Terra de ninguém…

Já há alguns anos tenho pensado na ascensão de uma lógica perversa nos modos de existir pessoais e coletivos da humanidade em nosso tempo.

Explico: Freud, há mais de cem anos atrás, trazia à luz pela fala das histéricas a neurose. Neurose como modo de existir eminentemente cindido entre o desejo e sua perpétua não realização. Uma existência na qual os limites inviabilizavam o trânsito livre entre o querer e o poder desde os inícios da vida. Existência que todos aceitavam como espécie de pacto civilizatório afim de se protegerem do risco do pior que seria a prevalência do domínio pela força.

Freud era, acima de tudo, um homem do seu tempo. Ele falava, pensava e agia em coerência com a sua época. Uma época em que a civilização ocidental estava em pleno apogeu e onde a neurose podia se instaurar como a condição existencial predominante. Era possível sofrer de não querer participar de um clube que nos aceite como sócio. Freud viveu em uma época “neurótica”.

Ironicamente, ele viveu o começo do fim desse período áureo. Se eu tivesse que colocar um marco inicial (ou final) nesse momento da história da civilização, arriscaria que, ao menos para o mundo ocidental eurocêntrico esse fim começou com o holocausto. Que obrigou Freud a fugir de Viena. E o fez perder parte de sua família. A partir desse momento, Freud começou a se tornar obsoleto. Porque, penso eu, inauguramos aí um novo tempo, uma época perversa.

A perversão, para esse mesmo Freud e para a psicanálise em geral, diz respeito à ausência da lei. Não mais o sujeito cindido entre seu desejo e a impossibilidade mas um indivíduo para o qual a impossibilidade não se aplica. Sim, a lei existe. Mas ela não lhe diz respeito. O que faz com que para todo perverso a satisfação de seus desejos seja a justificativa última frente à qual qualquer impedimento deve tombar. Sua lei é a força que o autoriza a contornar qualquer limite.

Eu poderia escrever aqui sobre esse modo de existir perverso que grassa as relações humanas e o tecido social de forma cada vez mais aparente, insistente e assustadora através dos mais diversos exemplos. O que não falta nos nossos dias são situações que mostram que alguma coisa no funcionamento humano e no funcionamento social disjuntou fazendo com que pessoas se sintam cada vez mais legitimadas em fazer de suas vidas e de seu estar no mundo um projeto pautado pelo simples mantra do “meu desejo acima de tudo”. Substitua desejo por felicidade, liberdade, prazer, sucesso profissional ou o que quiser e eis a fórmula mágica que elevou o hedonismo à modo de vida e justificativa para todo o qualquer ato em toda e qualquer circunstância.

Não, isso não é uma pregação e nem um elogio ao sofrimento. Bem o contrário.

Quando um neurótico entra (ou entrava) pela porta do consultório de um analista, seu sofrimento dizia respeito àquilo que ele pensava, sonhava, desejava. Era um sofrimento do querer e não poder. Um neurótico nunca faz o que quer e daí seu conflito fundamental, seu desacordo consigo mesmo. E é aí que ele se torna presa fácil de um perverso que, justamente, realiza o impensável: ele faz o que quer.

Perversos raramente entram no consultório de um psicanalista. Ou melhor, eles nunca entram num consultório perturbados por aquilo que fazem. O mais provável é que venham, se vierem, surpresos quando algo no mundo finalmente impõe uma barragem a seus atos. O que é visto como uma afronta, uma imensa injustiça à qual eles vão responder com mais ou menos violência. Um neurótico vê num perverso um ídolo que faz exatamente aquilo que ele não consegue: ele passa ao lado da lei. Sem maiores consequências. Porque ela não vale para ele.

Vivo há mais de sete anos em um país em que, mesmo com a ascensão dessa lógica perversa batendo à porta das individualidades e das instituições, ainda operamos de um modo neurótico, cindido, em conflito, tateando satisfações parciais e acatando limites frustrantes. Por aqui existem bandidos, existem crimes, existe corrupção, existe fraude, existem mentiras. Mas as pessoas e as instituições de modo geral não funcionam estruturadas em cima disso. Existe um imenso pudor em relação a um certo aspecto do humano que, por aqui, ainda concordamos que deve ser evitado. Dobrado, domesticado, enjaulado em nome de um bem comum. Denúncias envolvendo mentiras nos âmbitos mais públicos ou privados ainda causam constrangimento e vergonha. E ainda são punidas nos rigores de uma lei que funciona. Para todos. Aqui se paga impostos altíssimos e se usufrui dos benefícios que esses impostos geram. Aqui as pessoas reclamam da “superproteção” do Estado, mas toda a qualidade de vida que se têm num país como a França está assentada nessa mesma proteção que a maioria defende a cada vez que ela se vê ameaçada. Aqui ainda se faz greve, ainda se reclama das greves. E ainda se apóia greves.

E vejam que a França não é um país tão maravilhoso quanto pode parecer a quem contempla a beleza luxuriante de suas maiores cidades inebriado por tudo o que faz sua excelência mundo afora, dos vinhos e das comidas às roupas e aos perfumes. Aqui existe fome, pobreza, precariedade, desigualdade e violência. Qualquer cidadão de um dos países da Europa mais ao norte poderá dizer dos franceses que são sujos, agressivos, flexíveis demais em relação às regras… Questão de perspectiva, daquilo que você tem como parâmetro de comparação.

Foi vivendo aqui que comecei a pensar que o Brasil é um país baseado na lógica da perversão. Nascemos e crescemos banhados numa cultura e num modo de funcionar no qual a mentira é lei. Mentira que fomos descobertos em 1500. Mentira que “catequizamos” os índios. Mentira que abolimos a escravidão. Um país inteiro assentado em um mar de mentiras todas visando contornar a verdade de uma nação de predadores criada para explorar tudo e todos a seu redor em prol única e exclusivamente de um ganho pessoal, de um prazer pessoal. A defesa do interesse próprio ou de um grupo. Essa é a lei que nos orienta desde o começo. A lei perversa. A lei da força.

Essa lógica que atravessou séculos, instituições e indivíduos impediu que valores básicos fossem verdadeiramente instituídos. Um exemplo; o respeito. Dos outros, das instituições, dos bens coletivos, das diferenças… de que se trata? Em um país no qual todos a exceção da minha própria pessoa são coisas mais ou menos valiosas das quais posso dispor como assim desejar… Minha mulher de exposição, minha família vitrine, meu carro cartão de visitas, meu celular, minhas roupas, minha casa, minhas férias…

O Brasil é um país criado sobre a crença de que aquele que tem poder é imune a toda e qualquer limitação. Experimente dizer a qualquer pessoa que detenha algum privilégio que ela “não pode” qualquer coisa. Você sabe com quem está falando? Todo mundo é alguém. E todo mundo sabe mil maneiras de contornar o “não pode”. A violência faz recuar qualquer regra, rabo entre as pernas.

No Brasil, as pessoas de toda e qualquer classe social acostumaram-se com esse funcionamento perverso. Que sejam elas os mais fortes, detentores do poder e imunes à lei ou os mais frágeis, desprovidos de tudo, todos acatam e se submetem a essa lógica. Ainda que ela funcione contra eles mesmos. Ninguém acredita na lei, ninguém confia na polícia, todo mundo sonega imposto e todos sabem que podem tentar resolver um impasse na base da porrada. Essa é a lei da força, a lei da violência, o modos operandi da perversão incrustado em todos as esferas de sociedade. Um modo que parece tão evidente, tão natural que se torna a cultura de um povo. O famoso e execrável “jeitinho brasileiro” alçado à condição de valor nacional.

Foi morando em outro país que descobri que esse jeito brasileiro não é natural, não é óbvio. E, principalmente, não é aceitável. Ele é a principal razão pela qual não somos e nunca seremos uma França. Porque ninguém, no Brasil, quer pagar o preço de ser uma França. Todos querem viver numa França particular criada às nas costas de todo um resto. Um resto de gente que pode ser um Haiti, não importa. Sem perceber que é essa a lógica que faz com que a França nunca seja uma realidade por aí.

Existe certamente um 0,0001% de brasileiros para quem essa lógica funciona. Porque eles são os mais fortes, os mais poderosos, os que tiram todos os benefícios dela. O leão chefe que tem todas as fêmeas, toda a comida, todos os filhotes, todo o território, saca? E existe todo o resto. Resto mesmo. Uma parte desse resto se sabe resto, foi resto a vida inteira, é resto há gerações. E se submete. Outra parte desse resto que sempre foi resto se revolta, faz, fala, grita, clama. E é assassinado, morto, estuprado, arrebentado em mil pedaços e exposto em praça pública para servir de exemplo para quem mais tiver a ousadia de abrir a boca.

E existe uma terceira parte desse resto. Uma parte que vive numa bolha de mentira, agindo a perversão em favor dos outros. E se acreditando parte do 0,0001%. Essa é a parte mais assustadora. É a parte que não vê o holocausto acontecer. Que segue normalmente com sua vida. Que engole as merdas que lhes oferecem como se fossem “a verdade”. Sem pensar. Sem perguntar. Sem agir. Sem viver. Essa gente são eu, você, seus amigos, sua família, qualquer um que nasceu ou viveu em um contexto no qual um pequeno privilégio serviu para que se acreditasse estar do lado da exceção, do lado que poderia escapar à regra: ser homem, ser branco, ser hétero, estudar em escola particular, ter plano de saúde, ter casa própria, ter trabalho, fazer faculdade…

Esse terceiro resto, nos últimos anos, foi esmagado entre o guloso 0,0001% que abocanhou uma parte cada vez maior do bolo que deveria ser comum e o resto. Resto do qual não quer fazer parte. Resto do qual não pode ser parte. Pois ver-se parte do resto seria ver-se desprovido do seu universo de mentiras, de verdades mentidas e cagadas desde seus antepassados, mentiras disfarçadas de “você pode”, “você é”. Todo mundo quer ser alguém, todo mundo quer existir. Mesmo que seja de mentira.

E daí vem a parte mais cruel desse modo perverso de existir chamado Brasil. Um país no qual tudo o que foi e tudo o que é feito contra essa lei do mais forte é simples e sumariamente abortado. Mesmo que isso signifique depor Dilma. Mesmo que isso signifique assassinar Marielle. Mesmo que isso signifique condenar Lula sem provas. E, acima de tudo, mesmo que isso signifique dar carta branca para que o ódio mais basal contido nas entranhas de cada ser humano se sinta autorizado a sair e a se expressar. Em atos. Em violência. De todos contra todos.

O Brasil não é um país civilizado. O Brasil é uma barbárie que mal conteve seus impulsos mais primordiais nos últimos 500 anos e que explodiu na última década quando tentava ser outra coisa que o Brasil. O Brasil se recusou a pagar o preço de ser outra coisa que o Brasil. A lógica perversa que grassa em nossas entranhas nos fez acreditar que era muito, que era injusto, que não tinha nenhum motivo para aceitarmos tantas limitações ao nosso poder de poder tudo. Estão cortando o mal pela raiz. Que é para que nunca mais nada germine por aí.

Eu tive que crescer e amadurecer muito e durante muito tempo para algo germinar em mim. Tive que vir morar noutro canto desse mundo para ver que nada disso que existe no Brasil é óbvio. Nem natural. Tive que me tornar a imigrante, o resto indesejável de todo e qualquer país europeu para entender de que lado estava. Para entender que aí, no Brasil, sempre fui resto. Acreditando que era 0,0001%. Trabalhando para o bem desse 0,0001%. Vivendo da mentira de que meus privilégios me garantiriam o salvo-conduto de estar do lado do vencedor. Não garantiram. Nem a ilusão de estar naquele clube exclusivo e de fazer parte.

Nem para mim, nem para todo o resto. Perdi muito. Perdemos todos. Perdemos muito mais do que podemos compreender. E ainda mais no dia de ontem. Não pelo julgamento e pela prisão de uma única pessoa. Sem provas. Mas pelo que isso representa. Pela mensagem que esse ato veicula.

Os perversos fazem aquilo que os neuróticos mal ousam sonhar, sentindo-se por demais culpados. Os perversos fazem. E fizeram. E gozam o gozo inebriante daqueles que fazem. Uma nação inteira siderada por esse gozo e por essa ação. A mensagem está dada. A mensagem está clara: quem manda no Brasil são eles. Tudo ali existe para o seu bel prazer. Tudo. Inclusive você. E eu. E ainda contribuiremos com isso. E ainda endossaremos sua causa. E ainda enriqueceremos seus bolsos. E seus gozos. E ainda riremos disso tudo e acharemos que justiça foi feita. E ainda nos veremos do lado errado, desejo desesperado de fazer parte de alguma coisa. E ainda mais, e por muito tempo, se não percebermos no espaço de uma vida quem realmente somos. E de que lado estamos.

Você já acordou hoje?

Cansada…

… de você. Y’ en a marre… do seu egoísmo, do seu discurso autocentrado. Sua indiferença. Sua maneira de usar as pessoas.

Nós, uma vitrine para mostrar aquilo que você não tem. Nós, uma esponja da sua infelicidade. Como patos preparados a se tornarem foie gras, sufocados com tudo o que você nos enfia goela abaixo. Você fala, fala, fala até se esvaziar de toda a sua merda que sou forçada a engolir enquanto duas crianças clamam por atenção sem receber nada, privados de mim por sua causa, sempre privados, afastados, interceptados em pleno vôo porque você, sim você, sempre você precisa de atenção, precisa de mais, precisa de tudo. E quando você lembra que eles existem é para dar aquilo que você quer, quando você quer… e deixá-los falar sozinhos quando não te convém.

Há cerca de um ano você olhava para eles enojado e não hesitava em dizer que eles te cansavam. E que sua vida era sufocante, chata, sem sentido e infeliz.

Então, por que voltou? O que está fazendo aqui além de vampirizar nossas vidas, nossa existência, nossas alegrias, nossas riquezas?

Você é um predador, você tem todos os direitos. Seu desejo é seu guia absoluto e tudo é permitido se você assim o quer. Porque você faz o que quer, você faz o que quer, você faz o que quer. Você faz o que quer, custe o que custe. Aos outros. Porque você nunca paga conta alguma.

Quantas vezes sinto nojo, nojo, nojo de você. Tanto nojo que chego quase a vomitar todo esse nojo da pessoa que você é. E daquela que me tornei de tanto conviver com você.

A pessoa que me tornei, perdida, vazia, triste. Lutando a cada dia para sobreviver e para encontrar forças. Em algum lugar. Sem tirar das crianças, sem pesar sobre eles. Enquanto você fala, fala, fala das desgraças que chegam como consequência de seus próprios atos. Escrotos. Desonestos. Perversos.

E você ainda se vê como vítima de uma perseguição da qual você não seria em nada responsável. Por que você voltou?

Por que prometeu mundos e fundos e se comporta como quem não deve nada, como quem não deve reparar nada, como quem faz um favor?

Trilha sonora do dia: 🎼🎧🎤

Eu gostaria de…

… ser capaz ainda daquilo que aqui chamam de insouciance. Uma certa inocência, uma certa despreocupação. Mas parece que isso é privilégio de uns tantos jovens. E de uns tantos qua nunca tiveram filhos. E de uns tantos que nunca foram viver em outro país. E de uns tantos que nunca foram traídos. Cada experiência de vida nos marca no seu melhor e no seu pior, quer queiramos ou não. Não existe isso de jogar para debaixo do tapete esperando que o tempo traga esquecimento e indiferença. Existem rios de superfície calma por onde transitam intensas correntezas. Ou o recalcado sempre retorna, se quisermos ser psicanalíticos.

O problema da perda da inocência é que é algo que não se refaz. Como em Matrix, o filme. Uma vez que você escolhe o comprimido vermelho não têm mais volta. Alguns acontecimentos da vida fazem o mesmo com a gente, sem precisar de comprimido algum. A experiência de análise também pode agir assim. Então, para aqueles cuja perspectiva de uma maior consciência de si mesmo possa parecer aterrorizante, nada disso é uma boa idéia. Viver é perigoso. Viver nos aproxima de verdades muitas vezes indesejáveis.

O pior em perder a inocência é o pesar, essa dor profunda e silenciosa que pesa no peito e extravasa em suspiros. Perder a confiança não apenas em uma pessoa, mas nas pessoas em geral. Saber que palavras são fumaça e projetos de vida são certezas que perdemos em um instante. Nada é tão sólido que não possa mudar. Nem o amor não é garantia de nada. O amor é palavra, é fumaça, é rio que corre entre os dedos. Perder a confiança em uma pessoa e no seu amor, perder a confiança nas pessoas e nas garantias que o amor parecia dar. Isso é perder muito. Mas é algo que umas tantas pessoas vivem. Todos os dias. E vivem depois sendo outra pessoa, bem diferente de tudo o que foram até então.

O horror…

Em algum momento dos últimos dois anos parei de me manifestar frente aos acontecimentos quotidianos catastróficos que povoam as notícias e timelines de todo ser humano minimamente conectado. Parei, cansei, cheguei num ponto de esgotamento com tanta indignidade, com tanta violência, com tanta incompreensão. Parei sem deixar de acompanhar, sem fazer o avestruz, apenas porque as palavras pareciam não mais fazer sentido. Palavras perderam o peso e a potência face aos acontecimentos e escorreram por entre os dedos… Inúteis.

Mas aí assassinaram Marielle ontem. No Brasil, no meu país que já praticamente não reconheço mais. No meu país desfigurado por um golpe de estado, destroçado pela destruição do pouco de acesso à uma certa civilidade que havíamos construído e empesteado por acontecimentos sempre mais escabrosos, sempre mais ultrajantes mataram Marielle. Mulher. Preta. Vereadora. De esquerda. Da favela. Mataram essa mulher. Mataram uma mulher. Mataram uma entidade. E não deu para ficar de boca fechada. Ao menos para vomitar. Para gritar. Para chorar.

Meu pai era estudante nos anos 60. Meu pai lutou contra a ditadura nos anos 60. No congresso de Ibiúna em que ele foi preso, se escondeu no chiqueiro com outros colegas quando souberam que a polícia estava ali. Num chiqueiro. A luta é realmente desigual. De um lado, uma geração de jovens cheios de utopias que busca se proteger em um chiqueiro. Do outro, idiotas com poder. E armas.

Meu pai foi preso pelo que acreditava ser o mundo no qual queria viver. E pelo qual devia lutar. Meu pai teve amigos presos. Torturados. Assassinados. Meu pai viu seu mundo ser destroçado e se reconstruir. Ele pode ter esperança, perdê-la para reencontrá-la 20 anos depois. Ele pode ver seu mundo tornar-se possível de novo. Apenas para testemunhar no dia de ontem o retorno do fim. Meu pai e tantos outros da sua geração estão vivendo no espaço de uma vida uma morte que se repete duas vezes. Dois assassinatos. Um país inteiro que desaba duas vezes no abismo dos mesmos erros, das mesmas escolhas. Compulsão à repetição ?

Ando aqui pelas ruas e cruzo a polícia. Eu tenho medo da polícia. Tenho medo da polícia porque sou brasileira. Tenho medo da polícia porque sou mulher. Tenho medo da polícia porque sou de esquerda. Nem 7 anos de vida de gringa me tiraram o medo da polícia. Porque polícia é, no entender das minhas entranhas, sinônimo de assassinato.

Mas não é toda polícia. Mas você não é pobre. Nem preta. Nem vive mais aqui. E assim surge todo argumento desqualificador da dor do outro, do grito do outro, do asco do outro. Relativizemos para tirar o peso das palavras. Mas tanta gente assassinada todo dia e você… Tem gente que persiste na ma-fé de parecer não entender. Exatamente quando entenderam muito bem o que está em jogo.

Os alemães que moravam ao lado dos campos de concentração e que, ao fim da guerra, obrigados a visitá-los, desviavam os olhos horrorizados e juravam não ter percebido nada. Queimavam gente no seu quintal e você não percebeu ?

Tem um golpe de estado acontecendo, tem uma ditadura se instaurando, tem um genocídio organizado contra as únicas pessoas capazes de um levante (sim, pobres, pretos e favelados, só eles têm o poder de reinventar a guilhotina) e você não tem visto nada de estranho no seu quintal ?

Porque nós, a classe média intelectual esclarecida, nós não fazemos revolução nenhuma. Estamos domesticados no resguardo de nossos poucos privilégios. Amansados. Podemos fazer junto, no embalo que as ações alheias podem dar ao pensamento, mas sozinhos não podemos fazer nada. Perdemos nossa capacidade de fúria. Por isso o genocídio. Porque os idiotas armados e no poder entenderam muito bem quem são essas pessoas que uma hora vão se encher. Uma hora o fio estica tanto que arrebenta. E daí a coisa vai explodir. Melhor matar antes.

Há poucos dias meus filhos conversaram em francês entre eles. O choque, eles falam espontaneamente numa língua que não é a minha, que não é a deles. Que não é a deles que os vejo brasileiros. Meus filhos são brasileiros.

Mas meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Depois de ontem, meus filhos talvez nunca possam ser brasileiros. Do Brasil que eu conhecia, do Brasil no qual existi. O Brasil meu país desapareceu ontem. Ele virou outra coisa que não sei o que vai ser. Um turning point. Sem o consolo da esperança da geração do meu pai de estar lutando pelo que nunca tiveram. Sem o risco calculado de esconder pessoas em casa, sem nunca poder perguntar quem, como, porque a essas pessoas sem rostos dos 70. Sem a crença reencontrada nas vias políticas do final dos 80. Sem as apostas, as conquistas, toda essa gente que pela primeira vez pode existir nos 90. E ter voz. Aqui, agora, tudo o que pode ser conquistado pode ser perdido. Eis o que fizemos com essa repetição. Nada se estabelece além da certeza de que o chão no qual pisamos não é sólido. Um país onde a perversão virou lei ?

Há alguns anos atrás, quando esse capítulo infame começou a ser escrito nas nossas barbas, com uma amiga brasileira que vive por aqui comentávamos a tristeza de, pela primeira vez, não termos mais vontade de voltar. O sonho de voltar, eterno paradoxo do migrante. Ontem, pela primeira vez experimentei não poder mais voltar. Pela primeira vez tive medo de voltar. Pela primeira vez tive medo pelos meus filhos. Pela primeira vez tive medo pelos meus pais, pela minha família, pelos meus amigos, por todos que ficaram.

Por que vocês estão tão quietos ? Daqui não ouço os gritos. Daqui não vejo a fúria. O que aconteceu com vocês ? Como mudaram tanto ? O que é esse abismo que se escavou entre nós, essa fronteira do nunca mais, o que esse assassinato arrancou da gente ? Vocês estão com medo ?

Eu estou com medo.

Mataram a Marielle. Marielle presente.

As hipocrisias francesas…

Quando o assunto é traição, a França é um dos países mais hipócritas que já conheci. Um dos berços do feminismo, um modelo para todo o mundo ocidental, os franceses pregam uma liberdade nos atos correspondente a uma liberdade dos desejos: todos são livres para fazerem o que quiserem. Apenas esquecem de acrescentar ao final da frase a cláusula importante sobre a gestão dos desejos de cada um: desde que todos estejam de acordo.

Desejo é responsabilidade e parece que por aqui muita gente esqueceu desse pequeno detalhe. Mulheres que pensam que o auge de sua liberação é transar com quem quiserem, mesmo que sejam homens que estão com outras mulheres, casados e afins. Oi? O exercício de sua liberdade enquanto mulher é fazer algo que vai magoar e eventualmente destruir a vida de uma outra mulher? Ah, ok. Foi nesse ponto que comecei a me dar conta que o feminismo foi instrumentalizado para se tornar apenas um discurso de pseudo-liberdade feminina que garante que os homens tenham mais mulheres disponíveis no seu mercado de carne. E, ainda por cima, convictas de que estão fazendo algo revolucionário.

Mas o mais espantoso nessa mentalidade francesa quanto à traição é que mulheres e homens parecem convictos que tudo bem, não faz mal nenhum, desde que o outro não fique sabendo. Ou seja, uma porção de casais trai e é traído e não têm problema porque o outro não ficou sabendo de nada. E, afinal, é algo tão natural desejar outras pessoas, né?

O que ninguém conta, inclusive esses homens e mulheres que traem a go-go e que eu tenho a ocasião de testemunhar infinitas vezes, não apenas na minha história pessoal mas no discurso de pacientes, de amigos e de conhecidos é que essas traições são responsáveis pelo fim de muitos relacionamentos. O que não seria nenhum problema, afinal relacionamentos começam e terminam. Só que essas pessoas, essas mesmas que fazem a apologia da traição chegam nas sessões com seus psicólogos ou nas consultas com seus psiquiatras totalmente destruídas. Pois é, emocionalmente, psicologicamente, moralmente destruídas. E tenho visto tanta gente destruída por conta de um ato que aqui na França gostam tanto de naturalizar que começo a me questionar sobre o porquê de tanta hipocrisia.

Vejam, pessoas adultas decidem da vida que elas querem ter e das parcerias que elas vão formar. Decidem. E para algo que implica mais de uma pessoa, decidem a dois. A três. Quantos sejam. Pessoas que consideram minimamente as mazelas e as responsabilidades quanto aos próprios desejos aceitam o risco de estabelecerem acordos tácitos, falados, escritos, murmurados com seus pares. Aceitam o risco que o outro, do auge da sua capacidade de decidir ele também, não concorde com o que propõem. Aceitam o risco que o outro não queira a mesma coisa que elas e que a relação termine. Pessoas adultas aceitam o risco da vida, das relações e dos próprios desejos e não tentam mascarar tudo isso com mentiras e falsas aparências para não perder nada enquanto se dão ao direito de fazerem tudo. Isso não é ser uma pessoa livre. Isso é ser escravo: de si mesmo, das próprias covardias, das convenções sociais, do medo que o outro não queira mais estar contigo se ele souber quem você é e como quer viver sua vida realmente. E aqui na França, no país do livre pensar, do bem pensar e dos analisados de Lacan, bem pouca gente parece disposta a correr os riscos.

Então, fica todo mundo engambelando. Fala em prol dos desejos e das liberdades e age como o contrário de tudo o que prega. E quando a verdade vem à tona… poucas pessoas seguram a onda. E o que vemos por aqui é uma quantidade assustadora de gente arrasada, deprimida, terra desolada depois de um incêndio que levou muito mais do que tinham imaginado que poderiam perder. O preço acaba sendo muito mais caro do que pensavam.

Há alguns anos atrás os franceses deploraram o escândalo da divulgação do presidente “normal” na sua motoca de capacete saindo da casa da amante em fotos tiradas pelos paparazzi de plantão. Deploraram que alguém desse atenção a isso, afinal aqui na França não se mistura vida pessoal com vida profissional. Não somos como os americanos ultramoralistas, conservadores, puritanos. Somos mais civilizados, mais realistas, essas coisas fazem parte da vida. Tudo muito bonito no discurso oficial de dez em cada dez franceses na época do ocorrido. O que esqueceram de dizer nos seus discursos e que apareceu nas entrelinhas é que muita gente estava achando lindo que a atual esposa do tal presidente que acabara de tornar-se corna em rede nacional era, em suas origens, a amante do tal presidente pelo qual ele largou esposa e filhos, num escândalo que a França também evitou comentar porque tudo é verdadeiramente tão “normal”. E que essa amante tornada esposa e primeira dama esqueceu de imaginar que o mesmo poderia acontecer com ela dali a um tempo pois um dos clichês da traição é que ela se repete e que a crença do “comigo vai ser diferente” não passa de intenção histérica de mulher que ainda não entendeu que “não, você não é especial para alguém que te colocou no lugar de uma outra, porque isso é uma mentalidade de homem que vê mulher como mercadoria”. E as pessoas tão liberadas e maduras estavam agora a se regozijar em rede nacional dessa pequena vingança do destino. E que essas mesmas pessoas tão civilizadas estavam pouco se importando que a ex-amante agora esposa tentasse se matar. E que tudo fosse abafado por essa espessa camada de normalidade dos acontecimentos e pelo silêncio sobre a dor que ela poderia estar sentindo. E que quando apareceu um livro arrasador de autoria dessa mulher destruindo o então presidente (uma vingança, por que não?) todos se mostraram ainda uma vez escandalizados, ultrajados por mais esse desrespeito ao savoir faire francês que diz que frente a uma traição todos ficam em silêncio e o traído se sai tão mais dignamente quanto menos falar e quanto menos deixar transparecer o que quer que sinta em suas entranhas. A França é um dos países menos empáticos com a dor alheia quando ela é vinculada a uma questão moral. Ninguém pode falar, ninguém pode perguntar, todos se convertem repentinamente em pessoas pudicas, reservadas, cheias de dedos, distantes. Porque os franceses, em geral, têm medo de se envolver com assuntos que os obriguem a se posicionar moralmente e a assumir uma opinião com base em um julgamento moral.

A consequência disso é que uma parte impressionante dos adultos com quem tenho contato contam histórias de traição cujas consequências foram catastróficas. Para eles, para os filhos, para um monte de gente. Um monte de gente sofrendo pela hipocrisia de não poder assumir que, não, não é ok trair. Mesmo que seja algo que aconteça. Mesmo que faça parte da vida. Isso não legitima a atitude de ninguém. É ok fazer o que quiser da própria vida desde que as pessoas envolvidas saibam e concordem. Ponto. Tudo o mais é má-fé, covardia e violência. Mesmo aqui na França.

As coisas como realmente são

Pois o sujeito me traiu. A pequena com apenas um ano e meio e ele surta uma noite, desaparece nesse mundão e retorna no dia seguinte dizendo que encontrou outra pessoa e vai embora de casa. Em um lapso de segundo a vida que eu julgava mais sólida que um rochedo pirineano explodiu em mil pedaços levando consigo meu coração e todas as minhas certezas de futuro. A vida é assim, ela muda no instante em que você finalmente acredita que conseguiu se assentar, no momento em que você pensa ter saído do olho do furacão, quando você tira a cabeça da água e consegue tomar fôlego pela primeira vez depois de tanto tempo. A pequena começando a ir à creche, eu começando a poder pensar em trabalhar novamente, tudo caminhando e eu cheguei a vislumbrar um resto de conversa estranha no celular, as falas dele sobre nós dois com os tempos dos verbos todos colocados no passado. Eu vi mas não quis ver, porque não podemos ver aquilo em que não temos como acreditar. O inconcebível mora na cegueira.

Depois de um encontro idílico e de uma paixão que virou amor com a facilidade de uma evidência veio a mudança para a mesma casa, o nascimento da pequena, o choque de realidade da impossibilidade de conciliar a vida nova com a antiga vida na qual o cara-metade tinha outros filhos e muita história mal resolvida que não dava conta de digerir. Ele ficou infeliz, eu fiquei infeliz, ficamos nos estranhando por um bom tempo até que as coisas pareceram se assentar no coração e na rotina de um e de outro, eu começando a gostar dessa vida pacata de cidade pequena, no meio da natureza, ele começando a aproveitar a existência da pequena e a família que tinha escolhido construir e… isso.

Devem existir tantos textos sobre traição quanto o número de pessoas que já foram traídas. Mesmo não os tendo lido, posso apostar que nenhum deles dá conta do estrago que isso causa em uma vida. Especialmente quando existem crianças pequenas envolvidas. Especialmente quando a existência mesma dessas crianças é o que motiva o afastamento do casal e a traição.

Me impressiona o quanto tem de um hábito cultural nessa história que é a minha e que é a de um sem número de mulheres cujos maridos as traíram quando os filhos eram pequenos. E estou falando dessa situação específica, dessa traição nesse contexto singular em que não existe condição de igualdade alguma para que cada qual possa decidir tocar a vida do seu lado em nome do exercício de sua liberdade pessoal frente a um relacionamento que não teria dado certo. Pois uma mulher com filho pequeno é tudo menos livre e capaz de embarcar em uma proposta de relacionamento aberto com o pai da criança que muitas vezes é sugerida por um sujeito que sabe que ele será o único a poder aproveitar dessa abertura por um bom momento. E essa mulher nem tampouco é livre e capaz de sair de um relacionamento que não teria dado certo para ir procurar uma outra pessoa. Porque, vejam só, na cabeça da maioria das mulheres grávidas ou mães recentes o filho é a prova mesma de que o relacionamento do casal estaria dando certo. Ou pelo menos é aquilo em que aprendemos a acreditar. E não temos condições físicas, mentais e emocionais para tanta mudança numa hora em que já temos mudanças o suficientes com as quais lidar.

Os homens decidem ter filhos, as mulheres engravidam, os filhos nascem e em algum ponto dessa sequência de eventos eles se sentem autorizados a trair. E a palavra é violenta, a palavra é trair porque aquilo que esses homens se permitem fazer é uma grande violência. Não se trata de um mero exercício de liberdade do desejo de cada um, que é sempre flutuante e fluido. Se o desejo flutua, homens e mulheres são ainda assim responsáveis daquilo que, de seus desejos, vira ato, vira gesto. E essa traição é um gesto que declara em alto e bom som que “meu desejo é mais importante do que tudo o mais”. Você, a criança, a família, os projetos de vida.

Um homem se espanta e se ressente com sua mulher grávida. Ou com sua mulher que se torna mãe de um outro ser que não ele. Ele se espanta e se ressente de deixar de ser o centro das atenções. Ele se espanta e se ressente da distância, do cansaço, da falta de vontade de transar, do mau humor, da irritação, das flutuações emocionais. Um homem se espanta que a mulher mude quando se torna mãe, ele se espanta porque boa parte dessas mudanças são fruto da indisponibilidade desse mesmo homem de se envolver com a criação desse filho que eles fizeram juntos. Ele se espanta que ela se sinta traída e abandonada com um bebê no colo a dar conta de tudo sozinha em meio a um caos emocional e a um desconhecimento total do que fazer quando se tem um filho. Ele sofre dessas mudanças, talvez exista nele também um caos emocional decorrente desse acontecimento de ter um filho na sua vida. Mas o problema reside na maneira como o sujeito interpreta essa experiência e muitos homens entendem disso tudo que suas mulheres os abandonaram. Trocaram-nos por outro, o bebê. E esse ressentimento vira distância, que vira má-vontade com a criança e com tudo aquilo que uma criança pequena demanda, que vira tensões e conflitos e quando menos se espera ali estão duas pessoas tão separadas por um abismo de incompreensão que encontrar um meio de criar uma ponte parece impossível. E a solução que muitos homens encontram para lidar com isso é adotar a tática do avestruz: evitar o confronto com as dificuldades e… trair.

Trair a confiança de uma pessoa que conta e precisa dele num dos momentos de maior fragilidade na vida de uma mulher. Trair também uma criança que precisa de um pai capaz de ajudar a mãe a estar bem o suficiente para que ambos cuidem daquilo que cabe a cada um nesse momento. Trair e deixar todo mundo na mão enquanto busca conforto em outros braços, em outra boca, em outras pernas, em outros cheiros, em outra pessoa cuja disponibilidade lhe seja exclusiva, que possa estar pronta, interessada e ter olhos só para ele a cada vez que a porta da sua casa se abrir para recebê-lo. Um homem que trai uma mulher que acabou de ter um filho seu é um sujeito que renunciou a qualquer resquício de algo que podemos chamar de dignidade. Uma mulher que se autoriza a ficar com um homem cuja esposa está grávida ou acaba de ter um filho estando a par da situação não é em nada melhor do que o sujeito em questão. Trata-se de uma mulher que, visivelmente, não entendeu muito bem que feminismo não significa meu desejo em primeiro lugar e, sim, minha dignidade depende de que todas as mulheres sejam tratadas de maneira digna. Sem exceção.

Como pode ser que algo tão nocivo tenha se tornado tão comum que as pessoas se permitem até mesmo jogar a culpa nas mulheres quando os homens as traem? A mulher grávida ou mãe recente que de repente vira a esposa negligente, que não se cuida, que não dá atenção ao marido, que vai perdê-lo para outra que certamente vai cuidar melhor dele. Como as pessoas são capazes de acrescentar doses cavalares de crueldade a um acontecimento por si só tão destruidor?

A história não acaba aí e nem acaba por aqui tudo o que eu teria para escrever a respeito. Mas nesse momento da história o cara-metade me traiu e disse que ia embora com outra. E mudou de idéia e ficou. E família, amigos e analista me ajudaram a pensar que isso era “normal”. E eu engoli meu orgulho ferido, meu coração partido e meu ímpeto de ir embora correndo para casa e fiquei na aposta de que tudo poderia ser reconstruído. Para ele fazer a mesma coisa depois do nascimento do segundinho. E ainda mais uma vez quando o pequeno era tão bebê quanto a pequena nessa primeira vez, cada um dos pequenos tendo direito à sua dose de destruição de uma estabilidade conquistada com muito esforço e tão sensível a furacões e outras intempéries. E a cada vez o sujeito se autorizou a ir mais longe, a comportar-se de maneira mais e mais indigna. Quando se ultrapassa uma fronteira, fica difícil retornar. Ainda mais quando essa fronteira diz respeito aos limites que podemos ou não ultrapassar em nome dos nossos ditos desejos. Nossas alegadas necessidades, pelas quais nos permitimos ir sempre mais longe, sempre mais cegos, de maneira sempre mais violenta. E o que sobra? Um rastro de destruição de tudo e de todos em volta com os quais deixamos de nos importar quando estávamos envoltos naquela fúria desejante, desonesta e cheia de engodos. E um sem número de estilhaços espalhados por imensos territórios que, no momento presente, o sujeito tenta atabalhoadamente colar e reconstruir.

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