Guernica

Tinha uma reprodução da Guernica em casa quando eu era criança. A pintura em preto, branco e tons de cinza me incomodava. Menina, gostava do que é belo e o belo era o clássico, o tradicional, de fácil digestão.

Picasso me perturbava, aquele quadro me perturbava, dos ismos todos, o cubismo era o que mais me irritava. Mal sabia eu que arte boa é essa que irrita, perturba, incomoda… E permanece. Estava na sala e ali estavam aquelas figuras a me espreitar. A vela com a sombra triangular cinza, o grito da mulher, o bebê. Deitada no sofá em frente à TV e eles todos por ali, como o lugar para onde o pensamento retorna na hora do intervalo. Meus pais gostavam de Picasso, gostavam da Guernica, do cubismo, das vanguardas… Por isso o quadro. Eu não. Eu não entendia nada.

Cresci com esse quadro em casa.

Um dia minha irmã, que sempre foi muito melhor do que eu em tudo, em uma visita a um museu me apresentou a um outro ismo. E diante das instalações de Duchamp me explicou o quanto aquela janela era genial. Olhei, olhei… E vi. Nesse dia começou minha história de amor com a arte. E alguns daqueles quadros tornaram-se tão importantes na minha vida quanto o ar que eu respiro. Perfeitas traduções de mim, das minhas entranhas, do humano demasiado humano em mim e em toda gente.

Em uma viagem à Madrid com ela- sempre ela- passeávamos pelo Reina Sofia. Um misto de atenção flutuante, cansaço de viagem longa de férias de verão, coisa que sempre adoramos fazer juntas. Os corredores do Reina Sofia são um pouco escuros, bem largos, abrigos frescos em dia de verão, contornam um jardim e você os contorna olhando mais para dentro que para fora.

E eis que chegamos ali. Naquela sala. Não sei se minha irmã sabia. Eu não. Na parede estava ele. O quadro. Imenso. Uma imensidão de cinza, branco e preto gritando enorme naquela parede de museu. A Guernica.

Me vi menina minúscula olhando aquele quadro imenso. E entendi o amor dos meus pais por aquele quadro, instantâneo eterno de uma guerra, de uma ditadura, de uma injustiça. O medo, o desespero. A fatalidade. Não é dramático. Não é triste. É um fato seco, surdo, uma arma que dispara e a vida implacável que se impõe e que se estanca.

Gostei e desgostei de Picasso mil vezes nos últimos anos. Gostei e desgostei dos ismos por diversos motivos. Vim para a França fazer pesquisa em arte e psicanálise. Conheci o cara-metade. Mudei para o sul da França.

Aqui estamos nos Pirineus Orientais, vulgo Catalunha do Norte para os locais. Durante a guerra civil espanhola que bombardeou a cidade de Guernica matando milheres de civis, muitos cruzaram a fronteira e vieram se refugiar por aqui, cruzando os Pirineus com frio e fome para serem alojados em campos, um episódio nada glorioso da história francesa que às vezes esquece que foi palco da declaração dos direitos humano. Como ultimamente em relação aos refugiados.

Picasso era catalão. Dali também. Guernica fica no País Basco, outra região de conflitos e de defesa de uma identidade outra que a espanhola. Muitos artistas das vanguardas se refugiaram por essas bandas daqui, em Collioure, em Ceret ou do outro lado da fronteira, em busca das paisagens vertiginosas entre montanha e mar, das cores e da luminosidade indescritíveis. Minha filha e meu filho nasceram aqui. São franco-brasileiros. E são catalães segundo os donos do lugar.

O Brasil voltou a ser uma ditadura e quase ninguém viu. Nesses últimos tempos muitas mães brasileiras gritaram o horror de seus filhos mortos. Entre Marielle, o menino baleado no carrinho de bebê, o prédio incendiado no centro de São Paulo e o dia das mães do domingo passado, Guernica nunca foi tão atual.

Ano passado fomos os 4 para Madrid. Percorri lugares conhecidos e descobri novos, nessa cidade que é tão despretensiosa e tão pulsante. Fiz questão de apresentar minha filha e meu filho às Meninas de Velásquez, ao Jardim das Delícias de Bosch e à toda série negra de Goya. E fomos também ao Reina Sofia.

Lá, passeamos pelos corredores frescos. Adiei o climax por um tempo, só para prolongar o prazer da descoberta. Fui mostrar a Guernica aos meus filhos.

Naquela sala a mesma sensação de reencontrar pela primeira vez o que se conheceu a vida inteira. O estrangeiro familiar. O reencontro com aquele quadro, a casa dos meus pais, as cores, os cheiros, a minha infância e a minha adolescência. Meus pais deram o seu melhor. O reencontro com a minha irmã, aquela conexão que faz o coração doer da distância atual. Meus filhos sentados no chão e eu contando a história. Uma história que passa de geração em geração, minha filha com os olhos brilhando cheios de questões, meu filho em silêncio a contemplar o touro e o cavalo. A vida tem uns caminhos curiosos que te fazem habitar dentro de um quadro de devastação para poder semear depois.

Parabéns, Sis. Te amo.

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