Terra de ninguém…

Já há alguns anos tenho pensado na ascensão de uma lógica perversa nos modos de existir pessoais e coletivos da humanidade em nosso tempo.

Explico: Freud, há mais de cem anos atrás, trazia à luz pela fala das histéricas a neurose. Neurose como modo de existir eminentemente cindido entre o desejo e sua perpétua não realização. Uma existência na qual os limites inviabilizavam o trânsito livre entre o querer e o poder desde os inícios da vida. Existência que todos aceitavam como espécie de pacto civilizatório afim de se protegerem do risco do pior que seria a prevalência do domínio pela força.

Freud era, acima de tudo, um homem do seu tempo. Ele falava, pensava e agia em coerência com a sua época. Uma época em que a civilização ocidental estava em pleno apogeu e onde a neurose podia se instaurar como a condição existencial predominante. Era possível sofrer de não querer participar de um clube que nos aceite como sócio. Freud viveu em uma época “neurótica”.

Ironicamente, ele viveu o começo do fim desse período áureo. Se eu tivesse que colocar um marco inicial (ou final) nesse momento da história da civilização, arriscaria que, ao menos para o mundo ocidental eurocêntrico esse fim começou com o holocausto. Que obrigou Freud a fugir de Viena. E o fez perder parte de sua família. A partir desse momento, Freud começou a se tornar obsoleto. Porque, penso eu, inauguramos aí um novo tempo, uma época perversa.

A perversão, para esse mesmo Freud e para a psicanálise em geral, diz respeito à ausência da lei. Não mais o sujeito cindido entre seu desejo e a impossibilidade mas um indivíduo para o qual a impossibilidade não se aplica. Sim, a lei existe. Mas ela não lhe diz respeito. O que faz com que para todo perverso a satisfação de seus desejos seja a justificativa última frente à qual qualquer impedimento deve tombar. Sua lei é a força que o autoriza a contornar qualquer limite.

Eu poderia escrever aqui sobre esse modo de existir perverso que grassa as relações humanas e o tecido social de forma cada vez mais aparente, insistente e assustadora através dos mais diversos exemplos. O que não falta nos nossos dias são situações que mostram que alguma coisa no funcionamento humano e no funcionamento social disjuntou fazendo com que pessoas se sintam cada vez mais legitimadas em fazer de suas vidas e de seu estar no mundo um projeto pautado pelo simples mantra do “meu desejo acima de tudo”. Substitua desejo por felicidade, liberdade, prazer, sucesso profissional ou o que quiser e eis a fórmula mágica que elevou o hedonismo à modo de vida e justificativa para todo o qualquer ato em toda e qualquer circunstância.

Não, isso não é uma pregação e nem um elogio ao sofrimento. Bem o contrário.

Quando um neurótico entra (ou entrava) pela porta do consultório de um analista, seu sofrimento dizia respeito àquilo que ele pensava, sonhava, desejava. Era um sofrimento do querer e não poder. Um neurótico nunca faz o que quer e daí seu conflito fundamental, seu desacordo consigo mesmo. E é aí que ele se torna presa fácil de um perverso que, justamente, realiza o impensável: ele faz o que quer.

Perversos raramente entram no consultório de um psicanalista. Ou melhor, eles nunca entram num consultório perturbados por aquilo que fazem. O mais provável é que venham, se vierem, surpresos quando algo no mundo finalmente impõe uma barragem a seus atos. O que é visto como uma afronta, uma imensa injustiça à qual eles vão responder com mais ou menos violência. Um neurótico vê num perverso um ídolo que faz exatamente aquilo que ele não consegue: ele passa ao lado da lei. Sem maiores consequências. Porque ela não vale para ele.

Vivo há mais de sete anos em um país em que, mesmo com a ascensão dessa lógica perversa batendo à porta das individualidades e das instituições, ainda operamos de um modo neurótico, cindido, em conflito, tateando satisfações parciais e acatando limites frustrantes. Por aqui existem bandidos, existem crimes, existe corrupção, existe fraude, existem mentiras. Mas as pessoas e as instituições de modo geral não funcionam estruturadas em cima disso. Existe um imenso pudor em relação a um certo aspecto do humano que, por aqui, ainda concordamos que deve ser evitado. Dobrado, domesticado, enjaulado em nome de um bem comum. Denúncias envolvendo mentiras nos âmbitos mais públicos ou privados ainda causam constrangimento e vergonha. E ainda são punidas nos rigores de uma lei que funciona. Para todos. Aqui se paga impostos altíssimos e se usufrui dos benefícios que esses impostos geram. Aqui as pessoas reclamam da “superproteção” do Estado, mas toda a qualidade de vida que se têm num país como a França está assentada nessa mesma proteção que a maioria defende a cada vez que ela se vê ameaçada. Aqui ainda se faz greve, ainda se reclama das greves. E ainda se apóia greves.

E vejam que a França não é um país tão maravilhoso quanto pode parecer a quem contempla a beleza luxuriante de suas maiores cidades inebriado por tudo o que faz sua excelência mundo afora, dos vinhos e das comidas às roupas e aos perfumes. Aqui existe fome, pobreza, precariedade, desigualdade e violência. Qualquer cidadão de um dos países da Europa mais ao norte poderá dizer dos franceses que são sujos, agressivos, flexíveis demais em relação às regras… Questão de perspectiva, daquilo que você tem como parâmetro de comparação.

Foi vivendo aqui que comecei a pensar que o Brasil é um país baseado na lógica da perversão. Nascemos e crescemos banhados numa cultura e num modo de funcionar no qual a mentira é lei. Mentira que fomos descobertos em 1500. Mentira que “catequizamos” os índios. Mentira que abolimos a escravidão. Um país inteiro assentado em um mar de mentiras todas visando contornar a verdade de uma nação de predadores criada para explorar tudo e todos a seu redor em prol única e exclusivamente de um ganho pessoal, de um prazer pessoal. A defesa do interesse próprio ou de um grupo. Essa é a lei que nos orienta desde o começo. A lei perversa. A lei da força.

Essa lógica que atravessou séculos, instituições e indivíduos impediu que valores básicos fossem verdadeiramente instituídos. Um exemplo; o respeito. Dos outros, das instituições, dos bens coletivos, das diferenças… de que se trata? Em um país no qual todos a exceção da minha própria pessoa são coisas mais ou menos valiosas das quais posso dispor como assim desejar… Minha mulher de exposição, minha família vitrine, meu carro cartão de visitas, meu celular, minhas roupas, minha casa, minhas férias…

O Brasil é um país criado sobre a crença de que aquele que tem poder é imune a toda e qualquer limitação. Experimente dizer a qualquer pessoa que detenha algum privilégio que ela “não pode” qualquer coisa. Você sabe com quem está falando? Todo mundo é alguém. E todo mundo sabe mil maneiras de contornar o “não pode”. A violência faz recuar qualquer regra, rabo entre as pernas.

No Brasil, as pessoas de toda e qualquer classe social acostumaram-se com esse funcionamento perverso. Que sejam elas os mais fortes, detentores do poder e imunes à lei ou os mais frágeis, desprovidos de tudo, todos acatam e se submetem a essa lógica. Ainda que ela funcione contra eles mesmos. Ninguém acredita na lei, ninguém confia na polícia, todo mundo sonega imposto e todos sabem que podem tentar resolver um impasse na base da porrada. Essa é a lei da força, a lei da violência, o modos operandi da perversão incrustado em todos as esferas de sociedade. Um modo que parece tão evidente, tão natural que se torna a cultura de um povo. O famoso e execrável “jeitinho brasileiro” alçado à condição de valor nacional.

Foi morando em outro país que descobri que esse jeito brasileiro não é natural, não é óbvio. E, principalmente, não é aceitável. Ele é a principal razão pela qual não somos e nunca seremos uma França. Porque ninguém, no Brasil, quer pagar o preço de ser uma França. Todos querem viver numa França particular criada às nas costas de todo um resto. Um resto de gente que pode ser um Haiti, não importa. Sem perceber que é essa a lógica que faz com que a França nunca seja uma realidade por aí.

Existe certamente um 0,0001% de brasileiros para quem essa lógica funciona. Porque eles são os mais fortes, os mais poderosos, os que tiram todos os benefícios dela. O leão chefe que tem todas as fêmeas, toda a comida, todos os filhotes, todo o território, saca? E existe todo o resto. Resto mesmo. Uma parte desse resto se sabe resto, foi resto a vida inteira, é resto há gerações. E se submete. Outra parte desse resto que sempre foi resto se revolta, faz, fala, grita, clama. E é assassinado, morto, estuprado, arrebentado em mil pedaços e exposto em praça pública para servir de exemplo para quem mais tiver a ousadia de abrir a boca.

E existe uma terceira parte desse resto. Uma parte que vive numa bolha de mentira, agindo a perversão em favor dos outros. E se acreditando parte do 0,0001%. Essa é a parte mais assustadora. É a parte que não vê o holocausto acontecer. Que segue normalmente com sua vida. Que engole as merdas que lhes oferecem como se fossem “a verdade”. Sem pensar. Sem perguntar. Sem agir. Sem viver. Essa gente são eu, você, seus amigos, sua família, qualquer um que nasceu ou viveu em um contexto no qual um pequeno privilégio serviu para que se acreditasse estar do lado da exceção, do lado que poderia escapar à regra: ser homem, ser branco, ser hétero, estudar em escola particular, ter plano de saúde, ter casa própria, ter trabalho, fazer faculdade…

Esse terceiro resto, nos últimos anos, foi esmagado entre o guloso 0,0001% que abocanhou uma parte cada vez maior do bolo que deveria ser comum e o resto. Resto do qual não quer fazer parte. Resto do qual não pode ser parte. Pois ver-se parte do resto seria ver-se desprovido do seu universo de mentiras, de verdades mentidas e cagadas desde seus antepassados, mentiras disfarçadas de “você pode”, “você é”. Todo mundo quer ser alguém, todo mundo quer existir. Mesmo que seja de mentira.

E daí vem a parte mais cruel desse modo perverso de existir chamado Brasil. Um país no qual tudo o que foi e tudo o que é feito contra essa lei do mais forte é simples e sumariamente abortado. Mesmo que isso signifique depor Dilma. Mesmo que isso signifique assassinar Marielle. Mesmo que isso signifique condenar Lula sem provas. E, acima de tudo, mesmo que isso signifique dar carta branca para que o ódio mais basal contido nas entranhas de cada ser humano se sinta autorizado a sair e a se expressar. Em atos. Em violência. De todos contra todos.

O Brasil não é um país civilizado. O Brasil é uma barbárie que mal conteve seus impulsos mais primordiais nos últimos 500 anos e que explodiu na última década quando tentava ser outra coisa que o Brasil. O Brasil se recusou a pagar o preço de ser outra coisa que o Brasil. A lógica perversa que grassa em nossas entranhas nos fez acreditar que era muito, que era injusto, que não tinha nenhum motivo para aceitarmos tantas limitações ao nosso poder de poder tudo. Estão cortando o mal pela raiz. Que é para que nunca mais nada germine por aí.

Eu tive que crescer e amadurecer muito e durante muito tempo para algo germinar em mim. Tive que vir morar noutro canto desse mundo para ver que nada disso que existe no Brasil é óbvio. Nem natural. Tive que me tornar a imigrante, o resto indesejável de todo e qualquer país europeu para entender de que lado estava. Para entender que aí, no Brasil, sempre fui resto. Acreditando que era 0,0001%. Trabalhando para o bem desse 0,0001%. Vivendo da mentira de que meus privilégios me garantiriam o salvo-conduto de estar do lado do vencedor. Não garantiram. Nem a ilusão de estar naquele clube exclusivo e de fazer parte.

Nem para mim, nem para todo o resto. Perdi muito. Perdemos todos. Perdemos muito mais do que podemos compreender. E ainda mais no dia de ontem. Não pelo julgamento e pela prisão de uma única pessoa. Sem provas. Mas pelo que isso representa. Pela mensagem que esse ato veicula.

Os perversos fazem aquilo que os neuróticos mal ousam sonhar, sentindo-se por demais culpados. Os perversos fazem. E fizeram. E gozam o gozo inebriante daqueles que fazem. Uma nação inteira siderada por esse gozo e por essa ação. A mensagem está dada. A mensagem está clara: quem manda no Brasil são eles. Tudo ali existe para o seu bel prazer. Tudo. Inclusive você. E eu. E ainda contribuiremos com isso. E ainda endossaremos sua causa. E ainda enriqueceremos seus bolsos. E seus gozos. E ainda riremos disso tudo e acharemos que justiça foi feita. E ainda nos veremos do lado errado, desejo desesperado de fazer parte de alguma coisa. E ainda mais, e por muito tempo, se não percebermos no espaço de uma vida quem realmente somos. E de que lado estamos.

Você já acordou hoje?

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