Fim do mundo

Um museu. A semana começou com um museu que pegou fogo. Ou melhor, botaram fogo num museu. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Brasil. Grande parte de seu acervo de mais de 20 milhões de obras consumidos pelas chamas. Fiquei muda, paralisada, apática. Vendo imagens, lendo as notícias e os comentários. Atravessada pela desesperadora sensação de que o país em que nasci e vivi quase toda uma vida está desaparecendo. Virando pó e fumaça. E que quando falo ou penso no Brasil, hoje em dia, falo de coisas, de lugares e de uma realidade que não possui mais nenhuma substância. Tudo o que eu vivi negado em sua existência, como se nunca houvesse existido. Uma assombração. Um delírio. Como apresentar aos meus filhos o país que nasci e vivi, e que também é deles, se não o encontro mais?

Penso na minha tia, matemática e engenheira química, a primeira pessoa de nossa família que fez um mestrado. Ela fazia pesquisa, fazia ciência. Ciência, essa território que virou palavrão, nome de coisa superficial e inútil. Tão inútil que deu na criação de uma espécie de gel que permitia que as imensas máquinas que perfuram o solo no fundo do mar em altas profundidades para buscar petróleo pudessem funcionar sem quebrar ou congelar. Ciência inútil empregada pela Petrobrás para garantir o petróleo que agora já nem é mais nosso. Ciência inútil.

Minha tia fez mestrado. Lembro dela escrevendo sua dissertação na máquina de escrever, remendando pedaços de papéis com correções, modificações. Uma dissertação longuíssima. Trabalho imenso, silencioso, discreto.

Na faculdade, uma professora me convidou para fazer pesquisa. Para coletar dados para uma pesquisa sobre a experiência de luto. Aprendi que pesquisa tinha método, um modo de fazer, uma disciplina, um rigor. Tempo, trabalho.

Mas foi no meu primeiro curso de especialização em saúde coletiva que tive a imensa oportunidade de trabalhar com um médico sanitarista da USP fazendo pesquisa sobre adolescência. Vulnerabilidade ao HIV na adolescência. Tentar entender o que fazia com que os adolescentes não levassem em conta os métodos de prevenção do HIV, mesmo quando informados sobre eles. Projeto que culminou, entre outras coisas, na criação de materiais didáticos para esses adolescentes que, além de informativos, fossem mais eficazes na divulgação das informações sobre como evitar contrair o vírus e na sensibilização dos adolescentes a essa questão. Ciência inútil.

Aprendi no trabalho com esse professor a trabalhar com pesquisa. Buscar as referências sobre um determinado assunto, mapear aquilo que já foi produzido sobre um determinado tema. Quanta gente, quanto trabalho, quantas coisas já foram escritas, pequenas contribuições nessa colcha de retalhos que unem-se umas às outras e dão margem para novas reflexões, novos estudos, novas pesquisas, novas descobertas, novas propostas. Aprendi que o trabalho de cada um é pequeno e que ninguém sabe tudo. Ninguém é referência absoluta para assunto nenhum. E nenhum conhecimento é tão absolutamente verdadeiro que não possa ser revisto e negado a partir do trabalho, da pesquisa, do questionamento e das investigações que partem dele mesmo.

Acho que me apaixonei por essa vida de pesquisador, de cientista nessa época. Essa simplicidade do esforço, do trabalho cotidiano, do exercício do pensamento, do rigor da investigação, da capacidade de formular questões e da efemeridade das respostas encontradas. Tão demasiadamente humano. Sempre tive um orgulho imenso em poder fazer parte desse mundo. Tive bolsa de pesquisa para minha primeira incursão nesse universo, ali na faculdade de psicologia. E para esse curso de especialização. E para a pesquisa com adolescentes que se seguiu. E para meu mestrado mais voltado para meu trabalho como psicóloga psicanalista em um serviço público de saúde mental. E para meu doutorado voltado para as formas da arte nos ensinarem sobre o corpo e o feminino. E para meu pós-doutorado voltado para a questão da memória nas artes visuais. Fui bolsista, o que quer dizer que o governo do meu país investiu no meu trabalho, no meu cérebro e na minha capacidade de produzir conhecimento. Conhecimento inútil capaz de fazer avançar alguma coisa. Dei aulas, orientei pesquisas, escrevi artigos. E fiz pouco, a meu ver. Muito pouco. Não o suficiente.

Curiosamente, foi Freud quem me ensinou aquilo que mais admiro na posição de um cientista: a capacidade de mudar de rumo. Freud foi um cientista e tanto. Mesmo que as pessoas teimem em discutir se psicanálise é ou não ciência. Ele era um médico, vienense, final do século 19, começo do 20. Pensava e trabalhava como um cientista. Estava ali atendendo seus pacientes, inventando a psicanálise e tomando notas. Discutindo. Pensando. Fazendo perguntas. Formulando hipóteses. Escrevendo tentativas de respostas. E, quando a experiência dele com seus pacientes, seres humanos, portadores de um sofrimento que era aquilo que ele queria compreender para poder, quem sabe, modificar… quando essa experiência, quando o trabalho tomava um rumo que ia contra aquilo que ele pensava, o que ele fazia? Ele negava que aqueles dados, aqueles acontecimentos eram reais? Ele maquiava o que as pessoas diziam e viviam para confirmar as suas verdades? Não, ele simplesmente dizia: achei que era assim, a experiência me mostrou que não, mudo de rumo. Sem medo. Sem vergonha. Não acredito mais na minha neurótica. Coragem e humildade de um cientista. De um sujeito que respeita o trabalho. O pensamento. Os fatos. E o conhecimento que vem dessa conjunção entre o pensamento e o mundo.

A ciência me ensinou esse posicionamento ético de respeito pelo trabalho, pelo pensamento e pelo conhecimento. E a compreensão de que nenhuma verdade é absoluta nem imutável. Ela me ensinou algo do que é ser humano.

Quando um país simplesmente para de financiar a produção de conhecimento, a ciência, a pesquisa, qual a mensagem que é passada ao seu povo? Que aquilo tudo é conhecimento inútil, longe da realidade. Conhecimento sem o qual a vida e o mundo como conhecemos não existiriam, porque praticamente tudo o que existe é fruto de algum conhecimento produzido cientificamente. De vacinas a arranha-céus. Pode escolher. E armas e bombas nucleares também, eu sei. E tortura de gente, de bicho. Uma porção de aberrações.

A última vez em que o conhecimento, a ciência e a pesquisa foram tratados como uma inútil ameaça às verdades absolutas estabelecidas por sei lá quem e proclamadas por sei lá quais detentores da tal verdade foi na Idade Média. Se qualquer um der uma olhadinha em um livro de história ou até mesmo no google, vai ter uma idéia do resultado de séculos de obscurantismo: doenças, miséria, servidão, tirania… A quem interessa viver em um mundo assim?

Um museu queimou no domingo passado. Milhares de objetos, de registros e de informações que contam a nossa história, as nossas origens como espécie, como humanos e como brasileiros simplesmente deixaram de existir. Nunca mais ninguém vai poder vê-los, aprender com eles, estudá-los, tentar entendê-los. Quem pensa ou diz que isso não tem a menor importância, que é conhecimento inútil, está afirmando que não serve para nada saber das próprias origens. Como se tivesse nascido de chocadeira, sem pai, nem mãe. Sem história. Como se não tivesse um nome. Pessoas auto-geradas na certeza absoluta de quem são e daquilo que vivem, de suas verdades sobre elas mesmas e sobre o mundo. O oposto do humano. A negação da humanidade de cada um. Que cada qual baste a si mesmo porque não existe mais história. Não existe mais rastro, nem lastro, nem pergunta a ser feita, nem resposta a ser encontrada. Apenas a absoluta certeza de si, do regozijo de bastar-se a si mesmo em todos os níveis. Um narcisismo mortífero de quem nem vê mais o outro, de quem nem tem mais outro, vivendo sozinho em meio a um deserto.

O mundo dos seres humanos no qual eu me reconhecia enquanto humana parece que acabou.

(continua… espero)

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