficaram.

Por que vocês estão tão quietos ? Daqui não ouço os gritos. Daqui não vejo a fúria. O que aconteceu com vocês ? Como mudaram tanto ? O que é esse abismo que se escavou entre nós, essa fronteira do nunca mais, o que esse assassinato arrancou da gente ? Vocês estão com medo ?

Eu estou com medo.

Mataram a Marielle. Marielle presente.

As hipocrisias francesas…

Quando o assunto é traição, a França é um dos países mais hipócritas que já conheci. Um dos berços do feminismo, um modelo para todo o mundo ocidental, os franceses pregam uma liberdade nos atos correspondente a uma liberdade dos desejos: todos são livres para fazerem o que quiserem. Apenas esquecem de acrescentar ao final da frase a cláusula importante sobre a gestão dos desejos de cada um: desde que todos estejam de acordo.

Desejo é responsabilidade e parece que por aqui muita gente esqueceu desse pequeno detalhe. Mulheres que pensam que o auge de sua liberação é transar com quem quiserem, mesmo que sejam homens que estão com outras mulheres, casados e afins. Oi? O exercício de sua liberdade enquanto mulher é fazer algo que vai magoar e eventualmente destruir a vida de uma outra mulher? Ah, ok. Foi nesse ponto que comecei a me dar conta que o feminismo foi instrumentalizado para se tornar apenas um discurso de pseudo-liberdade feminina que garante que os homens tenham mais mulheres disponíveis no seu mercado de carne. E, ainda por cima, convictas de que estão fazendo algo revolucionário.

Mas o mais espantoso nessa mentalidade francesa quanto à traição é que mulheres e homens parecem convictos que tudo bem, não faz mal nenhum, desde que o outro não fique sabendo. Ou seja, uma porção de casais trai e é traído e não têm problema porque o outro não ficou sabendo de nada. E, afinal, é algo tão natural desejar outras pessoas, né?

O que ninguém conta, inclusive esses homens e mulheres que traem a go-go e que eu tenho a ocasião de testemunhar infinitas vezes, não apenas na minha história pessoal mas no discurso de pacientes, de amigos e de conhecidos é que essas traições são responsáveis pelo fim de muitos relacionamentos. O que não seria nenhum problema, afinal relacionamentos começam e terminam. Só que essas pessoas, essas mesmas que fazem a apologia da traição chegam nas sessões com seus psicólogos ou nas consultas com seus psiquiatras totalmente destruídas. Pois é, emocionalmente, psicologicamente, moralmente destruídas. E tenho visto tanta gente destruída por conta de um ato que aqui na França gostam tanto de naturalizar que começo a me questionar sobre o porquê de tanta hipocrisia.

Vejam, pessoas adultas decidem da vida que elas querem ter e das parcerias que elas vão formar. Decidem. E para algo que implica mais de uma pessoa, decidem a dois. A três. Quantos sejam. Pessoas que consideram minimamente as mazelas e as responsabilidades quanto aos próprios desejos aceitam o risco de estabelecerem acordos tácitos, falados, escritos, murmurados com seus pares. Aceitam o risco que o outro, do auge da sua capacidade de decidir ele também, não concorde com o que propõem. Aceitam o risco que o outro não queira a mesma coisa que elas e que a relação termine. Pessoas adultas aceitam o risco da vida, das relações e dos próprios desejos e não tentam mascarar tudo isso com mentiras e falsas aparências para não perder nada enquanto se dão ao direito de fazerem tudo. Isso não é ser uma pessoa livre. Isso é ser escravo: de si mesmo, das próprias covardias, das convenções sociais, do medo que o outro não queira mais estar contigo se ele souber quem você é e como quer viver sua vida realmente. E aqui na França, no país do livre pensar, do bem pensar e dos analisados de Lacan, bem pouca gente parece disposta a correr os riscos.

Então, fica todo mundo engambelando. Fala em prol dos desejos e das liberdades e age como o contrário de tudo o que prega. E quando a verdade vem à tona… poucas pessoas seguram a onda. E o que vemos por aqui é uma quantidade assustadora de gente arrasada, deprimida, terra desolada depois de um incêndio que levou muito mais do que tinham imaginado que poderiam perder. O preço acaba sendo muito mais caro do que pensavam.

Há alguns anos atrás os franceses deploraram o escândalo da divulgação do presidente “normal” na sua motoca de capacete saindo da casa da amante em fotos tiradas pelos paparazzi de plantão. Deploraram que alguém desse atenção a isso, afinal aqui na França não se mistura vida pessoal com vida profissional. Não somos como os americanos ultramoralistas, conservadores, puritanos. Somos mais civilizados, mais realistas, essas coisas fazem parte da vida. Tudo muito bonito no discurso oficial de dez em cada dez franceses na época do ocorrido. O que esqueceram de dizer nos seus discursos e que apareceu nas entrelinhas é que muita gente estava achando lindo que a atual esposa do tal presidente que acabara de tornar-se corna em rede nacional era, em suas origens, a amante do tal presidente pelo qual ele largou esposa e filhos, num escândalo que a França também evitou comentar porque tudo é verdadeiramente tão “normal”. E que essa amante tornada esposa e primeira dama esqueceu de imaginar que o mesmo poderia acontecer com ela dali a um tempo pois um dos clichês da traição é que ela se repete e que a crença do “comigo vai ser diferente” não passa de intenção histérica de mulher que ainda não entendeu que “não, você não é especial para alguém que te colocou no lugar de uma outra, porque isso é uma mentalidade de homem que vê mulher como mercadoria”. E as pessoas tão liberadas e maduras estavam agora a se regozijar em rede nacional dessa pequena vingança do destino. E que essas mesmas pessoas tão civilizadas estavam pouco se importando que a ex-amante agora esposa tentasse se matar. E que tudo fosse abafado por essa espessa camada de normalidade dos acontecimentos e pelo silêncio sobre a dor que ela poderia estar sentindo. E que quando apareceu um livro arrasador de autoria dessa mulher destruindo o então presidente (uma vingança, por que não?) todos se mostraram ainda uma vez escandalizados, ultrajados por mais esse desrespeito ao savoir faire francês que diz que frente a uma traição todos ficam em silêncio e o traído se sai tão mais dignamente quanto menos falar e quanto menos deixar transparecer o que quer que sinta em suas entranhas. A França é um dos países menos empáticos com a dor alheia quando ela é vinculada a uma questão moral. Ninguém pode falar, ninguém pode perguntar, todos se convertem repentinamente em pessoas pudicas, reservadas, cheias de dedos, distantes. Porque os franceses, em geral, têm medo de se envolver com assuntos que os obriguem a se posicionar moralmente e a assumir uma opinião com base em um julgamento moral.

A consequência disso é que uma parte impressionante dos adultos com quem tenho contato contam histórias de traição cujas consequências foram catastróficas. Para eles, para os filhos, para um monte de gente. Um monte de gente sofrendo pela hipocrisia de não poder assumir que, não, não é ok trair. Mesmo que seja algo que aconteça. Mesmo que faça parte da vida. Isso não legitima a atitude de ninguém. É ok fazer o que quiser da própria vida desde que as pessoas envolvidas saibam e concordem. Ponto. Tudo o mais é má-fé, covardia e violência. Mesmo aqui na França.

Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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Coisas que os brasileiros pensam que conhecem… – parte 1 (O inverno)

… mas não sabem mesmo o que é até morar por aqui. E que eu amei descobrir.

Decidi começar por uma das minhas preferidas, o Inverno. Porque eu AMO o inverno. Amo o frio, a neve, mesmo depois de tanto tempo por aqui. E mesmo tendo coisas que detesto no inverno. E, te prometo, eu não sabia o que era inverno antes de morar na França, mesmo já tendo viajado por países frios em períodos invernais.

Inverno mesmo, temperaturas em graus negativos, quando faz perto de 10°C você pensa: nossa, que dia ameno! Sim, esse inverno da neve, do vento invernal e infernal, que a gente idealiza como uma romântica declinação das férias de julho em Campos, com um chocolate quente numa mão, um fondue na mesa de centro e muita lenha na lareira até que…

Talvez os estados e as cidades bem ao sul saibam do que se trata mas a imensa maioria de nós, brazucas, não sabemos o que é inverno de verdade até vir morar num país frio. Inverno que dura muitos meses no ano, com dias curtos, você sai pela manhã para o trabalho e é noite, você sai do trabalho no final do dia e é noite e você passa um bom tempo vivendo de noite a maior parte do tempo. Seu relógio biológico fica maluco e você fica com sono às 5 da tarde e quando o despertador toca pela manhã você não acredita que são 7 horas. As pessoas por aqui deprimem no inverno, reclamam do escuro, do cinza, não querem sair.

Nos meus dois primeiros anos eu achava isso uma bravata, tinha um pique interminável para ganhar as ruas e conhecer tudo o que a novidade parisiense me oferecia. No terceiro ano entendi. Tem um aspecto biológico aí, a falta da vitamina D que é produzida pela pele quando tomamos sol e que tem uma influência no humor e nos estados depressivos. E tem uma porção de aspectos emocionais, sociais, culturais.

A vida do inverno é mais para dentro, dentro das casas, dentro dos lugares aquecidos. Quanto mais frio, menos tempo se passa na rua. As pessoas continuam a viver suas vidas, fazem muito mais coisas do que nós, brazucas, nos animamos a fazer no nosso inverno. Aqui não é comum deixar de levar filho na escola porque está frio ou porque nevou. Se fosse assim, as pessoas passariam um bom tempo a cancelar compromissos. Mas mesmo que a vida continue, ela tem o aspecto de um urso hibernando na sua caverna. Quem fica errando de bobeira na rua por horas a fio, em pleno inverno, é turista.

Em um dos meus anos parisienses, minha tia passou um tempo comigo nessa época do ano. Todo dia olhávamos pela janela do apartamento antes de sairmos pela manhã, eu para trabalhar, ela para passear. Todo dia era cinzento, feio, úmido, desencorajador. Até que amanhece um dia lindo de sol e céu azul. O termômetro marca -7°C. Ela se empolga com o dia bonito e decide sair para passear na rua. Eu, já calejada, aviso: vai estar muito frio. Imagina, dia lindo! OK. Ela retorna meia hora depois para acrescentar umas camadas. Dia lindo de sol e céu azul e temperatura muito baixa é dia daquele frio que faz doer os ossos. O que me leva a uma outra constatação sobre nós, brazucas e o inverno…

Não sabemos nos vestir para o frio. Você está em Paris de férias em dezembro ou janeiro, feliz da vida com o glamour e a elegância parisienses e tão a fim de se misturar na paisagem que prepara sua mala com todos os nossos itens essenciais de inverno brasileiro? Não. Sinceramente, não.

Não para aquelas botas de salto maravilhosas. Não para os cinco casacos, cada um de uma cor. Mulher andando nas ruas da França como se fosse modelo de capa da Vogue ou é turista ou é… modelo de capa da Vogue. O que quer dizer, possivelmente, uma pessoa rica que vai apenas sair do carro na frente do restaurante descolado em que vai almoçar para entrar no mesmo carro logo em seguida, no qual o motorista a aguarda para transportá-la ao compromisso seguinte. Nós, reles mortais, andamos na rua, encaramos o vento, a chuva, a neve nos pés, no rosto, nas mãos. Pegamos metrô, ônibus, carro estacionado longe. Na vida real do inverno, sapato tem que ser quente, confortável, anti-derrapante e bom para durar alguns anos porque custa caro. Casaco é um, impermeável, quente, do tipo que encontramos em países onde existe inverno e, quando encontramos no Brasil, custam uma fortuna desencorajadora. Vestir-se para o inverno é colocar algo por baixo da calça, meia quente, uma camiseta ou camisa ou aquilo que você vai querer mostrar quando entrar nos lugares. Dentro dos lugares a calefação obriga a tirar o super casaco e você fica de camisa, camiseta ou com algo por cima disso, um blazer, um pull, uma peça quentinha mas não muito.

O inverno me ensinou a me vestir e, principalmente, me ensinou que proteger as extremidades é fundamental. Sair na rua de cabelo molhado como eu fazia em tempos brazucas? Suicídio. Gorro, cachecol para proteger o pescoço e o queixo e às vezes até a boca e o nariz do frio, luvas… tudo isso se coloca antes de sair para a rua. A gente sai para o inverno pronto, coberto, enrolado e tudo o que for preciso. Se arrumar na porta de casa é incômodo e, com crianças, é pedir para escutar choradeira. Criança com frio chora, se irrita. Fora que eles perdem temperatura muito mais rápido do que os adultos porque são menores, então a atenção precisa ser dobrada. E os bebês que mal se mexem, deitados em carrinhos… aí é risco triplicado e é preciso ter muita atenção. Normalmente o indicado é cobrir como nos cobrimos e, com bebês que vão ficar parados em carrinho, colocar uma camada a mais, uma coberta por cima ou um daqueles equivalentes dos sacos de dormir feitos especialmente para carrinhos de bebê. Quando o pequeno vai no sling ou no porta-bebê não precisa de tanto, porque ele compartilha do calor do nosso corpo. Não cobrir demais, não cobrir de menos, não deixar as crianças todas encapotadas no carro, no restaurante ou onde for porque é mais fácil para o adulto que tem um trabalhão para cobrir e descobrir pequenos mil vezes ao dia, contando com as rebeliões contra luvas, gorros e cachecóis e é só um minutinho, que mal faz… Criança superaquecida passa mal, chora, vomita… Não, morar em país frio é aprender a se vestir e aprender a vestir os pequenos e a aceitar toda lenga-lenga do cobre descobre que se repete centenas de vezes em um único dia. O que me leva a uma outra coisa que aprendi com o inverno…

Calefação. Palavrinha mágica, linda, alentadora, que faz as temperaturas subirem acima dos 20°C quando faz menos de 0 lá fora, dia e noite… Nos meus primeiros tempos parisienses, meus amigos franceses brincavam comigo dizendo que chegar na minha casa era como chegar nos trópicos. Era sempre verão por ali. Todo mundo de camiseta regata, feliz, tomando caipirinha… Só que não é assim que funciona.

Primeiro porque lugares superaquecidos fazem um mal danado para a saúde. Você lembra da sua avó que gritava da janela te mandando colocar um casaquinho para não tomar friagem? Então, sua avó tinha razão. Só que não é o frio que te deixa doente. É o monte de bactérias e vírus acumulados nos lugares quentinhos e mal arejados das casas e afins que ninguém abre uma janela do inverno. E quanto mais quente, mais os bichinhos gostam e se proliferam. Então, uma casinha a 18°C, 19°C quando faz grau negativo lá fora já é bem bom. E te permite usar todos os casaquinhos de inverno leves. E as botas. E tudo que não dá para usar na vida real. Fora que todos dormem melhor com o ar fresco e o cobertor quentinho por cima. Tem coisa melhor do que dormir enrolada num cobertor quentinho?

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As coisas como realmente são

Pois o sujeito me traiu. A pequena com apenas um ano e meio e ele surta uma noite, desaparece nesse mundão e retorna no dia seguinte dizendo que encontrou outra pessoa e vai embora de casa. Em um lapso de segundo a vida que eu julgava mais sólida que um rochedo pirineano explodiu em mil pedaços levando consigo meu coração e todas as minhas certezas de futuro. A vida é assim, ela muda no instante em que você finalmente acredita que conseguiu se assentar, no momento em que você pensa ter saído do olho do furacão, quando você tira a cabeça da água e consegue tomar fôlego pela primeira vez depois de tanto tempo. A pequena começando a ir à creche, eu começando a poder pensar em trabalhar novamente, tudo caminhando e eu cheguei a vislumbrar um resto de conversa estranha no celular, as falas dele sobre nós dois com os tempos dos verbos todos colocados no passado. Eu vi mas não quis ver, porque não podemos ver aquilo em que não temos como acreditar. O inconcebível mora na cegueira.

Depois de um encontro idílico e de uma paixão que virou amor com a facilidade de uma evidência veio a mudança para a mesma casa, o nascimento da pequena, o choque de realidade da impossibilidade de conciliar a vida nova com a antiga vida na qual o cara-metade tinha outros filhos e muita história mal resolvida que não dava conta de digerir. Ele ficou infeliz, eu fiquei infeliz, ficamos nos estranhando por um bom tempo até que as coisas pareceram se assentar no coração e na rotina de um e de outro, eu começando a gostar dessa vida pacata de cidade pequena, no meio da natureza, ele começando a aproveitar a existência da pequena e a família que tinha escolhido construir e… isso.

Devem existir tantos textos sobre traição quanto o número de pessoas que já foram traídas. Mesmo não os tendo lido, posso apostar que nenhum deles dá conta do estrago que isso causa em uma vida. Especialmente quando existem crianças pequenas envolvidas. Especialmente quando a existência mesma dessas crianças é o que motiva o afastamento do casal e a traição.

Me impressiona o quanto tem de um hábito cultural nessa história que é a minha e que é a de um sem número de mulheres cujos maridos as traíram quando os filhos eram pequenos. E estou falando dessa situação específica, dessa traição nesse contexto singular em que não existe condição de igualdade alguma para que cada qual possa decidir tocar a vida do seu lado em nome do exercício de sua liberdade pessoal frente a um relacionamento que não teria dado certo. Pois uma mulher com filho pequeno é tudo menos livre e capaz de embarcar em uma proposta de relacionamento aberto com o pai da criança que muitas vezes é sugerida por um sujeito que sabe que ele será o único a poder aproveitar dessa abertura por um bom momento. E essa mulher nem tampouco é livre e capaz de sair de um relacionamento que não teria dado certo para ir procurar uma outra pessoa. Porque, vejam só, na cabeça da maioria das mulheres grávidas ou mães recentes o filho é a prova mesma de que o relacionamento do casal estaria dando certo. Ou pelo menos é aquilo em que aprendemos a acreditar. E não temos condições físicas, mentais e emocionais para tanta mudança numa hora em que já temos mudanças o suficientes com as quais lidar.

Os homens decidem ter filhos, as mulheres engravidam, os filhos nascem e em algum ponto dessa sequência de eventos eles se sentem autorizados a trair. E a palavra é violenta, a palavra é trair porque aquilo que esses homens se permitem fazer é uma grande violência. Não se trata de um mero exercício de liberdade do desejo de cada um, que é sempre flutuante e fluido. Se o desejo flutua, homens e mulheres são ainda assim responsáveis daquilo que, de seus desejos, vira ato, vira gesto. E essa traição é um gesto que declara em alto e bom som que “meu desejo é mais importante do que tudo o mais”. Você, a criança, a família, os projetos de vida.

Um homem se espanta e se ressente com sua mulher grávida. Ou com sua mulher que se torna mãe de um outro ser que não ele. Ele se espanta e se ressente de deixar de ser o centro das atenções. Ele se espanta e se ressente da distância, do cansaço, da falta de vontade de transar, do mau humor, da irritação, das flutuações emocionais. Um homem se espanta que a mulher mude quando se torna mãe, ele se espanta porque boa parte dessas mudanças são fruto da indisponibilidade desse mesmo homem de se envolver com a criação desse filho que eles fizeram juntos. Ele se espanta que ela se sinta traída e abandonada com um bebê no colo a dar conta de tudo sozinha em meio a um caos emocional e a um desconhecimento total do que fazer quando se tem um filho. Ele sofre dessas mudanças, talvez exista nele também um caos emocional decorrente desse acontecimento de ter um filho na sua vida. Mas o problema reside na maneira como o sujeito interpreta essa experiência e muitos homens entendem disso tudo que suas mulheres os abandonaram. Trocaram-nos por outro, o bebê. E esse ressentimento vira distância, que vira má-vontade com a criança e com tudo aquilo que uma criança pequena demanda, que vira tensões e conflitos e quando menos se espera ali estão duas pessoas tão separadas por um abismo de incompreensão que encontrar um meio de criar uma ponte parece impossível. E a solução que muitos homens encontram para lidar com isso é adotar a tática do avestruz: evitar o confronto com as dificuldades e… trair.

Trair a confiança de uma pessoa que conta e precisa dele num dos momentos de maior fragilidade na vida de uma mulher. Trair também uma criança que precisa de um pai capaz de ajudar a mãe a estar bem o suficiente para que ambos cuidem daquilo que cabe a cada um nesse momento. Trair e deixar todo mundo na mão enquanto busca conforto em outros braços, em outra boca, em outras pernas, em outros cheiros, em outra pessoa cuja disponibilidade lhe seja exclusiva, que possa estar pronta, interessada e ter olhos só para ele a cada vez que a porta da sua casa se abrir para recebê-lo. Um homem que trai uma mulher que acabou de ter um filho seu é um sujeito que renunciou a qualquer resquício de algo que podemos chamar de dignidade. Uma mulher que se autoriza a ficar com um homem cuja esposa está grávida ou acaba de ter um filho estando a par da situação não é em nada melhor do que o sujeito em questão. Trata-se de uma mulher que, visivelmente, não entendeu muito bem que feminismo não significa meu desejo em primeiro lugar e, sim, minha dignidade depende de que todas as mulheres sejam tratadas de maneira digna. Sem exceção.

Como pode ser que algo tão nocivo tenha se tornado tão comum que as pessoas se permitem até mesmo jogar a culpa nas mulheres quando os homens as traem? A mulher grávida ou mãe recente que de repente vira a esposa negligente, que não se cuida, que não dá atenção ao marido, que vai perdê-lo para outra que certamente vai cuidar melhor dele. Como as pessoas são capazes de acrescentar doses cavalares de crueldade a um acontecimento por si só tão destruidor?

A história não acaba aí e nem acaba por aqui tudo o que eu teria para escrever a respeito. Mas nesse momento da história o cara-metade me traiu e disse que ia embora com outra. E mudou de idéia e ficou. E família, amigos e analista me ajudaram a pensar que isso era “normal”. E eu engoli meu orgulho ferido, meu coração partido e meu ímpeto de ir embora correndo para casa e fiquei na aposta de que tudo poderia ser reconstruído. Para ele fazer a mesma coisa depois do nascimento do segundinho. E ainda mais uma vez quando o pequeno era tão bebê quanto a pequena nessa primeira vez, cada um dos pequenos tendo direito à sua dose de destruição de uma estabilidade conquistada com muito esforço e tão sensível a furacões e outras intempéries. E a cada vez o sujeito se autorizou a ir mais longe, a comportar-se de maneira mais e mais indigna. Quando se ultrapassa uma fronteira, fica difícil retornar. Ainda mais quando essa fronteira diz respeito aos limites que podemos ou não ultrapassar em nome dos nossos ditos desejos. Nossas alegadas necessidades, pelas quais nos permitimos ir sempre mais longe, sempre mais cegos, de maneira sempre mais violenta. E o que sobra? Um rastro de destruição de tudo e de todos em volta com os quais deixamos de nos importar quando estávamos envoltos naquela fúria desejante, desonesta e cheia de engodos. E um sem número de estilhaços espalhados por imensos territórios que, no momento presente, o sujeito tenta atabalhoadamente colar e reconstruir.

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Os cabeça-de-vento

Aqui nos Pirineus Orientais venta. Muito.

Os ventos daqui têm nome tamanha a intimidade que adquirimos com eles. Como os furacões nas regiões do mundo onde são frequentes. Têm aqueles ventos marinhos, que sopram do mar para o continente. Têm os que fazem o caminho inverso. Têm os que levam as nuvens para longe. E os que fazem os dias quentes esfriar. É tanto vento que essa é a região onde existem os mais importantes campos de energia eólica da França. Hélices girando fazem parte da paisagem. E é por aqui também que a Airbus testa seus aviões contra as intempéries. E onde os pilotos aprendem a manobrar em condições adversas.

Para mim, vento sempre foi vento. Aquela brisa na beira do mar que ajuda a respirar em dias quentes. Aquele sopro friozinho em dias de inverno que gela a ponta do nariz e avermelha as bochechas. Vento, aquele fenômeno simpático e reconfortante… Até ser apresentada à Tramontane.

Ele vem dos Pirineus para o mar e é um vento forte, violento, frio. O inverno que não é tão rigoroso por essas bandas fica intolerável quando a Tramontane se levanta (aqui os ventos fazem a beleza de se levantar, como as ondas). Que casaco, que gorro, que luvas, que cachecol são capazes de evitar quando esse sopro dos infernos dos invernos mais gelados decide acariciar sua pele desesperada sob mil camadas que viram uma prisão de onde não se consegue fugir e da qual seu cérebro só é capaz de enviar a mensagem: socooooooorro!? 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto e você já começa a se questionar sobre o significado da existência. 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto quando você tem caminhar contra um muro de gelo com duas crianças pelas mãos para chegar em algum lugar imprescindível? A vida na Zooropa perde qualquer glamour.

Só que as duas crianças em questão adoram vento. A. DO. RAM. Não há argumento que os convença a colocar um gorro e acabo tendo que lidar sozinha com a angústia extrema de ver cabelinhos loiros como o trigo e cabelinhos castanhos cor de mel esvoaçarem para todos os lados envoltos de sorrisos e de olhos que deixam lágrimas escorrer (vento frio faz algumas pessoas lacrimejarem). Enquanto eu só consigo maldizer o tal sopro de Éole, meus cabecinhas de vento avançam quase agachados pelas ruas. E as palavras da minha avó retornam: “sai do vento, não toma friagem, vai ficar doente, menina!”

As pessoas que nasceram por essas bandas amam o vento. Conheço um que sobe a montanha em dia de vento forte para “arejar as idéias” e “desanuviar”. Outro que fica triste quando não venta por um longo período. Dizem que as pessoas enlouquecem com a Tramontane. Viver em um mundo no qual o vento revira a cabeça das pessoas…

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