Flores e pedras

Ele tem alma de artista. Dá para perceber pela névoa espessa e inquieta que atravessa seus olhos cada vez que eles encontram o olhar daquele com quem fala. As palavras saem como canção fluída, como um rio e se atrapalham apenas no encontro dos olhares. Aí ele fica opaco, os olhos brilham e se escondem. Uma conexão perturbadora, daquelas que dá vontade de continuar em conversa, refazer o mundo contando histórias. Mas não.

Houve quem acreditasse que a vida deveria ser feita em torno dessa conexão, que esse encontro é raro demais para não se fazer nada dele. Há quem se move a partir dos encontros mais significativos, busca de uma vida que seja plena de sentido, nenhum gesto desperdiçado. Será o tempo ou a própria vida que fazem com que não se acredite mais? Em outros tempos, esse encontro seria decisivo.

A fala que flui como música tem todo um cenário, um cheiro de madeira úmida, o mesmo que cola no fundo na garganta, um fundo de cereja naquilo que, na superfície, é rocha. Cereja ou pêssego, nunca sei ao certo. Mas eles certamente se encontram em algum lugar de suas diferenças. Frutas escondidas na rocha seca, áspera, pegajosa. Um oásis no deserto, um encontro de frutas escavadas em meio às pedras secas, como uma mão desesperada que cava em busca de vida, um homem à beira da morte que precisa estar vivo, precisa sentir a vida pulsar ali, no meio do peito, mesmo que isso custe tudo o que ele tem e tudo o que ele não viveu. Como quem procura no fundo de um copo a redenção derradeira, a verdade enfim revelada de si mesmo, a sensação única e fugaz de estar ali, presente, inteiro.

Uma flor nasce no meio de um calhau de pedras. Como deflorar, como desabrochar delicadeza no lugar mais improvável. Como não destruir flores que nascem no deserto? Como ser flores fortes que resistem a tudo disfarçadas de rocha, mascarando sua extrema delicadeza? Um artista saberia o segredo?

Ele diz e se esconde. Ele se cala. Porque dizer demais é desdizer o mais importante. E porque talvez nem ele mesmo saiba o que está dizendo quando não diz. Ele tem alma de artista, mas ele procura também. Ele escava entre as pedras em busca da mesma verdade que oferece quando fala. Ele a possui, mas ela lhe escapa e por isso precisa procurá-la novamente. E assim, a cada estação, lá se vai ele entre os campos a procurar.

Amendoeiras em flor

Fevereiro. E aparecem as primeiras flores. São as amendoeiras selvagens que crescem na beira da estrada e entre as vinhas. Massas arredondadas de cinza, quando vistas de longe. E você se diz que parece tolo acrescentar mais cinza ao já tão cinzento inverno de nuvens cinza sob céu cinza e frio cinza. Como se um acumulo de cinzas se concentrasse em alguns pontos da paisagem, cinzas que podem se dissipar a todo momento por um sopro, por uma brisa, por um vento. Essas massas de aparente e passageiro cinza são elas, as amendoeiras. Verdadeiro disfarce de prenúncios de primavera mascarados de cinza e fumaça que, quando você se aproxima, se revela em toda sua surpreendente beleza.

O cheiro. Ah, o cheiro das amendoeiras em flor é algo que nem os melhores perfumistas franceses conseguiram igualar. Um perfume suave, doce, delicado e discreto que te obriga a parar no meio do caminho, se aproximar. Será que senti direito? Será mesmo isso? E você para e respira aquele perfume. E olha os galhos nus das amendoeiras agora cobertos de centenas de pequenas flores. Brancas. Rosas. De um rosa tão claro que é quase branco de um branco rosado. Umas coladas às outras, balançando seu perfume ao vento, em cachos e cachos de beleza primaveril invadindo o inverno.

Eu não conhecia amendoeiras, ainda mais em flor. Quando cheguei por aqui no ano passado, fui pega de surpresa entre o parquinho e o caminho de volta à casa. Pensei que eram cerejeiras, como aquelas do Japão, pela semelhança nas formas, nos cachos, Aquele cheiro, aquelas pequenas flores, aquelas cores. Não a beleza e o perfume quase ofensivos de uma rosa. Uma presença delicada, sutil, de uma beleza simples e sem artifícios.

Eu fico realmente encantada com a aparição das amendoeiras em flor em fevereiro.

A neve e a neve

Este ano demorou, mas finalmente chegou a neve. E eu ADORO neve. Conheço pessoas que estão aqui há tanto ou mais tempo que eu e que dizem que isso passa. Mas até agora não passou. A neve desperta em mim o lado mais pueril, o deslumbre mais ingênuo, o entusiasmo mais verdadeiro. Todo ano espero a neve chegar e, desde que cheguei ao sul da França, olho a montanha mais alta das redondezas esperando vê-la branca num amanhecer qualquer.

Existe, no entanto, a neve e a neve. A neve das grandes cidades, como de Paris, que é linda apenas para os turistas. Porque para quem vive ali, é o inferno branco na terra. A neve que se acumula em Paris logo vira uma lama marrom pegajosa que espirra em sapatos, calças e casacos desde que você sai do metrô ou bota os pés fora de casa. A quantidade de gente faz com que a neve repisada vire uma meleca nojenta, no melhor estilo rave com chuva. Só que, quando você vive em Paris, não tem música boa, você não está de folga e nem dá para fazer a festa. Você tem que ir ao trabalho, à escola, a não sei onde e precisa atravessar aquele mar de cola marrom. E você odeia a neve.

Fora que, em Paris, acontece um fenômeno incompreensível para mim a cada vez que neva. Neva todos os anos naquela cidade e mais de uma vez por ano. E, todos os anos, a cada vez que neva, é como se fosse uma surpresa. Como se estivéssemos em Salvador em pleno mês de janeiro e caísse uma tempestade de neve. Tudo para. Não estavam preparados. Como assim? Não sabiam que ia nevar? Sim, o serviço de metereologia é excelente. Não sabiam o que tem que fazer quando neva? Sim, a França é um país onde neva desde sempre, todos sabem o que deve ser feito. Então por que não fazem? Mistério. Neva em Paris e os ônibus não podem circular, as escolas fecham, todo ano aquele clima de catástrofe natural. Em um país como a França e em uma cidade como Paris, onde teoricamente tudo deveria funcionar. Até hoje ninguém conseguiu me explicar o que acontece, mas todo ano tem as mesmas reportagens, o mesmo improviso, o mesmo espanto. Gente, é inverno, no inverno neva.

Já tive um primo que morou em Nova Iorque na mesma época em que vim morar em Paris. No inverno, ele postou umas fotos de um dia em que os ônibus não circularam, as escolas fecharam e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa em Nova Iorque. A neve estava COBRINDO os carros! Tinha um muro de neve nas calçadas e foi só então que a cidade se tornou intransitável. Mas em Paris neva 5 cm e ninguém sabe o que fazer. Depois quando digo que os franceses são muito ineficientes para uma série de coisas, as pessoas acham que estou chorando de barriga cheia.

Ainda bem que tem a neve. A neve na montanha, nos vilarejos, nos lugares afastados dos grandes centros. Neve que cai branquinha e fica branquinha, fofa sobre jardins e outros lugares abertos por onde as pessoas não circulam. Você pode se jogar naquele tufo de neve e o único risco é aterrissar em cima de um cocô de cachorro desavisado que decidiu se aliviar por ali. Porque mesmo no inverno bichinhos e bichanos dão suas voltas. Dá para escorregar de luge (uma espécie de trenó) no meio de um descampado. Dá para fazer um boneco com cenoura no nariz e galhos no lugar dos braços. Dá para fazer guerra de neve. Dá para ser criança. A neve é um salvo conduto branco que silencia os barulhos do mundo, adormece a natureza e te autoriza a rir e a brincar.

Existe todo um ritual ligado à neve. Existe por aqui duas semanas de férias escolares que são as chamadas férias de inverno. As famílias vão para as montanhas, para as estações de esqui. Alugam um alojamento e passam ali uma semana subindo e descendo montanha de teleférico, esquiando todos pelos mesmos lugares, num congestionamento de bastões, esquis e roupas fluo. Como nossas férias de verão na praia, aqui férias de inverno são “no esqui”. Restaurantes ruins lotados, carros estacionados na calçada, gente passando uns em cima dos outros, todo caos a que se tem direito quando milhões de pessoas saem de férias para os mesmos lugares ao mesmo tempo. Francês é classudo, glamouroso, elegante e educado até você passar suas primeiras férias “no esqui”. Daí você percebe que era tudo fachada. E nem adianta ir nas estações dos super ricos, as mais caras e exclusivas que é exatamente a mesma coisa. Uma grande farofada. A neve é um negócio da China.

Mas existe a neve e a neve. A neve dos lugares perdidos fora de temporada e de férias. A neve que eu vejo nas montanhas ao redor, iluminada pelos céus em tons de rosa e dourado inacreditáveis de inverno. A neve pano de fundo dos milhares de pássaros voando em uníssono em busca de lugares mais quentes. A neve sobre árvores e plantas, pesando galhos e folhas, criando desenhos inesperados. Essa neve que cobre tudo, que cria um silêncio quando cai como eu nunca ouvi antes de presenciar neve caindo. Ela abafa os ruídos, impõe calma e recolhimento.

Eu adoro a neve e os céus azuis de inverno. Fora quando venta. Quando venta, eu reclamo tanto ou mais que parisiense quando neva. Mas da boca para dentro, que o vento faz engolir as palavras, faz olhos chorarem sem querer e faz a gente andar de ré.

 

 

Finda uma etapa

Está feito. Saí hoje às pressas comprar cuecas para o pequeno de dois anos e dez meses. Cuecas. Fraldas também, que tinham acabado. Mas… cuecas. Os últimos tempos têm sido de muitos fins e eis que meu filhotinho decidiu findar também. De ser bebê.

Minha filha foi de seu ano e meio até os três a uma creche, uma pequena e maravilhosa creche tocada por quatro educadoras que não poderiam ser mais acolhedoras, tanto com ela quanto conosco. E a experiência deu tão certo que meu filho herdou a vaga dela e foi à mesma creche dos dez meses até o final deste mês. Irá em setembro para a escola.

Mesmo tendo frequentado o mesmo lugar, cada qual aproveitou dele coisas diferentes. Ambos fizeram amigos queridos e é bonito observar a relação da minha filha com sua melhor amiga, vinda dessa creche, cada vez que elas se encontram. Abraços, uma alegria verdadeira que desemboca em brincadeiras, em risadas, em partilha.

Meu filho tem uma turma. Eles são cinco, quatro garotos e uma garota. Todo dia quando chego para buscá-lo correm todos para a grande janela da creche e me olham de lá dentro, como fosse uma foto de família. Nem tenho coragem de procurar o celular para registrar porque não dá para perder nem um segundo dessa cena. E, quando ele sai, ele corre para o lado de fora da mesma janela e grita, acenando: “au revoir, les amis“.

Todos os amiguinhos vão para a escola, como ele, cada um para uma diferente. Com minha filha isso gerou uma saudade difícil de lidar, um pesar, uma perda de referências que fez com que a escola levasse uns bons meses para se tornar um bom lugar. Vamos ver como será com ele.

Despedidas são difíceis. Principalmente quando elas levam consigo uma fase, uma época da vida que, sabemos, não vai voltar e não temos como segurar imóvel sem que ela escape por entre os dedos. Meus pequeninos vão ambos para a escola agora, meu filho logo mais usará cuecas.

Minha filha tem o encanto dos seus quase cinco anos. Ela sorri com seu olhar grande e generoso. E ela já tem um certo peso de uma consciência dela mesma. Não para tudo, que ela ainda não entendeu uma porção de coisas sobre os limites, por exemplo e um não, para ela, é apenas barulho de fundo quando ela está pulando em cima da cama e correndo pela casa com o irmão sendo monstro e fantasma e eu digo que é hora de dormir. Nessa hora ela nem sabe de si, nem sabe ouvir e é monstro e fantasma e risada e ela incita ele e daí a brincadeira pode continuar. Mas noutras horas ela é capaz de falar dela, do que ela sente, com uma contundência de quem enxerga o coração do lado de dentro. E isso me enche de orgulho. (Como não, né?)

Ela sabe, melhor do que meu filho, que em alguns momentos eu não consigo administrar o cansaço, as necessidades deles, as minhas e estouro. Ela já viveu isso, infelizmente, mais do que eu gostaria e em momentos muito difíceis dos quais ela recebeu os rescaldos. Ele fez que não era com ele e ainda consegue fazer um tanto disso. Ambos guardam uma certa rebeldia da infância que não foi quebrada, domada e que espero não seja nunca, pois guardo no meu coração a esperança de que filho não é para dobrar nem para domesticar e educação nada tem a ver com isso.

Meu pequeno tem aquele sorriso que faz covinhas no rosto. Ele gosta de correr e chacoalhar os cabelos. E agora deu para falar umas coisas em nome próprio. Pode decidir que não quer ir na piscina com a irmã, para espanto dela, porque não quer se molhar. Mesmo que ela insista e que ele ame fazer tanta coisa com ela. Nada feito. Pode contar o que fez durante o dia. Ou pode lembrar de um dodói, de um passeio no rio ou do cachorro que viu em algum lugar. Ele gosta de olhar fotos de agência imobiliárias procurando piscinas. E de folhear os livros relembrando em voz alta as histórias que lemos. E de montar quebra-cabeças. Mas aprendeu a ligar o leitor de dvd e a colocar ele mesmo um filme, o que nos rende várias manhãs sendo acordados ao som da Era do Gelo ou do Rei Leão.

Os dois adoram ler. E não precisam de quase nada para inventar uma refeição inteira no jardim com pratos de pedaços de piso de madeira e folhas como macarrão, peixinho ou bolo. Um tronco de árvore virou um cavalo e noutro dia ele virou lenha e o pequeno, perplexo: “cadê o cavalo?”. Podem colher tomates na horta para o almoço e adoram quando o pai os chama para jardinarem juntos. Eles inventam tantas coisas que não são réplicas de programas de televisão ou de publicidade, correm fazendo princesas e príncipes e papai e mamãe e filhinha e filhinho e “madame” e “monsieur” e dragão e cachorro… Eles brincam e brigam e se estapeiam e escalam pedras e dançam girando e cantam “Bella ciao“. E “Sapo cururu”. E “Borboletinha”. E as músicas da “Rainha das Neves”, do “Rei Leão” e da “Moana”. E Gaël Fayet. E Clara Luciani. E ultimamente até mesmo Djavan e Marisa Monte.

O fim de uma etapa, das crianças que não são mais bebês, não é difícil porque não queremos que nossos filhos cresçam. Mas porque olhamos para tudo o que vivemos e o que estamos vivendo e existe ali tanta beleza que não dá vontade de passar para uma outra. É a beleza de um dia ensolarado, logo de manhãzinha, quando o sol aquece o suficiente para que a brisa fresca venha trazer a vontade de suspirar bem profundo. Aquela luz da manhã por entre as folhas das árvores, bem horizontal, fazendo um lusco-fusco dessa primeira infância de tanta descoberta, de tanta alegria, de tanto sentimento em sua intensidade mais extrema e mais visceral. Uma suavidade e uma brutalidade juntas, que causam solavancos, desesperos, e também uma espécie de plenitude de certos instantes inenarráveis. Não é à toa que Proust recorda da perfeição da primeira lembrança. Não é à toa que tantos de nós lamentam a infância perdida. Daria para se contentar com essa beleza para sempre. Mesmo. Fora as noites mal dormidas. E as fraldas para trocar. E tudo aquilo que não foi tão bom assim. Mas que a gente releva. Ou esquece. Em nome dessa beleza. Em nome disso que talvez possamos chamar felicidade. E que vivemos juntos. Que eu vivi com eles. E que agora já é outra.

O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

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Como querer Caetanear…

Hoje o dia nasceu verão. Quente, abafado, quase Brasil. E em meio ao cotidiano mais banal de uma segunda-feira tão boba quanto qualquer outra veio subindo aquele banzo que só quem está longe há muito tempo conhece.

A moleza do verão que me deixou a vida inteira meio prostrada e com a cabeça em algodão doce, metáfora mais linda que aprendi por aqui recentemente com um sujeito que de tão melancólico já não sabe mais o que é viver diferente de um morto vivo. E o trajeto pela estrada, as montanhas ao fundo, aquele céu azul, aquele ar de férias…

Cresceu um buraco ali no peito e então lembrei do Djavan. Pai e mãe, ouro de mina. Quem escreve letras e músicas tão lindas que décadas depois são ainda capazes de te pegar numa curva de estrada e te arremessar direto para os recônditos mais distantes da tua história?

Me digam onde nesse mundo alguém conseguiu torcer palavra em poesia e criar esse buraco entre o peito e o estômago melhor que esses nossos músicos que eu vou lá. Aquele gozo da descoberta da palavra que virou outra coisa ali nas tripas da gente, um gozo que é metade prazer e metade dor. Reconhecimento, alguém descobriu o que vai por entre nossas entranhas.

Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul… cantou a Gal, cantora favorita de toda a vida do meu pai, quase uma tara, um fetiche nessa voz dessa mulher que conseguiu concentrar toda gostosura em voz de um jeito que deixava todo muito doido. Mais ou menos como no Ney, quando rebolava e cantava e dava aquela vontade de comer o sujeito junto com todas as suas letras.

Música que meu pai ouvia no toca-discos ali de casa, o jornal entre as mãos, aquele cheiro de fim de semana, o sol entrando pela janelona, passarinho cantando em uma ruela de São Paulo que nem parecia cidade grande. Música tocando no toca-fitas do carro rodando pela estrada de verão até chegar na praia. Dia de sol, aquele verão que cola e mela a pele, aquele salgado de verão que entra pelos poros e faz aquele bem tão sublime que dura quase um ano inteiro. Música tocando no meu carro com as amigas de faculdade, primeira vez, primeiras férias, primeiras músicas, o verde daquela costa de margeia a estrada de Ubatuba, o mar ao fundo, o azul, as montanhas, aquele verde selvagem que não existe aqui, um verde caótico de natureza pura e simples, jamais domesticada.

Foi um instante e eu estava ali e aqui, lá longe e aqui, naquela história e no hoje. Essa estrada linda cercada de montanha e de mar e do verde daqui, árida porque é verão e toda vida que explodiu em cores começa a torrar, a torrar e é o começo do fim da beleza que vai voltar sempre, mais para frente, num outro dia, porque ainda bem ainda temos as estações e aqui as estações se sucedem e nos garantem que a beleza volta. O ar seco do verão que não mela, a falta que faz o sal na pele, aquela sensação de estar viva. Hoje foi assim nessa segunda boba, mistura de ontem e de hoje, de lá e daqui, como apenas quem começa a estar longe há muito tempo entende.

Quando a música retorna.

Sou daquelas pessoas que sempre teve trilha sonora. Bailarina, a música acompanhava os passos, fazia mover o corpo. A música era corpo.

Mesmo depois que o ballet se foi, a dança ficou e a música também. Música do rádio e do toca discos do meu pai, lendo jornal ao som de Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal. Música de minhas primeiras músicas, discos comprados com a mesada nunca suficiente. Música das festas, primeiros bailes, domingueiras, música eletrônica, festas, lambada, forró, raves… Uma música toca, uma memória retorna, uma época, uma situação. Coisa de rir. Ou de chorar.

Os tempos sem trilha sonora foram tempos difíceis. Tempos em que os sons e as palavras perderam sentido. Acrescentar um som a algumas situações teria sido dor demais. Dor traduzida na dor das canções que traduziriam minha dor demasiado bem para poder olhá-las de frente. Silêncio. Houveram épocas de silêncio.

Depois que ele surgiu na minha vida, a música durou pouco tempo, tão pouco tempo quanto a ilusão do grande amor. Nossa filha nasceu, houve um tanto de música que logo escorreu no ralo das decepções, da falta de apoio, da solidão. Por alguns anos escutar música me feria de morte, até que ela voltou forçada, como uma violência da traição. As músicas que eles escutavam agora invadiam meus ouvidos, prolongamentos dos encontros deles forçados no meu cotidiano. Minhas músicas e minha sensibilidade usadas como isca por quem não tinha o que mostrar nem oferecer.

No desespero, enviava-lhe músicas, na esperança que as minhas suplantassem as dela. Na esperança que ele finalmente entendesse. Ele voltou. Mas apenas para não voltar. Voltou com aquelas músicas e com a convicção de ter vivido algo extraordinário. Às minhas custas, às nossas custas, pagamos todos o preço mais caro pela prioridade absoluta dada aos desejos realizados à qualquer preço. Ela se foi à fórceps, as músicas ficaram como agulhas que rasgam a pele a cada vez que se repetem em algum lugar desavisado.

Essas músicas recentes, elas me doem em lugares que nem consigo explicar. A única sonoridade tolerável por um bom tempo foram as músicas das crianças que embalam nossos trajetos de carro entre casa, creche, escola. Músicas tolas, músicas belas, músicas cantadas com eles, risadas, poder cantar gritado no carro. Agora não mais sozinha, mas com eles. Senti vontade de mostrar minhas músicas para eles, mas o que mostrar? Fomos fazendo listas do que amamos eu e eles, uma Palavra Cantada ali, uma Madonna acolá, Sting, Galinha Pintadinha, Vaiana, Frozen, Rei Leão…

As músicas eletrônicas, as músicas brasileiras, as músicas francesas… tudo ganhou um ar meio fake, forçado, fora de esquadro, distante de mim. Quem eu fui, não sou mais, as músicas deixaram de servir perfeitamente. Como as roupas, os sapatos, as palavras, as frases que sempre me definiram, as verdades, os gostos… Tudo arrastado na avalanche da vida e eu junto.

Daí, outro dia, quis enviar uma música. O que mandar? O que não estaria totalmente contaminado pelo amargor da vida vivida como decepção do sonho negado? Procurei nos arquivos, na memória, nas músicas das crianças, nas músicas recentes… nada.

Em um concerto de um senegalês em um vilarejo de 250 habitantes teve alguém que veio tocar do meu lado. Faz vinho e ama música. Descobri Gäel Faye e as músicas do exílio. Lembrei das músicas debaixo d’água dos filmes de Nery e Gautier… Mergulhar fundo, se lançar… e dançar

Fui tentar oferecer uma música e ela voltou para mim.

Minha mais recente trilha sonora. Sem dor. Ou sem amargor. Ou sem amarDOR.

Apenas vento nos cabelos e a sensação de estar planando em algum lugar ainda cheio de beleza e de vida: aqui.