Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

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