As belezas daqui…

Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que eu iria viver em um vilarejo de cerca de 300 habitantes e, ainda por cima, que iria adorar, eu trataria a pessoa de louca. Na minha cabeça urbana cosmopolita workaholic nunca existiu espaço para imaginar que a vida poderia ser outra coisa que prédios altos a perder de vista, gente saindo por todos os lados, 12 horas de trabalho, carro, casa, carro, consultório, carro… Mesmo tendo passado todos os verões da minha infância e juventude na beira do mar e todos os invernos no meio do mato. Mesmo sentindo o bem que me faziam esses momentos misturados de quebra de rotina e imersão na natureza. Mesmo tendo pensado, em algum momento, em morar no interior de São Paulo sem nunca realmente fazer algo de concreto nesse sentido… Não. Precisei vir para o “centro do mundo” para conhecer o alento que é poder sair de casa e ter um horizonte no qual pousar os olhos. Horizonte assim, com montanha, com mar, com céu, com sol, com nuvens…

O caminho que sai do vilarejo até levar as crianças na escola e eu ao trabalho passa por montanhas baixas. Cercado de vinhedos dos dois lados, acompanhamos o trabalho dos vinicultores todos os dias. As flores começam a aparecer pelas amendoeiras selvagens nas bordas da estrada. São rosadas e têm um perfume enlouquecedor de bom. Depois vêm as flores brancas esparramadas pelos campos, as amarelas, algumas azuis quase violetas… Cada um com seu cheiro, disputando a preferência de abelhas e outros insetos que começamos a ouvir zumbir por todo lado. É a vida que reaparece depois do inverno, que é longo.

O Canigou, a montanha mais conhecida da região e sua forma de dente de cachorro aparecem lá no fundo, uma imponência branca de neve que ainda não derreteu, contraste entre a vida que a primavera anuncia e o inverno que ainda não se foi por completo. Essa montanha que você reencontra em vários percursos que faz ao longo do dia, como a visão do Corcovado e do Cristo que se tornam um porto seguro do olhar de quem mora e se desloca pelas ruas do Rio de Janeiro. Cada esquina a surpresa apaziguadora de trombar com o Cristo ali no alto. Cada curva de estrada e a surpresa de reencontrar essa montanha.

De um lado, as montanhas seguem enevoadas até que uma pequena se destaca, ali onde chamam de Força Real. Sobre ela uma antena, duas construções de épocas diferentes, uma delas um antigo monastério e uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos incrédulos já descobriram nessa vida. Montanha, mar, neve, sol, inverno, verão, tudo ali num único giro de 360°. Do outro lado, as montanhas seguem até o mar, não sem antes desfilar suas torres antigas, como a Madeloc. Quando o dia é bonito, pode-se ver até a Espanha.

Nos aproximamos e nos afastamos da montanha, percorremos planícies, plantações, vinhedos, atravessamos por sobre o rio Têt, mais montanhas, mais planícies, os ângulos mudam sobre a paisagem que nos cerca, sempre a mesma e sempre tão diferente. Cada dia é uma nova luz, cada dia permite a descoberta de um ângulo, de um detalhe. Difícil ficar imune a um tal antídoto contra a ansiedade, a tristeza ou a raiva. Não sei se seria capaz de voltar a viver longe da natureza.

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