Eles brincam.

Temos aqui um jardim. E eles brincam. Muito.

Antes, vivendo em apartamento meio sombrio no centro da cidade, a bagunça era maior, brinquedo jogado para todo lado, crianças pulando e gritando, nervosas e entediadas ao longo do dia, precisávamos sair para tomar ar, sol, desanuviar.

Então veio a campagne, o jardim, o sol entre as folhas, as estações do ano entrando pelas janelas.

A natureza tem um efeito direto e quase mágico sobre as pessoas. Pena que nos esquecemos disso empilhados uns sobre os outros, sem horizonte a respirar ar de escapamento. A luz que entra pela janela de manhã regula o sono, o frescor da brisa batendo nas ventas desperta e traz energia, o verde acalma a respiração e o peito.

As crianças acusaram a mudança. Os brinquedos ficam mais arrumados, as explosões motoras acontecem lá fora. Elas descobrem os insetos, as plantas, os ritmos e os sons do cotidiano no campo. O terraço vira a varanda de um castelo, os galhos de árvore viram espadas em um duelo, eles querem plantar as flores e ficam felizes quando descobrem os morangos avermelhando na horta.

Agora mesmo tem um passarão preto pesando em um galho da cerejeira selvagem que, até poucas semanas atrás estava coberta de flores rosas e de um perfume delicado e estonteante. Ele se joga de um galho ao outro e as árvores sacodem de tão brutal visita.

Sim, as crianças assistem filmes na TV. E brincam com seus brinquedos. O pequeno ama os quebra-cabeças e pode passar uma boa hora montando e desmontando 20 peças sobre o tapete da sala. Ou então enfileirar todos os animais de sua arca, imitando o som de cada um deles. Ambos dançam quando a música preenche o espaço, rodando e criando passos insuspeitos recém saídos de seus corpos criativos. Ela ama desenhar, pintar e, principalmente, escrever os nomes. Descobrir as letras que fazem um nome faz com que ela ria, mistério das coisas que viram palavras. Eles pedem que leiamos estórias e depois recontam um ao outro folheando os livros. E brincam.

Lá foram se jogam na rede, guardando o pedaço de brasilidade que lhes cabe e que os aproxima da infância que eu vivi, ao menos um pouquinho. Brincam de casinha e inventam mil cenas curiosas entre leões, unicórnios brilhantes, heróis, princesas, bichos, monstros. Ela por vezes o arrasta pelo braço para seu mundo e ele concorda em participar. Noutras não quer, vai fazer sua vida ali do lado, fascinado por alguma descoberta que insiste em partilhar conosco. Olha, mamãe, olha! Olha, mamãe!

Dizer que a vida é melhor no campo pode parecer coisa de baba cool abestalhado e talvez seja. Porque a vida no campo é mais dura que isso para quem trabalha no campo. Basta ver a rotina dos produtores de vinho daqui para entender que é zero glamour e muito suor. Mas experimentar uma vida melhor, mais simples e mais rica vivendo próxima e com a natureza é legítimo, mesmo para uma urbanóide de toda a vida como eu. Basta ter sensibilidade e abertura para perceber a diferença.

O passarão está ali petiscando pelo chão. E agora voltou a fazer terremoto sobre as árvores. Olha, crianças!

8 comentários em “Eles brincam.

  1. Tenho sentido taaanta vontade de mudar “da cidade grande”… Moramos numa casa mas…com pouca área de quintal. Mas…marido reluta em buscar novos ares. Ele é super pé no chão, sabe? E eu… louca pra viver esta “aventura”! Ai ai… …
    Um beijo Alê! Bom te “encontrar” de novo!!!

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    1. Bom te reencontrar também, Tarsila. Essa vida de cidade pequena tem se revelado uma deliciosa surpresa. Poder viver mais simples faz bem, apazigua essa ânsia de cidade grande de tudo fazer, tudo ter, sabe ? E para as crianças é realmente outra vida. Abraço grande, Alessandra.

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      1. Querida: quase tanto quanto parei de escrever, parei de ler blogs..mas morro de saudades e de vez em quando passo por aqui e me delicio com suas palavras!
        Muitas saudades tb dos bons papos e reflexões que vc traz e os comentários frutificam!
        Tentarei aparecer mais!!
        Beijos!

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  2. Alessandra, eu me identifico demais com isso tudo! meu filho nasceu em Pau, no Sudoeste da França. Vivemos durante 4 anos numa casa ao lado de uma plantação de trigo … Ele sempre brincou com o cachorro, as pedras, as folhas, gravetos, etc. Um dia fomos para Paris passear, ele ficou tão assustado com o trânsito, o barulho dos carros, sirenes… tampava o ouvido! Quando voltamos pra casa sabe o que ele disse? – Mamãe! Écoute ! Les oiseaux tão cantando » (misturando as 2 línguas) Meu filho ama a simplicidade da vida! Agora, mudamos pra UK mas moramos retirados da cidade pra continuar dando o mesmo contato com a natureza a ele e pra gente tbm! Beijinho

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