Onde foram as palavras ?

Passei assim, esse último mês, entre o estupor e o excesso. Nunca pensei que no intervalo de uma vida veria meu país sair de uma ditadura, construir um arremedo de democracia, prosperar economicamente para cair no precipício apenas 3 décadas mais tarde. Por pior que fosse a nossa pseudo-cordial, a-ética e cínica brasilidade, acreditei que, frente ao pior possível escancarado na nossa cara, cada qual seria capaz de ver, de perceber, de acordar. E de fazer um esforço de ser melhor e de se colocar do lado do melhor. Do possível. Não foi o que aconteceu.

Um mês entre dois mundos, tentando recuperar uma proximidade que não existia mais. Com as pessoas, com as inquietações, com o cotidiano do meu país. Tentando entender onde foi que me separei dele e onde foi que a distância virou ruptura e incompreensão. Descobri, com horror, que o Brasil havia se tornado um lugar abjeto. As pessoas haviam se tornado seres raivosos, cheios de ódio, desprovidos de racionalidade, de respeito e de empatia. Tornaram-se ? Ou foram sempre assim e os ventos sopraram de cima deles aquela fina camada que tinham de falsa civilidade ? As pessoas se tornaram feias, se revelaram feias, medonhas, personagens monstruosos de um pesadelo que não termina. Fui habitada por sentimentos muito ruins nesse mês. Raiva. Ódio. Desprezo. Nojo. Intoxiquei-me das palavras, da sombra, do hálito fétido de ódio saído da boca de gente que, até bem outro dia, me parecia um igual. Como se descobrir igual a gente que te enche de nojo ? Dela, de você mesma, da vida, da espécie humana ?

Esse ódio que torna as pessoas feias, burras, cafonas. Viramos uma piada mundial novamente e, ainda mais, um exemplo do pior que existe no ser humano quando ele deixa à solta suas piores intenções. Ninguém que conheço quer mais ir ao Brasil, mesmo de férias. Todos estão horrorizados e com medo. Se pode acontecer aí, também pode aqui. Ninguém quer que o Brasil de hoje seja o futuro da Europa.

Então terminaram as conversas com pessoas de discursos herméticos que não faziam outra coisa além de repetir frases feitas e acéfalas. Terminaram as conversas com pessoas que ergueram um muro intransponível entre elas e qualquer traço de humanidade além da capacidade de odiar e de fazer o mal. Terminaram as eleições e a crua realidade foi vomitada na minha e em muitas outras caras. Nojenta e irrefutável. No meio de uma viagem de trem de retorno depois de duas longas viagens em um mês para deseseperadamente lutar com o pouco que me restava. Meu direito ao voto.

Retornei dessa viagem pelo pior do que se tornou meu país esgotada. Morta de uma alma mortificada de quem se sente exilada de um Brasil que não existe mais. O país que eu deixei desapareceu no final desse mês de outubro. Não consigo encontrá-lo mais, tornei-me uma apátrida. Ele não está mais nas pessoas, no que elas dizem, no que exprimem, nos seus gestos. Ele ficou em algum lugar entre o ódio e a sede de vingança. O Brasil morreu.

E como a gente imaginou que seria?

Em um país que se recusa desde sempre a acertar suas contas e a pagar suas dívidas históricas? Em um país que joga tudo para debaixo do tapete sob o nome abolição, anistia ou o que seja? Em um país do deixa disso, em que fazer justiça à verdade não possui significado algum? Como a gente imaginou que seria?

Achamos que bastaria dizer “pensem”, “reflitam”, “raciocinem” para que as pessoas fossem iluminadas pela obviedade da farsa e que, ainda por cima, a recusassem? No Brasil, um país no qual a educação foi totalmente sucateada nas últimas décadas e onde pensar foi vendido como um artigo de luxo, inacessível, destinado apenas a alguns poucos privilegiados? O que a gente queria?

O problema nunca foi econômico, mas o abismo econômico foi vendido como o único e como aquele a ser combatido. Como se igualdade, ou eqüidade, fossem feitas apenas com redistribuição de renda. E, sim, todos os países mais ricos do mundo que exploraram e enriqueceram às custas dos mais pobres já sabem que, dentro de suas fronteiras a regra é outra. A regra é redistribuir riqueza, minimizar a desigualdade. Então, sim, para um país enriquecer ele precisar minimizar suas desigualdades e para isso precisa redistribuir riqueza. O que significa redistribuir dinheiro. Mas não apenas.

O que a gente queria? Melhorar sozinho deixando todo mundo em volta se foder? Pois é, não deu.

O que se construiu no Brasil foi a convicção que redistribuir riqueza era redistribuir renda e que apenas com isso nos aproximaríamos de ser um país mais justo e mais próspero. Sem considerarmos que durante décadas o que se fez foi justamente inviabilizar qualquer outra redistribuição de riquezas que não fosse a financeira. Porque riqueza é educação, riqueza é cultura. É o acesso a todas as formas de enriquecimento, não apenas o econômico.

E como poderia ser diferente em um país no qual a educação pública de qualidade da geração dos meus pais deu lugar a uma educação prioritariamente no ensino privado, qualidade associada a quem pode pagar mais, marca da minha geração toda criada em escolas particulares das mais ou menos prestigiosas? Como poderia ser diferente em um país em que filosofia deixou de ser matéria obrigatória porque não interessava a ninguém que as pessoas aprendessem a pensar? Como poderia ser diferente em um país em que matemática se tornou algo tão difícil que as crianças já chegam acreditando que aquilo não é para elas? Um país em que física, química, biologia são matérias chatas, complicadas, desinteressantes? É assim que a elite cria um abismo na divisão das riquezas, é através dessa transformação, durante gerações, da educação em um bicho de sete cabeças ao qual praticamente mais nenhuma pessoa sente que tem direito. Ou pior, capacidade. Em nosso país, o projeto foi fazer com que as pessoas acreditassem que a educação era muito complicada e que quase todos fora os poucos eleitos seriam capazes de aprender o que quer que seja. Essa foi a riqueza da qual fomos privados, a riqueza de partilhar do acesso ao conhecimento geral e irrestrito.

Depois as pessoas estranham que quando um museu queima, metade da população de todas as classes sociais nem se importa. Mas, afinal, há décadas batem com uma marreta na nossa cabeça que isso não é para a gente, que cultura, arte, literatura, música, poesia, tudo isso é muito complicado. Que ir ao museu ver obra de arte contemporânea é chato e inacessível, que você não vai conseguir entender. Como a matemática, a filosofia, a física, a química, a biologia e até mesmo sua própria língua. Nada disso é para você. Tudo é muito chato e complicado e apenas uns poucos dão conta de acessar. Faz décadas, ou talvez até séculos, mas estou falando aqui apenas do momento mais recente, que nos dizem que nós estamos excluídos de compartilhar toda essa riqueza e vocês acham que o problema é apenas econômico, de distribuição de renda?

Conseguimos, por um breve período de tempo em nossa história recente, redistribuir renda. Tentamos até redistribuir as riquezas de uma forma mais abrangente, com quotas, vias de acesso à educação, incentivos culturais e o que aconteceu? Aquele 0,01% não suportou. O foi mais insuportável ver empregada no aeroporto e o povo no museu em grandes exposições com repercussão midiática do que ter que pagar encargos sociais aos seus funcionários. O povo frequentando os mesmos lugares que a gente? Acabou o hype, deixou de ser descolado, massificou, deturpou. A música, os lugares, os eventos. Ninguém gostou de ter que abrir a porta do clubinho para fazer entrar todo mundo.

E o que nós esperávamos? Se isso tem sido construído desde que o Brasil atende por esse nome e que ninguém, absolutamente ninguém aqui se responsabiliza por nada de nossa história? Massacramos os índios, escravizamos, exploramos, violentamos e assassinamos os negros? Não sei, eu não estava lá, não fui eu quem fiz. Construímos um país em cima da exploração, do uso, do saque, dispondo de tudo o que pudemos encontrar pela frente e essa é a nossa mentalidade básica desde o princípio e as pessoas insistem em posar de inocentes porque analisadas, porque desconstruídas, porque esclarecidas, porque educadas. Para, gente, isso é má-fé. E a nossa má-fé é exatamente o que torna possível que nos dias de hoje mais de 30% da população do Brasil possa se assumir claramente como perversa.

Porque, sim, é de perversão que se trata. Quando uma pessoa assume que a lei não se aplica a ela e que ela pode dispor do mundo, das pessoas, das coisas, dos lugares e das riquezas segundo sua vontade, impondo essa vontade aos outros pela força, isso tem um nome e se chama perversão. O Brasil é um país em que os perversos podem finalmente mostrar as garras sem nenhum constrangimento de serem enquadrados por uma autoridade qualquer que se sobreponha às vontades que o governam. E se esse perverso é da nossa família, nosso amigo de infância, nosso conhecido, se é preto, pobre, mulher, gay, professor, torturado da ditadura, artista ou o escambau, pouco importa, é de perversão que se trata. E de contágio, como o Freud dizia ali no psicologia das massas, onde todos os iguais se sentiam liberados pela força de manada para expressar tudo aquilo que sempre foram constrangidos a esconder. Abriram a caixa de Pandora e ninguém explicou como é que faz para colocar todos os demônios de volta ali dentro.

O problema é que nenhum de nós vai poder se consolar no “eu não votei nele”, “eu votei contra ele”, “eu nem votei”, “eu votei nulo” como se a responsabilidade não fosse também nossa. É. A psicanálise já nos ensinou que somos responsáveis até por aquilo que nos atravessa e que nos escapa. E principalmente pelo que nos atravessa e pelo que nos escapa. E nós, particularmente, nós a elite intelectual bem pensante e esclarecida somos responsáveis por termos gozado de toda riqueza do nosso país nos contentando em arrotar nossos conhecimentos entre nós, os escolhidos, nas defesas de tese, nos congressos, nos artigos, nas exposições, nos vernissages, na fila do cinema de arte, lendo nosso Foucault em francês tranquilamente enquanto filosofia tornou-se sem importância e matemática tornou-se difícil. Somos responsáveis em nosso compartilhar cotidiano de mensagens inteligentes que tocam aquelas 15 ou 20 pessoas enquanto todo o resto do mundo sente que não pode fazer parte do clubinho. Nem ir na abertura da exposição do museu. Nem entrar na loja descolada. Enquanto estamos aqui batendo punheta argumentativa nessa nossa masturbação coletiva com pouquíssima sacanagem incluída, as pessoas em geral se lixam das nossas frases lacradoras e vão se informar nos grupos de whatsapp, nas igrejas e nos guetos que se tornaram todos os espaços de compartilhamento de pensamentos e de lugares comuns. E o nosso grito só ecoa mesmo em nossos ouvidos e nos ouvidos dos outros tão desesperados quanto a gente, que não entendemos quando foi que perdemos o bonde, quando foi que fomos deixados falando sozinhos.

Fomos deixados falando sozinhos quando nos recusamos a partilhar a riqueza de nosso saber e de nossa cultura de outra forma que não em uma relação mentor discípulo, professor aluno, nós os sábios iluminando e salvando os pobres ignorantes das trevas do seu não saber. Nos fodemos. Ninguém precisa mais da gente. Somos os próximos a irmos para a vala comum dos assassinados sem nome, sem reconhecimento e sem sepultura.

Tenho estado em uma espécie de sideração vendo se perfilarem palavras, pesquisas, acontecimentos, cenas e mais cenas de uma decadência de velocidade meteórica se abatendo sobre todos nós e nós, a tal elite, apenas agora desesperados porque a água bateu na bunda e finalmente somos diretamente ameaçados enquanto que a desgraça vinha sendo anunciada aos 4 ventos desde o impeachment da Dilma. Quem assistiu ao show de decrépitas justificativas naquele dia tenebroso sabe que ali começou o grand finale armado para esse mês de outubro e do qual somos todos espectadores prisioneiros de olhos arregalados como no filme Laranja Mecânica, obrigados a ver. Obrigados a ver até saturar, até vomitar, até que toda essa perversidade nos torne completamente indiferentes, completamente amorfos, completamente dóceis.

E a gente imaginando que seria diferente?

Qualquer que seja o resultado dessas eleições, o pior parece ainda estar por vir.

A culpa é do lobo.

Começou assim. Um francês, professor de geografia, inteligente e viajado e sua mulher, igualmente professora, igualmente inteligente e viajada. Me contaram que ali nos confins de uma região perdida no interior da França existem pastores de ovelhas que têm seus bichos mortos por lobos. O lobo havia desaparecido do território francês e foi reintroduzido. E agora deu para caçar uma ovelha ou outra de vez em quando. Isso estressa os rebanhos, estressa o pastor de ovelhas e prejudica seu trabalho. A solução? Matar os lobos.

Tive que pensar se respondia ou não. Porque às vezes cansamos de lutar tantas batalhas. Me contentei em dizer que me parecia absurdo culpar o lobo por matar uma ovelha. As pessoas estão nos territórios dos lobos, não o contrário. Eles se indignaram e disseram que eu não me importava com a ruína dos pastores. Então tive que comprar a briga.

Porque o ser humano é o único que invade e devasta o planeta inteiro e se acho no direito de se indignar quando um animal age como tal.

E a conversa rolando chegou ali onde ela necessariamente deveria chegar, seguindo essa mesma lógica da culpa do lobo. Pois ele, que é originário de uma região próxima aos Alpes, contou que, andando pela montanha, cruzou com pessoas (negras) que procuravam um caminho. Eles pediam indicações do caminho mais longo, mas menos vigiado, para chegar em determinada cidade. Digo: “são refugiados”. Respondem: “não, porque falavam francês e não existe país francófono em guerra civil ou conflitos armados. Oi? Bom dia África Central, República do Congo… França não deixou um rastro de destruição com sua colonização, vai vendo… Professores, minha gente. E, a cereja do bolo, como dizem por aqui, essas pessoas – os negros que atravessam a fronteira pelos Alpes – vão largando coisas por onde passam, sujando tudo. Eles deixam roupas, sapatos, casacos de inverno, tudo pelo caminho.

Pausa para respirar. Porque isso é o discurso que um francês acima da média, mais esclarecido que a média, mais viajado que a média pode regurgitar em um mundo em que os discursos foram pasteurizados e a capacidade de se questionar caiu em desuso.

Eles me explicaram que na época deles (ambos têm pouco mais de 70 anos), ter um alojamento em um apartamento social, uma espécie de conjunto habitacional francês, era um orgulho e que eles nunca se sentiram colocados em um gueto. E que não haviam sido criado guetos para os migrantes, minha principal crítica sobre o modo como a França não conseguiu integrar os estrangeiros e como essa falha em integrar levou a um aumento da violência que deu no que deu nos últimos anos. Guetos reais, objetivos, bairros, cidades. E guetos subjetivos, subterrâneos, culturais, educacionais, de não inserção e de não aceitação. Não, imagina se a França criou guetos e fracassou em integrar as pessoas. São eles – vulgo nós, pois me incluo na categoria – que entendem tudo como racismo e preconceito contra eles.

Então eu tive que explicar para eles que o fato deles, franceses, brancos, europeus da gema nunca terem se sentido inferiorizados ou excluídos por conta da pobreza ou de outras mazelas da vida não serve como prova de que os migrantes, colocados nas mesmas condições que eles, não o sejam. Porque eles, vulgo nós, não são franceses, nem brancos, nem europeus. Eles são os outros e vão viver as mesmas aparentes experiências de forma diferente. Porque as “mesmas experiências” são, na verdade, diferentes.

Atendi por um período um homem argelino. A Argélia foi colônia francesa e tornou-se independente em um guerra sangrenta em que independentistas e apoiadores do regime francês se mataram até o movimento independente ganhar. E muitos dos argelinos que haviam lutado ao lado da França foram obrigados a sair do país para não morrerem nas mãos daqueles que ganharam. Esse sujeito é filho de argelinos vindos para a França nessa época e nessas condições. Chegados aqui, foram colocados em campos de refugiados bem perto de onde vivo, no sul do país. E mesmo depois que puderam sair dos campos, se instalar nas cidades e ter sua cidadania francesa reconhecida, a vida não melhorou para eles. Reuniram-se em bairros mais pobres e afastados das cidades. E foram alvos de todo tipo de atitude preconceituosa a eles destinada. Porque são árabes. Porque não são franceses. E, mais recentemente, porque são terroristas. O sujeito – e ele não é o único – encontrou como única opção de vida essa de se agrupar entre os seus para não perecer sozinho em meio àqueles que, não importa quantas gerações nasçam aqui, francesas de pleno direito, continuam lhe dizendo, de todas as maneiras possíveis, que ele não faz parte, que ele não é francês, que ele é e será sempre um cidadão de segunda categoria. E que o lugar dele não é aqui. Então, sim, esse migrante que nem é um porque ele é francês, por mais que digam que não, sente a rejeição desse país pesar nas suas costas noite e dia. E vê o mesmo acontecer com sua família, com seus filhos. Terceira geração nessa terra e ainda um “de fora”. Sua condição de pobreza não é a mesma que a tua, meu caro senhor francês, branco, europeu. Ele vive em um gueto, ele vive excluído. Mesmo estando teoricamente nas mesmas condições e nos mesmos espaços pelos quais você transitou.

Você, senhor francês, branco, europeu não tem como dizer à partir do seu lugar de existência que aquilo que o outro, vulgo nós, vivemos não é legítimo porque você não sabe do que se trata. Então, por uma questão básica de respeito, a única coisa que você pode fazer é não desautorizar aquilo que você não tem como saber se é verdade. Não desmentir. Fique quieto. Ouça. Quem fala sabe do que está falando bem melhor do que você. Como já dizia o bom e velho Freud, em uma passagem de Luto e Melancolia que explica porque aqueles que se denigrem têm razão.

Ninguém migra porque quer. Ninguém sai do seu país assim, facilmente, jogando roupa e calçado fora para poluir suas montanhas e para vir aqui aproveitar dos seus magníficos benefícios sociais, como se fossem encostos que pensam em parasitar o fruto do seu sacrossanto trabalho. Não. Basta olhar os dados, os movimentos de migração, as estatísticas, os estudos feitos por pessoas sérias e comprometidas com alguma neutralidade científica para perceber que ninguém sai da sua terra se puder ficar. E que a maioria não sai, morre ali mesmo. E que quem sai, sai quando é questão de vida ou morte. E quando pode sair. E quando chegam aqui ou em outro lugar, tudo o que querem é construir uma vida digna desse nome. Não querer se enfiar num gueto e ficar se vitimizando porque “não teriam competência para fazer tão bem quanto você” e “vão usar a xenofobia como álibi”. Que raios de argumento é esse que desconsidera totalmente todo mundo quer basicamente as mesmas coisas da vida, vulgo, ser feliz, ter um teto, poder comer, beber, ter amor, companhia, amigos, tranquilidade, segurança, saúde… Ou de repente é o senhor, francês, branco, europeu que, medindo os outros pela sua régua, conclui que se tratam de parasitas simplesmente porque você, historicamente, sempre foi um? Afinal, a França, no quesito parasitar, explorar e destruir os outros tem um belo CV… Tsc, tsc, tsc…

Sua montanha suja é o menor dos problemas. Mas aí é que a história do lobo e a do migrante se encontram. Porque é muito mais fácil para esse senhor e essa senhora europeus, brancos, franceses da gema, estudados e viajados engolirem o discurso palatável e açucarado da imprensa local da região deles que coloca em manchetes indignadas a revolta contra o lobo que comeu uma ovelha do que ter que procurar – porque a imprensa não vai dizer isso, claro – as verdadeiras causas da morte dessa prática do pastoreio. Que são as produções de massa, das grandes corporações, das criações de animais em cativeiro, engaiolados, comendo ração podre e tomando hormônio e morrendo mal para vir alimentar nossa insaciável fome de consumo. Se os pastores de ovelhas estão morrendo hoje assim como todos os pequenos produtores, não é bem por conta do lobo animal. Mas é tão mais fácil se indignar e dar um tiro no lobo do que olhar para quem está destruindo os produtores agrícolas no país, né? Porque um lobo, a gente pode matar. E ir dormir bem com a nossa consciência de que fizemos algo bom para proteger o pastor e suas ovelhas. Mas alguém vai matar os grandes produtores? Pois é…

Aqui na França, faz muito tempo que tornou-se fácil culpar o migrante por tudo. Falta emprego? O migrante é que veio aqui roubar. Condições de vida pioraram? Culpa dos migrantes. Mais violência? Migrantes à solta. Problemas em dar conta do pagamento de todos os benefícios sociais e assistências garantidos pelo Estado? Deve ter muito migrante encostado. Tem partido de extrema direita que cresce baseado nesse discurso, como em muitos outros cantos do planeta. Daqui a pouco vão começar a dar tiro. E dormirão com a consciência tranquila de terem cumprido o seu papel e livrado o país de uma praga. Melhor que ter que olhar para os mais ricos, que não pagam impostos, que não dividem riqueza e que colocam nas costas de todos os outros o preço à pagar pelas decisões deles, que apenas a eles favoreceram. Mas quem vai se insurgir contra o sistema, né?

Faz pouco tempo, uma cidade brasileira se insurgiu contra um grupo de migrantes venezuelanos e expulsaram-nos na porrada. O motivo? O assalto a um comerciante. A precariedade aumenta, a violência aumenta, um comerciante é assaltado. E a culpa é de quem? Do lobo. Matem o lobo.

No Brasil, uma nação constituída majoritariamente por migrantes voluntários ou escravizados, em que os índios são os únicos e legítimos donos com moral e motivos de sobra para botar todo mundo para fora. No Brasil as pessoas decidem que a culpa é dos migrantes. O Brasil que recebe apenas ridículos 2% dos milhões de venezuelanos que foram expulsos do país deles por conta da crise. Um país do tamanho do Brasil botando a culpa em 2% de pessoas que foram para aí não porque o Brasil é bonito, porque tem carnaval, porque o povo é cordial (sic) ou porque eles podem ganhar a vida nas costas do nosso trabalho. Eles foram para aí para não morrer de fome. Olha isso, ir para o Brasil pareceu melhor do que ficar no país deles, na casa deles, na vida deles, com a família e os amigos deles. Eles foram porque não tinham outra opção. E as pessoas que os receberam acharam que era muito, que era exploração demais, que era abuso, que eles não serviam para estar ali, para serem recebidos, acolhidos, ajudados. E botaram eles para fora.

Por que um lobo teria o direito de transitar por terras francesas, né? Por que ele teria a ousadia de ir e vir e de matar um carneiro para comer, não?

No Brasil, as pessoas decidem que a culpa é dos migrantes. E que a culpa é dos pretos. E dos pobres. A culpa é das pessoas que puderam estudar. Que puderam ir à faculdade. Que puderam viajar de avião. No Brasil, as pessoas decidem que a culpa é dos homossexuais. E das mulheres. A culpa é de todos aqueles que essas pessoas coladas nesse discurso chamam de “eles”. Contra “nós”. Sem perceber que eles estão mais próximos do “eles” do que do “nós”. E que o “nós” é apenas uma figura de linguagem usada para iludir mentes com preguiça de pensar a acreditar que elas fazem parte de um grupo do qual na realidade nunca vão fazer. E essas pessoas se alegram em destilar todo o ódio que sentem por tudo o que não vai bem em suas vidas nas costas dos outros, bem longe das suas responsabilidades pessoais. Elas se alegram em encontrar um culpado que não as coloque na posição de se questionarem. Elas se alegram em engolir essa ladainha pré-fabricada que as impeçam de pensar. E de olhar para quem, de verdade, contribui para a sua miséria, para a sua violência, para a sua frustração. Melhor culpar o lobo.

Estão até pensando em eleger um desses que fazem cortina de fumaça e que ameaçam destruir tudo o que não seriam “eles”. Sem perceber que não fazem parte do “eles” e que vão ser destruídos logo em seguida. Alegres em encontrar o bode expiatório bem longe de casa. Pretos, pobres, mulheres, homossexuais… são os lobos ideais para esses cordeirinhos que acham mais prático resolver a situação na base do tiro. E que encontram essa crença tranquilizadora legitimada nos discursos de um messias despudorado que não hesitaria em matar um filho para chegar ao poder. E, no Brasil, esses sujeitos estão felizes em poder destilar todo o ódio que sempre foram obrigados a conter em nome da civilidade mais banal. Agora podem assumir: o único objetivo é matar o lobo. O bode expiatório que vai pagar a conta de todos eles. Como Jesus, lembram?

O único risco é acordar no dia seguinte devorado pelas verdadeiras feras.

Fim do mundo

Um museu. A semana começou com um museu que pegou fogo. Ou melhor, botaram fogo num museu. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Brasil. Grande parte de seu acervo de mais de 20 milhões de obras consumidos pelas chamas. Fiquei muda, paralisada, apática. Vendo imagens, lendo as notícias e os comentários. Atravessada pela desesperadora sensação de que o país em que nasci e vivi quase toda uma vida está desaparecendo. Virando pó e fumaça. E que quando falo ou penso no Brasil, hoje em dia, falo de coisas, de lugares e de uma realidade que não possui mais nenhuma substância. Tudo o que eu vivi negado em sua existência, como se nunca houvesse existido. Uma assombração. Um delírio. Como apresentar aos meus filhos o país que nasci e vivi, e que também é deles, se não o encontro mais?

Penso na minha tia, matemática e engenheira química, a primeira pessoa de nossa família que fez um mestrado. Ela fazia pesquisa, fazia ciência. Ciência, essa território que virou palavrão, nome de coisa superficial e inútil. Tão inútil que deu na criação de uma espécie de gel que permitia que as imensas máquinas que perfuram o solo no fundo do mar em altas profundidades para buscar petróleo pudessem funcionar sem quebrar ou congelar. Ciência inútil empregada pela Petrobrás para garantir o petróleo que agora já nem é mais nosso. Ciência inútil.

Minha tia fez mestrado. Lembro dela escrevendo sua dissertação na máquina de escrever, remendando pedaços de papéis com correções, modificações. Uma dissertação longuíssima. Trabalho imenso, silencioso, discreto.

Na faculdade, uma professora me convidou para fazer pesquisa. Para coletar dados para uma pesquisa sobre a experiência de luto. Aprendi que pesquisa tinha método, um modo de fazer, uma disciplina, um rigor. Tempo, trabalho.

Mas foi no meu primeiro curso de especialização em saúde coletiva que tive a imensa oportunidade de trabalhar com um médico sanitarista da USP fazendo pesquisa sobre adolescência. Vulnerabilidade ao HIV na adolescência. Tentar entender o que fazia com que os adolescentes não levassem em conta os métodos de prevenção do HIV, mesmo quando informados sobre eles. Projeto que culminou, entre outras coisas, na criação de materiais didáticos para esses adolescentes que, além de informativos, fossem mais eficazes na divulgação das informações sobre como evitar contrair o vírus e na sensibilização dos adolescentes a essa questão. Ciência inútil.

Aprendi no trabalho com esse professor a trabalhar com pesquisa. Buscar as referências sobre um determinado assunto, mapear aquilo que já foi produzido sobre um determinado tema. Quanta gente, quanto trabalho, quantas coisas já foram escritas, pequenas contribuições nessa colcha de retalhos que unem-se umas às outras e dão margem para novas reflexões, novos estudos, novas pesquisas, novas descobertas, novas propostas. Aprendi que o trabalho de cada um é pequeno e que ninguém sabe tudo. Ninguém é referência absoluta para assunto nenhum. E nenhum conhecimento é tão absolutamente verdadeiro que não possa ser revisto e negado a partir do trabalho, da pesquisa, do questionamento e das investigações que partem dele mesmo.

Acho que me apaixonei por essa vida de pesquisador, de cientista nessa época. Essa simplicidade do esforço, do trabalho cotidiano, do exercício do pensamento, do rigor da investigação, da capacidade de formular questões e da efemeridade das respostas encontradas. Tão demasiadamente humano. Sempre tive um orgulho imenso em poder fazer parte desse mundo. Tive bolsa de pesquisa para minha primeira incursão nesse universo, ali na faculdade de psicologia. E para esse curso de especialização. E para a pesquisa com adolescentes que se seguiu. E para meu mestrado mais voltado para meu trabalho como psicóloga psicanalista em um serviço público de saúde mental. E para meu doutorado voltado para as formas da arte nos ensinarem sobre o corpo e o feminino. E para meu pós-doutorado voltado para a questão da memória nas artes visuais. Fui bolsista, o que quer dizer que o governo do meu país investiu no meu trabalho, no meu cérebro e na minha capacidade de produzir conhecimento. Conhecimento inútil capaz de fazer avançar alguma coisa. Dei aulas, orientei pesquisas, escrevi artigos. E fiz pouco, a meu ver. Muito pouco. Não o suficiente.

Curiosamente, foi Freud quem me ensinou aquilo que mais admiro na posição de um cientista: a capacidade de mudar de rumo. Freud foi um cientista e tanto. Mesmo que as pessoas teimem em discutir se psicanálise é ou não ciência. Ele era um médico, vienense, final do século 19, começo do 20. Pensava e trabalhava como um cientista. Estava ali atendendo seus pacientes, inventando a psicanálise e tomando notas. Discutindo. Pensando. Fazendo perguntas. Formulando hipóteses. Escrevendo tentativas de respostas. E, quando a experiência dele com seus pacientes, seres humanos, portadores de um sofrimento que era aquilo que ele queria compreender para poder, quem sabe, modificar… quando essa experiência, quando o trabalho tomava um rumo que ia contra aquilo que ele pensava, o que ele fazia? Ele negava que aqueles dados, aqueles acontecimentos eram reais? Ele maquiava o que as pessoas diziam e viviam para confirmar as suas verdades? Não, ele simplesmente dizia: achei que era assim, a experiência me mostrou que não, mudo de rumo. Sem medo. Sem vergonha. Não acredito mais na minha neurótica. Coragem e humildade de um cientista. De um sujeito que respeita o trabalho. O pensamento. Os fatos. E o conhecimento que vem dessa conjunção entre o pensamento e o mundo.

A ciência me ensinou esse posicionamento ético de respeito pelo trabalho, pelo pensamento e pelo conhecimento. E a compreensão de que nenhuma verdade é absoluta nem imutável. Ela me ensinou algo do que é ser humano.

Quando um país simplesmente para de financiar a produção de conhecimento, a ciência, a pesquisa, qual a mensagem que é passada ao seu povo? Que aquilo tudo é conhecimento inútil, longe da realidade. Conhecimento sem o qual a vida e o mundo como conhecemos não existiriam, porque praticamente tudo o que existe é fruto de algum conhecimento produzido cientificamente. De vacinas a arranha-céus. Pode escolher. E armas e bombas nucleares também, eu sei. E tortura de gente, de bicho. Uma porção de aberrações.

A última vez em que o conhecimento, a ciência e a pesquisa foram tratados como uma inútil ameaça às verdades absolutas estabelecidas por sei lá quem e proclamadas por sei lá quais detentores da tal verdade foi na Idade Média. Se qualquer um der uma olhadinha em um livro de história ou até mesmo no google, vai ter uma idéia do resultado de séculos de obscurantismo: doenças, miséria, servidão, tirania… A quem interessa viver em um mundo assim?

Um museu queimou no domingo passado. Milhares de objetos, de registros e de informações que contam a nossa história, as nossas origens como espécie, como humanos e como brasileiros simplesmente deixaram de existir. Nunca mais ninguém vai poder vê-los, aprender com eles, estudá-los, tentar entendê-los. Quem pensa ou diz que isso não tem a menor importância, que é conhecimento inútil, está afirmando que não serve para nada saber das próprias origens. Como se tivesse nascido de chocadeira, sem pai, nem mãe. Sem história. Como se não tivesse um nome. Pessoas auto-geradas na certeza absoluta de quem são e daquilo que vivem, de suas verdades sobre elas mesmas e sobre o mundo. O oposto do humano. A negação da humanidade de cada um. Que cada qual baste a si mesmo porque não existe mais história. Não existe mais rastro, nem lastro, nem pergunta a ser feita, nem resposta a ser encontrada. Apenas a absoluta certeza de si, do regozijo de bastar-se a si mesmo em todos os níveis. Um narcisismo mortífero de quem nem vê mais o outro, de quem nem tem mais outro, vivendo sozinho em meio a um deserto.

O mundo dos seres humanos no qual eu me reconhecia enquanto humana parece que acabou.

(continua… espero)

Como querer Caetanear…

Hoje o dia nasceu verão. Quente, abafado, quase Brasil. E em meio ao cotidiano mais banal de uma segunda-feira tão boba quanto qualquer outra veio subindo aquele banzo que só quem está longe há muito tempo conhece.

A moleza do verão que me deixou a vida inteira meio prostrada e com a cabeça em algodão doce, metáfora mais linda que aprendi por aqui recentemente com um sujeito que de tão melancólico já não sabe mais o que é viver diferente de um morto vivo. E o trajeto pela estrada, as montanhas ao fundo, aquele céu azul, aquele ar de férias…

Cresceu um buraco ali no peito e então lembrei do Djavan. Pai e mãe, ouro de mina. Quem escreve letras e músicas tão lindas que décadas depois são ainda capazes de te pegar numa curva de estrada e te arremessar direto para os recônditos mais distantes da tua história?

Me digam onde nesse mundo alguém conseguiu torcer palavra em poesia e criar esse buraco entre o peito e o estômago melhor que esses nossos músicos que eu vou lá. Aquele gozo da descoberta da palavra que virou outra coisa ali nas tripas da gente, um gozo que é metade prazer e metade dor. Reconhecimento, alguém descobriu o que vai por entre nossas entranhas.

Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul… cantou a Gal, cantora favorita de toda a vida do meu pai, quase uma tara, um fetiche nessa voz dessa mulher que conseguiu concentrar toda gostosura em voz de um jeito que deixava todo muito doido. Mais ou menos como no Ney, quando rebolava e cantava e dava aquela vontade de comer o sujeito junto com todas as suas letras.

Música que meu pai ouvia no toca-discos ali de casa, o jornal entre as mãos, aquele cheiro de fim de semana, o sol entrando pela janelona, passarinho cantando em uma ruela de São Paulo que nem parecia cidade grande. Música tocando no toca-fitas do carro rodando pela estrada de verão até chegar na praia. Dia de sol, aquele verão que cola e mela a pele, aquele salgado de verão que entra pelos poros e faz aquele bem tão sublime que dura quase um ano inteiro. Música tocando no meu carro com as amigas de faculdade, primeira vez, primeiras férias, primeiras músicas, o verde daquela costa de margeia a estrada de Ubatuba, o mar ao fundo, o azul, as montanhas, aquele verde selvagem que não existe aqui, um verde caótico de natureza pura e simples, jamais domesticada.

Foi um instante e eu estava ali e aqui, lá longe e aqui, naquela história e no hoje. Essa estrada linda cercada de montanha e de mar e do verde daqui, árida porque é verão e toda vida que explodiu em cores começa a torrar, a torrar e é o começo do fim da beleza que vai voltar sempre, mais para frente, num outro dia, porque ainda bem ainda temos as estações e aqui as estações se sucedem e nos garantem que a beleza volta. O ar seco do verão que não mela, a falta que faz o sal na pele, aquela sensação de estar viva. Hoje foi assim nessa segunda boba, mistura de ontem e de hoje, de lá e daqui, como apenas quem começa a estar longe há muito tempo entende.