Pasárgada

O amigo do rei tem sempre, em todo lugar. Aqui é o chegado do produtor de vinho. Ele, o rei do castelo. Os outros, os amigos do rei. Ele soberano no topo da sua colina, entre mar e montanha, dominando através de olhos e vinhedos o mundo todo contido em seu olhar. Os outros prensados no buraco do vilarejo ali embaixo de seus pés.

Aqui todo mundo tem história e na história tem briga, tiro de fuzil, gente que não gosta de gente por um sem número de motivos cruciais tão tolos quanto a ignorância da própria desimportância. Pessoas erigem muralhas contra outras pessoas por razões que insistem em ignorar a evidente insignificância de nosso ser. No final, como me disse um garoto de 11 anos: “vou morrer”. No final morremos todos e o mundo não se paralisará nem por um segundo por conta disso. Por que a espécie humana é a única que, frente à sua insignificância, se fecha em uma armadura de negação, delírio de grandeza e violência? Vai entender…

Daqui desse lugar das pequenas diferenças e dos tolos conflitos pelos pequenos poderes cotidianos tão banais, tão pueris, olho para o que acontece aí, nesse lugar que foi minha vida durante quase uma vida inteira. Aí o rei do castelo e os amigos do rei chegaram a um nível de negação de sua própria insignificância tão violento, tão perverso que para garantirem a palavra final eles estão dispostos a trucidar um país inteiro. Síndrome do vira-lata que precisa dar uma de leão. Custe o que custar.

Assassinam Marielle, assassinam um garoto que teve a ousadia de ser preto, pobre e botar o uniforme para ir para a escola em um dia em que, simplesmente, era dia de sair atirando em todo mundo. Maré de mortos. Controle populacional, política de extermínio de quem não importa, de quem nunca importou. Foda-se escrito em letras garrafais sobre os corpos de pessoas mortas dia e noite sem razão nenhuma. Nunca as obras de Antonio Manuel e de Rosângela Rennó foram tão atuais. Nunca as obras, as letras, os versos, as músicas foram tão obsoletos, tão pouco condizentes com a realidade que é ainda pior que o pior. Nunca foram tão pouco perto de tudo isso que se escancara na nossa cara dia após dia. Os artistas se envergonham de poderem criar enquanto um menino toma um punhado de tiros e morre sem entender como é que o ser humano padrão ali do outro lado do fuzil não o viu. Como é que ele não viu? Como é que ele não me viu? Como é que ele não viu quem eu era? Olhar que atravessa como bala o menino transparente que é ninguém.

Ele não era amigo do rei. Foi isso. Ele era apenas um insignificante que não teve condições de mascarar sua insignificância com a aura de amigo do rei para poder esquecer um pouco de quem era. Marcos. Ele era o Marcos. Tenho ao menos 3 Marcos que amo nessa vida e, se fosse um deles, estaria despedaçada. Se fosse um dos meus filhos, estaria despedaçada. E o problema que não chega a ser um é que estou totalmente despedaçada. Como se fosse um dos meus. Porque É um dos meus. A política do avestruz não funciona por aqui faz tempo. Mas, aparentemente, por aí e para uma imensa maioria das pessoas, funciona muito bem.

Os seres humanos por aí torcendo para o Brasil na Copa enquanto mais agrotóxicos serão ingeridos cotidianamente por cada indivíduo, inclusive pelas crianças. Todas. Não adianta comprar orgânico. Nem deixar de comer frutas, verduras e carnes e passar a comer apenas biscoito e batatas fritas. No final, morremos todos. Alguns sem nem ao menos terem vivido.

Prédios desabam, gente morre soterrada, assassinada, baleada e a massa vai continuar bebendo do próprio veneno enquanto olha para o outro lado, aquele da telinha, e se regozija em passar para a segunda fase. Não é comigo. Foda-se. Mas não se culpem, futebol é jogo, é arte, é coração, é algo que não se explica. Não é hora de fazer política, é hora de comer veneno gritando gol e idolatrando um cara como Neymar. O Brasil é realmente a cara do Brasil.

Imagino o Temer e seus asseclas. Ele é o rei do castelo. Eles são amigos do rei. Não precisam nem mais disfarçar suas crenças ou suas intenções. A violência de seus propósitos é tão abjeta que as pessoas não conseguem percebê-la a não ser como máscara. Piada. Situação passageira e sem importância. O abjeto fragmentado em mil derivados para não revelar a verdade do que é: o terror puro e simples. Hannah Arendt nunca foi tão atual. Deveríamos todos assistir ao julgamento de Eichmann em Nuremberg para quando formos levados a dizer: “mas eu não sabia”, “estava apenas seguindo ordens”. A leveza típica da negação daqueles que preferem se abster em suas vidinhas de poliana ao invés de arcar com o peso insustentável de estarem vivos em um tempo como o nosso. Ninguém quer se responsabilizar por isso que estamos vivendo. Foda-se. A psicanálise nunca foi tão atual e tão indesejável, a nos lembrar incomodamente que, sim, a responsabilidade no final é tão somente sua. Que você saiba ou não.

Mas, tudo bem, não se preocupem. Vocês não estão sozinhos. Palestinos são fuzilados diariamente. Trump separa crianças de seus pais nas fronteiras com o México e as engaiola como no pior pesadelo nazista revivido. Milhares e milhares de refugiados não chegam mais às praias da Europa pois são resgatados, maltratados, violentados, escravizados e reenviados para morrer nalgum canto discreto pelos países que aceitaram fazer o serviço sujo. O verão europeu está garantido, ufa! Como a Copa, Brasil passou para a segunda fase. Vamos tomar uma breja / verre de vin para comemorar?

Quando a música retorna.

Sou daquelas pessoas que sempre teve trilha sonora. Bailarina, a música acompanhava os passos, fazia mover o corpo. A música era corpo.

Mesmo depois que o ballet se foi, a dança ficou e a música também. Música do rádio e do toca discos do meu pai, lendo jornal ao som de Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal. Música de minhas primeiras músicas, discos comprados com a mesada nunca suficiente. Música das festas, primeiros bailes, domingueiras, música eletrônica, festas, lambada, forró, raves… Uma música toca, uma memória retorna, uma época, uma situação. Coisa de rir. Ou de chorar.

Os tempos sem trilha sonora foram tempos difíceis. Tempos em que os sons e as palavras perderam sentido. Acrescentar um som a algumas situações teria sido dor demais. Dor traduzida na dor das canções que traduziriam minha dor demasiado bem para poder olhá-las de frente. Silêncio. Houveram épocas de silêncio.

Depois que ele surgiu na minha vida, a música durou pouco tempo, tão pouco tempo quanto a ilusão do grande amor. Nossa filha nasceu, houve um tanto de música que logo escorreu no ralo das decepções, da falta de apoio, da solidão. Por alguns anos escutar música me feria de morte, até que ela voltou forçada, como uma violência da traição. As músicas que eles escutavam agora invadiam meus ouvidos, prolongamentos dos encontros deles forçados no meu cotidiano. Minhas músicas e minha sensibilidade usadas como isca por quem não tinha o que mostrar nem oferecer.

No desespero, enviava-lhe músicas, na esperança que as minhas suplantassem as dela. Na esperança que ele finalmente entendesse. Ele voltou. Mas apenas para não voltar. Voltou com aquelas músicas e com a convicção de ter vivido algo extraordinário. Às minhas custas, às nossas custas, pagamos todos o preço mais caro pela prioridade absoluta dada aos desejos realizados à qualquer preço. Ela se foi à fórceps, as músicas ficaram como agulhas que rasgam a pele a cada vez que se repetem em algum lugar desavisado.

Essas músicas recentes, elas me doem em lugares que nem consigo explicar. A única sonoridade tolerável por um bom tempo foram as músicas das crianças que embalam nossos trajetos de carro entre casa, creche, escola. Músicas tolas, músicas belas, músicas cantadas com eles, risadas, poder cantar gritado no carro. Agora não mais sozinha, mas com eles. Senti vontade de mostrar minhas músicas para eles, mas o que mostrar? Fomos fazendo listas do que amamos eu e eles, uma Palavra Cantada ali, uma Madonna acolá, Sting, Galinha Pintadinha, Vaiana, Frozen, Rei Leão…

As músicas eletrônicas, as músicas brasileiras, as músicas francesas… tudo ganhou um ar meio fake, forçado, fora de esquadro, distante de mim. Quem eu fui, não sou mais, as músicas deixaram de servir perfeitamente. Como as roupas, os sapatos, as palavras, as frases que sempre me definiram, as verdades, os gostos… Tudo arrastado na avalanche da vida e eu junto.

Daí, outro dia, quis enviar uma música. O que mandar? O que não estaria totalmente contaminado pelo amargor da vida vivida como decepção do sonho negado? Procurei nos arquivos, na memória, nas músicas das crianças, nas músicas recentes… nada.

Em um concerto de um senegalês em um vilarejo de 250 habitantes teve alguém que veio tocar do meu lado. Faz vinho e ama música. Descobri Gäel Faye e as músicas do exílio. Lembrei das músicas debaixo d’água dos filmes de Nery e Gautier… Mergulhar fundo, se lançar… e dançar

Fui tentar oferecer uma música e ela voltou para mim.

Minha mais recente trilha sonora. Sem dor. Ou sem amargor. Ou sem amarDOR.

Apenas vento nos cabelos e a sensação de estar planando em algum lugar ainda cheio de beleza e de vida: aqui.

Pra não dizer que não falei das flores…

Uma das minhas descobertas nessa vida francesa e, especialmente, no campo, são as estações do ano. No Brasil temos verão e inverno, ou um combinado de dias mais ou menos quentes e mais ou menos chuvosos o ano todo. Aqui, a primavera explode dia após dia em cores, formas e perfumes variados. E as flores selvagens que brotam do nada são de uma beleza extrama. Vontade de contemplar e ao mesmo tempo de sair explodindo também em cores e em vida.

Ou algo assim: