Onde foram as palavras ?

Passei assim, esse último mês, entre o estupor e o excesso. Nunca pensei que no intervalo de uma vida veria meu país sair de uma ditadura, construir um arremedo de democracia, prosperar economicamente para cair no precipício apenas 3 décadas mais tarde. Por pior que fosse a nossa pseudo-cordial, a-ética e cínica brasilidade, acreditei que, frente ao pior possível escancarado na nossa cara, cada qual seria capaz de ver, de perceber, de acordar. E de fazer um esforço de ser melhor e de se colocar do lado do melhor. Do possível. Não foi o que aconteceu.

Um mês entre dois mundos, tentando recuperar uma proximidade que não existia mais. Com as pessoas, com as inquietações, com o cotidiano do meu país. Tentando entender onde foi que me separei dele e onde foi que a distância virou ruptura e incompreensão. Descobri, com horror, que o Brasil havia se tornado um lugar abjeto. As pessoas haviam se tornado seres raivosos, cheios de ódio, desprovidos de racionalidade, de respeito e de empatia. Tornaram-se ? Ou foram sempre assim e os ventos sopraram de cima deles aquela fina camada que tinham de falsa civilidade ? As pessoas se tornaram feias, se revelaram feias, medonhas, personagens monstruosos de um pesadelo que não termina. Fui habitada por sentimentos muito ruins nesse mês. Raiva. Ódio. Desprezo. Nojo. Intoxiquei-me das palavras, da sombra, do hálito fétido de ódio saído da boca de gente que, até bem outro dia, me parecia um igual. Como se descobrir igual a gente que te enche de nojo ? Dela, de você mesma, da vida, da espécie humana ?

Esse ódio que torna as pessoas feias, burras, cafonas. Viramos uma piada mundial novamente e, ainda mais, um exemplo do pior que existe no ser humano quando ele deixa à solta suas piores intenções. Ninguém que conheço quer mais ir ao Brasil, mesmo de férias. Todos estão horrorizados e com medo. Se pode acontecer aí, também pode aqui. Ninguém quer que o Brasil de hoje seja o futuro da Europa.

Então terminaram as conversas com pessoas de discursos herméticos que não faziam outra coisa além de repetir frases feitas e acéfalas. Terminaram as conversas com pessoas que ergueram um muro intransponível entre elas e qualquer traço de humanidade além da capacidade de odiar e de fazer o mal. Terminaram as eleições e a crua realidade foi vomitada na minha e em muitas outras caras. Nojenta e irrefutável. No meio de uma viagem de trem de retorno depois de duas longas viagens em um mês para deseseperadamente lutar com o pouco que me restava. Meu direito ao voto.

Retornei dessa viagem pelo pior do que se tornou meu país esgotada. Morta de uma alma mortificada de quem se sente exilada de um Brasil que não existe mais. O país que eu deixei desapareceu no final desse mês de outubro. Não consigo encontrá-lo mais, tornei-me uma apátrida. Ele não está mais nas pessoas, no que elas dizem, no que exprimem, nos seus gestos. Ele ficou em algum lugar entre o ódio e a sede de vingança. O Brasil morreu.

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