Flores e pedras

Ele tem alma de artista. Dá para perceber pela névoa espessa e inquieta que atravessa seus olhos cada vez que eles encontram o olhar daquele com quem fala. As palavras saem como canção fluída, como um rio e se atrapalham apenas no encontro dos olhares. Aí ele fica opaco, os olhos brilham e se escondem. Uma conexão perturbadora, daquelas que dá vontade de continuar em conversa, refazer o mundo contando histórias. Mas não.

Houve quem acreditasse que a vida deveria ser feita em torno dessa conexão, que esse encontro é raro demais para não se fazer nada dele. Há quem se move a partir dos encontros mais significativos, busca de uma vida que seja plena de sentido, nenhum gesto desperdiçado. Será o tempo ou a própria vida que fazem com que não se acredite mais? Em outros tempos, esse encontro seria decisivo.

A fala que flui como música tem todo um cenário, um cheiro de madeira úmida, o mesmo que cola no fundo na garganta, um fundo de cereja naquilo que, na superfície, é rocha. Cereja ou pêssego, nunca sei ao certo. Mas eles certamente se encontram em algum lugar de suas diferenças. Frutas escondidas na rocha seca, áspera, pegajosa. Um oásis no deserto, um encontro de frutas escavadas em meio às pedras secas, como uma mão desesperada que cava em busca de vida, um homem à beira da morte que precisa estar vivo, precisa sentir a vida pulsar ali, no meio do peito, mesmo que isso custe tudo o que ele tem e tudo o que ele não viveu. Como quem procura no fundo de um copo a redenção derradeira, a verdade enfim revelada de si mesmo, a sensação única e fugaz de estar ali, presente, inteiro.

Uma flor nasce no meio de um calhau de pedras. Como deflorar, como desabrochar delicadeza no lugar mais improvável. Como não destruir flores que nascem no deserto? Como ser flores fortes que resistem a tudo disfarçadas de rocha, mascarando sua extrema delicadeza? Um artista saberia o segredo?

Ele diz e se esconde. Ele se cala. Porque dizer demais é desdizer o mais importante. E porque talvez nem ele mesmo saiba o que está dizendo quando não diz. Ele tem alma de artista, mas ele procura também. Ele escava entre as pedras em busca da mesma verdade que oferece quando fala. Ele a possui, mas ela lhe escapa e por isso precisa procurá-la novamente. E assim, a cada estação, lá se vai ele entre os campos a procurar.

O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

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Quem gosta de vinho?

Noutro dia escrevi sobre os vinhos naturais, biodinâmicos e bio aqui na França, uma “moda” que começou há mais de uma década e se reforça dia a dia. Em um mundo preocupado em comer saudável e em diminuir tanto quanto possível a quantidade de pesticidas, hormônios e outras químicas com as quais nos envenenamos enquanto comemos, nada mais coerente que se preocupar também com beber saudável. Afinal, não tem muito glamour pensar que você está tomando Monsanto junto com aquele bordeaux de 500 reais, né?

Algumas pessoas por aqui defendem que o vinho natural sempre existiu porque sempre existiram viticultores que não seguiram muito a onda de trabalhar com produtos demais, nem se renderam ao mercado em busca de um sabor fácil, redondo e padrão. Esses viticultores já não trucavam muito o vinho e continuaram não fazendo. Outros perceberam a importância de voltar às bases e foram testar novas velhas maneiras de cultivar, tratar a vinha e produzir o vinho. E uns ainda sentem a pressão atual por um vinho mais limpo e menos padronizado e começam a lançar uma “fornada” bio em meio à produção costumeira. Sinal dos tempos?

Um amigo enólogo me disse outro dia que o vinho que ele aprendeu como sendo vinho é esse das tecnologias, dos pesticidas, das interferências na fabricação. Esse gosto é o que ele entende como “a verdade” do vinho. E segundo essa verdade, um vinho natural não é um bom vinho. Por isso que a maior parte deles não entra nas denominações controladas, pois não se enquadram nos parâmetros do que deve ser um bordeaux, um bourgogne… Então eles são labelizados como vin du paysvin de France, títulos que costumam ser dados a vinhos “menores”. Alguns preferem denominar-se vins libres.

Um vinho livre é aquele que não segue a receita para ser isso ou aquilo, não segue as cépages para poder ser considerado tal ou qual tipo de vinho. Ele mistura, inventa. Ou como disse tão sabiamente esse amigo enólogo, é o vinho que te permite descobrir o que estava escondido por trás daqueles outros cheios de química.

O que existe por detrás de um vinho redondo e arrumadinho?

Quem gosta de vinho?

Eis algo sobre o que nunca tinha pensado antes de começar a pensar: os vinhos, como todos os produtos alimentares em nossos dias, podem ser modificados e conter uma imensidão de produtos químicos. Quem já tinha se dado conta que, também para os vinhos, temos que considerar a opção bio?

Beber melhor e mais saudável, eis algo que um número cada vez maior de viticultores se preocupa na França. Retornar às raízes, retornar ao sabor das raízes, mágica que os vinhos deixaram muitas vezes de fazer, tendo que se adaptar ao consumo de massa e ao sabor médio buscado pela maioria. O gosto fácil ou a ousadia dos sabores específicos? Eis a questão.

As uvas, os vinhedos, podem ser tratados com uma quantidade mais ou menos importante de pesticidas e eles vão parar no vinho. Assim como umas ou outras coisinhas que os viticultores vão acrescentar para “arrumar” o vinho na hora da produção. Por aqui, descobri que tem quem coloque açúcar, sulfitos além dos naturais vindos da própria uva, conservantes. Quando abrimos uma garrafa, aquilo que chega no nariz e na boca é o conjunto da obra, ou seja, as uvas, o terroir e toda a porcariada que eventualmente o viticultor terá acrescentado para que o vinho seja redondo e que ele agrade ao gosto e às exigências de seus consumidores. O que é uma pena, se pensarmos bem, pois um vinho é uma descoberta tão incrível e inesperada do lugar onde ele foi feito que trabalhar para torná-lo palatável como todos os outros é tirar dele o que o faria único. E nisso a diversidade se perde.

Pois bem, por aqui encontramos mais e mais viticultores passando ao bio, ao natural e ao biodinâmico. Colheita manual, sem uso de pesticidas, sem acréscimo do que quer que seja, fermentação com o uso apenas de produtos naturais, doses de sulfitos acrescentados bem menores do que se vê por aí. Uma pequena revolução, feita por apaixonados do terroir, essa beleza poética que é como chamam por aqui a terra, a terra de cada pequeno terreno que muda de um metro a outro.

Descobrir um vinho natural é desafiar os hábitos que temos, o gosto que pica na boca, a espera de que o vinho aere, uma certa opacidade… coisas esquisitas. Uma descoberta e tanto, especialmente para paladares habituados aos sabores bem alterados.

Um vinho é uma descoberta. Tenho descoberto nesses vinhos bio, biodinâmicos e naturais todo um mundo novo dos gostos não redondos, que não aparam arestas, que não maquiam nem disfarçam nada. Um vinho vivo, é o que dizem. Um vinho como um ser humano, cheio de falhas e idiossincrasias. Um deleite.

Vins naturels.

Vins naturels, algumas sugestões.

Ainda sobre vinhos bio, naturais e biodinâmicos.

Quem gosta de vinho?

 

O vinho segue os ritmos e os caprichos da natureza e o inverno é a época da poda, da taille. O primeiro gesto que o vigneron faz para preparar as vinhas para a colheita do ano. Então, todas as manhãs quando saio com as crianças para a escola, a paisagem de vinhas é entremeada de carros esparsos estacionados em estradas de terra. E um ou dois indivíduos que se movem lentamente entre as vinhas, meticulosamente cortando alguns galhos, num gesto preciso. As vinhas adquirem variadas formas, uns galhos finos brotando dos pés, uns galhos compridos, outros tão curtos… A paisagem das vinhas nessa época é em tons de marrom e ocre, sem folhas, sem flores, sem frutos, apenas as linhas retas da terra revirada, os fios, as vinhas… A montanha nevada ao fundo e as amendoeiras em flor dizem que nesse encontro de estações alguma coisa germina. Alguma coisa se prepara.

O primeiro vinho pelo qual me apaixonei nessa região foi o vinho de Collioure. Como se não bastasse a essa cidadezinha ser uma das mais charmosas da região, na beira do mar, cheia de estreitas ladeiras e construções antigas, Collioure com seu exclusivo farol, seu forte no centro da cidade impressiona artistas desde os 1900. Encantados pela luz, pelas cores, pela paisagem, pelo magnífico encontro entre montanha e mar, não poucos ali se instalaram, de maneira mais ou menos perene, a pintar a beleza contida de uma cidade encravada entre o azul do mar, a tour Madeloco solo rochoso entre o preto acinzentado e o marrom sanguíneo, tudo sempre mais explosivo e monumental do que ela. E as vinhas… Collioure é cercada de vinhas penduradas em montanhas íngremes e impossíveis, um capricho do homem a se impor em lugares tão improváveis. E o vinho desse lugar… Os tintos são poderosos e deixam uma lembrança longa na boca. Sem pesar, sem amargar, eles são redondos e ricos, uma benção. E os brancos… ah, os brancos. Amar vinhos brancos foi algo que descobri aqui na França, eles têm gostos tão variados, tão surpreendentes. E os de Collioure são cheios de sabor.

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Para saber mais sobre a taille. Outro texto.

Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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