Eles esqueceram que são colonizadores

Quando cheguei por aqui, conhecia a França berço: da revolução francesa, dos direitos humanos, do feminismo. Tudo – ou quase – de mais valioso inventado pelo ser humano nasceu por aqui ou ganhou daqui sua forma revolucionária. Ciências humanas, filosofia, psicanálise, impossível transitar por um desses territórios sem passar pela França, pelos autores franceses, pelo pensamento francês. Nas artes, a mesma coisa. E então você chega aqui e se deslumbra com os lugares por onde passaram essas pessoas, por onde esses pensamentos foram gerados, toda sua vida culminando em pisar nos passos de um Diderot, de uma Beauvoir, de um Foucault, de um Charcot, de um Lacan, de uma Simone Veil… Enfim.

Mas você chega aqui e percorre todos esses caminhos, todos esses nomes, todas essas histórias, todas essas referências e se depara, no dia-a-dia, com a realidade de pessoas que são, muitas vezes, machistas, misóginos, racistas e xenófobos. E como faz para conciliar essa França que produziu boa parte dos valores que circulam como os mais altos da civilização ocidental em um meio que criou, paradoxalmente, um povo com mentalidade de colonizador?

Ninguém menciona o assunto, até nas escolas é algo que fica quase fora da grade escolar, mas a França foi colonizadora. Ela se esparramou, como todos os senhores dos séculos passados, por todos os continentes deixando seu rastro, seus traços e levando consigo tudo o que é riqueza. E, ao sair, deixou precariedade, morte, guerra, também como seus congêneres. E em alguns casos, para não sair de posições estratégicas, criou o artifício simpático dos territórios e dos departamentos além mar, que nada mais são do que algumas ex-colônias que fazem parte da França, mesmo estando do outro lado do mundo e sendo povos com culturas, línguas e hábitos totalmente diferentes.

Você mora na metrópole? é como perguntam. A metrópole é a França e o restante são o que eu provocadoramente chamo de outros países, que me corrigem sempre dizendo DOM-TOM e ressalvando que são franceses. Ah, sim, com certeza. Basta perguntar para alguém que tenha morado em um desses “territórios” ou “departamentos” como é a vida por ali que a pessoa vai rapidinho diferenciar os “franceses” dos “locais” e te contar sobre toda sorte de preconceito existente na relação entre tais grupos. Ou então conversar com quem nasceu na Île de la Réunion e pedir para eles te contarem como são tratados aqui na “metrópole”. DOM-TOM é maquiagem de colônia.

Daí, como as pessoas convenientemente esquecem que foram e são colonizadores, eles parecem sempre muito espantados quando migrantes vindo de ex-colônias devastadas pelo humanismo francês chegam por aqui e não querem “se integrar”. Palavrinha curiosa essa tal de integração, que joga sempre com a assimilação do outro ao ponto de perder-se de si mesmo. Por aqui, tem quem pense que migrante bom é aquele que passa desapercebido, que a gente nem nota que é migrante, tão bem comportado ele é. Só que, se isso funciona bem com os portugueses que migraram em massa para a França por questões econômicas e que se construíram discretos e silenciosos zeladores de prédios e motoristas de táxi, falar de integração para magrebinos, por exemplo, é acender um fósforo em cima de um barril de pólvora.

A França saiu da Algéria, por exemplo, criando uma guerra entre os contra e os favoráveis à independência. Quem foi contra e lutou do lado dos franceses tornou-se traidor com o desenrolar dos acontecimentos. E tiveram, como opção, vir à França, promessa de integração mais do que merecida pelos serviços prestados. Vieram para serem recebidos em campos, alojados em bairros periféricos e tratados como cidadãos de segunda categoria que ocupam os postos de trabalho que nenhum francês quer e recebem, em geral, cerca de 30% a menos que qualquer francês pelo mesmo serviço. E, em cima disso, acrescentem o preconceito de serem tratados como migrantes mesmo quando são franceses já de segunda ou terceira geração. E quando essas pessoas encontram no radicalismo religioso uma condição de existirem e de serem valorizados, todos ficam chocados. Mas como assim eles nos querem mortos? Por que é que eles não se integram simplesmente e de boca fechada? Por que ficam querendo usar véu?

Migrante bom em terra de colonizador é aquele que não dá trabalho, não aparece, paga seus impostos e não reclama. E quando alguém faz algo diferente disso, os franceses não entendem. Eles não entendem que existe uma história que precede todo e qualquer magrebino e todo e qualquer migrante vindo de um país ex-colônia francesa e que essa história é marcada por uma violência que fará com que, para o sujeito que aqui chega, a relação com esse país seja, no mínimo, ambígua. Porque o país que os recebe matou, violou e explorou seus antepassados às vezes nem muito distantes. E ainda querem que eles se integrem. Sem perceber que integração é violência.

Não conheço forma de resolver esse tipo de impasse que não passe por um acerto de contas com a própria história o que significa, por aqui, com o passado de colonizador. Que é tão negado quanto o direito à revolta dos colonizados. Mentalidade de colonizador e revolta de colonizado que se transmitem em silêncio, de geração em geração. Sem que ninguém entenda.

Sim, a França tem seus lados não tão admiráveis.

 

Flores e pedras

Ele tem alma de artista. Dá para perceber pela névoa espessa e inquieta que atravessa seus olhos cada vez que eles encontram o olhar daquele com quem fala. As palavras saem como canção fluída, como um rio e se atrapalham apenas no encontro dos olhares. Aí ele fica opaco, os olhos brilham e se escondem. Uma conexão perturbadora, daquelas que dá vontade de continuar em conversa, refazer o mundo contando histórias. Mas não.

Houve quem acreditasse que a vida deveria ser feita em torno dessa conexão, que esse encontro é raro demais para não se fazer nada dele. Há quem se move a partir dos encontros mais significativos, busca de uma vida que seja plena de sentido, nenhum gesto desperdiçado. Será o tempo ou a própria vida que fazem com que não se acredite mais? Em outros tempos, esse encontro seria decisivo.

A fala que flui como música tem todo um cenário, um cheiro de madeira úmida, o mesmo que cola no fundo na garganta, um fundo de cereja naquilo que, na superfície, é rocha. Cereja ou pêssego, nunca sei ao certo. Mas eles certamente se encontram em algum lugar de suas diferenças. Frutas escondidas na rocha seca, áspera, pegajosa. Um oásis no deserto, um encontro de frutas escavadas em meio às pedras secas, como uma mão desesperada que cava em busca de vida, um homem à beira da morte que precisa estar vivo, precisa sentir a vida pulsar ali, no meio do peito, mesmo que isso custe tudo o que ele tem e tudo o que ele não viveu. Como quem procura no fundo de um copo a redenção derradeira, a verdade enfim revelada de si mesmo, a sensação única e fugaz de estar ali, presente, inteiro.

Uma flor nasce no meio de um calhau de pedras. Como deflorar, como desabrochar delicadeza no lugar mais improvável. Como não destruir flores que nascem no deserto? Como ser flores fortes que resistem a tudo disfarçadas de rocha, mascarando sua extrema delicadeza? Um artista saberia o segredo?

Ele diz e se esconde. Ele se cala. Porque dizer demais é desdizer o mais importante. E porque talvez nem ele mesmo saiba o que está dizendo quando não diz. Ele tem alma de artista, mas ele procura também. Ele escava entre as pedras em busca da mesma verdade que oferece quando fala. Ele a possui, mas ela lhe escapa e por isso precisa procurá-la novamente. E assim, a cada estação, lá se vai ele entre os campos a procurar.

Amendoeiras em flor

Fevereiro. E aparecem as primeiras flores. São as amendoeiras selvagens que crescem na beira da estrada e entre as vinhas. Massas arredondadas de cinza, quando vistas de longe. E você se diz que parece tolo acrescentar mais cinza ao já tão cinzento inverno de nuvens cinza sob céu cinza e frio cinza. Como se um acumulo de cinzas se concentrasse em alguns pontos da paisagem, cinzas que podem se dissipar a todo momento por um sopro, por uma brisa, por um vento. Essas massas de aparente e passageiro cinza são elas, as amendoeiras. Verdadeiro disfarce de prenúncios de primavera mascarados de cinza e fumaça que, quando você se aproxima, se revela em toda sua surpreendente beleza.

O cheiro. Ah, o cheiro das amendoeiras em flor é algo que nem os melhores perfumistas franceses conseguiram igualar. Um perfume suave, doce, delicado e discreto que te obriga a parar no meio do caminho, se aproximar. Será que senti direito? Será mesmo isso? E você para e respira aquele perfume. E olha os galhos nus das amendoeiras agora cobertos de centenas de pequenas flores. Brancas. Rosas. De um rosa tão claro que é quase branco de um branco rosado. Umas coladas às outras, balançando seu perfume ao vento, em cachos e cachos de beleza primaveril invadindo o inverno.

Eu não conhecia amendoeiras, ainda mais em flor. Quando cheguei por aqui no ano passado, fui pega de surpresa entre o parquinho e o caminho de volta à casa. Pensei que eram cerejeiras, como aquelas do Japão, pela semelhança nas formas, nos cachos, Aquele cheiro, aquelas pequenas flores, aquelas cores. Não a beleza e o perfume quase ofensivos de uma rosa. Uma presença delicada, sutil, de uma beleza simples e sem artifícios.

Eu fico realmente encantada com a aparição das amendoeiras em flor em fevereiro.

Alguns anos atrás…

Conversei com um amigo esses dias e ele me lembrou desse texto, que não era de um blog, mas de um diário de viagem que enviava à minha família e amigos. Curiosas impressões de quem acabara de chegar à Paris, uma alegria eufórica, me sentindo bem na minha própria pele pela primeira vez na vida. Umas tantas coisas mudaram. Anos, filhos, cidades e modos de vida depois, a inocência dessa época ficou distante. Até para escrever mudei.

Então, ouvindo “Caros amigos” do Chico, pensei nessa viagem de volta aos anos 70 que o Brasil de 2019 se tornou, com direito a exilados, perversidades, presos políticos e uma pesada melancolia. Tempos estranhos.

Sem mais e a quem interessar possa, apresento eu de 21/09/2009. Dez anos. Para os amigos. Com saudades.

Em tempo, a faxina também mudou. Tornou-se uma rotina que divido eventualmente com uma faxineira paga em euro por hora, com a qual não tenho uma relação de escravo e senhor de engenho. Os hábitos de higiene franceses não melhoraram, mas minha tolerância a cracas ancestrais e recentes se aprimorou muito.

Bom, meus queridos familiares e amigos.

Hoje não teve jeito. Sei que muitos de vocês devem pensar que morar em Paris é tão glamouroso quanto caminhar às margens do Sena, com uma écharpe, óculos escuros e cabelos ao vento em um dia de sol e céu azul mas… NÃO. Não se iludam. Quem mora em Paris também faz faxina e não queiram nem saber o que isso significa quando se mora em Paris.

Atentem: resido em um prédio que deve ter sido construído mais ou menos na época em que os vizinhos portugas aqui do lado tentavam domesticar nossos ancestrais com uma desculpa esfarrapada de apresentá-los a Deus e salvar suas almas (desculpem-me, Joo e Alê, nada contra Portugal. Estive em Lisboa noutro dia e realmente adorei a cidade, o bacalhau, as sardinhas, os vinhos e até mesmo os pastéis de Belém, mas que esses caras eram bem estranhos em arrumar justificativas para saquear, explorar e matar os outros, ah, isso eram. E bem parece que deixaram isso de herança a nossos outros vizinhos, os tais americanos, mas isso é outra história e não vamos mexer com ela agora… portanto, fim dessa digressão).

Enfim, uns cem ou quiçá uns duzentos anos depois que nos batíamos com nossas mazelas em terras tropicais devem ter construído por aqui este prédio no qual agora reside esta que vos escreve. Possivelmente, na época, o conceito de faxina não havia ainda sido criado e, ao que parece, não teve muita atenção ou dedicação por parte dos povos dessas bandas desde então. O que significa, em termos pouco polidos, que cogitar uma faxina, para uma brasileira que tem por costumes ancestrais aqueles de nossos higiênicos índios (com quem os vizinhos portugas e, de resto, os vizinhos dos vizinhos bem poderiam ter aprendido algumas coisinhas básicas), o que inclui banhos diários, roupas limpas, cabelos cheirosos, dentes escovados e, SIM, uma moradia bem cuidada por uma magnífica faxina semanal… cogitar aplicar todos os ensinamentos passados de geração em geração por mães e avós dedicadas, junto com traços de obssessividade direcionada a um bom fim, incrustrados em nossa cultura como uma obviedade cotidiana significa, nesse caso, ver-se às voltas com a abjeta tarefa de remover cracas ancestrais de uma ancestralidade que nem ao menos nos pertence. Assim, e não podendo adiar mais a agora famigerada faxina semanal que teria e terá que ser feita, enquanto eu aqui permanecer, por essas minhas próprias mãozinhas não tão acostumadas com a labuta cotidiana de quem dispõe de santas Marias para cuidarem daquilo tudo que bagunçamos sem a menor cerimônia (sim, uma herança nefasta e interminável de nossa cultura escravagista, algo de que nem podemos culpar os índios, mas tão somente nossos “colonizadores” e de que, infelizmente, usamos com certo constrangimento, mas sem muita gana de por em questão, o que é ainda uma terceira história, ainda bem que vocês são minha família e meus amigos e sabem bem que eu sou barroca, perdão.), vi-me na situação de ter que decidir se me manteria fiel aos costumes e faria frente a essa ancestralidade xexelenta ou se rapidamente me adaptaria aos costumes locais, a me contentar com uma vassourinha, um espanador e com o consolo de que a iluminação indireta faz valer o ditado de que o que os olhos não vêem…

Deixo a vocês, meus queridos, o benefício da dúvida.

Fato é que meu apartamentinho antigo, bem perto de Les Halles, não apenas é bastante confortável como, também, charmoso. O bairro que o cerca mistura lojas, restaurantes e bares a outros prédios residenciais tão antigos quanto este, em uma região de ruas em que apenas circulam pedestres. Aqui ao lado há um jardim sobre o Fórum des Halles, com muitas lojas no subterrâneo, fora uma piscina pública na qual recomecei, depois de tantos anos, a nadar. Sim, caros, não me imaginem apenas glamourosamente andando pelas margens do Sena feito uma diva dos anos 50, nem como uma intelectual descabelada enterrada em uma biblioteca por dez horas ao dia, afundada em livros e grandes idéias, feito uma feminista dos anos 60, porque, no meio disso tudo, há a natação. Bom ter um corpo, não?

Assim é que este corpinho que vos escreve passa os dias entre bibliotecas incríveis com acervos inacreditáveis, pés-direitos altos e janelas banhadas de sol que fazem com que se afundar em livros seja tarefa das mais prazerosas, e passeios pela cidade, indo a pé para todos os cantos para investigar cada mínimo detalhe guardado por esses telhados escuros, essas construções todas meio cinzentas e todo esse verde incrustrado por entre as construções dessa cidade fresca, banhada de rio e, por enquanto, de sol e luz. O Louvre e o Musée d’Orsay ficam a algumas quadras de caminhada e, para o outro lado, logo se chega à Place des Vosges e ao Marais, com uma quantidade imensa de lojinhas que não são aquelas das marcas que se encontra no mundo todo, mas apenas aqui, bem parisienses, atiçando minha vontade de virar diva de novo e desfilar bolsas e sapatos novos junto a novas roupas como se a fatura do cartão de crédito jamais fosse chegar. A cada padaria, um pain au chocolat, meu verdadeiro vício (por isso a natação, eu sei, vocês já sacaram tudo: queijo de cabra, vinho, pain au chocolat, façam as contas das calorias a perder para não perder todas essas delícias…).

Noutro dia, andando por Sain-Germain, topei com a Sorbonne impondo toda uma deferência, já que entre as heranças ancestrais sempre esteve o valor do trabalho intelectual para o qual a simples menção da Sorbonne funcionava como para uma modelo deve funcionar a referência a Gisele Bündchen. E, bem ali ao lado, o Collège de France, frente ao qual quase caí de joelhos, pela simples lembrança de que, ali, Michel Foucault fez alguns de seus famosos seminários. Em meio à craca herdada aqui por este povo que não entende o conceito de faxina e, tampouco, sua prática, há Michel Foucault entre tantos outros e daí é possível entender o estranhamento de ver dezenas de jovens entrarem nessas universidades como se nada fosse, como se aquilo tudo lhes pertencesse quase por osmose e, ao mesmo tempo, o peso dessa herança que faz com que, para que se possa pensar livremente por aqui, seja necessário se bater com muita gente. Quem consegue pensar sob o peso de Foucault, Lacan e afins? A ver.

Por sorte, para essa cidade, Paris agora parece ser mais africana e árabe do que qualquer outra coisa. Coalhada de gentes de outras heranças, sobre as quais não pesa o peso de Foucaults e Lacans, vi ontem uma parada de música eletrônica passar 400 mil pessoas pelas ruas de Paris, de todas as origens e idades, mas cheia de jovens que pouco se importam por onde passam, tanto que podem dançar escalando o monumento na praça da Bastilha, agora que liberdade, igualdade e fraternidade parecem uma ironia em um evento desses em que tais ideais ficam escancaradamente postos em questão. Discute-se a imigração aqui como se discute futebol em nossa terra. Imigração, gripe suína e crise econômica são OS assuntos dos jornais televisivos. E os assuntos do Sarkozy, que vive nas teles. A França se tornou bastante conservadora. Sorte que existem esses imigrantes que não ligam para isso e sobem no monumento na Bastilha, nos pontos de ônibus e nas escadarias da Opéra-Bastille em dia da Techno Parade, colocando tudo em questão. Não há como tergiversar diante desses novos franceses. Ou a verdade, ou a pancadaria.

Assim, depois de minha primeira faxina parisiense, presenteei-me com um almoço no restaurante do telhado do Museu Georges Pompidou, que fica praticamente no quintal da minha casa, para voltar a parecer glamourosa, tendo a meus pés, em dia lindo de sol, uma vista de Paris de quase 360°, com direito a Louvre, Orsay, Torre Eiffell, Sacre Coeur e todos os outros cartões postais que povoam agora minha retina como povoaram por muito tempo minhas fantasias e minhas lembranças das viagens de férias de outrora com gente tão querida e de quem sinto enormes saudades. E, após tão linda vista, aproveitei o domingo percorrendo a exposição “elles” que está no Pompidou, sobre mulheres artistas e, para minha alegria, mostrando trabalhos de algumas das que mais importância tiveram para mim nos últimos tempos, tais como Cindy Sherman, Marina Abramovic, Nan Goldin, Sophie Calle, Valérie Export, Mona Hatoum, Ana Mendieta, Carolee Schneemann, as Guerilla Girls, Orlan em primeiros momentos mais inspirados e por aí vai uma lista imensa. A arte traz, sempre, encontros felizes, não?

Enfim, queridos, partilho esse diário com as pessoas que me são caras e que suponho que gostariam de ter notícias minhas, cheias de glamour e bossa. A quem não agradar meus excertos de novela barroca, basta dizer que não mando mais. No mais, dêem notícias que sinto saudades.

Beijos

A neve e a neve

Este ano demorou, mas finalmente chegou a neve. E eu ADORO neve. Conheço pessoas que estão aqui há tanto ou mais tempo que eu e que dizem que isso passa. Mas até agora não passou. A neve desperta em mim o lado mais pueril, o deslumbre mais ingênuo, o entusiasmo mais verdadeiro. Todo ano espero a neve chegar e, desde que cheguei ao sul da França, olho a montanha mais alta das redondezas esperando vê-la branca num amanhecer qualquer.

Existe, no entanto, a neve e a neve. A neve das grandes cidades, como de Paris, que é linda apenas para os turistas. Porque para quem vive ali, é o inferno branco na terra. A neve que se acumula em Paris logo vira uma lama marrom pegajosa que espirra em sapatos, calças e casacos desde que você sai do metrô ou bota os pés fora de casa. A quantidade de gente faz com que a neve repisada vire uma meleca nojenta, no melhor estilo rave com chuva. Só que, quando você vive em Paris, não tem música boa, você não está de folga e nem dá para fazer a festa. Você tem que ir ao trabalho, à escola, a não sei onde e precisa atravessar aquele mar de cola marrom. E você odeia a neve.

Fora que, em Paris, acontece um fenômeno incompreensível para mim a cada vez que neva. Neva todos os anos naquela cidade e mais de uma vez por ano. E, todos os anos, a cada vez que neva, é como se fosse uma surpresa. Como se estivéssemos em Salvador em pleno mês de janeiro e caísse uma tempestade de neve. Tudo para. Não estavam preparados. Como assim? Não sabiam que ia nevar? Sim, o serviço de metereologia é excelente. Não sabiam o que tem que fazer quando neva? Sim, a França é um país onde neva desde sempre, todos sabem o que deve ser feito. Então por que não fazem? Mistério. Neva em Paris e os ônibus não podem circular, as escolas fecham, todo ano aquele clima de catástrofe natural. Em um país como a França e em uma cidade como Paris, onde teoricamente tudo deveria funcionar. Até hoje ninguém conseguiu me explicar o que acontece, mas todo ano tem as mesmas reportagens, o mesmo improviso, o mesmo espanto. Gente, é inverno, no inverno neva.

Já tive um primo que morou em Nova Iorque na mesma época em que vim morar em Paris. No inverno, ele postou umas fotos de um dia em que os ônibus não circularam, as escolas fecharam e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa em Nova Iorque. A neve estava COBRINDO os carros! Tinha um muro de neve nas calçadas e foi só então que a cidade se tornou intransitável. Mas em Paris neva 5 cm e ninguém sabe o que fazer. Depois quando digo que os franceses são muito ineficientes para uma série de coisas, as pessoas acham que estou chorando de barriga cheia.

Ainda bem que tem a neve. A neve na montanha, nos vilarejos, nos lugares afastados dos grandes centros. Neve que cai branquinha e fica branquinha, fofa sobre jardins e outros lugares abertos por onde as pessoas não circulam. Você pode se jogar naquele tufo de neve e o único risco é aterrissar em cima de um cocô de cachorro desavisado que decidiu se aliviar por ali. Porque mesmo no inverno bichinhos e bichanos dão suas voltas. Dá para escorregar de luge (uma espécie de trenó) no meio de um descampado. Dá para fazer um boneco com cenoura no nariz e galhos no lugar dos braços. Dá para fazer guerra de neve. Dá para ser criança. A neve é um salvo conduto branco que silencia os barulhos do mundo, adormece a natureza e te autoriza a rir e a brincar.

Existe todo um ritual ligado à neve. Existe por aqui duas semanas de férias escolares que são as chamadas férias de inverno. As famílias vão para as montanhas, para as estações de esqui. Alugam um alojamento e passam ali uma semana subindo e descendo montanha de teleférico, esquiando todos pelos mesmos lugares, num congestionamento de bastões, esquis e roupas fluo. Como nossas férias de verão na praia, aqui férias de inverno são “no esqui”. Restaurantes ruins lotados, carros estacionados na calçada, gente passando uns em cima dos outros, todo caos a que se tem direito quando milhões de pessoas saem de férias para os mesmos lugares ao mesmo tempo. Francês é classudo, glamouroso, elegante e educado até você passar suas primeiras férias “no esqui”. Daí você percebe que era tudo fachada. E nem adianta ir nas estações dos super ricos, as mais caras e exclusivas que é exatamente a mesma coisa. Uma grande farofada. A neve é um negócio da China.

Mas existe a neve e a neve. A neve dos lugares perdidos fora de temporada e de férias. A neve que eu vejo nas montanhas ao redor, iluminada pelos céus em tons de rosa e dourado inacreditáveis de inverno. A neve pano de fundo dos milhares de pássaros voando em uníssono em busca de lugares mais quentes. A neve sobre árvores e plantas, pesando galhos e folhas, criando desenhos inesperados. Essa neve que cobre tudo, que cria um silêncio quando cai como eu nunca ouvi antes de presenciar neve caindo. Ela abafa os ruídos, impõe calma e recolhimento.

Eu adoro a neve e os céus azuis de inverno. Fora quando venta. Quando venta, eu reclamo tanto ou mais que parisiense quando neva. Mas da boca para dentro, que o vento faz engolir as palavras, faz olhos chorarem sem querer e faz a gente andar de ré.

 

 

Disse me disse

Aqui em Utopia já é 2019.

O rei do castelo não gosta da esposa do bobo da corte genial. Especialista em enterrar relacionamentos e cadáveres de mulheres destruídas em seu jardim, ele dispõe. E o bobo da corte genial não. E a culpa, obviamente, como não poderia deixar de ser em toda história vista pela perspectiva do homem, é dela. Ela é a megera da vez, ela deixa ele infeliz, ela impede ele de viver, de existir, de respirar. E todo o séquito do rei aplaude, mostra os dentes e repete a mesma ladainha. E ninguém se coloca nenhuma questão.

Porque ela fez um filho nas costas do bobo da corte quando ele finalmente tinha tomado coragem em ir embora. Ela fez um filho. Misto de imaculada concepção e bruxaria, ela fez um filho à revelia dele. Um tipo de cilada argumento que tantos homens gostam de usar, até mesmo em Utopia, até mesmo na França. Tenho um paciente que veio com uma dessas noutro dia: a companheira, que agora é ex, fez um filho nas costas dele, à revelia dele. Ele não quer a criança, ela não quis abortar então, para ele, o futuro bebê não existe. Assim. Fácil. Como é prerrogativa masculina quando o assunto é filhos: eles podem dispor como bem entendem, sempre vai ter alguém que vai assumir tudo de um jeito ou de outro porque não conta com a maravilhosa opção de delegar a um outro que homens possuem. Esse alguém é a mulher.

Pois então, esse meu paciente, a mulher fez um filho nas costas dele. Ele transou com ela. Ele gozou nela. Ela engravidou. Mas ele não participou ativamente e voluntariamente da coisa, sabe? É como o bobo da corte. Ela fez um filho dele só para amarrar ele na relação, coitado. Ele nem participou de nada. E aqui na França, em pleno século 21, homens se permitem usar esse argumento perverso da mulher fazer filho para segurar homem em relacionamento. Na França, onde mais da metade dos casais se separam, onde filho não segura absolutamente nada, onde homens vão embora mais depressa do que você seria capaz de dizer “touché“. Aqui na França e até mesmo em Utopia um homem usa o argumento dela fez um filho nas costas dele para prendê-lo no relacionamento contra uma mulher, para justificar seu ódio por uma mulher e todo mundo repete, todo mundo aplaude, todo mundo fala de lado sobre essa mulher.

Cada vez que o bobo da corte não aparece em um evento, torcem o nariz: viu, é por causa dela. Ela faz ele infeliz. Ela não deixa ele fazer nada. Os “amigos” se permitem dizer essas coisas nas costas dela, uns aos outros. Sem o menor pudor. Sem a menor decência. Sem um pingo de empatia. Mas quando se encontram… ah, é só beijo, abraço e amor.

Minha opinião? O bobo da corte genial não comparece aos eventos porque, simplesmente, ele não quer. As pessoas querem ele, o rei do castelo quer ele ali, mansinho, fazendo parte da corte, dando aval para o reinado dele. Mas ele é o bobo da corte e de bobo ele não tem nada e ele não se interessa nem um pouco por essa cena toda que só faz maldizer, sugar, usar, cada um se afirmando naquilo que é pelo número de notáveis que carrega consigo. Bobos da corte, lembrem-se, eles aparecem apenas para dizer a verdade, não são os palhaços de circo nenhum, não estão ali para entreter a audiência. Ou seja, em bom português, ele está cagando e andando.

Ou será que eles pensam que essa maledicência subterrânea com aqueles a quem ele ama não se faz sentir? Ou será que eles pensam pensam que ele está com ela por obrigação e que não existem mil outras razões para isso? Ou será que eles pensam que é fácil ser a mulher de um gênio alcóolatra? Porque sim, é muito divertido ter um bobo animando a corte, bêbado, fazendo todo tipo de merda possível para você rir, especialmente quando você aproveita das extravagâncias do outro e ri da cara dele e se convence que ele é feliz sendo aquilo e fazendo aquilo tudo e te fazendo tão feliz às custas dele, mas quando ele volta para a casa cheio de toda merda que fez, quem é que está ali para ele? Não, não é você, nem o rei do castelo, nem nenhum outro palhaço da corte. É ela. E é ela quem tem que aguentar isso. E todas as suas falas maledicentes e subterrâneas, e todos os seus comentários nos quais ela é a única responsável da infelicidade dele, e todas as suas acusações e julgamentos de quem não conhece nada, não sabe de nada, mas está sempre pronto a condenar aquele que faz o papel menos simpático, menos sorridente, menos sociável, menos agradável da história. O que, com frequência, cabe à mulher dos gênios, dos brilhantes, dos bem sucedidos. Tudo o que eles são é mérito deles, tudo em que eles pecam é culpa delas. Tão cômodo.

É como a cena sempre atualizada da nova mulher do velho cara para quem ele conta que a ex era uma louca, perversa e todos os afins. E a nova mulher acredita, porque é sempre melhor acreditar que a culpa foi de uma megera qualquer do que ver que aquele homem ali do seu lado não é tão bom assim. Um homem que é capaz de enlouquecer uma mulher, tirar dela o que ela tem de pior, amargá-la, fazê-la secar no ódio, no ressentimento ou na tristeza não é um pobre homem manipulado por uma megera que, além de tudo, fez um filho nas costas dele. Ele é provavelmente um ser com grandes chances de ser alguém que usa os outros, suga até a última gota, deixa a pessoa morrendo de fome emocionalmente falando e daí joga fora. E passa para a seguinte. Mas é melhor acreditar que o problema é ela, né? E que contigo vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser lindo. Até o dia em que você acorda na pele daquela louca, ressentida, amargurada que faz filho nas costas dos outros. E daí não consegue entender como é que foi acontecer contigo. E nem porque todo mundo te odeia e fala mal de você pelas costas do mesmo jeito que você fez com a ex. Esse discurso serve muito bem a alguém e certamente não é às mulheres.

Acho que o rei do castelo e sua corte não conseguem entender que o bobo e ela não vão porque não querem. Não querem estar ali com eles. Não querem isso para a vida deles. Não querem quem julga sem nem conhecer ou perguntar. Não querem quem espera deles um espetáculo, uma cena para diverti-los. Não querem conviver com quem se lixa com o fato de que toda essa diversão, toda essa alegria custam um preço muito alto no final. Que quem paga é eles, não o rei, nem a corte.

As pessoas ganhariam muito em se olhar um pouco no espelho antes de começar a vomitar suas barbaridades sobre as outras.

A culpa é do lobo.

Começou assim. Um francês, professor de geografia, inteligente e viajado e sua mulher, igualmente professora, igualmente inteligente e viajada. Me contaram que ali nos confins de uma região perdida no interior da França existem pastores de ovelhas que têm seus bichos mortos por lobos. O lobo havia desaparecido do território francês e foi reintroduzido. E agora deu para caçar uma ovelha ou outra de vez em quando. Isso estressa os rebanhos, estressa o pastor de ovelhas e prejudica seu trabalho. A solução? Matar os lobos.

Tive que pensar se respondia ou não. Porque às vezes cansamos de lutar tantas batalhas. Me contentei em dizer que me parecia absurdo culpar o lobo por matar uma ovelha. As pessoas estão nos territórios dos lobos, não o contrário. Eles se indignaram e disseram que eu não me importava com a ruína dos pastores. Então tive que comprar a briga.

Porque o ser humano é o único que invade e devasta o planeta inteiro e se acho no direito de se indignar quando um animal age como tal.

E a conversa rolando chegou ali onde ela necessariamente deveria chegar, seguindo essa mesma lógica da culpa do lobo. Pois ele, que é originário de uma região próxima aos Alpes, contou que, andando pela montanha, cruzou com pessoas (negras) que procuravam um caminho. Eles pediam indicações do caminho mais longo, mas menos vigiado, para chegar em determinada cidade. Digo: “são refugiados”. Respondem: “não, porque falavam francês e não existe país francófono em guerra civil ou conflitos armados. Oi? Bom dia África Central, República do Congo… França não deixou um rastro de destruição com sua colonização, vai vendo… Professores, minha gente. E, a cereja do bolo, como dizem por aqui, essas pessoas – os negros que atravessam a fronteira pelos Alpes – vão largando coisas por onde passam, sujando tudo. Eles deixam roupas, sapatos, casacos de inverno, tudo pelo caminho.

Pausa para respirar. Porque isso é o discurso que um francês acima da média, mais esclarecido que a média, mais viajado que a média pode regurgitar em um mundo em que os discursos foram pasteurizados e a capacidade de se questionar caiu em desuso.

Eles me explicaram que na época deles (ambos têm pouco mais de 70 anos), ter um alojamento em um apartamento social, uma espécie de conjunto habitacional francês, era um orgulho e que eles nunca se sentiram colocados em um gueto. E que não haviam sido criado guetos para os migrantes, minha principal crítica sobre o modo como a França não conseguiu integrar os estrangeiros e como essa falha em integrar levou a um aumento da violência que deu no que deu nos últimos anos. Guetos reais, objetivos, bairros, cidades. E guetos subjetivos, subterrâneos, culturais, educacionais, de não inserção e de não aceitação. Não, imagina se a França criou guetos e fracassou em integrar as pessoas. São eles – vulgo nós, pois me incluo na categoria – que entendem tudo como racismo e preconceito contra eles.

Então eu tive que explicar para eles que o fato deles, franceses, brancos, europeus da gema nunca terem se sentido inferiorizados ou excluídos por conta da pobreza ou de outras mazelas da vida não serve como prova de que os migrantes, colocados nas mesmas condições que eles, não o sejam. Porque eles, vulgo nós, não são franceses, nem brancos, nem europeus. Eles são os outros e vão viver as mesmas aparentes experiências de forma diferente. Porque as “mesmas experiências” são, na verdade, diferentes.

Atendi por um período um homem argelino. A Argélia foi colônia francesa e tornou-se independente em um guerra sangrenta em que independentistas e apoiadores do regime francês se mataram até o movimento independente ganhar. E muitos dos argelinos que haviam lutado ao lado da França foram obrigados a sair do país para não morrerem nas mãos daqueles que ganharam. Esse sujeito é filho de argelinos vindos para a França nessa época e nessas condições. Chegados aqui, foram colocados em campos de refugiados bem perto de onde vivo, no sul do país. E mesmo depois que puderam sair dos campos, se instalar nas cidades e ter sua cidadania francesa reconhecida, a vida não melhorou para eles. Reuniram-se em bairros mais pobres e afastados das cidades. E foram alvos de todo tipo de atitude preconceituosa a eles destinada. Porque são árabes. Porque não são franceses. E, mais recentemente, porque são terroristas. O sujeito – e ele não é o único – encontrou como única opção de vida essa de se agrupar entre os seus para não perecer sozinho em meio àqueles que, não importa quantas gerações nasçam aqui, francesas de pleno direito, continuam lhe dizendo, de todas as maneiras possíveis, que ele não faz parte, que ele não é francês, que ele é e será sempre um cidadão de segunda categoria. E que o lugar dele não é aqui. Então, sim, esse migrante que nem é um porque ele é francês, por mais que digam que não, sente a rejeição desse país pesar nas suas costas noite e dia. E vê o mesmo acontecer com sua família, com seus filhos. Terceira geração nessa terra e ainda um “de fora”. Sua condição de pobreza não é a mesma que a tua, meu caro senhor francês, branco, europeu. Ele vive em um gueto, ele vive excluído. Mesmo estando teoricamente nas mesmas condições e nos mesmos espaços pelos quais você transitou.

Você, senhor francês, branco, europeu não tem como dizer à partir do seu lugar de existência que aquilo que o outro, vulgo nós, vivemos não é legítimo porque você não sabe do que se trata. Então, por uma questão básica de respeito, a única coisa que você pode fazer é não desautorizar aquilo que você não tem como saber se é verdade. Não desmentir. Fique quieto. Ouça. Quem fala sabe do que está falando bem melhor do que você. Como já dizia o bom e velho Freud, em uma passagem de Luto e Melancolia que explica porque aqueles que se denigrem têm razão.

Ninguém migra porque quer. Ninguém sai do seu país assim, facilmente, jogando roupa e calçado fora para poluir suas montanhas e para vir aqui aproveitar dos seus magníficos benefícios sociais, como se fossem encostos que pensam em parasitar o fruto do seu sacrossanto trabalho. Não. Basta olhar os dados, os movimentos de migração, as estatísticas, os estudos feitos por pessoas sérias e comprometidas com alguma neutralidade científica para perceber que ninguém sai da sua terra se puder ficar. E que a maioria não sai, morre ali mesmo. E que quem sai, sai quando é questão de vida ou morte. E quando pode sair. E quando chegam aqui ou em outro lugar, tudo o que querem é construir uma vida digna desse nome. Não querer se enfiar num gueto e ficar se vitimizando porque “não teriam competência para fazer tão bem quanto você” e “vão usar a xenofobia como álibi”. Que raios de argumento é esse que desconsidera totalmente todo mundo quer basicamente as mesmas coisas da vida, vulgo, ser feliz, ter um teto, poder comer, beber, ter amor, companhia, amigos, tranquilidade, segurança, saúde… Ou de repente é o senhor, francês, branco, europeu que, medindo os outros pela sua régua, conclui que se tratam de parasitas simplesmente porque você, historicamente, sempre foi um? Afinal, a França, no quesito parasitar, explorar e destruir os outros tem um belo CV… Tsc, tsc, tsc…

Sua montanha suja é o menor dos problemas. Mas aí é que a história do lobo e a do migrante se encontram. Porque é muito mais fácil para esse senhor e essa senhora europeus, brancos, franceses da gema, estudados e viajados engolirem o discurso palatável e açucarado da imprensa local da região deles que coloca em manchetes indignadas a revolta contra o lobo que comeu uma ovelha do que ter que procurar – porque a imprensa não vai dizer isso, claro – as verdadeiras causas da morte dessa prática do pastoreio. Que são as produções de massa, das grandes corporações, das criações de animais em cativeiro, engaiolados, comendo ração podre e tomando hormônio e morrendo mal para vir alimentar nossa insaciável fome de consumo. Se os pastores de ovelhas estão morrendo hoje assim como todos os pequenos produtores, não é bem por conta do lobo animal. Mas é tão mais fácil se indignar e dar um tiro no lobo do que olhar para quem está destruindo os produtores agrícolas no país, né? Porque um lobo, a gente pode matar. E ir dormir bem com a nossa consciência de que fizemos algo bom para proteger o pastor e suas ovelhas. Mas alguém vai matar os grandes produtores? Pois é…

Aqui na França, faz muito tempo que tornou-se fácil culpar o migrante por tudo. Falta emprego? O migrante é que veio aqui roubar. Condições de vida pioraram? Culpa dos migrantes. Mais violência? Migrantes à solta. Problemas em dar conta do pagamento de todos os benefícios sociais e assistências garantidos pelo Estado? Deve ter muito migrante encostado. Tem partido de extrema direita que cresce baseado nesse discurso, como em muitos outros cantos do planeta. Daqui a pouco vão começar a dar tiro. E dormirão com a consciência tranquila de terem cumprido o seu papel e livrado o país de uma praga. Melhor que ter que olhar para os mais ricos, que não pagam impostos, que não dividem riqueza e que colocam nas costas de todos os outros o preço à pagar pelas decisões deles, que apenas a eles favoreceram. Mas quem vai se insurgir contra o sistema, né?

Faz pouco tempo, uma cidade brasileira se insurgiu contra um grupo de migrantes venezuelanos e expulsaram-nos na porrada. O motivo? O assalto a um comerciante. A precariedade aumenta, a violência aumenta, um comerciante é assaltado. E a culpa é de quem? Do lobo. Matem o lobo.

No Brasil, uma nação constituída majoritariamente por migrantes voluntários ou escravizados, em que os índios são os únicos e legítimos donos com moral e motivos de sobra para botar todo mundo para fora. No Brasil as pessoas decidem que a culpa é dos migrantes. O Brasil que recebe apenas ridículos 2% dos milhões de venezuelanos que foram expulsos do país deles por conta da crise. Um país do tamanho do Brasil botando a culpa em 2% de pessoas que foram para aí não porque o Brasil é bonito, porque tem carnaval, porque o povo é cordial (sic) ou porque eles podem ganhar a vida nas costas do nosso trabalho. Eles foram para aí para não morrer de fome. Olha isso, ir para o Brasil pareceu melhor do que ficar no país deles, na casa deles, na vida deles, com a família e os amigos deles. Eles foram porque não tinham outra opção. E as pessoas que os receberam acharam que era muito, que era exploração demais, que era abuso, que eles não serviam para estar ali, para serem recebidos, acolhidos, ajudados. E botaram eles para fora.

Por que um lobo teria o direito de transitar por terras francesas, né? Por que ele teria a ousadia de ir e vir e de matar um carneiro para comer, não?

No Brasil, as pessoas decidem que a culpa é dos migrantes. E que a culpa é dos pretos. E dos pobres. A culpa é das pessoas que puderam estudar. Que puderam ir à faculdade. Que puderam viajar de avião. No Brasil, as pessoas decidem que a culpa é dos homossexuais. E das mulheres. A culpa é de todos aqueles que essas pessoas coladas nesse discurso chamam de “eles”. Contra “nós”. Sem perceber que eles estão mais próximos do “eles” do que do “nós”. E que o “nós” é apenas uma figura de linguagem usada para iludir mentes com preguiça de pensar a acreditar que elas fazem parte de um grupo do qual na realidade nunca vão fazer. E essas pessoas se alegram em destilar todo o ódio que sentem por tudo o que não vai bem em suas vidas nas costas dos outros, bem longe das suas responsabilidades pessoais. Elas se alegram em encontrar um culpado que não as coloque na posição de se questionarem. Elas se alegram em engolir essa ladainha pré-fabricada que as impeçam de pensar. E de olhar para quem, de verdade, contribui para a sua miséria, para a sua violência, para a sua frustração. Melhor culpar o lobo.

Estão até pensando em eleger um desses que fazem cortina de fumaça e que ameaçam destruir tudo o que não seriam “eles”. Sem perceber que não fazem parte do “eles” e que vão ser destruídos logo em seguida. Alegres em encontrar o bode expiatório bem longe de casa. Pretos, pobres, mulheres, homossexuais… são os lobos ideais para esses cordeirinhos que acham mais prático resolver a situação na base do tiro. E que encontram essa crença tranquilizadora legitimada nos discursos de um messias despudorado que não hesitaria em matar um filho para chegar ao poder. E, no Brasil, esses sujeitos estão felizes em poder destilar todo o ódio que sempre foram obrigados a conter em nome da civilidade mais banal. Agora podem assumir: o único objetivo é matar o lobo. O bode expiatório que vai pagar a conta de todos eles. Como Jesus, lembram?

O único risco é acordar no dia seguinte devorado pelas verdadeiras feras.