As coisas como realmente são

Pois o sujeito me traiu. A pequena com apenas um ano e meio e ele surta uma noite, desaparece nesse mundão e retorna no dia seguinte dizendo que encontrou outra pessoa e vai embora de casa. Em um lapso de segundo a vida que eu julgava mais sólida que um rochedo pirineano explodiu em mil pedaços levando consigo meu coração e todas as minhas certezas de futuro. A vida é assim, ela muda no instante em que você finalmente acredita que conseguiu se assentar, no momento em que você pensa ter saído do olho do furacão, quando você tira a cabeça da água e consegue tomar fôlego pela primeira vez depois de tanto tempo. A pequena começando a ir à creche, eu começando a poder pensar em trabalhar novamente, tudo caminhando e eu cheguei a vislumbrar um resto de conversa estranha no celular, as falas dele sobre nós dois com os tempos dos verbos todos colocados no passado. Eu vi mas não quis ver, porque não podemos ver aquilo em que não temos como acreditar. O inconcebível mora na cegueira.

Depois de um encontro idílico e de uma paixão que virou amor com a facilidade de uma evidência veio a mudança para a mesma casa, o nascimento da pequena, o choque de realidade da impossibilidade de conciliar a vida nova com a antiga vida na qual o cara-metade tinha outros filhos e muita história mal resolvida que não dava conta de digerir. Ele ficou infeliz, eu fiquei infeliz, ficamos nos estranhando por um bom tempo até que as coisas pareceram se assentar no coração e na rotina de um e de outro, eu começando a gostar dessa vida pacata de cidade pequena, no meio da natureza, ele começando a aproveitar a existência da pequena e a família que tinha escolhido construir e… isso.

Devem existir tantos textos sobre traição quanto o número de pessoas que já foram traídas. Mesmo não os tendo lido, posso apostar que nenhum deles dá conta do estrago que isso causa em uma vida. Especialmente quando existem crianças pequenas envolvidas. Especialmente quando a existência mesma dessas crianças é o que motiva o afastamento do casal e a traição.

Me impressiona o quanto tem de um hábito cultural nessa história que é a minha e que é a de um sem número de mulheres cujos maridos as traíram quando os filhos eram pequenos. E estou falando dessa situação específica, dessa traição nesse contexto singular em que não existe condição de igualdade alguma para que cada qual possa decidir tocar a vida do seu lado em nome do exercício de sua liberdade pessoal frente a um relacionamento que não teria dado certo. Pois uma mulher com filho pequeno é tudo menos livre e capaz de embarcar em uma proposta de relacionamento aberto com o pai da criança que muitas vezes é sugerida por um sujeito que sabe que ele será o único a poder aproveitar dessa abertura por um bom momento. E essa mulher nem tampouco é livre e capaz de sair de um relacionamento que não teria dado certo para ir procurar uma outra pessoa. Porque, vejam só, na cabeça da maioria das mulheres grávidas ou mães recentes o filho é a prova mesma de que o relacionamento do casal estaria dando certo. Ou pelo menos é aquilo em que aprendemos a acreditar. E não temos condições físicas, mentais e emocionais para tanta mudança numa hora em que já temos mudanças o suficientes com as quais lidar.

Os homens decidem ter filhos, as mulheres engravidam, os filhos nascem e em algum ponto dessa sequência de eventos eles se sentem autorizados a trair. E a palavra é violenta, a palavra é trair porque aquilo que esses homens se permitem fazer é uma grande violência. Não se trata de um mero exercício de liberdade do desejo de cada um, que é sempre flutuante e fluido. Se o desejo flutua, homens e mulheres são ainda assim responsáveis daquilo que, de seus desejos, vira ato, vira gesto. E essa traição é um gesto que declara em alto e bom som que “meu desejo é mais importante do que tudo o mais”. Você, a criança, a família, os projetos de vida.

Um homem se espanta e se ressente com sua mulher grávida. Ou com sua mulher que se torna mãe de um outro ser que não ele. Ele se espanta e se ressente de deixar de ser o centro das atenções. Ele se espanta e se ressente da distância, do cansaço, da falta de vontade de transar, do mau humor, da irritação, das flutuações emocionais. Um homem se espanta que a mulher mude quando se torna mãe, ele se espanta porque boa parte dessas mudanças são fruto da indisponibilidade desse mesmo homem de se envolver com a criação desse filho que eles fizeram juntos. Ele se espanta que ela se sinta traída e abandonada com um bebê no colo a dar conta de tudo sozinha em meio a um caos emocional e a um desconhecimento total do que fazer quando se tem um filho. Ele sofre dessas mudanças, talvez exista nele também um caos emocional decorrente desse acontecimento de ter um filho na sua vida. Mas o problema reside na maneira como o sujeito interpreta essa experiência e muitos homens entendem disso tudo que suas mulheres os abandonaram. Trocaram-nos por outro, o bebê. E esse ressentimento vira distância, que vira má-vontade com a criança e com tudo aquilo que uma criança pequena demanda, que vira tensões e conflitos e quando menos se espera ali estão duas pessoas tão separadas por um abismo de incompreensão que encontrar um meio de criar uma ponte parece impossível. E a solução que muitos homens encontram para lidar com isso é adotar a tática do avestruz: evitar o confronto com as dificuldades e… trair.

Trair a confiança de uma pessoa que conta e precisa dele num dos momentos de maior fragilidade na vida de uma mulher. Trair também uma criança que precisa de um pai capaz de ajudar a mãe a estar bem o suficiente para que ambos cuidem daquilo que cabe a cada um nesse momento. Trair e deixar todo mundo na mão enquanto busca conforto em outros braços, em outra boca, em outras pernas, em outros cheiros, em outra pessoa cuja disponibilidade lhe seja exclusiva, que possa estar pronta, interessada e ter olhos só para ele a cada vez que a porta da sua casa se abrir para recebê-lo. Um homem que trai uma mulher que acabou de ter um filho seu é um sujeito que renunciou a qualquer resquício de algo que podemos chamar de dignidade. Uma mulher que se autoriza a ficar com um homem cuja esposa está grávida ou acaba de ter um filho estando a par da situação não é em nada melhor do que o sujeito em questão. Trata-se de uma mulher que, visivelmente, não entendeu muito bem que feminismo não significa meu desejo em primeiro lugar e, sim, minha dignidade depende de que todas as mulheres sejam tratadas de maneira digna. Sem exceção.

Como pode ser que algo tão nocivo tenha se tornado tão comum que as pessoas se permitem até mesmo jogar a culpa nas mulheres quando os homens as traem? A mulher grávida ou mãe recente que de repente vira a esposa negligente, que não se cuida, que não dá atenção ao marido, que vai perdê-lo para outra que certamente vai cuidar melhor dele. Como as pessoas são capazes de acrescentar doses cavalares de crueldade a um acontecimento por si só tão destruidor?

A história não acaba aí e nem acaba por aqui tudo o que eu teria para escrever a respeito. Mas nesse momento da história o cara-metade me traiu e disse que ia embora com outra. E mudou de idéia e ficou. E família, amigos e analista me ajudaram a pensar que isso era “normal”. E eu engoli meu orgulho ferido, meu coração partido e meu ímpeto de ir embora correndo para casa e fiquei na aposta de que tudo poderia ser reconstruído. Para ele fazer a mesma coisa depois do nascimento do segundinho. E ainda mais uma vez quando o pequeno era tão bebê quanto a pequena nessa primeira vez, cada um dos pequenos tendo direito à sua dose de destruição de uma estabilidade conquistada com muito esforço e tão sensível a furacões e outras intempéries. E a cada vez o sujeito se autorizou a ir mais longe, a comportar-se de maneira mais e mais indigna. Quando se ultrapassa uma fronteira, fica difícil retornar. Ainda mais quando essa fronteira diz respeito aos limites que podemos ou não ultrapassar em nome dos nossos ditos desejos. Nossas alegadas necessidades, pelas quais nos permitimos ir sempre mais longe, sempre mais cegos, de maneira sempre mais violenta. E o que sobra? Um rastro de destruição de tudo e de todos em volta com os quais deixamos de nos importar quando estávamos envoltos naquela fúria desejante, desonesta e cheia de engodos. E um sem número de estilhaços espalhados por imensos territórios que, no momento presente, o sujeito tenta atabalhoadamente colar e reconstruir.

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Os cabeça-de-vento

Aqui nos Pirineus Orientais venta. Muito.

Os ventos daqui têm nome tamanha a intimidade que adquirimos com eles. Como os furacões nas regiões do mundo onde são frequentes. Têm aqueles ventos marinhos, que sopram do mar para o continente. Têm os que fazem o caminho inverso. Têm os que levam as nuvens para longe. E os que fazem os dias quentes esfriar. É tanto vento que essa é a região onde existem os mais importantes campos de energia eólica da França. Hélices girando fazem parte da paisagem. E é por aqui também que a Airbus testa seus aviões contra as intempéries. E onde os pilotos aprendem a manobrar em condições adversas.

Para mim, vento sempre foi vento. Aquela brisa na beira do mar que ajuda a respirar em dias quentes. Aquele sopro friozinho em dias de inverno que gela a ponta do nariz e avermelha as bochechas. Vento, aquele fenômeno simpático e reconfortante… Até ser apresentada à Tramontane.

Ele vem dos Pirineus para o mar e é um vento forte, violento, frio. O inverno que não é tão rigoroso por essas bandas fica intolerável quando a Tramontane se levanta (aqui os ventos fazem a beleza de se levantar, como as ondas). Que casaco, que gorro, que luvas, que cachecol são capazes de evitar quando esse sopro dos infernos dos invernos mais gelados decide acariciar sua pele desesperada sob mil camadas que viram uma prisão de onde não se consegue fugir e da qual seu cérebro só é capaz de enviar a mensagem: socooooooorro!? 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto e você já começa a se questionar sobre o significado da existência. 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto quando você tem caminhar contra um muro de gelo com duas crianças pelas mãos para chegar em algum lugar imprescindível? A vida na Zooropa perde qualquer glamour.

Só que as duas crianças em questão adoram vento. A. DO. RAM. Não há argumento que os convença a colocar um gorro e acabo tendo que lidar sozinha com a angústia extrema de ver cabelinhos loiros como o trigo e cabelinhos castanhos cor de mel esvoaçarem para todos os lados envoltos de sorrisos e de olhos que deixam lágrimas escorrer (vento frio faz algumas pessoas lacrimejarem). Enquanto eu só consigo maldizer o tal sopro de Éole, meus cabecinhas de vento avançam quase agachados pelas ruas. E as palavras da minha avó retornam: “sai do vento, não toma friagem, vai ficar doente, menina!”

As pessoas que nasceram por essas bandas amam o vento. Conheço um que sobe a montanha em dia de vento forte para “arejar as idéias” e “desanuviar”. Outro que fica triste quando não venta por um longo período. Dizem que as pessoas enlouquecem com a Tramontane. Viver em um mundo no qual o vento revira a cabeça das pessoas…

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