Finda uma etapa

Está feito. Saí hoje às pressas comprar cuecas para o pequeno de dois anos e dez meses. Cuecas. Fraldas também, que tinham acabado. Mas… cuecas. Os últimos tempos têm sido de muitos fins e eis que meu filhotinho decidiu findar também. De ser bebê.

Minha filha foi de seu ano e meio até os três a uma creche, uma pequena e maravilhosa creche tocada por quatro educadoras que não poderiam ser mais acolhedoras, tanto com ela quanto conosco. E a experiência deu tão certo que meu filho herdou a vaga dela e foi à mesma creche dos dez meses até o final deste mês. Irá em setembro para a escola.

Mesmo tendo frequentado o mesmo lugar, cada qual aproveitou dele coisas diferentes. Ambos fizeram amigos queridos e é bonito observar a relação da minha filha com sua melhor amiga, vinda dessa creche, cada vez que elas se encontram. Abraços, uma alegria verdadeira que desemboca em brincadeiras, em risadas, em partilha.

Meu filho tem uma turma. Eles são cinco, quatro garotos e uma garota. Todo dia quando chego para buscá-lo correm todos para a grande janela da creche e me olham de lá dentro, como fosse uma foto de família. Nem tenho coragem de procurar o celular para registrar porque não dá para perder nem um segundo dessa cena. E, quando ele sai, ele corre para o lado de fora da mesma janela e grita, acenando: “au revoir, les amis“.

Todos os amiguinhos vão para a escola, como ele, cada um para uma diferente. Com minha filha isso gerou uma saudade difícil de lidar, um pesar, uma perda de referências que fez com que a escola levasse uns bons meses para se tornar um bom lugar. Vamos ver como será com ele.

Despedidas são difíceis. Principalmente quando elas levam consigo uma fase, uma época da vida que, sabemos, não vai voltar e não temos como segurar imóvel sem que ela escape por entre os dedos. Meus pequeninos vão ambos para a escola agora, meu filho logo mais usará cuecas.

Minha filha tem o encanto dos seus quase cinco anos. Ela sorri com seu olhar grande e generoso. E ela já tem um certo peso de uma consciência dela mesma. Não para tudo, que ela ainda não entendeu uma porção de coisas sobre os limites, por exemplo e um não, para ela, é apenas barulho de fundo quando ela está pulando em cima da cama e correndo pela casa com o irmão sendo monstro e fantasma e eu digo que é hora de dormir. Nessa hora ela nem sabe de si, nem sabe ouvir e é monstro e fantasma e risada e ela incita ele e daí a brincadeira pode continuar. Mas noutras horas ela é capaz de falar dela, do que ela sente, com uma contundência de quem enxerga o coração do lado de dentro. E isso me enche de orgulho. (Como não, né?)

Ela sabe, melhor do que meu filho, que em alguns momentos eu não consigo administrar o cansaço, as necessidades deles, as minhas e estouro. Ela já viveu isso, infelizmente, mais do que eu gostaria e em momentos muito difíceis dos quais ela recebeu os rescaldos. Ele fez que não era com ele e ainda consegue fazer um tanto disso. Ambos guardam uma certa rebeldia da infância que não foi quebrada, domada e que espero não seja nunca, pois guardo no meu coração a esperança de que filho não é para dobrar nem para domesticar e educação nada tem a ver com isso.

Meu pequeno tem aquele sorriso que faz covinhas no rosto. Ele gosta de correr e chacoalhar os cabelos. E agora deu para falar umas coisas em nome próprio. Pode decidir que não quer ir na piscina com a irmã, para espanto dela, porque não quer se molhar. Mesmo que ela insista e que ele ame fazer tanta coisa com ela. Nada feito. Pode contar o que fez durante o dia. Ou pode lembrar de um dodói, de um passeio no rio ou do cachorro que viu em algum lugar. Ele gosta de olhar fotos de agência imobiliárias procurando piscinas. E de folhear os livros relembrando em voz alta as histórias que lemos. E de montar quebra-cabeças. Mas aprendeu a ligar o leitor de dvd e a colocar ele mesmo um filme, o que nos rende várias manhãs sendo acordados ao som da Era do Gelo ou do Rei Leão.

Os dois adoram ler. E não precisam de quase nada para inventar uma refeição inteira no jardim com pratos de pedaços de piso de madeira e folhas como macarrão, peixinho ou bolo. Um tronco de árvore virou um cavalo e noutro dia ele virou lenha e o pequeno, perplexo: “cadê o cavalo?”. Podem colher tomates na horta para o almoço e adoram quando o pai os chama para jardinarem juntos. Eles inventam tantas coisas que não são réplicas de programas de televisão ou de publicidade, correm fazendo princesas e príncipes e papai e mamãe e filhinha e filhinho e “madame” e “monsieur” e dragão e cachorro… Eles brincam e brigam e se estapeiam e escalam pedras e dançam girando e cantam “Bella ciao“. E “Sapo cururu”. E “Borboletinha”. E as músicas da “Rainha das Neves”, do “Rei Leão” e da “Moana”. E Gaël Fayet. E Clara Luciani. E ultimamente até mesmo Djavan e Marisa Monte.

O fim de uma etapa, das crianças que não são mais bebês, não é difícil porque não queremos que nossos filhos cresçam. Mas porque olhamos para tudo o que vivemos e o que estamos vivendo e existe ali tanta beleza que não dá vontade de passar para uma outra. É a beleza de um dia ensolarado, logo de manhãzinha, quando o sol aquece o suficiente para que a brisa fresca venha trazer a vontade de suspirar bem profundo. Aquela luz da manhã por entre as folhas das árvores, bem horizontal, fazendo um lusco-fusco dessa primeira infância de tanta descoberta, de tanta alegria, de tanto sentimento em sua intensidade mais extrema e mais visceral. Uma suavidade e uma brutalidade juntas, que causam solavancos, desesperos, e também uma espécie de plenitude de certos instantes inenarráveis. Não é à toa que Proust recorda da perfeição da primeira lembrança. Não é à toa que tantos de nós lamentam a infância perdida. Daria para se contentar com essa beleza para sempre. Mesmo. Fora as noites mal dormidas. E as fraldas para trocar. E tudo aquilo que não foi tão bom assim. Mas que a gente releva. Ou esquece. Em nome dessa beleza. Em nome disso que talvez possamos chamar felicidade. E que vivemos juntos. Que eu vivi com eles. E que agora já é outra.

De tudo e de nada

Tenho aqui para mim mesma que só podemos afirmar que conhecemos mesmo um país quando começamos a pagar impostos. Sim, impostos. Podemos viajar milhares de vezes a um lugar durante as férias, fazer cursos, intercâmbio, pós-graduação, bolsa-sanduíche, período de trabalho como expatriado e o escambau. E cada uma dessas incursões nos dá uma idéia daquele lugar, nos oferece um percurso, uma paisagem, uma descoberta. E retornamos pensando que sabemos bem do que estamos falando ao descrever um outro país quando, na verdade, ficamos apenas a arranhar a superfície.

Veja, não tem problema nenhum. É bom ser turista no país dos outros, é bom conhecer os lugares pelas bordas, é bom voltar com a sensação de ter vivido um pouco de uma realidade que não é a sua. É bom se apaixonar pela vida de outro lugar e guardar em algum canto da memória que ali sim você seria feliz. É maravilhoso ter a sensação do vislumbre, do desvelamento de uma realidade, de uma cultura, de uma língua, de um modo de vida. Por isso que tanta gente viaja e se sente vivo apenas na medida em que viaja. Mas em uma época em que as pessoas falam sobre qualquer assunto sem nenhum constrangimento em relação ao que não conhecem, o número de especialistas do país dos outros onde você passou suas férias, fez seu estágio, curso, pós e afins e do qual você fala de boca cheia como se tivesse descoberto o graal daquele lugar que nenhum outro ser vivente e viajante do seu país entendeu é… bom… imenso. E o problema de toda essa falação é que se criam verdades ocas sobre tantos assuntos e situações que passam a existir enquanto tais em algum universo paralelo no qual tudo pode ser dito e tudo pode ser verdadeiro desde que seja verdade na opinião de alguém. E mesmo que não corresponda a nada do mundo real. Se eu disse, está valendo. Tempos estranhos esses em que aquilo que eu penso sobre alguma coisa vale mais do que aquilo que ela é.

Quando cheguei à França, já tinha daqui a experiência de turista. E conhecia bem aquela França para turista. E achava que tinha entendido o que era a França e o que era a vida por aqui. O fato de falar francês me permitia acessar um pouco mais em profundidade o “ser francês” ou eu assim o imaginava. E foi aos poucos que percebi que o país dos outros a gente descobre, acessa e entende em camadas, como uma cebola, e sem nunca chegar ao cerne. Camadas infinitas de códigos mais ou menos identificáveis e partilháveis com os quais nos confrontamos quanto mais tentamos nos embrenhar nesse outro universo. E quanto mais nos embrenhamos, mais se torna difícil, pois os códigos se tornam mais e mais sutis.

Você pode falar francês, mas isso não significa que você entenda necessariamente o duplo sentido das palavras, os jogos de palavras, os chistes, as piadas de referência. Você não entende, você não capta, sua linguagem é operacional, ela comunica apenas o que ela diz, mas tudo o que jaz sob a ponta do iceberg te escapa como fumaça entre os dedos. Já me disseram uma vez que um estrangeiro é como um autista na língua dos outros, a quem tudo o que é não-literal escapa. Me parece bastante preciso como imagem.

Você faz algo “com o pé nas costas?” Isso não existe na França. Mas aqui eles fazem algo “les doigts dans le nez”. Ainda bem, isso os livros e tutoriais de youtube ensinam. Mas e quando as pessoas jogam com o duplo sentido das palavras? Ou com o som das mesmas que pode dar margem à outros sentidos? E quando a linguagem desliza? É pavê ou pacomê?

Mas então, digamos que você consiga atingir um nível de refinamento que te permite até mesmo acompanhar e rir das piadas em tempo real. E alguém, de repente, no meio da conversa, solta uma frase da qual todos riem. E você… boia.

“Depois de um sono bom, a gente levanta…” Quem quer tomar um café “concreto”? Dentre as tantas coisas compartilhadas pelas pessoas de um mesmo país ou de uma mesma cultura estão, justamente, as referências culturais. As frases, as músicas, os slogans publicitários, a novela das 7… Tudo aquilo que você não tem como entender ou acessar porque, simplesmente, enquanto essas pessoas estavam vivendo mergulhadas nesse caldo francês de signos, você estava vivendo mergulhada em outro caldo, o brasileiro. E isso, não tem youtube, curso de línguas ou leitura de blog de como ser integrado, inserido, (in)descolado no país dos outros que resolva.

Algo te escapa e vai te escapar sempre. E depois que você estiver por muito tempo em outro país, vai começar a te escapar pelos dois lados. Frase cheia de duplos sentidos em português, não? Mas, aqui na França, você teria que explicar a piada.

E isso vale para todo e qualquer mínimo detalhe de uma vida, não apenas para a linguagem falada, mas para tudo aquilo que comunica a respeito de uma cultura, de um lugar, de uma época, de um contexto. Cada pequeno detalhe de uma vida em um outro país traz em si potencialmente uma revelação, um estranhamento, um desconhecimento, um incômodo, uma incompreensão. E cada pequeno detalhe conquistado é como uma grande vitória, uma chave de acesso que garante poder navegar por mais uma camada da tal cebola.

Por isso o estranhamento com os brasileiros que se puseram a comemorar com todo o conhecimento de causa da perspectiva deles e nenhum da perspectiva daqueles de quem estavam falando que a vitória da França na copa do mundo seria uma vitória dos “africanos”. Teve até um norte-americano que se prestou a isso. Como se o prisma pelo qual brasileiros e americanos vivem e entendem o racismo e os gestos anti-racistas fossem válidos na França. E as pessoas donas das suas verdades absolutas querendo discutir o porquê elas teriam razão, mesmo quando os ganhadores em questão estariam afirmando justamente o contrário. Eu sei mais de você do que você mesmo. Você não entendeu nada, ainda não viu a luz.

Isso me lembra a postura de alguns psicanalistas que teimavam e teimam ainda hoje em dia em usar tudo o que você disser contra você. E se você não aceitar, é resistência da sua parte. Alguém te avisou que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que você não detém a verdade absoluta sobre nada? Que tal experimentar deixar o outro dizer dele mesmo com mais conhecimento de causa do que você, mesmo que você saiba que o inconsciente existe? Porque, sejamos honestos, o seu também existe e te prega umas pecinhas de quando em quando, né?

Humildade, minha gente. A gente não está com essa bola toda não.

 

O racismo de cá e de lá

Pronto, a França foi campeã da Copa do Mundo de 2018. E meus pequenos experimentaram essa coisa de ser campeão na França, sendo franceses, em um ambiente calmo de restaurante de vilarejo no meio do mato. Sem aquela euforia, sem aquela catarse dos movimentos de massa tão inebriante que o Brasil sabe fazer tão bem.

Então surgiram aqueles comentários de brasileiros “homenageando” a seleção “africana” da França. E um arrepio me percorreu a espinha. Porque nada mais racista que esse comentário. E nada mais tão tipicamente racista do racismo do Brasil do que não conseguir entender que esse é um comentário racista. Racismo no Brasil é um pouco diferente do racismo daqui. E as respostas dadas por aqui  para o racismo são um pouco diferentes daquelas dadas no Brasil.

No Brasil, ninguém é brasileiro. Um dos assuntos mais comuns em conversas é perguntar ao outro de onde ele vem. O que remete às origens, de onde vem seu sobrenome, sua família, seus antepassados. Isso, especialmente quando você tem uma origem migrante européia, por exemplo, é cheio de valor. Todo mundo branco no Brasil gosta de dizer que veio de outro lugar. Como se isso fosse uma grande vantagem.

Só que a França não é o Brasil e a história francesa não é a brasileira. Aqui, o que tem valor é ser francês. Ninguém te pergunta de onde você veio e se você começar esse tipo de conversa com um francês ele vai se ofender com sua questão e vai te responder: eu sou francês. Mesmo que tenha um sobrenome não francês. Ou que seja preto. Ou árabe. Ele vai dizer: sou francês. E você vai se sentir bem besta tentando explicar a sua pergunta. Acredite, aconteceu comigo muitas vezes. E isso quer dizer muita coisa.

Historicamente, a França colonizou e explorou meio mundo. E tudo o que ela é de bom, inclusive o país do droit des hommes, podemos dizer que é também por conta disso. Porque alguém pagou a conta para eles. E alguém paga até hoje. Então, talvez por uma culpabilidade histórica, para uma parte desse mundo ela deu a possibilidade de que as pessoas que foram seus aliados (vide Algéria e seus maquis, por exemplo) viessem à França e vivessem como franceses. O que significa que uma boa parte dos descendentes do Magrebe, por exemplo, são franceses pois nasceram na França filhos ou netos de magrebinos que exerceram seu direito de viver na França. Eles não se naturalizaram franceses, esses filhos e netos que nasceram aqui. Eles são franceses.

Algo parecido vale para os nascidos na França filhos ou netos de migrantes da África subsaariana. Seus antepassados vindos de seus países, muitos ex-colônias francesas, se instalaram por aqui e tiveram filhos e netos. Que são franceses. Nasceram aqui, não se naturalizaram franceses. São franceses.

O problema do racismo aqui na França aparece justamente quando tentam negar que essas pessoas são franceses. Porque seriam filhos ou netos de migrantes. Porque são pretos. Porque são árabes. Porque são sulamericanos. Sim, sulamericanos. Latinos. Porque aqui na Zooropa não somos brancos, minha gente. Somos latinos. Tão dignos do desprezo e do racismo europeu quanto os pretos e os árabes. Não adianta vir aqui brandindo sua ascendência italiana, portuguesa, espanhola, o diabo. Aqui você é e sempre será um… latino. Que é outra coisa que um branco europeu. E seus filhos ou netos… eles serão… franceses. Que é outra coisa do que você é.

Existem duas maneiras de ser francês segundo a lei: uma é nascendo de pai e mãe, ou pai ou mãe franceses. Você tem um dos pais francês, você nasce por aqui ou onde for no mundo… você é francês. Outra maneira, quando seus pais são estrangeiros que vivem na França e você nasce por aqui é… você tem a nacionalidade dos seus pais e à partir de uma certa idade pode pedir a nacionalidade francesa. Que é seu direito. Porque se você nasceu aqui, vive aqui, vai à escola aqui, fala francês, está mergulhado na cultura, no cotidiano, nos costumes, então, meu caro, você é obvia e legalmente um… francês.

A França tem uma imensa dívida com suas colônias e ex-colônias. Colônias que ela insiste em chamar de DOM TOM para dizer que fazem parte da França ainda. E ex-colônias que ela abandonou em melhor ou pior estado, deixando para trás uma porção de gente que, se não tivesse vindo para cá em seguida, teria morrido como traidor por ter lutado ao lado da França em alguma guerra. Essa mesma França que hoje em dia participa de acordos para dificultar a entrada dos refugiados que, segundo a extrema direita adora espalhar por aqui, estariam invadindo a Europa aos milhões atrás da riqueza, dos benefícios sociais e de uma vida cheia de conforto e privilégio, roubando os empregos dos europeus de verdade. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da migração.

Durante muito tempo foi proibido nas escolas daqui que as crianças aprendessem outra língua que o francês. Ninguém podia falar catalão na Catalunha nem bretão na Bretanha, nem occitano na Occitânia. Isso era fruto de um posicionamento político que privilegiava algo como a “união nacional” em torno de uma idéia de França em detrimento das diferenças entre os povos que a compõem. O contrário do que fez a Inglaterra, por exemplo. Mas isso é outra história. E serve apenas para lembrar que a questão da dívida histórica francesa é muito maior do que a gente se dá conta e começa dentro das suas próprias fronteiras.

Então, é evidente que a reivindicação da diferença, das origens, da língua, dos costumes é algo importante aqui na França. As pessoas vão responder que são franceses. Mas se você sair dos grandes centros e for para as fronteiras do país, esse ser francês aparecerá misturado com a defesa de um pertencimento outro. Aliás, nem precisa sair dos grandes centros. Basta prestar atenção em quantos “ser francês” diversos cabem nessa definição de ser francês em uma cidade como Paris, por exemplo.

E isso, a reivindicação das diferenças, é legítimo também para os migrantes. Para pretos, árabes e latinos que vêm construir sua vida por aqui. E que vivem sob a pressão de se “integrar” por vezes em detrimento dessas mesmas origens que são suas únicas referências sobre como existir, circular e compreender o mundo. Algo doloroso, um acordo entre cisão e integração que nunca se faz totalmente.

Mas o problema – ou a vivência – dos migrantes não é a mesma de seus filhos e netos. Sim, eles têm essa origem e, sim, as coisas se passam bem melhor quando ela não é negada, recusada, reprimida e sim integrada em suas subjetividades de alguma maneira. Pode ser na comida, na língua, na festa, no canto, na dança, na roupa, na risada, na religião… Um traço que resta e que diz daqueles sujeitos quem eles são. Mas é um traço entre outros, pois a identidade nunca vem de um lugar apenas, é colcha de retalhos. E para outros tantos traços, esses filhos e netos de migrantes são… franceses. E tão ou mais difícil para eles do que encontrar um lugar em suas origens é poderem ser e usufruir do fato de serem franceses. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da igualdade. Vejam o paradoxo. Negar a migração e a diferença. E negar a igualdade. Igualdade que faz parte do lema maior que define este país.

E é isso que essa “homenagem” de uma perspectiva brasileira que acha bonito acentuar que os jogadores da equipe de futebol francesa seriam africanos não consegue entender. Que a questão, para eles, é se afirmarem como franceses. E obrigarem a França a se afirmar como plural, mestiça, preta, branca, árabe, latina e asiática.

(Não fosse racista a “homenagem” teriam atentado para o fato de que outros jogadores dessa mesma equipe não são pretos mas possuem, basta ver os sobrenomes, origens não francesas. Mas então…)

Talvez se o orgulho de ser brasileiro fosse além do futebol ou de vestir camisa para defender posições políticas absurdas e retrógradas e se as pessoas tivessem uma necessidade subjetiva de se afirmarem como brasileiros quando alguém perguntasse de onde elas vêm, talvez nesse caso nós, brasileiros, seríamos capazes de entender um pouco melhor o que essa afirmação tem de revolucionário.

E não, eu não estou negando a importância da afirmação das diferenças no Brasil por aqueles para os quais a diferença sempre foi sinônimo de preconceito, violência e humilhação. Acho lindo e importante, ou até mais do que isso, fundamental, que pretos possam finalmente impor que sua voz seja escutada. E que os não-pretos tenham que engolir essa fala afirmativa. Finalmente. E entendo que essa seja uma forma de ação contra o racismo. E que o mesmo ato poderia ser considerado um protesto contra o racismo na França. E que pode ser um protesto contra o racismo na França essa afirmação das origens africanas de seus jogadores de futebol. Só que também não. Porque não é tão simples assim, nem aqui, nem aí. E toda afirmação de uma diferença cria potencialmente um gueto. E por aqui tanto quanto por aí as pessoas vivem no gueto há muito tempo. E a solução, por aqui, tem sido: ou a afirmação da diferença absoluta e da vontade de destruição da França encontrada nos atos terroristas que foram executados por… franceses, veja só. Ou então a afirmação de um pertencimento a algo como uma França e a pressão que isso causa nessa tal de França que precisa se alargar afim de incluir todos os que se reivindicam como franceses.

Qual o melhor jeito? Qual o jeito certo? Não sei. Nisso estou de acordo com quem defende a mestiçagem como melhor jeito. Mas isso também é uma outra história.

Eu levei muitas décadas e uma mudança de país para entender que eu sou… brasileira. E que por aqui eu não sou branca. Sou latina. Ou, como minha filha gosta de dizer, quando fala da cor das nossas peles: marrom. O que para ela, felizmente, quer dizer uma cor, não um crime. Nem uma condenação.

E meus filhos são… franceses. Mesmo tendo dupla nacionalidade. E esse é um luto que eu tive que fazer quanto aos meus filhos, porque é claro que eu os via como brasileiros e é claro que isso nem era uma questão até eles começarem a falar francês entre eles… E é claro que eles são também brasileiros e que essa brasilidade faz parte do modo como eles existem. Mas na afirmação de que são franceses existe uma reivindicação, percebem? Que é política, ideológica e ética e que vale para todo mundo que está por aqui e que tem o direito de estar por aqui ou por onde quiser nesse planeta. É essa reivindicação de pertencimento e de ser respeitado nesse pertencimento. E esse é um luto que penso que a França precisa fazer quanto a essa imagem de uma França branquinha e pura que já não existe mais há muitas décadas, se é que um dia existiu. E é para ajudar nesse luto francês que eu escolho afirmar que os jogadores que venceram a copa do mundo ontem são, todos, 100% franceses.

O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

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Como querer Caetanear…

Hoje o dia nasceu verão. Quente, abafado, quase Brasil. E em meio ao cotidiano mais banal de uma segunda-feira tão boba quanto qualquer outra veio subindo aquele banzo que só quem está longe há muito tempo conhece.

A moleza do verão que me deixou a vida inteira meio prostrada e com a cabeça em algodão doce, metáfora mais linda que aprendi por aqui recentemente com um sujeito que de tão melancólico já não sabe mais o que é viver diferente de um morto vivo. E o trajeto pela estrada, as montanhas ao fundo, aquele céu azul, aquele ar de férias…

Cresceu um buraco ali no peito e então lembrei do Djavan. Pai e mãe, ouro de mina. Quem escreve letras e músicas tão lindas que décadas depois são ainda capazes de te pegar numa curva de estrada e te arremessar direto para os recônditos mais distantes da tua história?

Me digam onde nesse mundo alguém conseguiu torcer palavra em poesia e criar esse buraco entre o peito e o estômago melhor que esses nossos músicos que eu vou lá. Aquele gozo da descoberta da palavra que virou outra coisa ali nas tripas da gente, um gozo que é metade prazer e metade dor. Reconhecimento, alguém descobriu o que vai por entre nossas entranhas.

Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul… cantou a Gal, cantora favorita de toda a vida do meu pai, quase uma tara, um fetiche nessa voz dessa mulher que conseguiu concentrar toda gostosura em voz de um jeito que deixava todo muito doido. Mais ou menos como no Ney, quando rebolava e cantava e dava aquela vontade de comer o sujeito junto com todas as suas letras.

Música que meu pai ouvia no toca-discos ali de casa, o jornal entre as mãos, aquele cheiro de fim de semana, o sol entrando pela janelona, passarinho cantando em uma ruela de São Paulo que nem parecia cidade grande. Música tocando no toca-fitas do carro rodando pela estrada de verão até chegar na praia. Dia de sol, aquele verão que cola e mela a pele, aquele salgado de verão que entra pelos poros e faz aquele bem tão sublime que dura quase um ano inteiro. Música tocando no meu carro com as amigas de faculdade, primeira vez, primeiras férias, primeiras músicas, o verde daquela costa de margeia a estrada de Ubatuba, o mar ao fundo, o azul, as montanhas, aquele verde selvagem que não existe aqui, um verde caótico de natureza pura e simples, jamais domesticada.

Foi um instante e eu estava ali e aqui, lá longe e aqui, naquela história e no hoje. Essa estrada linda cercada de montanha e de mar e do verde daqui, árida porque é verão e toda vida que explodiu em cores começa a torrar, a torrar e é o começo do fim da beleza que vai voltar sempre, mais para frente, num outro dia, porque ainda bem ainda temos as estações e aqui as estações se sucedem e nos garantem que a beleza volta. O ar seco do verão que não mela, a falta que faz o sal na pele, aquela sensação de estar viva. Hoje foi assim nessa segunda boba, mistura de ontem e de hoje, de lá e daqui, como apenas quem começa a estar longe há muito tempo entende.

Pasárgada

O amigo do rei tem sempre, em todo lugar. Aqui é o chegado do produtor de vinho. Ele, o rei do castelo. Os outros, os amigos do rei. Ele soberano no topo da sua colina, entre mar e montanha, dominando através de olhos e vinhedos o mundo todo contido em seu olhar. Os outros prensados no buraco do vilarejo ali embaixo de seus pés.

Aqui todo mundo tem história e na história tem briga, tiro de fuzil, gente que não gosta de gente por um sem número de motivos cruciais tão tolos quanto a ignorância da própria desimportância. Pessoas erigem muralhas contra outras pessoas por razões que insistem em ignorar a evidente insignificância de nosso ser. No final, como me disse um garoto de 11 anos: “vou morrer”. No final morremos todos e o mundo não se paralisará nem por um segundo por conta disso. Por que a espécie humana é a única que, frente à sua insignificância, se fecha em uma armadura de negação, delírio de grandeza e violência? Vai entender…

Daqui desse lugar das pequenas diferenças e dos tolos conflitos pelos pequenos poderes cotidianos tão banais, tão pueris, olho para o que acontece aí, nesse lugar que foi minha vida durante quase uma vida inteira. Aí o rei do castelo e os amigos do rei chegaram a um nível de negação de sua própria insignificância tão violento, tão perverso que para garantirem a palavra final eles estão dispostos a trucidar um país inteiro. Síndrome do vira-lata que precisa dar uma de leão. Custe o que custar.

Assassinam Marielle, assassinam um garoto que teve a ousadia de ser preto, pobre e botar o uniforme para ir para a escola em um dia em que, simplesmente, era dia de sair atirando em todo mundo. Maré de mortos. Controle populacional, política de extermínio de quem não importa, de quem nunca importou. Foda-se escrito em letras garrafais sobre os corpos de pessoas mortas dia e noite sem razão nenhuma. Nunca as obras de Antonio Manuel e de Rosângela Rennó foram tão atuais. Nunca as obras, as letras, os versos, as músicas foram tão obsoletos, tão pouco condizentes com a realidade que é ainda pior que o pior. Nunca foram tão pouco perto de tudo isso que se escancara na nossa cara dia após dia. Os artistas se envergonham de poderem criar enquanto um menino toma um punhado de tiros e morre sem entender como é que o ser humano padrão ali do outro lado do fuzil não o viu. Como é que ele não viu? Como é que ele não me viu? Como é que ele não viu quem eu era? Olhar que atravessa como bala o menino transparente que é ninguém.

Ele não era amigo do rei. Foi isso. Ele era apenas um insignificante que não teve condições de mascarar sua insignificância com a aura de amigo do rei para poder esquecer um pouco de quem era. Marcos. Ele era o Marcos. Tenho ao menos 3 Marcos que amo nessa vida e, se fosse um deles, estaria despedaçada. Se fosse um dos meus filhos, estaria despedaçada. E o problema que não chega a ser um é que estou totalmente despedaçada. Como se fosse um dos meus. Porque É um dos meus. A política do avestruz não funciona por aqui faz tempo. Mas, aparentemente, por aí e para uma imensa maioria das pessoas, funciona muito bem.

Os seres humanos por aí torcendo para o Brasil na Copa enquanto mais agrotóxicos serão ingeridos cotidianamente por cada indivíduo, inclusive pelas crianças. Todas. Não adianta comprar orgânico. Nem deixar de comer frutas, verduras e carnes e passar a comer apenas biscoito e batatas fritas. No final, morremos todos. Alguns sem nem ao menos terem vivido.

Prédios desabam, gente morre soterrada, assassinada, baleada e a massa vai continuar bebendo do próprio veneno enquanto olha para o outro lado, aquele da telinha, e se regozija em passar para a segunda fase. Não é comigo. Foda-se. Mas não se culpem, futebol é jogo, é arte, é coração, é algo que não se explica. Não é hora de fazer política, é hora de comer veneno gritando gol e idolatrando um cara como Neymar. O Brasil é realmente a cara do Brasil.

Imagino o Temer e seus asseclas. Ele é o rei do castelo. Eles são amigos do rei. Não precisam nem mais disfarçar suas crenças ou suas intenções. A violência de seus propósitos é tão abjeta que as pessoas não conseguem percebê-la a não ser como máscara. Piada. Situação passageira e sem importância. O abjeto fragmentado em mil derivados para não revelar a verdade do que é: o terror puro e simples. Hannah Arendt nunca foi tão atual. Deveríamos todos assistir ao julgamento de Eichmann em Nuremberg para quando formos levados a dizer: “mas eu não sabia”, “estava apenas seguindo ordens”. A leveza típica da negação daqueles que preferem se abster em suas vidinhas de poliana ao invés de arcar com o peso insustentável de estarem vivos em um tempo como o nosso. Ninguém quer se responsabilizar por isso que estamos vivendo. Foda-se. A psicanálise nunca foi tão atual e tão indesejável, a nos lembrar incomodamente que, sim, a responsabilidade no final é tão somente sua. Que você saiba ou não.

Mas, tudo bem, não se preocupem. Vocês não estão sozinhos. Palestinos são fuzilados diariamente. Trump separa crianças de seus pais nas fronteiras com o México e as engaiola como no pior pesadelo nazista revivido. Milhares e milhares de refugiados não chegam mais às praias da Europa pois são resgatados, maltratados, violentados, escravizados e reenviados para morrer nalgum canto discreto pelos países que aceitaram fazer o serviço sujo. O verão europeu está garantido, ufa! Como a Copa, Brasil passou para a segunda fase. Vamos tomar uma breja / verre de vin para comemorar?

Quando a música retorna.

Sou daquelas pessoas que sempre teve trilha sonora. Bailarina, a música acompanhava os passos, fazia mover o corpo. A música era corpo.

Mesmo depois que o ballet se foi, a dança ficou e a música também. Música do rádio e do toca discos do meu pai, lendo jornal ao som de Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal. Música de minhas primeiras músicas, discos comprados com a mesada nunca suficiente. Música das festas, primeiros bailes, domingueiras, música eletrônica, festas, lambada, forró, raves… Uma música toca, uma memória retorna, uma época, uma situação. Coisa de rir. Ou de chorar.

Os tempos sem trilha sonora foram tempos difíceis. Tempos em que os sons e as palavras perderam sentido. Acrescentar um som a algumas situações teria sido dor demais. Dor traduzida na dor das canções que traduziriam minha dor demasiado bem para poder olhá-las de frente. Silêncio. Houveram épocas de silêncio.

Depois que ele surgiu na minha vida, a música durou pouco tempo, tão pouco tempo quanto a ilusão do grande amor. Nossa filha nasceu, houve um tanto de música que logo escorreu no ralo das decepções, da falta de apoio, da solidão. Por alguns anos escutar música me feria de morte, até que ela voltou forçada, como uma violência da traição. As músicas que eles escutavam agora invadiam meus ouvidos, prolongamentos dos encontros deles forçados no meu cotidiano. Minhas músicas e minha sensibilidade usadas como isca por quem não tinha o que mostrar nem oferecer.

No desespero, enviava-lhe músicas, na esperança que as minhas suplantassem as dela. Na esperança que ele finalmente entendesse. Ele voltou. Mas apenas para não voltar. Voltou com aquelas músicas e com a convicção de ter vivido algo extraordinário. Às minhas custas, às nossas custas, pagamos todos o preço mais caro pela prioridade absoluta dada aos desejos realizados à qualquer preço. Ela se foi à fórceps, as músicas ficaram como agulhas que rasgam a pele a cada vez que se repetem em algum lugar desavisado.

Essas músicas recentes, elas me doem em lugares que nem consigo explicar. A única sonoridade tolerável por um bom tempo foram as músicas das crianças que embalam nossos trajetos de carro entre casa, creche, escola. Músicas tolas, músicas belas, músicas cantadas com eles, risadas, poder cantar gritado no carro. Agora não mais sozinha, mas com eles. Senti vontade de mostrar minhas músicas para eles, mas o que mostrar? Fomos fazendo listas do que amamos eu e eles, uma Palavra Cantada ali, uma Madonna acolá, Sting, Galinha Pintadinha, Vaiana, Frozen, Rei Leão…

As músicas eletrônicas, as músicas brasileiras, as músicas francesas… tudo ganhou um ar meio fake, forçado, fora de esquadro, distante de mim. Quem eu fui, não sou mais, as músicas deixaram de servir perfeitamente. Como as roupas, os sapatos, as palavras, as frases que sempre me definiram, as verdades, os gostos… Tudo arrastado na avalanche da vida e eu junto.

Daí, outro dia, quis enviar uma música. O que mandar? O que não estaria totalmente contaminado pelo amargor da vida vivida como decepção do sonho negado? Procurei nos arquivos, na memória, nas músicas das crianças, nas músicas recentes… nada.

Em um concerto de um senegalês em um vilarejo de 250 habitantes teve alguém que veio tocar do meu lado. Faz vinho e ama música. Descobri Gäel Faye e as músicas do exílio. Lembrei das músicas debaixo d’água dos filmes de Nery e Gautier… Mergulhar fundo, se lançar… e dançar

Fui tentar oferecer uma música e ela voltou para mim.

Minha mais recente trilha sonora. Sem dor. Ou sem amargor. Ou sem amarDOR.

Apenas vento nos cabelos e a sensação de estar planando em algum lugar ainda cheio de beleza e de vida: aqui.

Pra não dizer que não falei das flores…

Uma das minhas descobertas nessa vida francesa e, especialmente, no campo, são as estações do ano. No Brasil temos verão e inverno, ou um combinado de dias mais ou menos quentes e mais ou menos chuvosos o ano todo. Aqui, a primavera explode dia após dia em cores, formas e perfumes variados. E as flores selvagens que brotam do nada são de uma beleza extrama. Vontade de contemplar e ao mesmo tempo de sair explodindo também em cores e em vida.

Ou algo assim:

Quem gosta de vinho?

Noutro dia escrevi sobre os vinhos naturais, biodinâmicos e bio aqui na França, uma “moda” que começou há mais de uma década e se reforça dia a dia. Em um mundo preocupado em comer saudável e em diminuir tanto quanto possível a quantidade de pesticidas, hormônios e outras químicas com as quais nos envenenamos enquanto comemos, nada mais coerente que se preocupar também com beber saudável. Afinal, não tem muito glamour pensar que você está tomando Monsanto junto com aquele bordeaux de 500 reais, né?

Algumas pessoas por aqui defendem que o vinho natural sempre existiu porque sempre existiram viticultores que não seguiram muito a onda de trabalhar com produtos demais, nem se renderam ao mercado em busca de um sabor fácil, redondo e padrão. Esses viticultores já não trucavam muito o vinho e continuaram não fazendo. Outros perceberam a importância de voltar às bases e foram testar novas velhas maneiras de cultivar, tratar a vinha e produzir o vinho. E uns ainda sentem a pressão atual por um vinho mais limpo e menos padronizado e começam a lançar uma “fornada” bio em meio à produção costumeira. Sinal dos tempos?

Um amigo enólogo me disse outro dia que o vinho que ele aprendeu como sendo vinho é esse das tecnologias, dos pesticidas, das interferências na fabricação. Esse gosto é o que ele entende como “a verdade” do vinho. E segundo essa verdade, um vinho natural não é um bom vinho. Por isso que a maior parte deles não entra nas denominações controladas, pois não se enquadram nos parâmetros do que deve ser um bordeaux, um bourgogne… Então eles são labelizados como vin du paysvin de France, títulos que costumam ser dados a vinhos “menores”. Alguns preferem denominar-se vins libres.

Um vinho livre é aquele que não segue a receita para ser isso ou aquilo, não segue as cépages para poder ser considerado tal ou qual tipo de vinho. Ele mistura, inventa. Ou como disse tão sabiamente esse amigo enólogo, é o vinho que te permite descobrir o que estava escondido por trás daqueles outros cheios de química.

O que existe por detrás de um vinho redondo e arrumadinho?

Eles brincam.

Temos aqui um jardim. E eles brincam. Muito.

Antes, vivendo em apartamento meio sombrio no centro da cidade, a bagunça era maior, brinquedo jogado para todo lado, crianças pulando e gritando, nervosas e entediadas ao longo do dia, precisávamos sair para tomar ar, sol, desanuviar.

Então veio a campagne, o jardim, o sol entre as folhas, as estações do ano entrando pelas janelas.

A natureza tem um efeito direto e quase mágico sobre as pessoas. Pena que nos esquecemos disso empilhados uns sobre os outros, sem horizonte a respirar ar de escapamento. A luz que entra pela janela de manhã regula o sono, o frescor da brisa batendo nas ventas desperta e traz energia, o verde acalma a respiração e o peito.

As crianças acusaram a mudança. Os brinquedos ficam mais arrumados, as explosões motoras acontecem lá fora. Elas descobrem os insetos, as plantas, os ritmos e os sons do cotidiano no campo. O terraço vira a varanda de um castelo, os galhos de árvore viram espadas em um duelo, eles querem plantar as flores e ficam felizes quando descobrem os morangos avermelhando na horta.

Agora mesmo tem um passarão preto pesando em um galho da cerejeira selvagem que, até poucas semanas atrás estava coberta de flores rosas e de um perfume delicado e estonteante. Ele se joga de um galho ao outro e as árvores sacodem de tão brutal visita.

Sim, as crianças assistem filmes na TV. E brincam com seus brinquedos. O pequeno ama os quebra-cabeças e pode passar uma boa hora montando e desmontando 20 peças sobre o tapete da sala. Ou então enfileirar todos os animais de sua arca, imitando o som de cada um deles. Ambos dançam quando a música preenche o espaço, rodando e criando passos insuspeitos recém saídos de seus corpos criativos. Ela ama desenhar, pintar e, principalmente, escrever os nomes. Descobrir as letras que fazem um nome faz com que ela ria, mistério das coisas que viram palavras. Eles pedem que leiamos estórias e depois recontam um ao outro folheando os livros. E brincam.

Lá foram se jogam na rede, guardando o pedaço de brasilidade que lhes cabe e que os aproxima da infância que eu vivi, ao menos um pouquinho. Brincam de casinha e inventam mil cenas curiosas entre leões, unicórnios brilhantes, heróis, princesas, bichos, monstros. Ela por vezes o arrasta pelo braço para seu mundo e ele concorda em participar. Noutras não quer, vai fazer sua vida ali do lado, fascinado por alguma descoberta que insiste em partilhar conosco. Olha, mamãe, olha! Olha, mamãe!

Dizer que a vida é melhor no campo pode parecer coisa de baba cool abestalhado e talvez seja. Porque a vida no campo é mais dura que isso para quem trabalha no campo. Basta ver a rotina dos produtores de vinho daqui para entender que é zero glamour e muito suor. Mas experimentar uma vida melhor, mais simples e mais rica vivendo próxima e com a natureza é legítimo, mesmo para uma urbanóide de toda a vida como eu. Basta ter sensibilidade e abertura para perceber a diferença.

O passarão está ali petiscando pelo chão. E agora voltou a fazer terremoto sobre as árvores. Olha, crianças!