Guernica

Tinha uma reprodução da Guernica em casa quando eu era criança. A pintura em preto, branco e tons de cinza me incomodava. Menina, gostava do que é belo e o belo era o clássico, o tradicional, de fácil digestão.

Picasso me perturbava, aquele quadro me perturbava, dos ismos todos, o cubismo era o que mais me irritava. Mal sabia eu que arte boa é essa que irrita, perturba, incomoda… E permanece. Estava na sala e ali estavam aquelas figuras a me espreitar. A vela com a sombra triangular cinza, o grito da mulher, o bebê. Deitada no sofá em frente à TV e eles todos por ali, como o lugar para onde o pensamento retorna na hora do intervalo. Meus pais gostavam de Picasso, gostavam da Guernica, do cubismo, das vanguardas… Por isso o quadro. Eu não. Eu não entendia nada.

Cresci com esse quadro em casa.

Um dia minha irmã, que sempre foi muito melhor do que eu em tudo, em uma visita a um museu me apresentou a um outro ismo. E diante das instalações de Duchamp me explicou o quanto aquela janela era genial. Olhei, olhei… E vi. Nesse dia começou minha história de amor com a arte. E alguns daqueles quadros tornaram-se tão importantes na minha vida quanto o ar que eu respiro. Perfeitas traduções de mim, das minhas entranhas, do humano demasiado humano em mim e em toda gente.

Em uma viagem à Madrid com ela- sempre ela- passeávamos pelo Reina Sofia. Um misto de atenção flutuante, cansaço de viagem longa de férias de verão, coisa que sempre adoramos fazer juntas. Os corredores do Reina Sofia são um pouco escuros, bem largos, abrigos frescos em dia de verão, contornam um jardim e você os contorna olhando mais para dentro que para fora.

E eis que chegamos ali. Naquela sala. Não sei se minha irmã sabia. Eu não. Na parede estava ele. O quadro. Imenso. Uma imensidão de cinza, branco e preto gritando enorme naquela parede de museu. A Guernica.

Me vi menina minúscula olhando aquele quadro imenso. E entendi o amor dos meus pais por aquele quadro, instantâneo eterno de uma guerra, de uma ditadura, de uma injustiça. O medo, o desespero. A fatalidade. Não é dramático. Não é triste. É um fato seco, surdo, uma arma que dispara e a vida implacável que se impõe e que se estanca.

Gostei e desgostei de Picasso mil vezes nos últimos anos. Gostei e desgostei dos ismos por diversos motivos. Vim para a França fazer pesquisa em arte e psicanálise. Conheci o cara-metade. Mudei para o sul da França.

Aqui estamos nos Pirineus Orientais, vulgo Catalunha do Norte para os locais. Durante a guerra civil espanhola que bombardeou a cidade de Guernica matando milheres de civis, muitos cruzaram a fronteira e vieram se refugiar por aqui, cruzando os Pirineus com frio e fome para serem alojados em campos, um episódio nada glorioso da história francesa que às vezes esquece que foi palco da declaração dos direitos humano. Como ultimamente em relação aos refugiados.

Picasso era catalão. Dali também. Guernica fica no País Basco, outra região de conflitos e de defesa de uma identidade outra que a espanhola. Muitos artistas das vanguardas se refugiaram por essas bandas daqui, em Collioure, em Ceret ou do outro lado da fronteira, em busca das paisagens vertiginosas entre montanha e mar, das cores e da luminosidade indescritíveis. Minha filha e meu filho nasceram aqui. São franco-brasileiros. E são catalães segundo os donos do lugar.

O Brasil voltou a ser uma ditadura e quase ninguém viu. Nesses últimos tempos muitas mães brasileiras gritaram o horror de seus filhos mortos. Entre Marielle, o menino baleado no carrinho de bebê, o prédio incendiado no centro de São Paulo e o dia das mães do domingo passado, Guernica nunca foi tão atual.

Ano passado fomos os 4 para Madrid. Percorri lugares conhecidos e descobri novos, nessa cidade que é tão despretensiosa e tão pulsante. Fiz questão de apresentar minha filha e meu filho às Meninas de Velásquez, ao Jardim das Delícias de Bosch e à toda série negra de Goya. E fomos também ao Reina Sofia.

Lá, passeamos pelos corredores frescos. Adiei o climax por um tempo, só para prolongar o prazer da descoberta. Fui mostrar a Guernica aos meus filhos.

Naquela sala a mesma sensação de reencontrar pela primeira vez o que se conheceu a vida inteira. O estrangeiro familiar. O reencontro com aquele quadro, a casa dos meus pais, as cores, os cheiros, a minha infância e a minha adolescência. Meus pais deram o seu melhor. O reencontro com a minha irmã, aquela conexão que faz o coração doer da distância atual. Meus filhos sentados no chão e eu contando a história. Uma história que passa de geração em geração, minha filha com os olhos brilhando cheios de questões, meu filho em silêncio a contemplar o touro e o cavalo. A vida tem uns caminhos curiosos que te fazem habitar dentro de um quadro de devastação para poder semear depois.

Parabéns, Sis. Te amo.

Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

Quem gosta de vinho?

Eis algo sobre o que nunca tinha pensado antes de começar a pensar: os vinhos, como todos os produtos alimentares em nossos dias, podem ser modificados e conter uma imensidão de produtos químicos. Quem já tinha se dado conta que, também para os vinhos, temos que considerar a opção bio?

Beber melhor e mais saudável, eis algo que um número cada vez maior de viticultores se preocupa na França. Retornar às raízes, retornar ao sabor das raízes, mágica que os vinhos deixaram muitas vezes de fazer, tendo que se adaptar ao consumo de massa e ao sabor médio buscado pela maioria. O gosto fácil ou a ousadia dos sabores específicos? Eis a questão.

As uvas, os vinhedos, podem ser tratados com uma quantidade mais ou menos importante de pesticidas e eles vão parar no vinho. Assim como umas ou outras coisinhas que os viticultores vão acrescentar para “arrumar” o vinho na hora da produção. Por aqui, descobri que tem quem coloque açúcar, sulfitos além dos naturais vindos da própria uva, conservantes. Quando abrimos uma garrafa, aquilo que chega no nariz e na boca é o conjunto da obra, ou seja, as uvas, o terroir e toda a porcariada que eventualmente o viticultor terá acrescentado para que o vinho seja redondo e que ele agrade ao gosto e às exigências de seus consumidores. O que é uma pena, se pensarmos bem, pois um vinho é uma descoberta tão incrível e inesperada do lugar onde ele foi feito que trabalhar para torná-lo palatável como todos os outros é tirar dele o que o faria único. E nisso a diversidade se perde.

Pois bem, por aqui encontramos mais e mais viticultores passando ao bio, ao natural e ao biodinâmico. Colheita manual, sem uso de pesticidas, sem acréscimo do que quer que seja, fermentação com o uso apenas de produtos naturais, doses de sulfitos acrescentados bem menores do que se vê por aí. Uma pequena revolução, feita por apaixonados do terroir, essa beleza poética que é como chamam por aqui a terra, a terra de cada pequeno terreno que muda de um metro a outro.

Descobrir um vinho natural é desafiar os hábitos que temos, o gosto que pica na boca, a espera de que o vinho aere, uma certa opacidade… coisas esquisitas. Uma descoberta e tanto, especialmente para paladares habituados aos sabores bem alterados.

Um vinho é uma descoberta. Tenho descoberto nesses vinhos bio, biodinâmicos e naturais todo um mundo novo dos gostos não redondos, que não aparam arestas, que não maquiam nem disfarçam nada. Um vinho vivo, é o que dizem. Um vinho como um ser humano, cheio de falhas e idiossincrasias. Um deleite.

Vins naturels.

Vins naturels, algumas sugestões.

Ainda sobre vinhos bio, naturais e biodinâmicos.

Errâncias

Sempre gostei desse termo, errâncias. Errar como um misto de vagar, se perder, sair sem rumo. Não necessariamente com uma conotação ruim, errância não apenas como algo potencialmente angustiante, mas como uma quase liberdade da ausência de rota.

Quando cheguei aqui, o que mais me encantou nessa vida de estrangeira foi ter a liberdade de errar. Tornar-se um livro branco, zerado, em que o futuro poderia ser construído a partir de um presente no qual eu parecia ter a possibilidade de inventar o que quisesse. A angústia frente ao papel branco com tudo por escrever tornou-se o prazer do papel branco, do reinventar, do começar de novo.

Claro, ninguém parte do zero e nenhuma vida, a partir do momento em que começa, nos permite recomeços sem nenhuma marca, sem nenhuma história. Podemos jogar o passado para debaixo do tapete e usar a estratégia do avestruz mas a vida sempre tem um jeito de reapresentar os mesmos impasses.

Então estava aqui em uma vida nova que pode acontecer justamente porque eu aproveitei toda a bagagem de minha antiga vida, sem recusá-la. Meus estudos, meus talentos, minha curiosidade pesquisadora, todo um percurso profissional que permitiu que eu pudesse vir e viver o novo aqui tendo como ponto de apoio a pessoa que tinha sido e o caminho que construi.

Levei muitos e muitos anos e um bom tanto de psicanálise pessoal para poder existir, ter alguma coerência comigo mesma e sentir-me bem na minha pele. Engraçado como estar vivo não é algo que se conquista compulsoriamente por meio do nascimento. Estar vivo se constrói, se conquista. Levei pouco mais de 30 anos para ter isso, me ter, me sentir, ser. Supondo que possa ter existido no começo e me perdido em algum ponto, coisa de que não tenho muita certeza, mas prefiro acreditar assim do que imaginar que tenha nascido e vivido sem existir até mais ou menos meus 35 anos.

Não há nada de novo nisso. Muita gente, se não a maioria, vive nesse limbo da não existência, um minuto após o outro, um dia após o outro, a vida acontecendo e tombando sobre suas cabeças e tendo como resposta o eco de um vazio de vida, um vazio de existência, um nada de ser. Muita gente não sente a vida correr pelas veias, não sente o tempo, não sabe o que é perder o fôlego em um instante de presença absoluta. Muita gente apenas passa e a vida passa por elas até se extinguir e ir se instalar em outro lugar, em outra gente, em outra potencial história.

Quando finalmente me encontrei em mim e experimentei esse deslumbramento com a vida, foi quando vim para cá. E a vida acontecendo não espera que a gente aprenda a respirar e a existir, ela simplesmente vai. E você acompanha ou não. E foi nesse fluxo que encontrei o homem com quem imaginei poder construir minha vida. E foi nesse fluxo vertiginoso e inebriante que tive meus filhos. E é aí que a história se desloca.

Porque a maternidade desloca a gente, desconjunta, desmonta, desterritorializa. E isso é coisa que só entende vivendo, mesmo que a teoria pareça de uma grande evidência. A proporção, a intensidade desse deslocamento é algo que se vive ou não se sabe. E então me vi, depois de tantos anos trabalhando para chegar em algum lugar em relação a mim mesma, posta novamente para fora de mim.

Onde a coisa se complica é em não saber até onde esse deslocamento foi obra de tornar-me mãe e até onde ele se radicalizou tanto por conta do contexto em que me tornei mãe: estrangeira, vivendo em outro país, mudando para uma cidade e uma região em que não conhecia ninguém, tendo por parceiro nessa jornada um homem com um passado mal resolvido, um modo de funcionar bastante duvidoso e que muito rapidamente me deu todas as mostras de que não iria sustentar nada… Até que ponto foi ser mãe ou ser mãe aqui, junto com esse homem, nessas circunstâncias tão dolorosas o que me tirou do prumo para nunca mais?

A pessoa que eu era foi como que arrancada de mim. E no entanto ela está aqui, é quem permite que eu possa pensar dessa maneira, trabalhar como trabalho, ter certos valores, uma certa posição ética, uma capacidade de amar… Mas apesar de estar presente, ela não existe mais. Não sou mais essa pessoa, não falo igual, não penso como, minha aparência mudou. Tem horas em que me sinto apenas rio correndo no vai da valsa, seguindo a correnteza sem nem poder existir. Tem horas em que luto, quero me segurar em alguma coisa, ser. Ter aquela alegria de viver a errância como libertação. E não como agonia. Sentir-me envelhecendo e o tempo passando e levando alguma coisa de muito importante que nunca mais vou recuperar.

Isso é consequência da maternidade? Não, porque ter me tornado mãe não me trouxe arrependimento. Não gostaria de ter continuado naquela vida em que ainda não tinha filhos. Ter filhos não me deixou no vazio, sem perspectiva, sem projeto, apenas passando e sendo passada pela vida. Perdi-me de mim, sim, mas essa foi a errância que liberta.

Será que é porque estou envelhecendo? Talvez. Penso nisso às vezes, se essa perda irremediável não é o primeiro sinal de que a vida ultrapassa aquela curva a partir da qual a gente vislumbra mais os finais do que os começos. Mas então penso que daqui a dez anos vou lembrar disso que estou escrevendo hoje e vou me achar muito idiota por ter pensado dessa maneira aos 40 e poucos, quando ainda não era o fim, quando ainda havia tanto tempo. E a gente tem uma tendência estranha em decretar o fim bem antes do tempo, bem antes que ele esteja realmente próximo, deve ser para ter a última palavra, para não ser pego de surpresa, para achar que somos nós que decidimos e não a vida ela mesma… Vai saber…

Talvez sejam as circunstâncias que tornem tão difícil as reconstruções sem pontos de apoio. Errância é libertação mas também é tentar se apoiar suspensa no ar. O exílio não é fácil mesmo quando é promessa.

Quem paga o preço?

Nos últimos tempos, especialmente depois da crise político-econômico-social que anda devastando meu querido Brasil, vira e mexe escuto gente dizer que vai mudar de país. França, Itália, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá… Qualquer destino de primeiro mundo com o qual tenhamos alguma familiaridade parece perfeito como válvula de escape de um Brasil caótico, violento e avacalhado. Nessas horas, as pessoas se lembram dos amigos que moram fora e vez ou outra decidem ter essa conversa comigo. Aí é que é bom… país de m-primeiro mundo, gente educada, povo civilizado. Então eu lanço mão daquela perguntinha capciosa que qualquer pessoa honesta que more em outro país se vê na obrigação de fazer quando um de seus compatriotas cogita vir para cá: “sim, sim, é tudo muito bom mas, diga lá, você aceita pagar o preço?”

Viver em um país civilizado tem um preço e, lamento dizer, custa caro. Sim, caro financeiramente e mais caro ainda em termos de mudanças de hábitos e de costumes.

Um exemplo: é época de declarar imposto de renda por aqui. Como aí. Mas diferentemente daí, pelo menos 25% do que eu ganho como profissional liberal já foi pago em encargos sociais. O quê? Sim, isso mesmo que você leu: encargos sociais. Aquilo que a gente paga para financiar todos os benefícios sociais de um país, como saúde pública, educação, auxílios sociais, aposentadoria… Pois é, 1/4 do que eu ganho paga os benefícios aos quais eu e mais todas as outras pessoas daqui teremos direito a usufruir. E ainda nem comecei a falar de impostos. Porque esses vão levar mais ou menos uns 10% do que eu ganhei. Para pagar toda a estrutura que existe por aqui. Segurança, infra-estrutura, cultura…

Imagino que existam pessoas que soneguem imposto por aqui. Mas é algo tão ínfimo, mas tão ínfimo que quando sua declaração mostra que você tem direito a uma restituição, ninguém te chama no equivalente da receita federal para você prestar contas. Ninguém desconfia que você poderia estar dando um truque. Eles te mandam um cheque que chega na sua casa pelo correio e que ninguém rouba, pasmem! E junto do qual vem uma cartinha-tipo do diretor da receita dizendo que eles estão felizes em te enviar aquele cheque. Felizes. De te enviar um cheque de restituição. Porque é seu direito. Percebe? Um modo de funcionar baseado na confiança em que cada um vai fazer a sua parte em nome de um bem comum que vai beneficiar a todos.

Aqui todo mundo tem direito aos benefícios sociais. Sabe aquele bolsa-família que você despreza no Brasil como se fosse uma esmola dada para vagabundo? Então, aqui o equivalente disso é creditado na conta de toda família que tem filhos, de acordo com sua renda. Toda família. Rica ou pobre. Com um filho ou com dez. Proporcionalmente. Percebe o que é uma mentalidade na qual se compreende que é importante dividir um pouco dos benefícios criados por todos entre todos? Porque é isso que vai diminuir as desigualdades e criar uma sensação de justiça e de proteção. É o que vai dar às pessoas a convicção de que elas contam. Ou seja, é isso que vai fazer com que você possa sacar seu telefone celular último tipo no meio do metrô lotado no final do dia sem que ninguém arranque ele das suas mãos e saia correndo. Não tem assalto? Tem. Não tem roubo de carteira, celular, máquina fotográfica no metrô? Tem. Mas você pode usar seu celular no metrô. E sua máquina fotográfica pode ficar pendurada no pescoço quando você está turistando no meio da rua olhando para todos os lados como um abestado. E você pode abrir sua carteira no meio da rua para procurar uma moeda. E você pode andar com brinco, anel, colar. Em tudo quanto é lugar.

Sabe o que é isso? Eu, vivendo em São Paulo, não sabia. Isso é o que você ganha quando aceita pagar o preço de viver em um mundo mais justo do que aquele em que vivemos no Brasil. Isso é o que você ganha quando aceita que sua empregada doméstica tem a filha na mesma escola que você, tira férias como você, viaja de avião, tem carro, ganha 10€ por hora, é registrada e não tem nenhuma obrigação de limpar a merda que você deixa na privada ou de recolher suas meias sujas pela casa.

Então me soa bem estranho quando escuto as pessoas dizendo que vão morar aqui. As mesmas pessoas que desprezam os benefícios sociais e as pessoas que deles usufruem e que aplaudem a retirada dos mesmos e dos poucos direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas. E que acham que quem paga imposto é otário e arrumam mil gambiarras para sonegar tudo o que for possível. E que se justificam com a balela do “por que vou pagar se não tenho nada em troca?” E que preferem não pagar do que reivindicar saúde e educação de qualidade nos serviços públicos. E utilizá-los.

Infelizmente no Brasil crescemos com uma mentalidade meio perversa segundo a qual o mundo teria que mudar para então começarmos a agir certo. Porque o mínimo deslize do lado de fora de nós justificaria que possamos continuar a fazer tudo do jeito que queremos. No dia em que o país mudar a gente para de ser desonesto, né? Pois é, não. Não é assim que a coisa funciona. No dia em que você parar de ser desonesto você terá começado uma mudança. E então poderá exigir do mundo ao seu redor que ele também mude. Pague o preço.

 

As belezas daqui…

Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que eu iria viver em um vilarejo de cerca de 300 habitantes e, ainda por cima, que iria adorar, eu trataria a pessoa de louca. Na minha cabeça urbana cosmopolita workaholic nunca existiu espaço para imaginar que a vida poderia ser outra coisa que prédios altos a perder de vista, gente saindo por todos os lados, 12 horas de trabalho, carro, casa, carro, consultório, carro… Mesmo tendo passado todos os verões da minha infância e juventude na beira do mar e todos os invernos no meio do mato. Mesmo sentindo o bem que me faziam esses momentos misturados de quebra de rotina e imersão na natureza. Mesmo tendo pensado, em algum momento, em morar no interior de São Paulo sem nunca realmente fazer algo de concreto nesse sentido… Não. Precisei vir para o “centro do mundo” para conhecer o alento que é poder sair de casa e ter um horizonte no qual pousar os olhos. Horizonte assim, com montanha, com mar, com céu, com sol, com nuvens…

O caminho que sai do vilarejo até levar as crianças na escola e eu ao trabalho passa por montanhas baixas. Cercado de vinhedos dos dois lados, acompanhamos o trabalho dos vinicultores todos os dias. As flores começam a aparecer pelas amendoeiras selvagens nas bordas da estrada. São rosadas e têm um perfume enlouquecedor de bom. Depois vêm as flores brancas esparramadas pelos campos, as amarelas, algumas azuis quase violetas… Cada um com seu cheiro, disputando a preferência de abelhas e outros insetos que começamos a ouvir zumbir por todo lado. É a vida que reaparece depois do inverno, que é longo.

O Canigou, a montanha mais conhecida da região e sua forma de dente de cachorro aparecem lá no fundo, uma imponência branca de neve que ainda não derreteu, contraste entre a vida que a primavera anuncia e o inverno que ainda não se foi por completo. Essa montanha que você reencontra em vários percursos que faz ao longo do dia, como a visão do Corcovado e do Cristo que se tornam um porto seguro do olhar de quem mora e se desloca pelas ruas do Rio de Janeiro. Cada esquina a surpresa apaziguadora de trombar com o Cristo ali no alto. Cada curva de estrada e a surpresa de reencontrar essa montanha.

De um lado, as montanhas seguem enevoadas até que uma pequena se destaca, ali onde chamam de Força Real. Sobre ela uma antena, duas construções de épocas diferentes, uma delas um antigo monastério e uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos incrédulos já descobriram nessa vida. Montanha, mar, neve, sol, inverno, verão, tudo ali num único giro de 360°. Do outro lado, as montanhas seguem até o mar, não sem antes desfilar suas torres antigas, como a Madeloc. Quando o dia é bonito, pode-se ver até a Espanha.

Nos aproximamos e nos afastamos da montanha, percorremos planícies, plantações, vinhedos, atravessamos por sobre o rio Têt, mais montanhas, mais planícies, os ângulos mudam sobre a paisagem que nos cerca, sempre a mesma e sempre tão diferente. Cada dia é uma nova luz, cada dia permite a descoberta de um ângulo, de um detalhe. Difícil ficar imune a um tal antídoto contra a ansiedade, a tristeza ou a raiva. Não sei se seria capaz de voltar a viver longe da natureza.

Terra de ninguém…

Já há alguns anos tenho pensado na ascensão de uma lógica perversa nos modos de existir pessoais e coletivos da humanidade em nosso tempo.

Explico: Freud, há mais de cem anos atrás, trazia à luz pela fala das histéricas a neurose. Neurose como modo de existir eminentemente cindido entre o desejo e sua perpétua não realização. Uma existência na qual os limites inviabilizavam o trânsito livre entre o querer e o poder desde os inícios da vida. Existência que todos aceitavam como espécie de pacto civilizatório afim de se protegerem do risco do pior que seria a prevalência do domínio pela força.

Freud era, acima de tudo, um homem do seu tempo. Ele falava, pensava e agia em coerência com a sua época. Uma época em que a civilização ocidental estava em pleno apogeu e onde a neurose podia se instaurar como a condição existencial predominante. Era possível sofrer de não querer participar de um clube que nos aceite como sócio. Freud viveu em uma época “neurótica”.

Ironicamente, ele viveu o começo do fim desse período áureo. Se eu tivesse que colocar um marco inicial (ou final) nesse momento da história da civilização, arriscaria que, ao menos para o mundo ocidental eurocêntrico esse fim começou com o holocausto. Que obrigou Freud a fugir de Viena. E o fez perder parte de sua família. A partir desse momento, Freud começou a se tornar obsoleto. Porque, penso eu, inauguramos aí um novo tempo, uma época perversa.

A perversão, para esse mesmo Freud e para a psicanálise em geral, diz respeito à ausência da lei. Não mais o sujeito cindido entre seu desejo e a impossibilidade mas um indivíduo para o qual a impossibilidade não se aplica. Sim, a lei existe. Mas ela não lhe diz respeito. O que faz com que para todo perverso a satisfação de seus desejos seja a justificativa última frente à qual qualquer impedimento deve tombar. Sua lei é a força que o autoriza a contornar qualquer limite.

Eu poderia escrever aqui sobre esse modo de existir perverso que grassa as relações humanas e o tecido social de forma cada vez mais aparente, insistente e assustadora através dos mais diversos exemplos. O que não falta nos nossos dias são situações que mostram que alguma coisa no funcionamento humano e no funcionamento social disjuntou fazendo com que pessoas se sintam cada vez mais legitimadas em fazer de suas vidas e de seu estar no mundo um projeto pautado pelo simples mantra do “meu desejo acima de tudo”. Substitua desejo por felicidade, liberdade, prazer, sucesso profissional ou o que quiser e eis a fórmula mágica que elevou o hedonismo à modo de vida e justificativa para todo o qualquer ato em toda e qualquer circunstância.

Não, isso não é uma pregação e nem um elogio ao sofrimento. Bem o contrário.

Quando um neurótico entra (ou entrava) pela porta do consultório de um analista, seu sofrimento dizia respeito àquilo que ele pensava, sonhava, desejava. Era um sofrimento do querer e não poder. Um neurótico nunca faz o que quer e daí seu conflito fundamental, seu desacordo consigo mesmo. E é aí que ele se torna presa fácil de um perverso que, justamente, realiza o impensável: ele faz o que quer.

Perversos raramente entram no consultório de um psicanalista. Ou melhor, eles nunca entram num consultório perturbados por aquilo que fazem. O mais provável é que venham, se vierem, surpresos quando algo no mundo finalmente impõe uma barragem a seus atos. O que é visto como uma afronta, uma imensa injustiça à qual eles vão responder com mais ou menos violência. Um neurótico vê num perverso um ídolo que faz exatamente aquilo que ele não consegue: ele passa ao lado da lei. Sem maiores consequências. Porque ela não vale para ele.

Vivo há mais de sete anos em um país em que, mesmo com a ascensão dessa lógica perversa batendo à porta das individualidades e das instituições, ainda operamos de um modo neurótico, cindido, em conflito, tateando satisfações parciais e acatando limites frustrantes. Por aqui existem bandidos, existem crimes, existe corrupção, existe fraude, existem mentiras. Mas as pessoas e as instituições de modo geral não funcionam estruturadas em cima disso. Existe um imenso pudor em relação a um certo aspecto do humano que, por aqui, ainda concordamos que deve ser evitado. Dobrado, domesticado, enjaulado em nome de um bem comum. Denúncias envolvendo mentiras nos âmbitos mais públicos ou privados ainda causam constrangimento e vergonha. E ainda são punidas nos rigores de uma lei que funciona. Para todos. Aqui se paga impostos altíssimos e se usufrui dos benefícios que esses impostos geram. Aqui as pessoas reclamam da “superproteção” do Estado, mas toda a qualidade de vida que se têm num país como a França está assentada nessa mesma proteção que a maioria defende a cada vez que ela se vê ameaçada. Aqui ainda se faz greve, ainda se reclama das greves. E ainda se apóia greves.

E vejam que a França não é um país tão maravilhoso quanto pode parecer a quem contempla a beleza luxuriante de suas maiores cidades inebriado por tudo o que faz sua excelência mundo afora, dos vinhos e das comidas às roupas e aos perfumes. Aqui existe fome, pobreza, precariedade, desigualdade e violência. Qualquer cidadão de um dos países da Europa mais ao norte poderá dizer dos franceses que são sujos, agressivos, flexíveis demais em relação às regras… Questão de perspectiva, daquilo que você tem como parâmetro de comparação.

Foi vivendo aqui que comecei a pensar que o Brasil é um país baseado na lógica da perversão. Nascemos e crescemos banhados numa cultura e num modo de funcionar no qual a mentira é lei. Mentira que fomos descobertos em 1500. Mentira que “catequizamos” os índios. Mentira que abolimos a escravidão. Um país inteiro assentado em um mar de mentiras todas visando contornar a verdade de uma nação de predadores criada para explorar tudo e todos a seu redor em prol única e exclusivamente de um ganho pessoal, de um prazer pessoal. A defesa do interesse próprio ou de um grupo. Essa é a lei que nos orienta desde o começo. A lei perversa. A lei da força.

Essa lógica que atravessou séculos, instituições e indivíduos impediu que valores básicos fossem verdadeiramente instituídos. Um exemplo; o respeito. Dos outros, das instituições, dos bens coletivos, das diferenças… de que se trata? Em um país no qual todos a exceção da minha própria pessoa são coisas mais ou menos valiosas das quais posso dispor como assim desejar… Minha mulher de exposição, minha família vitrine, meu carro cartão de visitas, meu celular, minhas roupas, minha casa, minhas férias…

O Brasil é um país criado sobre a crença de que aquele que tem poder é imune a toda e qualquer limitação. Experimente dizer a qualquer pessoa que detenha algum privilégio que ela “não pode” qualquer coisa. Você sabe com quem está falando? Todo mundo é alguém. E todo mundo sabe mil maneiras de contornar o “não pode”. A violência faz recuar qualquer regra, rabo entre as pernas.

No Brasil, as pessoas de toda e qualquer classe social acostumaram-se com esse funcionamento perverso. Que sejam elas os mais fortes, detentores do poder e imunes à lei ou os mais frágeis, desprovidos de tudo, todos acatam e se submetem a essa lógica. Ainda que ela funcione contra eles mesmos. Ninguém acredita na lei, ninguém confia na polícia, todo mundo sonega imposto e todos sabem que podem tentar resolver um impasse na base da porrada. Essa é a lei da força, a lei da violência, o modos operandi da perversão incrustado em todos as esferas de sociedade. Um modo que parece tão evidente, tão natural que se torna a cultura de um povo. O famoso e execrável “jeitinho brasileiro” alçado à condição de valor nacional.

Foi morando em outro país que descobri que esse jeito brasileiro não é natural, não é óbvio. E, principalmente, não é aceitável. Ele é a principal razão pela qual não somos e nunca seremos uma França. Porque ninguém, no Brasil, quer pagar o preço de ser uma França. Todos querem viver numa França particular criada às nas costas de todo um resto. Um resto de gente que pode ser um Haiti, não importa. Sem perceber que é essa a lógica que faz com que a França nunca seja uma realidade por aí.

Existe certamente um 0,0001% de brasileiros para quem essa lógica funciona. Porque eles são os mais fortes, os mais poderosos, os que tiram todos os benefícios dela. O leão chefe que tem todas as fêmeas, toda a comida, todos os filhotes, todo o território, saca? E existe todo o resto. Resto mesmo. Uma parte desse resto se sabe resto, foi resto a vida inteira, é resto há gerações. E se submete. Outra parte desse resto que sempre foi resto se revolta, faz, fala, grita, clama. E é assassinado, morto, estuprado, arrebentado em mil pedaços e exposto em praça pública para servir de exemplo para quem mais tiver a ousadia de abrir a boca.

E existe uma terceira parte desse resto. Uma parte que vive numa bolha de mentira, agindo a perversão em favor dos outros. E se acreditando parte do 0,0001%. Essa é a parte mais assustadora. É a parte que não vê o holocausto acontecer. Que segue normalmente com sua vida. Que engole as merdas que lhes oferecem como se fossem “a verdade”. Sem pensar. Sem perguntar. Sem agir. Sem viver. Essa gente são eu, você, seus amigos, sua família, qualquer um que nasceu ou viveu em um contexto no qual um pequeno privilégio serviu para que se acreditasse estar do lado da exceção, do lado que poderia escapar à regra: ser homem, ser branco, ser hétero, estudar em escola particular, ter plano de saúde, ter casa própria, ter trabalho, fazer faculdade…

Esse terceiro resto, nos últimos anos, foi esmagado entre o guloso 0,0001% que abocanhou uma parte cada vez maior do bolo que deveria ser comum e o resto. Resto do qual não quer fazer parte. Resto do qual não pode ser parte. Pois ver-se parte do resto seria ver-se desprovido do seu universo de mentiras, de verdades mentidas e cagadas desde seus antepassados, mentiras disfarçadas de “você pode”, “você é”. Todo mundo quer ser alguém, todo mundo quer existir. Mesmo que seja de mentira.

E daí vem a parte mais cruel desse modo perverso de existir chamado Brasil. Um país no qual tudo o que foi e tudo o que é feito contra essa lei do mais forte é simples e sumariamente abortado. Mesmo que isso signifique depor Dilma. Mesmo que isso signifique assassinar Marielle. Mesmo que isso signifique condenar Lula sem provas. E, acima de tudo, mesmo que isso signifique dar carta branca para que o ódio mais basal contido nas entranhas de cada ser humano se sinta autorizado a sair e a se expressar. Em atos. Em violência. De todos contra todos.

O Brasil não é um país civilizado. O Brasil é uma barbárie que mal conteve seus impulsos mais primordiais nos últimos 500 anos e que explodiu na última década quando tentava ser outra coisa que o Brasil. O Brasil se recusou a pagar o preço de ser outra coisa que o Brasil. A lógica perversa que grassa em nossas entranhas nos fez acreditar que era muito, que era injusto, que não tinha nenhum motivo para aceitarmos tantas limitações ao nosso poder de poder tudo. Estão cortando o mal pela raiz. Que é para que nunca mais nada germine por aí.

Eu tive que crescer e amadurecer muito e durante muito tempo para algo germinar em mim. Tive que vir morar noutro canto desse mundo para ver que nada disso que existe no Brasil é óbvio. Nem natural. Tive que me tornar a imigrante, o resto indesejável de todo e qualquer país europeu para entender de que lado estava. Para entender que aí, no Brasil, sempre fui resto. Acreditando que era 0,0001%. Trabalhando para o bem desse 0,0001%. Vivendo da mentira de que meus privilégios me garantiriam o salvo-conduto de estar do lado do vencedor. Não garantiram. Nem a ilusão de estar naquele clube exclusivo e de fazer parte.

Nem para mim, nem para todo o resto. Perdi muito. Perdemos todos. Perdemos muito mais do que podemos compreender. E ainda mais no dia de ontem. Não pelo julgamento e pela prisão de uma única pessoa. Sem provas. Mas pelo que isso representa. Pela mensagem que esse ato veicula.

Os perversos fazem aquilo que os neuróticos mal ousam sonhar, sentindo-se por demais culpados. Os perversos fazem. E fizeram. E gozam o gozo inebriante daqueles que fazem. Uma nação inteira siderada por esse gozo e por essa ação. A mensagem está dada. A mensagem está clara: quem manda no Brasil são eles. Tudo ali existe para o seu bel prazer. Tudo. Inclusive você. E eu. E ainda contribuiremos com isso. E ainda endossaremos sua causa. E ainda enriqueceremos seus bolsos. E seus gozos. E ainda riremos disso tudo e acharemos que justiça foi feita. E ainda nos veremos do lado errado, desejo desesperado de fazer parte de alguma coisa. E ainda mais, e por muito tempo, se não percebermos no espaço de uma vida quem realmente somos. E de que lado estamos.

Você já acordou hoje?

Quem gosta de vinho?

 

O vinho segue os ritmos e os caprichos da natureza e o inverno é a época da poda, da taille. O primeiro gesto que o vigneron faz para preparar as vinhas para a colheita do ano. Então, todas as manhãs quando saio com as crianças para a escola, a paisagem de vinhas é entremeada de carros esparsos estacionados em estradas de terra. E um ou dois indivíduos que se movem lentamente entre as vinhas, meticulosamente cortando alguns galhos, num gesto preciso. As vinhas adquirem variadas formas, uns galhos finos brotando dos pés, uns galhos compridos, outros tão curtos… A paisagem das vinhas nessa época é em tons de marrom e ocre, sem folhas, sem flores, sem frutos, apenas as linhas retas da terra revirada, os fios, as vinhas… A montanha nevada ao fundo e as amendoeiras em flor dizem que nesse encontro de estações alguma coisa germina. Alguma coisa se prepara.

O primeiro vinho pelo qual me apaixonei nessa região foi o vinho de Collioure. Como se não bastasse a essa cidadezinha ser uma das mais charmosas da região, na beira do mar, cheia de estreitas ladeiras e construções antigas, Collioure com seu exclusivo farol, seu forte no centro da cidade impressiona artistas desde os 1900. Encantados pela luz, pelas cores, pela paisagem, pelo magnífico encontro entre montanha e mar, não poucos ali se instalaram, de maneira mais ou menos perene, a pintar a beleza contida de uma cidade encravada entre o azul do mar, a tour Madeloco solo rochoso entre o preto acinzentado e o marrom sanguíneo, tudo sempre mais explosivo e monumental do que ela. E as vinhas… Collioure é cercada de vinhas penduradas em montanhas íngremes e impossíveis, um capricho do homem a se impor em lugares tão improváveis. E o vinho desse lugar… Os tintos são poderosos e deixam uma lembrança longa na boca. Sem pesar, sem amargar, eles são redondos e ricos, uma benção. E os brancos… ah, os brancos. Amar vinhos brancos foi algo que descobri aqui na França, eles têm gostos tão variados, tão surpreendentes. E os de Collioure são cheios de sabor.

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Para saber mais sobre a taille. Outro texto.

Cansada…

… de você. Y’ en a marre… do seu egoísmo, do seu discurso autocentrado. Sua indiferença. Sua maneira de usar as pessoas.

Nós, uma vitrine para mostrar aquilo que você não tem. Nós, uma esponja da sua infelicidade. Como patos preparados a se tornarem foie gras, sufocados com tudo o que você nos enfia goela abaixo. Você fala, fala, fala até se esvaziar de toda a sua merda que sou forçada a engolir enquanto duas crianças clamam por atenção sem receber nada, privados de mim por sua causa, sempre privados, afastados, interceptados em pleno vôo porque você, sim você, sempre você precisa de atenção, precisa de mais, precisa de tudo. E quando você lembra que eles existem é para dar aquilo que você quer, quando você quer… e deixá-los falar sozinhos quando não te convém.

Há cerca de um ano você olhava para eles enojado e não hesitava em dizer que eles te cansavam. E que sua vida era sufocante, chata, sem sentido e infeliz.

Então, por que voltou? O que está fazendo aqui além de vampirizar nossas vidas, nossa existência, nossas alegrias, nossas riquezas?

Você é um predador, você tem todos os direitos. Seu desejo é seu guia absoluto e tudo é permitido se você assim o quer. Porque você faz o que quer, você faz o que quer, você faz o que quer. Você faz o que quer, custe o que custe. Aos outros. Porque você nunca paga conta alguma.

Quantas vezes sinto nojo, nojo, nojo de você. Tanto nojo que chego quase a vomitar todo esse nojo da pessoa que você é. E daquela que me tornei de tanto conviver com você.

A pessoa que me tornei, perdida, vazia, triste. Lutando a cada dia para sobreviver e para encontrar forças. Em algum lugar. Sem tirar das crianças, sem pesar sobre eles. Enquanto você fala, fala, fala das desgraças que chegam como consequência de seus próprios atos. Escrotos. Desonestos. Perversos.

E você ainda se vê como vítima de uma perseguição da qual você não seria em nada responsável. Por que você voltou?

Por que prometeu mundos e fundos e se comporta como quem não deve nada, como quem não deve reparar nada, como quem faz um favor?

Trilha sonora do dia: 🎼🎧🎤

Eu gostaria de…

… ser capaz ainda daquilo que aqui chamam de insouciance. Uma certa inocência, uma certa despreocupação. Mas parece que isso é privilégio de uns tantos jovens. E de uns tantos qua nunca tiveram filhos. E de uns tantos que nunca foram viver em outro país. E de uns tantos que nunca foram traídos. Cada experiência de vida nos marca no seu melhor e no seu pior, quer queiramos ou não. Não existe isso de jogar para debaixo do tapete esperando que o tempo traga esquecimento e indiferença. Existem rios de superfície calma por onde transitam intensas correntezas. Ou o recalcado sempre retorna, se quisermos ser psicanalíticos.

O problema da perda da inocência é que é algo que não se refaz. Como em Matrix, o filme. Uma vez que você escolhe o comprimido vermelho não têm mais volta. Alguns acontecimentos da vida fazem o mesmo com a gente, sem precisar de comprimido algum. A experiência de análise também pode agir assim. Então, para aqueles cuja perspectiva de uma maior consciência de si mesmo possa parecer aterrorizante, nada disso é uma boa idéia. Viver é perigoso. Viver nos aproxima de verdades muitas vezes indesejáveis.

O pior em perder a inocência é o pesar, essa dor profunda e silenciosa que pesa no peito e extravasa em suspiros. Perder a confiança não apenas em uma pessoa, mas nas pessoas em geral. Saber que palavras são fumaça e projetos de vida são certezas que perdemos em um instante. Nada é tão sólido que não possa mudar. Nem o amor não é garantia de nada. O amor é palavra, é fumaça, é rio que corre entre os dedos. Perder a confiança em uma pessoa e no seu amor, perder a confiança nas pessoas e nas garantias que o amor parecia dar. Isso é perder muito. Mas é algo que umas tantas pessoas vivem. Todos os dias. E vivem depois sendo outra pessoa, bem diferente de tudo o que foram até então.