As hipocrisias francesas…

Quando o assunto é traição, a França é um dos países mais hipócritas que já conheci. Um dos berços do feminismo, um modelo para todo o mundo ocidental, os franceses pregam uma liberdade nos atos correspondente a uma liberdade dos desejos: todos são livres para fazerem o que quiserem. Apenas esquecem de acrescentar ao final da frase a cláusula importante sobre a gestão dos desejos de cada um: desde que todos estejam de acordo.

Desejo é responsabilidade e parece que por aqui muita gente esqueceu desse pequeno detalhe. Mulheres que pensam que o auge de sua liberação é transar com quem quiserem, mesmo que sejam homens que estão com outras mulheres, casados e afins. Oi? O exercício de sua liberdade enquanto mulher é fazer algo que vai magoar e eventualmente destruir a vida de uma outra mulher? Ah, ok. Foi nesse ponto que comecei a me dar conta que o feminismo foi instrumentalizado para se tornar apenas um discurso de pseudo-liberdade feminina que garante que os homens tenham mais mulheres disponíveis no seu mercado de carne. E, ainda por cima, convictas de que estão fazendo algo revolucionário.

Mas o mais espantoso nessa mentalidade francesa quanto à traição é que mulheres e homens parecem convictos que tudo bem, não faz mal nenhum, desde que o outro não fique sabendo. Ou seja, uma porção de casais trai e é traído e não têm problema porque o outro não ficou sabendo de nada. E, afinal, é algo tão natural desejar outras pessoas, né?

O que ninguém conta, inclusive esses homens e mulheres que traem a go-go e que eu tenho a ocasião de testemunhar infinitas vezes, não apenas na minha história pessoal mas no discurso de pacientes, de amigos e de conhecidos é que essas traições são responsáveis pelo fim de muitos relacionamentos. O que não seria nenhum problema, afinal relacionamentos começam e terminam. Só que essas pessoas, essas mesmas que fazem a apologia da traição chegam nas sessões com seus psicólogos ou nas consultas com seus psiquiatras totalmente destruídas. Pois é, emocionalmente, psicologicamente, moralmente destruídas. E tenho visto tanta gente destruída por conta de um ato que aqui na França gostam tanto de naturalizar que começo a me questionar sobre o porquê de tanta hipocrisia.

Vejam, pessoas adultas decidem da vida que elas querem ter e das parcerias que elas vão formar. Decidem. E para algo que implica mais de uma pessoa, decidem a dois. A três. Quantos sejam. Pessoas que consideram minimamente as mazelas e as responsabilidades quanto aos próprios desejos aceitam o risco de estabelecerem acordos tácitos, falados, escritos, murmurados com seus pares. Aceitam o risco que o outro, do auge da sua capacidade de decidir ele também, não concorde com o que propõem. Aceitam o risco que o outro não queira a mesma coisa que elas e que a relação termine. Pessoas adultas aceitam o risco da vida, das relações e dos próprios desejos e não tentam mascarar tudo isso com mentiras e falsas aparências para não perder nada enquanto se dão ao direito de fazerem tudo. Isso não é ser uma pessoa livre. Isso é ser escravo: de si mesmo, das próprias covardias, das convenções sociais, do medo que o outro não queira mais estar contigo se ele souber quem você é e como quer viver sua vida realmente. E aqui na França, no país do livre pensar, do bem pensar e dos analisados de Lacan, bem pouca gente parece disposta a correr os riscos.

Então, fica todo mundo engambelando. Fala em prol dos desejos e das liberdades e age como o contrário de tudo o que prega. E quando a verdade vem à tona… poucas pessoas seguram a onda. E o que vemos por aqui é uma quantidade assustadora de gente arrasada, deprimida, terra desolada depois de um incêndio que levou muito mais do que tinham imaginado que poderiam perder. O preço acaba sendo muito mais caro do que pensavam.

Há alguns anos atrás os franceses deploraram o escândalo da divulgação do presidente “normal” na sua motoca de capacete saindo da casa da amante em fotos tiradas pelos paparazzi de plantão. Deploraram que alguém desse atenção a isso, afinal aqui na França não se mistura vida pessoal com vida profissional. Não somos como os americanos ultramoralistas, conservadores, puritanos. Somos mais civilizados, mais realistas, essas coisas fazem parte da vida. Tudo muito bonito no discurso oficial de dez em cada dez franceses na época do ocorrido. O que esqueceram de dizer nos seus discursos e que apareceu nas entrelinhas é que muita gente estava achando lindo que a atual esposa do tal presidente que acabara de tornar-se corna em rede nacional era, em suas origens, a amante do tal presidente pelo qual ele largou esposa e filhos, num escândalo que a França também evitou comentar porque tudo é verdadeiramente tão “normal”. E que essa amante tornada esposa e primeira dama esqueceu de imaginar que o mesmo poderia acontecer com ela dali a um tempo pois um dos clichês da traição é que ela se repete e que a crença do “comigo vai ser diferente” não passa de intenção histérica de mulher que ainda não entendeu que “não, você não é especial para alguém que te colocou no lugar de uma outra, porque isso é uma mentalidade de homem que vê mulher como mercadoria”. E as pessoas tão liberadas e maduras estavam agora a se regozijar em rede nacional dessa pequena vingança do destino. E que essas mesmas pessoas tão civilizadas estavam pouco se importando que a ex-amante agora esposa tentasse se matar. E que tudo fosse abafado por essa espessa camada de normalidade dos acontecimentos e pelo silêncio sobre a dor que ela poderia estar sentindo. E que quando apareceu um livro arrasador de autoria dessa mulher destruindo o então presidente (uma vingança, por que não?) todos se mostraram ainda uma vez escandalizados, ultrajados por mais esse desrespeito ao savoir faire francês que diz que frente a uma traição todos ficam em silêncio e o traído se sai tão mais dignamente quanto menos falar e quanto menos deixar transparecer o que quer que sinta em suas entranhas. A França é um dos países menos empáticos com a dor alheia quando ela é vinculada a uma questão moral. Ninguém pode falar, ninguém pode perguntar, todos se convertem repentinamente em pessoas pudicas, reservadas, cheias de dedos, distantes. Porque os franceses, em geral, têm medo de se envolver com assuntos que os obriguem a se posicionar moralmente e a assumir uma opinião com base em um julgamento moral.

A consequência disso é que uma parte impressionante dos adultos com quem tenho contato contam histórias de traição cujas consequências foram catastróficas. Para eles, para os filhos, para um monte de gente. Um monte de gente sofrendo pela hipocrisia de não poder assumir que, não, não é ok trair. Mesmo que seja algo que aconteça. Mesmo que faça parte da vida. Isso não legitima a atitude de ninguém. É ok fazer o que quiser da própria vida desde que as pessoas envolvidas saibam e concordem. Ponto. Tudo o mais é má-fé, covardia e violência. Mesmo aqui na França.

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