Coisas que os brasileiros pensam que conhecem… – parte 1 (O inverno)

… mas não sabem mesmo o que é até morar por aqui. E que eu amei descobrir.

Decidi começar por uma das minhas preferidas, o Inverno. Porque eu AMO o inverno. Amo o frio, a neve, mesmo depois de tanto tempo por aqui. E mesmo tendo coisas que detesto no inverno. E, te prometo, eu não sabia o que era inverno antes de morar na França, mesmo já tendo viajado por países frios em períodos invernais.

Inverno mesmo, temperaturas em graus negativos, quando faz perto de 10°C você pensa: nossa, que dia ameno! Sim, esse inverno da neve, do vento invernal e infernal, que a gente idealiza como uma romântica declinação das férias de julho em Campos, com um chocolate quente numa mão, um fondue na mesa de centro e muita lenha na lareira até que…

Talvez os estados e as cidades bem ao sul saibam do que se trata mas a imensa maioria de nós, brazucas, não sabemos o que é inverno de verdade até vir morar num país frio. Inverno que dura muitos meses no ano, com dias curtos, você sai pela manhã para o trabalho e é noite, você sai do trabalho no final do dia e é noite e você passa um bom tempo vivendo de noite a maior parte do tempo. Seu relógio biológico fica maluco e você fica com sono às 5 da tarde e quando o despertador toca pela manhã você não acredita que são 7 horas. As pessoas por aqui deprimem no inverno, reclamam do escuro, do cinza, não querem sair.

Nos meus dois primeiros anos eu achava isso uma bravata, tinha um pique interminável para ganhar as ruas e conhecer tudo o que a novidade parisiense me oferecia. No terceiro ano entendi. Tem um aspecto biológico aí, a falta da vitamina D que é produzida pela pele quando tomamos sol e que tem uma influência no humor e nos estados depressivos. E tem uma porção de aspectos emocionais, sociais, culturais.

A vida do inverno é mais para dentro, dentro das casas, dentro dos lugares aquecidos. Quanto mais frio, menos tempo se passa na rua. As pessoas continuam a viver suas vidas, fazem muito mais coisas do que nós, brazucas, nos animamos a fazer no nosso inverno. Aqui não é comum deixar de levar filho na escola porque está frio ou porque nevou. Se fosse assim, as pessoas passariam um bom tempo a cancelar compromissos. Mas mesmo que a vida continue, ela tem o aspecto de um urso hibernando na sua caverna. Quem fica errando de bobeira na rua por horas a fio, em pleno inverno, é turista.

Em um dos meus anos parisienses, minha tia passou um tempo comigo nessa época do ano. Todo dia olhávamos pela janela do apartamento antes de sairmos pela manhã, eu para trabalhar, ela para passear. Todo dia era cinzento, feio, úmido, desencorajador. Até que amanhece um dia lindo de sol e céu azul. O termômetro marca -7°C. Ela se empolga com o dia bonito e decide sair para passear na rua. Eu, já calejada, aviso: vai estar muito frio. Imagina, dia lindo! OK. Ela retorna meia hora depois para acrescentar umas camadas. Dia lindo de sol e céu azul e temperatura muito baixa é dia daquele frio que faz doer os ossos. O que me leva a uma outra constatação sobre nós, brazucas e o inverno…

Não sabemos nos vestir para o frio. Você está em Paris de férias em dezembro ou janeiro, feliz da vida com o glamour e a elegância parisienses e tão a fim de se misturar na paisagem que prepara sua mala com todos os nossos itens essenciais de inverno brasileiro? Não. Sinceramente, não.

Não para aquelas botas de salto maravilhosas. Não para os cinco casacos, cada um de uma cor. Mulher andando nas ruas da França como se fosse modelo de capa da Vogue ou é turista ou é… modelo de capa da Vogue. O que quer dizer, possivelmente, uma pessoa rica que vai apenas sair do carro na frente do restaurante descolado em que vai almoçar para entrar no mesmo carro logo em seguida, no qual o motorista a aguarda para transportá-la ao compromisso seguinte. Nós, reles mortais, andamos na rua, encaramos o vento, a chuva, a neve nos pés, no rosto, nas mãos. Pegamos metrô, ônibus, carro estacionado longe. Na vida real do inverno, sapato tem que ser quente, confortável, anti-derrapante e bom para durar alguns anos porque custa caro. Casaco é um, impermeável, quente, do tipo que encontramos em países onde existe inverno e, quando encontramos no Brasil, custam uma fortuna desencorajadora. Vestir-se para o inverno é colocar algo por baixo da calça, meia quente, uma camiseta ou camisa ou aquilo que você vai querer mostrar quando entrar nos lugares. Dentro dos lugares a calefação obriga a tirar o super casaco e você fica de camisa, camiseta ou com algo por cima disso, um blazer, um pull, uma peça quentinha mas não muito.

O inverno me ensinou a me vestir e, principalmente, me ensinou que proteger as extremidades é fundamental. Sair na rua de cabelo molhado como eu fazia em tempos brazucas? Suicídio. Gorro, cachecol para proteger o pescoço e o queixo e às vezes até a boca e o nariz do frio, luvas… tudo isso se coloca antes de sair para a rua. A gente sai para o inverno pronto, coberto, enrolado e tudo o que for preciso. Se arrumar na porta de casa é incômodo e, com crianças, é pedir para escutar choradeira. Criança com frio chora, se irrita. Fora que eles perdem temperatura muito mais rápido do que os adultos porque são menores, então a atenção precisa ser dobrada. E os bebês que mal se mexem, deitados em carrinhos… aí é risco triplicado e é preciso ter muita atenção. Normalmente o indicado é cobrir como nos cobrimos e, com bebês que vão ficar parados em carrinho, colocar uma camada a mais, uma coberta por cima ou um daqueles equivalentes dos sacos de dormir feitos especialmente para carrinhos de bebê. Quando o pequeno vai no sling ou no porta-bebê não precisa de tanto, porque ele compartilha do calor do nosso corpo. Não cobrir demais, não cobrir de menos, não deixar as crianças todas encapotadas no carro, no restaurante ou onde for porque é mais fácil para o adulto que tem um trabalhão para cobrir e descobrir pequenos mil vezes ao dia, contando com as rebeliões contra luvas, gorros e cachecóis e é só um minutinho, que mal faz… Criança superaquecida passa mal, chora, vomita… Não, morar em país frio é aprender a se vestir e aprender a vestir os pequenos e a aceitar toda lenga-lenga do cobre descobre que se repete centenas de vezes em um único dia. O que me leva a uma outra coisa que aprendi com o inverno…

Calefação. Palavrinha mágica, linda, alentadora, que faz as temperaturas subirem acima dos 20°C quando faz menos de 0 lá fora, dia e noite… Nos meus primeiros tempos parisienses, meus amigos franceses brincavam comigo dizendo que chegar na minha casa era como chegar nos trópicos. Era sempre verão por ali. Todo mundo de camiseta regata, feliz, tomando caipirinha… Só que não é assim que funciona.

Primeiro porque lugares superaquecidos fazem um mal danado para a saúde. Você lembra da sua avó que gritava da janela te mandando colocar um casaquinho para não tomar friagem? Então, sua avó tinha razão. Só que não é o frio que te deixa doente. É o monte de bactérias e vírus acumulados nos lugares quentinhos e mal arejados das casas e afins que ninguém abre uma janela do inverno. E quanto mais quente, mais os bichinhos gostam e se proliferam. Então, uma casinha a 18°C, 19°C quando faz grau negativo lá fora já é bem bom. E te permite usar todos os casaquinhos de inverno leves. E as botas. E tudo que não dá para usar na vida real. Fora que todos dormem melhor com o ar fresco e o cobertor quentinho por cima. Tem coisa melhor do que dormir enrolada num cobertor quentinho?

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