Finda uma etapa

Está feito. Saí hoje às pressas comprar cuecas para o pequeno de dois anos e dez meses. Cuecas. Fraldas também, que tinham acabado. Mas… cuecas. Os últimos tempos têm sido de muitos fins e eis que meu filhotinho decidiu findar também. De ser bebê.

Minha filha foi de seu ano e meio até os três a uma creche, uma pequena e maravilhosa creche tocada por quatro educadoras que não poderiam ser mais acolhedoras, tanto com ela quanto conosco. E a experiência deu tão certo que meu filho herdou a vaga dela e foi à mesma creche dos dez meses até o final deste mês. Irá em setembro para a escola.

Mesmo tendo frequentado o mesmo lugar, cada qual aproveitou dele coisas diferentes. Ambos fizeram amigos queridos e é bonito observar a relação da minha filha com sua melhor amiga, vinda dessa creche, cada vez que elas se encontram. Abraços, uma alegria verdadeira que desemboca em brincadeiras, em risadas, em partilha.

Meu filho tem uma turma. Eles são cinco, quatro garotos e uma garota. Todo dia quando chego para buscá-lo correm todos para a grande janela da creche e me olham de lá dentro, como fosse uma foto de família. Nem tenho coragem de procurar o celular para registrar porque não dá para perder nem um segundo dessa cena. E, quando ele sai, ele corre para o lado de fora da mesma janela e grita, acenando: “au revoir, les amis“.

Todos os amiguinhos vão para a escola, como ele, cada um para uma diferente. Com minha filha isso gerou uma saudade difícil de lidar, um pesar, uma perda de referências que fez com que a escola levasse uns bons meses para se tornar um bom lugar. Vamos ver como será com ele.

Despedidas são difíceis. Principalmente quando elas levam consigo uma fase, uma época da vida que, sabemos, não vai voltar e não temos como segurar imóvel sem que ela escape por entre os dedos. Meus pequeninos vão ambos para a escola agora, meu filho logo mais usará cuecas.

Minha filha tem o encanto dos seus quase cinco anos. Ela sorri com seu olhar grande e generoso. E ela já tem um certo peso de uma consciência dela mesma. Não para tudo, que ela ainda não entendeu uma porção de coisas sobre os limites, por exemplo e um não, para ela, é apenas barulho de fundo quando ela está pulando em cima da cama e correndo pela casa com o irmão sendo monstro e fantasma e eu digo que é hora de dormir. Nessa hora ela nem sabe de si, nem sabe ouvir e é monstro e fantasma e risada e ela incita ele e daí a brincadeira pode continuar. Mas noutras horas ela é capaz de falar dela, do que ela sente, com uma contundência de quem enxerga o coração do lado de dentro. E isso me enche de orgulho. (Como não, né?)

Ela sabe, melhor do que meu filho, que em alguns momentos eu não consigo administrar o cansaço, as necessidades deles, as minhas e estouro. Ela já viveu isso, infelizmente, mais do que eu gostaria e em momentos muito difíceis dos quais ela recebeu os rescaldos. Ele fez que não era com ele e ainda consegue fazer um tanto disso. Ambos guardam uma certa rebeldia da infância que não foi quebrada, domada e que espero não seja nunca, pois guardo no meu coração a esperança de que filho não é para dobrar nem para domesticar e educação nada tem a ver com isso.

Meu pequeno tem aquele sorriso que faz covinhas no rosto. Ele gosta de correr e chacoalhar os cabelos. E agora deu para falar umas coisas em nome próprio. Pode decidir que não quer ir na piscina com a irmã, para espanto dela, porque não quer se molhar. Mesmo que ela insista e que ele ame fazer tanta coisa com ela. Nada feito. Pode contar o que fez durante o dia. Ou pode lembrar de um dodói, de um passeio no rio ou do cachorro que viu em algum lugar. Ele gosta de olhar fotos de agência imobiliárias procurando piscinas. E de folhear os livros relembrando em voz alta as histórias que lemos. E de montar quebra-cabeças. Mas aprendeu a ligar o leitor de dvd e a colocar ele mesmo um filme, o que nos rende várias manhãs sendo acordados ao som da Era do Gelo ou do Rei Leão.

Os dois adoram ler. E não precisam de quase nada para inventar uma refeição inteira no jardim com pratos de pedaços de piso de madeira e folhas como macarrão, peixinho ou bolo. Um tronco de árvore virou um cavalo e noutro dia ele virou lenha e o pequeno, perplexo: “cadê o cavalo?”. Podem colher tomates na horta para o almoço e adoram quando o pai os chama para jardinarem juntos. Eles inventam tantas coisas que não são réplicas de programas de televisão ou de publicidade, correm fazendo princesas e príncipes e papai e mamãe e filhinha e filhinho e “madame” e “monsieur” e dragão e cachorro… Eles brincam e brigam e se estapeiam e escalam pedras e dançam girando e cantam “Bella ciao“. E “Sapo cururu”. E “Borboletinha”. E as músicas da “Rainha das Neves”, do “Rei Leão” e da “Moana”. E Gaël Fayet. E Clara Luciani. E ultimamente até mesmo Djavan e Marisa Monte.

O fim de uma etapa, das crianças que não são mais bebês, não é difícil porque não queremos que nossos filhos cresçam. Mas porque olhamos para tudo o que vivemos e o que estamos vivendo e existe ali tanta beleza que não dá vontade de passar para uma outra. É a beleza de um dia ensolarado, logo de manhãzinha, quando o sol aquece o suficiente para que a brisa fresca venha trazer a vontade de suspirar bem profundo. Aquela luz da manhã por entre as folhas das árvores, bem horizontal, fazendo um lusco-fusco dessa primeira infância de tanta descoberta, de tanta alegria, de tanto sentimento em sua intensidade mais extrema e mais visceral. Uma suavidade e uma brutalidade juntas, que causam solavancos, desesperos, e também uma espécie de plenitude de certos instantes inenarráveis. Não é à toa que Proust recorda da perfeição da primeira lembrança. Não é à toa que tantos de nós lamentam a infância perdida. Daria para se contentar com essa beleza para sempre. Mesmo. Fora as noites mal dormidas. E as fraldas para trocar. E tudo aquilo que não foi tão bom assim. Mas que a gente releva. Ou esquece. Em nome dessa beleza. Em nome disso que talvez possamos chamar felicidade. E que vivemos juntos. Que eu vivi com eles. E que agora já é outra.

3 comentários em “Finda uma etapa

  1. Ai Alê…. chorei aqui…! Nem sei o que escrever direito mas me identifiquei muito com esse seu post…!
    Isadora (com quase 5 anos) ganhou sua “1a janelínha” e eu tô atrapalhadissima com isso pq sinto o tempo passando depressa demais….fico com dó de passar tão rápido… rsrsrs! É lindo e muito especial vê-Los crescer, mas ao mesmo tempo….essas despedidas são tão difíceis!
    Um beijo!
    Tarsila

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