Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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