Alguns anos atrás…

Conversei com um amigo esses dias e ele me lembrou desse texto, que não era de um blog, mas de um diário de viagem que enviava à minha família e amigos. Curiosas impressões de quem acabara de chegar à Paris, uma alegria eufórica, me sentindo bem na minha própria pele pela primeira vez na vida. Umas tantas coisas mudaram. Anos, filhos, cidades e modos de vida depois, a inocência dessa época ficou distante. Até para escrever mudei.

Então, ouvindo “Caros amigos” do Chico, pensei nessa viagem de volta aos anos 70 que o Brasil de 2019 se tornou, com direito a exilados, perversidades, presos políticos e uma pesada melancolia. Tempos estranhos.

Sem mais e a quem interessar possa, apresento eu de 21/09/2009. Dez anos. Para os amigos. Com saudades.

Em tempo, a faxina também mudou. Tornou-se uma rotina que divido eventualmente com uma faxineira paga em euro por hora, com a qual não tenho uma relação de escravo e senhor de engenho. Os hábitos de higiene franceses não melhoraram, mas minha tolerância a cracas ancestrais e recentes se aprimorou muito.

Bom, meus queridos familiares e amigos.

Hoje não teve jeito. Sei que muitos de vocês devem pensar que morar em Paris é tão glamouroso quanto caminhar às margens do Sena, com uma écharpe, óculos escuros e cabelos ao vento em um dia de sol e céu azul mas… NÃO. Não se iludam. Quem mora em Paris também faz faxina e não queiram nem saber o que isso significa quando se mora em Paris.

Atentem: resido em um prédio que deve ter sido construído mais ou menos na época em que os vizinhos portugas aqui do lado tentavam domesticar nossos ancestrais com uma desculpa esfarrapada de apresentá-los a Deus e salvar suas almas (desculpem-me, Joo e Alê, nada contra Portugal. Estive em Lisboa noutro dia e realmente adorei a cidade, o bacalhau, as sardinhas, os vinhos e até mesmo os pastéis de Belém, mas que esses caras eram bem estranhos em arrumar justificativas para saquear, explorar e matar os outros, ah, isso eram. E bem parece que deixaram isso de herança a nossos outros vizinhos, os tais americanos, mas isso é outra história e não vamos mexer com ela agora… portanto, fim dessa digressão).

Enfim, uns cem ou quiçá uns duzentos anos depois que nos batíamos com nossas mazelas em terras tropicais devem ter construído por aqui este prédio no qual agora reside esta que vos escreve. Possivelmente, na época, o conceito de faxina não havia ainda sido criado e, ao que parece, não teve muita atenção ou dedicação por parte dos povos dessas bandas desde então. O que significa, em termos pouco polidos, que cogitar uma faxina, para uma brasileira que tem por costumes ancestrais aqueles de nossos higiênicos índios (com quem os vizinhos portugas e, de resto, os vizinhos dos vizinhos bem poderiam ter aprendido algumas coisinhas básicas), o que inclui banhos diários, roupas limpas, cabelos cheirosos, dentes escovados e, SIM, uma moradia bem cuidada por uma magnífica faxina semanal… cogitar aplicar todos os ensinamentos passados de geração em geração por mães e avós dedicadas, junto com traços de obssessividade direcionada a um bom fim, incrustrados em nossa cultura como uma obviedade cotidiana significa, nesse caso, ver-se às voltas com a abjeta tarefa de remover cracas ancestrais de uma ancestralidade que nem ao menos nos pertence. Assim, e não podendo adiar mais a agora famigerada faxina semanal que teria e terá que ser feita, enquanto eu aqui permanecer, por essas minhas próprias mãozinhas não tão acostumadas com a labuta cotidiana de quem dispõe de santas Marias para cuidarem daquilo tudo que bagunçamos sem a menor cerimônia (sim, uma herança nefasta e interminável de nossa cultura escravagista, algo de que nem podemos culpar os índios, mas tão somente nossos “colonizadores” e de que, infelizmente, usamos com certo constrangimento, mas sem muita gana de por em questão, o que é ainda uma terceira história, ainda bem que vocês são minha família e meus amigos e sabem bem que eu sou barroca, perdão.), vi-me na situação de ter que decidir se me manteria fiel aos costumes e faria frente a essa ancestralidade xexelenta ou se rapidamente me adaptaria aos costumes locais, a me contentar com uma vassourinha, um espanador e com o consolo de que a iluminação indireta faz valer o ditado de que o que os olhos não vêem…

Deixo a vocês, meus queridos, o benefício da dúvida.

Fato é que meu apartamentinho antigo, bem perto de Les Halles, não apenas é bastante confortável como, também, charmoso. O bairro que o cerca mistura lojas, restaurantes e bares a outros prédios residenciais tão antigos quanto este, em uma região de ruas em que apenas circulam pedestres. Aqui ao lado há um jardim sobre o Fórum des Halles, com muitas lojas no subterrâneo, fora uma piscina pública na qual recomecei, depois de tantos anos, a nadar. Sim, caros, não me imaginem apenas glamourosamente andando pelas margens do Sena feito uma diva dos anos 50, nem como uma intelectual descabelada enterrada em uma biblioteca por dez horas ao dia, afundada em livros e grandes idéias, feito uma feminista dos anos 60, porque, no meio disso tudo, há a natação. Bom ter um corpo, não?

Assim é que este corpinho que vos escreve passa os dias entre bibliotecas incríveis com acervos inacreditáveis, pés-direitos altos e janelas banhadas de sol que fazem com que se afundar em livros seja tarefa das mais prazerosas, e passeios pela cidade, indo a pé para todos os cantos para investigar cada mínimo detalhe guardado por esses telhados escuros, essas construções todas meio cinzentas e todo esse verde incrustrado por entre as construções dessa cidade fresca, banhada de rio e, por enquanto, de sol e luz. O Louvre e o Musée d’Orsay ficam a algumas quadras de caminhada e, para o outro lado, logo se chega à Place des Vosges e ao Marais, com uma quantidade imensa de lojinhas que não são aquelas das marcas que se encontra no mundo todo, mas apenas aqui, bem parisienses, atiçando minha vontade de virar diva de novo e desfilar bolsas e sapatos novos junto a novas roupas como se a fatura do cartão de crédito jamais fosse chegar. A cada padaria, um pain au chocolat, meu verdadeiro vício (por isso a natação, eu sei, vocês já sacaram tudo: queijo de cabra, vinho, pain au chocolat, façam as contas das calorias a perder para não perder todas essas delícias…).

Noutro dia, andando por Sain-Germain, topei com a Sorbonne impondo toda uma deferência, já que entre as heranças ancestrais sempre esteve o valor do trabalho intelectual para o qual a simples menção da Sorbonne funcionava como para uma modelo deve funcionar a referência a Gisele Bündchen. E, bem ali ao lado, o Collège de France, frente ao qual quase caí de joelhos, pela simples lembrança de que, ali, Michel Foucault fez alguns de seus famosos seminários. Em meio à craca herdada aqui por este povo que não entende o conceito de faxina e, tampouco, sua prática, há Michel Foucault entre tantos outros e daí é possível entender o estranhamento de ver dezenas de jovens entrarem nessas universidades como se nada fosse, como se aquilo tudo lhes pertencesse quase por osmose e, ao mesmo tempo, o peso dessa herança que faz com que, para que se possa pensar livremente por aqui, seja necessário se bater com muita gente. Quem consegue pensar sob o peso de Foucault, Lacan e afins? A ver.

Por sorte, para essa cidade, Paris agora parece ser mais africana e árabe do que qualquer outra coisa. Coalhada de gentes de outras heranças, sobre as quais não pesa o peso de Foucaults e Lacans, vi ontem uma parada de música eletrônica passar 400 mil pessoas pelas ruas de Paris, de todas as origens e idades, mas cheia de jovens que pouco se importam por onde passam, tanto que podem dançar escalando o monumento na praça da Bastilha, agora que liberdade, igualdade e fraternidade parecem uma ironia em um evento desses em que tais ideais ficam escancaradamente postos em questão. Discute-se a imigração aqui como se discute futebol em nossa terra. Imigração, gripe suína e crise econômica são OS assuntos dos jornais televisivos. E os assuntos do Sarkozy, que vive nas teles. A França se tornou bastante conservadora. Sorte que existem esses imigrantes que não ligam para isso e sobem no monumento na Bastilha, nos pontos de ônibus e nas escadarias da Opéra-Bastille em dia da Techno Parade, colocando tudo em questão. Não há como tergiversar diante desses novos franceses. Ou a verdade, ou a pancadaria.

Assim, depois de minha primeira faxina parisiense, presenteei-me com um almoço no restaurante do telhado do Museu Georges Pompidou, que fica praticamente no quintal da minha casa, para voltar a parecer glamourosa, tendo a meus pés, em dia lindo de sol, uma vista de Paris de quase 360°, com direito a Louvre, Orsay, Torre Eiffell, Sacre Coeur e todos os outros cartões postais que povoam agora minha retina como povoaram por muito tempo minhas fantasias e minhas lembranças das viagens de férias de outrora com gente tão querida e de quem sinto enormes saudades. E, após tão linda vista, aproveitei o domingo percorrendo a exposição “elles” que está no Pompidou, sobre mulheres artistas e, para minha alegria, mostrando trabalhos de algumas das que mais importância tiveram para mim nos últimos tempos, tais como Cindy Sherman, Marina Abramovic, Nan Goldin, Sophie Calle, Valérie Export, Mona Hatoum, Ana Mendieta, Carolee Schneemann, as Guerilla Girls, Orlan em primeiros momentos mais inspirados e por aí vai uma lista imensa. A arte traz, sempre, encontros felizes, não?

Enfim, queridos, partilho esse diário com as pessoas que me são caras e que suponho que gostariam de ter notícias minhas, cheias de glamour e bossa. A quem não agradar meus excertos de novela barroca, basta dizer que não mando mais. No mais, dêem notícias que sinto saudades.

Beijos

A neve e a neve

Este ano demorou, mas finalmente chegou a neve. E eu ADORO neve. Conheço pessoas que estão aqui há tanto ou mais tempo que eu e que dizem que isso passa. Mas até agora não passou. A neve desperta em mim o lado mais pueril, o deslumbre mais ingênuo, o entusiasmo mais verdadeiro. Todo ano espero a neve chegar e, desde que cheguei ao sul da França, olho a montanha mais alta das redondezas esperando vê-la branca num amanhecer qualquer.

Existe, no entanto, a neve e a neve. A neve das grandes cidades, como de Paris, que é linda apenas para os turistas. Porque para quem vive ali, é o inferno branco na terra. A neve que se acumula em Paris logo vira uma lama marrom pegajosa que espirra em sapatos, calças e casacos desde que você sai do metrô ou bota os pés fora de casa. A quantidade de gente faz com que a neve repisada vire uma meleca nojenta, no melhor estilo rave com chuva. Só que, quando você vive em Paris, não tem música boa, você não está de folga e nem dá para fazer a festa. Você tem que ir ao trabalho, à escola, a não sei onde e precisa atravessar aquele mar de cola marrom. E você odeia a neve.

Fora que, em Paris, acontece um fenômeno incompreensível para mim a cada vez que neva. Neva todos os anos naquela cidade e mais de uma vez por ano. E, todos os anos, a cada vez que neva, é como se fosse uma surpresa. Como se estivéssemos em Salvador em pleno mês de janeiro e caísse uma tempestade de neve. Tudo para. Não estavam preparados. Como assim? Não sabiam que ia nevar? Sim, o serviço de metereologia é excelente. Não sabiam o que tem que fazer quando neva? Sim, a França é um país onde neva desde sempre, todos sabem o que deve ser feito. Então por que não fazem? Mistério. Neva em Paris e os ônibus não podem circular, as escolas fecham, todo ano aquele clima de catástrofe natural. Em um país como a França e em uma cidade como Paris, onde teoricamente tudo deveria funcionar. Até hoje ninguém conseguiu me explicar o que acontece, mas todo ano tem as mesmas reportagens, o mesmo improviso, o mesmo espanto. Gente, é inverno, no inverno neva.

Já tive um primo que morou em Nova Iorque na mesma época em que vim morar em Paris. No inverno, ele postou umas fotos de um dia em que os ônibus não circularam, as escolas fecharam e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa em Nova Iorque. A neve estava COBRINDO os carros! Tinha um muro de neve nas calçadas e foi só então que a cidade se tornou intransitável. Mas em Paris neva 5 cm e ninguém sabe o que fazer. Depois quando digo que os franceses são muito ineficientes para uma série de coisas, as pessoas acham que estou chorando de barriga cheia.

Ainda bem que tem a neve. A neve na montanha, nos vilarejos, nos lugares afastados dos grandes centros. Neve que cai branquinha e fica branquinha, fofa sobre jardins e outros lugares abertos por onde as pessoas não circulam. Você pode se jogar naquele tufo de neve e o único risco é aterrissar em cima de um cocô de cachorro desavisado que decidiu se aliviar por ali. Porque mesmo no inverno bichinhos e bichanos dão suas voltas. Dá para escorregar de luge (uma espécie de trenó) no meio de um descampado. Dá para fazer um boneco com cenoura no nariz e galhos no lugar dos braços. Dá para fazer guerra de neve. Dá para ser criança. A neve é um salvo conduto branco que silencia os barulhos do mundo, adormece a natureza e te autoriza a rir e a brincar.

Existe todo um ritual ligado à neve. Existe por aqui duas semanas de férias escolares que são as chamadas férias de inverno. As famílias vão para as montanhas, para as estações de esqui. Alugam um alojamento e passam ali uma semana subindo e descendo montanha de teleférico, esquiando todos pelos mesmos lugares, num congestionamento de bastões, esquis e roupas fluo. Como nossas férias de verão na praia, aqui férias de inverno são “no esqui”. Restaurantes ruins lotados, carros estacionados na calçada, gente passando uns em cima dos outros, todo caos a que se tem direito quando milhões de pessoas saem de férias para os mesmos lugares ao mesmo tempo. Francês é classudo, glamouroso, elegante e educado até você passar suas primeiras férias “no esqui”. Daí você percebe que era tudo fachada. E nem adianta ir nas estações dos super ricos, as mais caras e exclusivas que é exatamente a mesma coisa. Uma grande farofada. A neve é um negócio da China.

Mas existe a neve e a neve. A neve dos lugares perdidos fora de temporada e de férias. A neve que eu vejo nas montanhas ao redor, iluminada pelos céus em tons de rosa e dourado inacreditáveis de inverno. A neve pano de fundo dos milhares de pássaros voando em uníssono em busca de lugares mais quentes. A neve sobre árvores e plantas, pesando galhos e folhas, criando desenhos inesperados. Essa neve que cobre tudo, que cria um silêncio quando cai como eu nunca ouvi antes de presenciar neve caindo. Ela abafa os ruídos, impõe calma e recolhimento.

Eu adoro a neve e os céus azuis de inverno. Fora quando venta. Quando venta, eu reclamo tanto ou mais que parisiense quando neva. Mas da boca para dentro, que o vento faz engolir as palavras, faz olhos chorarem sem querer e faz a gente andar de ré.

 

 

Disse me disse

Aqui em Utopia já é 2019.

O rei do castelo não gosta da esposa do bobo da corte genial. Especialista em enterrar relacionamentos e cadáveres de mulheres destruídas em seu jardim, ele dispõe. E o bobo da corte genial não. E a culpa, obviamente, como não poderia deixar de ser em toda história vista pela perspectiva do homem, é dela. Ela é a megera da vez, ela deixa ele infeliz, ela impede ele de viver, de existir, de respirar. E todo o séquito do rei aplaude, mostra os dentes e repete a mesma ladainha. E ninguém se coloca nenhuma questão.

Porque ela fez um filho nas costas do bobo da corte quando ele finalmente tinha tomado coragem em ir embora. Ela fez um filho. Misto de imaculada concepção e bruxaria, ela fez um filho à revelia dele. Um tipo de cilada argumento que tantos homens gostam de usar, até mesmo em Utopia, até mesmo na França. Tenho um paciente que veio com uma dessas noutro dia: a companheira, que agora é ex, fez um filho nas costas dele, à revelia dele. Ele não quer a criança, ela não quis abortar então, para ele, o futuro bebê não existe. Assim. Fácil. Como é prerrogativa masculina quando o assunto é filhos: eles podem dispor como bem entendem, sempre vai ter alguém que vai assumir tudo de um jeito ou de outro porque não conta com a maravilhosa opção de delegar a um outro que homens possuem. Esse alguém é a mulher.

Pois então, esse meu paciente, a mulher fez um filho nas costas dele. Ele transou com ela. Ele gozou nela. Ela engravidou. Mas ele não participou ativamente e voluntariamente da coisa, sabe? É como o bobo da corte. Ela fez um filho dele só para amarrar ele na relação, coitado. Ele nem participou de nada. E aqui na França, em pleno século 21, homens se permitem usar esse argumento perverso da mulher fazer filho para segurar homem em relacionamento. Na França, onde mais da metade dos casais se separam, onde filho não segura absolutamente nada, onde homens vão embora mais depressa do que você seria capaz de dizer “touché“. Aqui na França e até mesmo em Utopia um homem usa o argumento dela fez um filho nas costas dele para prendê-lo no relacionamento contra uma mulher, para justificar seu ódio por uma mulher e todo mundo repete, todo mundo aplaude, todo mundo fala de lado sobre essa mulher.

Cada vez que o bobo da corte não aparece em um evento, torcem o nariz: viu, é por causa dela. Ela faz ele infeliz. Ela não deixa ele fazer nada. Os “amigos” se permitem dizer essas coisas nas costas dela, uns aos outros. Sem o menor pudor. Sem a menor decência. Sem um pingo de empatia. Mas quando se encontram… ah, é só beijo, abraço e amor.

Minha opinião? O bobo da corte genial não comparece aos eventos porque, simplesmente, ele não quer. As pessoas querem ele, o rei do castelo quer ele ali, mansinho, fazendo parte da corte, dando aval para o reinado dele. Mas ele é o bobo da corte e de bobo ele não tem nada e ele não se interessa nem um pouco por essa cena toda que só faz maldizer, sugar, usar, cada um se afirmando naquilo que é pelo número de notáveis que carrega consigo. Bobos da corte, lembrem-se, eles aparecem apenas para dizer a verdade, não são os palhaços de circo nenhum, não estão ali para entreter a audiência. Ou seja, em bom português, ele está cagando e andando.

Ou será que eles pensam que essa maledicência subterrânea com aqueles a quem ele ama não se faz sentir? Ou será que eles pensam pensam que ele está com ela por obrigação e que não existem mil outras razões para isso? Ou será que eles pensam que é fácil ser a mulher de um gênio alcóolatra? Porque sim, é muito divertido ter um bobo animando a corte, bêbado, fazendo todo tipo de merda possível para você rir, especialmente quando você aproveita das extravagâncias do outro e ri da cara dele e se convence que ele é feliz sendo aquilo e fazendo aquilo tudo e te fazendo tão feliz às custas dele, mas quando ele volta para a casa cheio de toda merda que fez, quem é que está ali para ele? Não, não é você, nem o rei do castelo, nem nenhum outro palhaço da corte. É ela. E é ela quem tem que aguentar isso. E todas as suas falas maledicentes e subterrâneas, e todos os seus comentários nos quais ela é a única responsável da infelicidade dele, e todas as suas acusações e julgamentos de quem não conhece nada, não sabe de nada, mas está sempre pronto a condenar aquele que faz o papel menos simpático, menos sorridente, menos sociável, menos agradável da história. O que, com frequência, cabe à mulher dos gênios, dos brilhantes, dos bem sucedidos. Tudo o que eles são é mérito deles, tudo em que eles pecam é culpa delas. Tão cômodo.

É como a cena sempre atualizada da nova mulher do velho cara para quem ele conta que a ex era uma louca, perversa e todos os afins. E a nova mulher acredita, porque é sempre melhor acreditar que a culpa foi de uma megera qualquer do que ver que aquele homem ali do seu lado não é tão bom assim. Um homem que é capaz de enlouquecer uma mulher, tirar dela o que ela tem de pior, amargá-la, fazê-la secar no ódio, no ressentimento ou na tristeza não é um pobre homem manipulado por uma megera que, além de tudo, fez um filho nas costas dele. Ele é provavelmente um ser com grandes chances de ser alguém que usa os outros, suga até a última gota, deixa a pessoa morrendo de fome emocionalmente falando e daí joga fora. E passa para a seguinte. Mas é melhor acreditar que o problema é ela, né? E que contigo vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser lindo. Até o dia em que você acorda na pele daquela louca, ressentida, amargurada que faz filho nas costas dos outros. E daí não consegue entender como é que foi acontecer contigo. E nem porque todo mundo te odeia e fala mal de você pelas costas do mesmo jeito que você fez com a ex. Esse discurso serve muito bem a alguém e certamente não é às mulheres.

Acho que o rei do castelo e sua corte não conseguem entender que o bobo e ela não vão porque não querem. Não querem estar ali com eles. Não querem isso para a vida deles. Não querem quem julga sem nem conhecer ou perguntar. Não querem quem espera deles um espetáculo, uma cena para diverti-los. Não querem conviver com quem se lixa com o fato de que toda essa diversão, toda essa alegria custam um preço muito alto no final. Que quem paga é eles, não o rei, nem a corte.

As pessoas ganhariam muito em se olhar um pouco no espelho antes de começar a vomitar suas barbaridades sobre as outras.