Eles esqueceram que são colonizadores

Quando cheguei por aqui, conhecia a França berço: da revolução francesa, dos direitos humanos, do feminismo. Tudo – ou quase – de mais valioso inventado pelo ser humano nasceu por aqui ou ganhou daqui sua forma revolucionária. Ciências humanas, filosofia, psicanálise, impossível transitar por um desses territórios sem passar pela França, pelos autores franceses, pelo pensamento francês. Nas artes, a mesma coisa. E então você chega aqui e se deslumbra com os lugares por onde passaram essas pessoas, por onde esses pensamentos foram gerados, toda sua vida culminando em pisar nos passos de um Diderot, de uma Beauvoir, de um Foucault, de um Charcot, de um Lacan, de uma Simone Veil… Enfim.

Mas você chega aqui e percorre todos esses caminhos, todos esses nomes, todas essas histórias, todas essas referências e se depara, no dia-a-dia, com a realidade de pessoas que são, muitas vezes, machistas, misóginos, racistas e xenófobos. E como faz para conciliar essa França que produziu boa parte dos valores que circulam como os mais altos da civilização ocidental em um meio que criou, paradoxalmente, um povo com mentalidade de colonizador?

Ninguém menciona o assunto, até nas escolas é algo que fica quase fora da grade escolar, mas a França foi colonizadora. Ela se esparramou, como todos os senhores dos séculos passados, por todos os continentes deixando seu rastro, seus traços e levando consigo tudo o que é riqueza. E, ao sair, deixou precariedade, morte, guerra, também como seus congêneres. E em alguns casos, para não sair de posições estratégicas, criou o artifício simpático dos territórios e dos departamentos além mar, que nada mais são do que algumas ex-colônias que fazem parte da França, mesmo estando do outro lado do mundo e sendo povos com culturas, línguas e hábitos totalmente diferentes.

Você mora na metrópole? é como perguntam. A metrópole é a França e o restante são o que eu provocadoramente chamo de outros países, que me corrigem sempre dizendo DOM-TOM e ressalvando que são franceses. Ah, sim, com certeza. Basta perguntar para alguém que tenha morado em um desses “territórios” ou “departamentos” como é a vida por ali que a pessoa vai rapidinho diferenciar os “franceses” dos “locais” e te contar sobre toda sorte de preconceito existente na relação entre tais grupos. Ou então conversar com quem nasceu na Île de la Réunion e pedir para eles te contarem como são tratados aqui na “metrópole”. DOM-TOM é maquiagem de colônia.

Daí, como as pessoas convenientemente esquecem que foram e são colonizadores, eles parecem sempre muito espantados quando migrantes vindo de ex-colônias devastadas pelo humanismo francês chegam por aqui e não querem “se integrar”. Palavrinha curiosa essa tal de integração, que joga sempre com a assimilação do outro ao ponto de perder-se de si mesmo. Por aqui, tem quem pense que migrante bom é aquele que passa desapercebido, que a gente nem nota que é migrante, tão bem comportado ele é. Só que, se isso funciona bem com os portugueses que migraram em massa para a França por questões econômicas e que se construíram discretos e silenciosos zeladores de prédios e motoristas de táxi, falar de integração para magrebinos, por exemplo, é acender um fósforo em cima de um barril de pólvora.

A França saiu da Algéria, por exemplo, criando uma guerra entre os contra e os favoráveis à independência. Quem foi contra e lutou do lado dos franceses tornou-se traidor com o desenrolar dos acontecimentos. E tiveram, como opção, vir à França, promessa de integração mais do que merecida pelos serviços prestados. Vieram para serem recebidos em campos, alojados em bairros periféricos e tratados como cidadãos de segunda categoria que ocupam os postos de trabalho que nenhum francês quer e recebem, em geral, cerca de 30% a menos que qualquer francês pelo mesmo serviço. E, em cima disso, acrescentem o preconceito de serem tratados como migrantes mesmo quando são franceses já de segunda ou terceira geração. E quando essas pessoas encontram no radicalismo religioso uma condição de existirem e de serem valorizados, todos ficam chocados. Mas como assim eles nos querem mortos? Por que é que eles não se integram simplesmente e de boca fechada? Por que ficam querendo usar véu?

Migrante bom em terra de colonizador é aquele que não dá trabalho, não aparece, paga seus impostos e não reclama. E quando alguém faz algo diferente disso, os franceses não entendem. Eles não entendem que existe uma história que precede todo e qualquer magrebino e todo e qualquer migrante vindo de um país ex-colônia francesa e que essa história é marcada por uma violência que fará com que, para o sujeito que aqui chega, a relação com esse país seja, no mínimo, ambígua. Porque o país que os recebe matou, violou e explorou seus antepassados às vezes nem muito distantes. E ainda querem que eles se integrem. Sem perceber que integração é violência.

Não conheço forma de resolver esse tipo de impasse que não passe por um acerto de contas com a própria história o que significa, por aqui, com o passado de colonizador. Que é tão negado quanto o direito à revolta dos colonizados. Mentalidade de colonizador e revolta de colonizado que se transmitem em silêncio, de geração em geração. Sem que ninguém entenda.

Sim, a França tem seus lados não tão admiráveis.