O horror…

Em algum momento dos últimos dois anos parei de me manifestar frente aos acontecimentos quotidianos catastróficos que povoam as notícias e timelines de todo ser humano minimamente conectado. Parei, cansei, cheguei num ponto de esgotamento com tanta indignidade, com tanta violência, com tanta incompreensão. Parei sem deixar de acompanhar, sem fazer o avestruz, apenas porque as palavras pareciam não mais fazer sentido. Palavras perderam o peso e a potência face aos acontecimentos e escorreram por entre os dedos… Inúteis.

Mas aí assassinaram Marielle ontem. No Brasil, no meu país que já praticamente não reconheço mais. No meu país desfigurado por um golpe de estado, destroçado pela destruição do pouco de acesso à uma certa civilidade que havíamos construído e empesteado por acontecimentos sempre mais escabrosos, sempre mais ultrajantes mataram Marielle. Mulher. Preta. Vereadora. De esquerda. Da favela. Mataram essa mulher. Mataram uma mulher. Mataram uma entidade. E não deu para ficar de boca fechada. Ao menos para vomitar. Para gritar. Para chorar.

Meu pai era estudante nos anos 60. Meu pai lutou contra a ditadura nos anos 60. No congresso de Ibiúna em que ele foi preso, se escondeu no chiqueiro com outros colegas quando souberam que a polícia estava ali. Num chiqueiro. A luta é realmente desigual. De um lado, uma geração de jovens cheios de utopias que busca se proteger em um chiqueiro. Do outro, idiotas com poder. E armas.

Meu pai foi preso pelo que acreditava ser o mundo no qual queria viver. E pelo qual devia lutar. Meu pai teve amigos presos. Torturados. Assassinados. Meu pai viu seu mundo ser destroçado e se reconstruir. Ele pode ter esperança, perdê-la para reencontrá-la 20 anos depois. Ele pode ver seu mundo tornar-se possível de novo. Apenas para testemunhar no dia de ontem o retorno do fim. Meu pai e tantos outros da sua geração estão vivendo no espaço de uma vida uma morte que se repete duas vezes. Dois assassinatos. Um país inteiro que desaba duas vezes no abismo dos mesmos erros, das mesmas escolhas. Compulsão à repetição ?

Ando aqui pelas ruas e cruzo a polícia. Eu tenho medo da polícia. Tenho medo da polícia porque sou brasileira. Tenho medo da polícia porque sou mulher. Tenho medo da polícia porque sou de esquerda. Nem 7 anos de vida de gringa me tiraram o medo da polícia. Porque polícia é, no entender das minhas entranhas, sinônimo de assassinato.

Mas não é toda polícia. Mas você não é pobre. Nem preta. Nem vive mais aqui. E assim surge todo argumento desqualificador da dor do outro, do grito do outro, do asco do outro. Relativizemos para tirar o peso das palavras. Mas tanta gente assassinada todo dia e você… Tem gente que persiste na ma-fé de parecer não entender. Exatamente quando entenderam muito bem o que está em jogo.

Os alemães que moravam ao lado dos campos de concentração e que, ao fim da guerra, obrigados a visitá-los, desviavam os olhos horrorizados e juravam não ter percebido nada. Queimavam gente no seu quintal e você não percebeu ?

Tem um golpe de estado acontecendo, tem uma ditadura se instaurando, tem um genocídio organizado contra as únicas pessoas capazes de um levante (sim, pobres, pretos e favelados, só eles têm o poder de reinventar a guilhotina) e você não tem visto nada de estranho no seu quintal ?

Porque nós, a classe média intelectual esclarecida, nós não fazemos revolução nenhuma. Estamos domesticados no resguardo de nossos poucos privilégios. Amansados. Podemos fazer junto, no embalo que as ações alheias podem dar ao pensamento, mas sozinhos não podemos fazer nada. Perdemos nossa capacidade de fúria. Por isso o genocídio. Porque os idiotas armados e no poder entenderam muito bem quem são essas pessoas que uma hora vão se encher. Uma hora o fio estica tanto que arrebenta. E daí a coisa vai explodir. Melhor matar antes.

Há poucos dias meus filhos conversaram em francês entre eles. O choque, eles falam espontaneamente numa língua que não é a minha, que não é a deles. Que não é a deles que os vejo brasileiros. Meus filhos são brasileiros.

Mas meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Depois de ontem, meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Do Brasil que eu conhecia, do Brasil no qual existi. O Brasil meu país desapareceu ontem. Ele virou outra coisa que não sei o que vai ser. Um turning point. Sem o consolo da esperança da geração do meu pai de estar lutando pelo que nunca tiveram. Sem o risco calculado de esconder pessoas em casa, sem nunca poder perguntar quem, como, porque a essas pessoas sem rostos dos 70. Sem a crença reencontrada nas vias políticas do final dos 80. Sem as apostas, as conquistas, toda essa gente que pela primeira vez pode existir nos 90. E ter voz. Aqui, agora, tudo o que pode ser conquistado pode ser perdido. Eis o que fizemos com essa repetição. Nada se estabelece além da certeza de que o chão no qual pisamos não é sólido. Um país onde a perversão virou lei ?

Há alguns anos atrás, quando esse capítulo infame começou a ser escrito nas nossas barbas, com uma amiga brasileira que vive por aqui comentávamos a tristeza de, pela primeira vez, não termos mais vontade de voltar. O sonho de voltar, eterno paradoxo do migrante. Ontem, pela primeira vez experimentei não poder mais voltar. Pela primeira vez tive medo de voltar. Pela primeira vez tive medo pelos meus filhos. Pela primeira vez tive medo pelos meus pais, pela minha família, pelos meus amigos, por todos que ficaram.

Por que vocês estão tão quietos ? Daqui não ouço os gritos. Daqui não vejo a fúria. O que aconteceu com vocês ? Como mudaram tanto ? O que é esse abismo que se escavou entre nós, essa fronteira do nunca mais, o que esse assassinato arrancou da gente ? Vocês estão com medo ?

Eu estou com medo.

Mataram a Marielle. Marielle presente.

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