Disse me disse

Aqui em Utopia já é 2019.

O rei do castelo não gosta da esposa do bobo da corte genial. Especialista em enterrar relacionamentos e cadáveres de mulheres destruídas em seu jardim, ele dispõe. E o bobo da corte genial não. E a culpa, obviamente, como não poderia deixar de ser em toda história vista pela perspectiva do homem, é dela. Ela é a megera da vez, ela deixa ele infeliz, ela impede ele de viver, de existir, de respirar. E todo o séquito do rei aplaude, mostra os dentes e repete a mesma ladainha. E ninguém se coloca nenhuma questão.

Porque ela fez um filho nas costas do bobo da corte quando ele finalmente tinha tomado coragem em ir embora. Ela fez um filho. Misto de imaculada concepção e bruxaria, ela fez um filho à revelia dele. Um tipo de cilada argumento que tantos homens gostam de usar, até mesmo em Utopia, até mesmo na França. Tenho um paciente que veio com uma dessas noutro dia: a companheira, que agora é ex, fez um filho nas costas dele, à revelia dele. Ele não quer a criança, ela não quis abortar então, para ele, o futuro bebê não existe. Assim. Fácil. Como é prerrogativa masculina quando o assunto é filhos: eles podem dispor como bem entendem, sempre vai ter alguém que vai assumir tudo de um jeito ou de outro porque não conta com a maravilhosa opção de delegar a um outro que homens possuem. Esse alguém é a mulher.

Pois então, esse meu paciente, a mulher fez um filho nas costas dele. Ele transou com ela. Ele gozou nela. Ela engravidou. Mas ele não participou ativamente e voluntariamente da coisa, sabe? É como o bobo da corte. Ela fez um filho dele só para amarrar ele na relação, coitado. Ele nem participou de nada. E aqui na França, em pleno século 21, homens se permitem usar esse argumento perverso da mulher fazer filho para segurar homem em relacionamento. Na França, onde mais da metade dos casais se separam, onde filho não segura absolutamente nada, onde homens vão embora mais depressa do que você seria capaz de dizer “touché“. Aqui na França e até mesmo em Utopia um homem usa o argumento dela fez um filho nas costas dele para prendê-lo no relacionamento contra uma mulher, para justificar seu ódio por uma mulher e todo mundo repete, todo mundo aplaude, todo mundo fala de lado sobre essa mulher.

Cada vez que o bobo da corte não aparece em um evento, torcem o nariz: viu, é por causa dela. Ela faz ele infeliz. Ela não deixa ele fazer nada. Os “amigos” se permitem dizer essas coisas nas costas dela, uns aos outros. Sem o menor pudor. Sem a menor decência. Sem um pingo de empatia. Mas quando se encontram… ah, é só beijo, abraço e amor.

Minha opinião? O bobo da corte genial não comparece aos eventos porque, simplesmente, ele não quer. As pessoas querem ele, o rei do castelo quer ele ali, mansinho, fazendo parte da corte, dando aval para o reinado dele. Mas ele é o bobo da corte e de bobo ele não tem nada e ele não se interessa nem um pouco por essa cena toda que só faz maldizer, sugar, usar, cada um se afirmando naquilo que é pelo número de notáveis que carrega consigo. Bobos da corte, lembrem-se, eles aparecem apenas para dizer a verdade, não são os palhaços de circo nenhum, não estão ali para entreter a audiência. Ou seja, em bom português, ele está cagando e andando.

Ou será que eles pensam que essa maledicência subterrânea com aqueles a quem ele ama não se faz sentir? Ou será que eles pensam pensam que ele está com ela por obrigação e que não existem mil outras razões para isso? Ou será que eles pensam que é fácil ser a mulher de um gênio alcóolatra? Porque sim, é muito divertido ter um bobo animando a corte, bêbado, fazendo todo tipo de merda possível para você rir, especialmente quando você aproveita das extravagâncias do outro e ri da cara dele e se convence que ele é feliz sendo aquilo e fazendo aquilo tudo e te fazendo tão feliz às custas dele, mas quando ele volta para a casa cheio de toda merda que fez, quem é que está ali para ele? Não, não é você, nem o rei do castelo, nem nenhum outro palhaço da corte. É ela. E é ela quem tem que aguentar isso. E todas as suas falas maledicentes e subterrâneas, e todos os seus comentários nos quais ela é a única responsável da infelicidade dele, e todas as suas acusações e julgamentos de quem não conhece nada, não sabe de nada, mas está sempre pronto a condenar aquele que faz o papel menos simpático, menos sorridente, menos sociável, menos agradável da história. O que, com frequência, cabe à mulher dos gênios, dos brilhantes, dos bem sucedidos. Tudo o que eles são é mérito deles, tudo em que eles pecam é culpa delas. Tão cômodo.

É como a cena sempre atualizada da nova mulher do velho cara para quem ele conta que a ex era uma louca, perversa e todos os afins. E a nova mulher acredita, porque é sempre melhor acreditar que a culpa foi de uma megera qualquer do que ver que aquele homem ali do seu lado não é tão bom assim. Um homem que é capaz de enlouquecer uma mulher, tirar dela o que ela tem de pior, amargá-la, fazê-la secar no ódio, no ressentimento ou na tristeza não é um pobre homem manipulado por uma megera que, além de tudo, fez um filho nas costas dele. Ele é provavelmente um ser com grandes chances de ser alguém que usa os outros, suga até a última gota, deixa a pessoa morrendo de fome emocionalmente falando e daí joga fora. E passa para a seguinte. Mas é melhor acreditar que o problema é ela, né? E que contigo vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser lindo. Até o dia em que você acorda na pele daquela louca, ressentida, amargurada que faz filho nas costas dos outros. E daí não consegue entender como é que foi acontecer contigo. E nem porque todo mundo te odeia e fala mal de você pelas costas do mesmo jeito que você fez com a ex. Esse discurso serve muito bem a alguém e certamente não é às mulheres.

Acho que o rei do castelo e sua corte não conseguem entender que o bobo e ela não vão porque não querem. Não querem estar ali com eles. Não querem isso para a vida deles. Não querem quem julga sem nem conhecer ou perguntar. Não querem quem espera deles um espetáculo, uma cena para diverti-los. Não querem conviver com quem se lixa com o fato de que toda essa diversão, toda essa alegria custam um preço muito alto no final. Que quem paga é eles, não o rei, nem a corte.

As pessoas ganhariam muito em se olhar um pouco no espelho antes de começar a vomitar suas barbaridades sobre as outras.

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