E como a gente imaginou que seria?

Em um país que se recusa desde sempre a acertar suas contas e a pagar suas dívidas históricas? Em um país que joga tudo para debaixo do tapete sob o nome abolição, anistia ou o que seja? Em um país do deixa disso, em que fazer justiça à verdade não possui significado algum? Como a gente imaginou que seria?

Achamos que bastaria dizer “pensem”, “reflitam”, “raciocinem” para que as pessoas fossem iluminadas pela obviedade da farsa e que, ainda por cima, a recusassem? No Brasil, um país no qual a educação foi totalmente sucateada nas últimas décadas e onde pensar foi vendido como um artigo de luxo, inacessível, destinado apenas a alguns poucos privilegiados? O que a gente queria?

O problema nunca foi econômico, mas o abismo econômico foi vendido como o único e como aquele a ser combatido. Como se igualdade, ou eqüidade, fossem feitas apenas com redistribuição de renda. E, sim, todos os países mais ricos do mundo que exploraram e enriqueceram às custas dos mais pobres já sabem que, dentro de suas fronteiras a regra é outra. A regra é redistribuir riqueza, minimizar a desigualdade. Então, sim, para um país enriquecer ele precisar minimizar suas desigualdades e para isso precisa redistribuir riqueza. O que significa redistribuir dinheiro. Mas não apenas.

O que a gente queria? Melhorar sozinho deixando todo mundo em volta se foder? Pois é, não deu.

O que se construiu no Brasil foi a convicção que redistribuir riqueza era redistribuir renda e que apenas com isso nos aproximaríamos de ser um país mais justo e mais próspero. Sem considerarmos que durante décadas o que se fez foi justamente inviabilizar qualquer outra redistribuição de riquezas que não fosse a financeira. Porque riqueza é educação, riqueza é cultura. É o acesso a todas as formas de enriquecimento, não apenas o econômico.

E como poderia ser diferente em um país no qual a educação pública de qualidade da geração dos meus pais deu lugar a uma educação prioritariamente no ensino privado, qualidade associada a quem pode pagar mais, marca da minha geração toda criada em escolas particulares das mais ou menos prestigiosas? Como poderia ser diferente em um país em que filosofia deixou de ser matéria obrigatória porque não interessava a ninguém que as pessoas aprendessem a pensar? Como poderia ser diferente em um país em que matemática se tornou algo tão difícil que as crianças já chegam acreditando que aquilo não é para elas? Um país em que física, química, biologia são matérias chatas, complicadas, desinteressantes? É assim que a elite cria um abismo na divisão das riquezas, é através dessa transformação, durante gerações, da educação em um bicho de sete cabeças ao qual praticamente mais nenhuma pessoa sente que tem direito. Ou pior, capacidade. Em nosso país, o projeto foi fazer com que as pessoas acreditassem que a educação era muito complicada e que quase todos fora os poucos eleitos seriam capazes de aprender o que quer que seja. Essa foi a riqueza da qual fomos privados, a riqueza de partilhar do acesso ao conhecimento geral e irrestrito.

Depois as pessoas estranham que quando um museu queima, metade da população de todas as classes sociais nem se importa. Mas, afinal, há décadas batem com uma marreta na nossa cabeça que isso não é para a gente, que cultura, arte, literatura, música, poesia, tudo isso é muito complicado. Que ir ao museu ver obra de arte contemporânea é chato e inacessível, que você não vai conseguir entender. Como a matemática, a filosofia, a física, a química, a biologia e até mesmo sua própria língua. Nada disso é para você. Tudo é muito chato e complicado e apenas uns poucos dão conta de acessar. Faz décadas, ou talvez até séculos, mas estou falando aqui apenas do momento mais recente, que nos dizem que nós estamos excluídos de compartilhar toda essa riqueza e vocês acham que o problema é apenas econômico, de distribuição de renda?

Conseguimos, por um breve período de tempo em nossa história recente, redistribuir renda. Tentamos até redistribuir as riquezas de uma forma mais abrangente, com quotas, vias de acesso à educação, incentivos culturais e o que aconteceu? Aquele 0,01% não suportou. O foi mais insuportável ver empregada no aeroporto e o povo no museu em grandes exposições com repercussão midiática do que ter que pagar encargos sociais aos seus funcionários. O povo frequentando os mesmos lugares que a gente? Acabou o hype, deixou de ser descolado, massificou, deturpou. A música, os lugares, os eventos. Ninguém gostou de ter que abrir a porta do clubinho para fazer entrar todo mundo.

E o que nós esperávamos? Se isso tem sido construído desde que o Brasil atende por esse nome e que ninguém, absolutamente ninguém aqui se responsabiliza por nada de nossa história? Massacramos os índios, escravizamos, exploramos, violentamos e assassinamos os negros? Não sei, eu não estava lá, não fui eu quem fiz. Construímos um país em cima da exploração, do uso, do saque, dispondo de tudo o que pudemos encontrar pela frente e essa é a nossa mentalidade básica desde o princípio e as pessoas insistem em posar de inocentes porque analisadas, porque desconstruídas, porque esclarecidas, porque educadas. Para, gente, isso é má-fé. E a nossa má-fé é exatamente o que torna possível que nos dias de hoje mais de 30% da população do Brasil possa se assumir claramente como perversa.

Porque, sim, é de perversão que se trata. Quando uma pessoa assume que a lei não se aplica a ela e que ela pode dispor do mundo, das pessoas, das coisas, dos lugares e das riquezas segundo sua vontade, impondo essa vontade aos outros pela força, isso tem um nome e se chama perversão. O Brasil é um país em que os perversos podem finalmente mostrar as garras sem nenhum constrangimento de serem enquadrados por uma autoridade qualquer que se sobreponha às vontades que o governam. E se esse perverso é da nossa família, nosso amigo de infância, nosso conhecido, se é preto, pobre, mulher, gay, professor, torturado da ditadura, artista ou o escambau, pouco importa, é de perversão que se trata. E de contágio, como o Freud dizia ali no psicologia das massas, onde todos os iguais se sentiam liberados pela força de manada para expressar tudo aquilo que sempre foram constrangidos a esconder. Abriram a caixa de Pandora e ninguém explicou como é que faz para colocar todos os demônios de volta ali dentro.

O problema é que nenhum de nós vai poder se consolar no “eu não votei nele”, “eu votei contra ele”, “eu nem votei”, “eu votei nulo” como se a responsabilidade não fosse também nossa. É. A psicanálise já nos ensinou que somos responsáveis até por aquilo que nos atravessa e que nos escapa. E principalmente pelo que nos atravessa e pelo que nos escapa. E nós, particularmente, nós a elite intelectual bem pensante e esclarecida somos responsáveis por termos gozado de toda riqueza do nosso país nos contentando em arrotar nossos conhecimentos entre nós, os escolhidos, nas defesas de tese, nos congressos, nos artigos, nas exposições, nos vernissages, na fila do cinema de arte, lendo nosso Foucault em francês tranquilamente enquanto filosofia tornou-se sem importância e matemática tornou-se difícil. Somos responsáveis em nosso compartilhar cotidiano de mensagens inteligentes que tocam aquelas 15 ou 20 pessoas enquanto todo o resto do mundo sente que não pode fazer parte do clubinho. Nem ir na abertura da exposição do museu. Nem entrar na loja descolada. Enquanto estamos aqui batendo punheta argumentativa nessa nossa masturbação coletiva com pouquíssima sacanagem incluída, as pessoas em geral se lixam das nossas frases lacradoras e vão se informar nos grupos de whatsapp, nas igrejas e nos guetos que se tornaram todos os espaços de compartilhamento de pensamentos e de lugares comuns. E o nosso grito só ecoa mesmo em nossos ouvidos e nos ouvidos dos outros tão desesperados quanto a gente, que não entendemos quando foi que perdemos o bonde, quando foi que fomos deixados falando sozinhos.

Fomos deixados falando sozinhos quando nos recusamos a partilhar a riqueza de nosso saber e de nossa cultura de outra forma que não em uma relação mentor discípulo, professor aluno, nós os sábios iluminando e salvando os pobres ignorantes das trevas do seu não saber. Nos fodemos. Ninguém precisa mais da gente. Somos os próximos a irmos para a vala comum dos assassinados sem nome, sem reconhecimento e sem sepultura.

Tenho estado em uma espécie de sideração vendo se perfilarem palavras, pesquisas, acontecimentos, cenas e mais cenas de uma decadência de velocidade meteórica se abatendo sobre todos nós e nós, a tal elite, apenas agora desesperados porque a água bateu na bunda e finalmente somos diretamente ameaçados enquanto que a desgraça vinha sendo anunciada aos 4 ventos desde o impeachment da Dilma. Quem assistiu ao show de decrépitas justificativas naquele dia tenebroso sabe que ali começou o grand finale armado para esse mês de outubro e do qual somos todos espectadores prisioneiros de olhos arregalados como no filme Laranja Mecânica, obrigados a ver. Obrigados a ver até saturar, até vomitar, até que toda essa perversidade nos torne completamente indiferentes, completamente amorfos, completamente dóceis.

E a gente imaginando que seria diferente?

Qualquer que seja o resultado dessas eleições, o pior parece ainda estar por vir.

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