De tudo e de nada

Tenho aqui para mim mesma que só podemos afirmar que conhecemos mesmo um país quando começamos a pagar impostos. Sim, impostos. Podemos viajar milhares de vezes a um lugar durante as férias, fazer cursos, intercâmbio, pós-graduação, bolsa-sanduíche, período de trabalho como expatriado e o escambau. E cada uma dessas incursões nos dá uma idéia daquele lugar, nos oferece um percurso, uma paisagem, uma descoberta. E retornamos pensando que sabemos bem do que estamos falando ao descrever um outro país quando, na verdade, ficamos apenas a arranhar a superfície.

Veja, não tem problema nenhum. É bom ser turista no país dos outros, é bom conhecer os lugares pelas bordas, é bom voltar com a sensação de ter vivido um pouco de uma realidade que não é a sua. É bom se apaixonar pela vida de outro lugar e guardar em algum canto da memória que ali sim você seria feliz. É maravilhoso ter a sensação do vislumbre, do desvelamento de uma realidade, de uma cultura, de uma língua, de um modo de vida. Por isso que tanta gente viaja e se sente vivo apenas na medida em que viaja. Mas em uma época em que as pessoas falam sobre qualquer assunto sem nenhum constrangimento em relação ao que não conhecem, o número de especialistas do país dos outros onde você passou suas férias, fez seu estágio, curso, pós e afins e do qual você fala de boca cheia como se tivesse descoberto o graal daquele lugar que nenhum outro ser vivente e viajante do seu país entendeu é… bom… imenso. E o problema de toda essa falação é que se criam verdades ocas sobre tantos assuntos e situações que passam a existir enquanto tais em algum universo paralelo no qual tudo pode ser dito e tudo pode ser verdadeiro desde que seja verdade na opinião de alguém. E mesmo que não corresponda a nada do mundo real. Se eu disse, está valendo. Tempos estranhos esses em que aquilo que eu penso sobre alguma coisa vale mais do que aquilo que ela é.

Quando cheguei à França, já tinha daqui a experiência de turista. E conhecia bem aquela França para turista. E achava que tinha entendido o que era a França e o que era a vida por aqui. O fato de falar francês me permitia acessar um pouco mais em profundidade o “ser francês” ou eu assim o imaginava. E foi aos poucos que percebi que o país dos outros a gente descobre, acessa e entende em camadas, como uma cebola, e sem nunca chegar ao cerne. Camadas infinitas de códigos mais ou menos identificáveis e partilháveis com os quais nos confrontamos quanto mais tentamos nos embrenhar nesse outro universo. E quanto mais nos embrenhamos, mais se torna difícil, pois os códigos se tornam mais e mais sutis.

Você pode falar francês, mas isso não significa que você entenda necessariamente o duplo sentido das palavras, os jogos de palavras, os chistes, as piadas de referência. Você não entende, você não capta, sua linguagem é operacional, ela comunica apenas o que ela diz, mas tudo o que jaz sob a ponta do iceberg te escapa como fumaça entre os dedos. Já me disseram uma vez que um estrangeiro é como um autista na língua dos outros, a quem tudo o que é não-literal escapa. Me parece bastante preciso como imagem.

Você faz algo “com o pé nas costas?” Isso não existe na França. Mas aqui eles fazem algo “les doigts dans le nez”. Ainda bem, isso os livros e tutoriais de youtube ensinam. Mas e quando as pessoas jogam com o duplo sentido das palavras? Ou com o som das mesmas que pode dar margem à outros sentidos? E quando a linguagem desliza? É pavê ou pacomê?

Mas então, digamos que você consiga atingir um nível de refinamento que te permite até mesmo acompanhar e rir das piadas em tempo real. E alguém, de repente, no meio da conversa, solta uma frase da qual todos riem. E você… boia.

“Depois de um sono bom, a gente levanta…” Quem quer tomar um café “concreto”? Dentre as tantas coisas compartilhadas pelas pessoas de um mesmo país ou de uma mesma cultura estão, justamente, as referências culturais. As frases, as músicas, os slogans publicitários, a novela das 7… Tudo aquilo que você não tem como entender ou acessar porque, simplesmente, enquanto essas pessoas estavam vivendo mergulhadas nesse caldo francês de signos, você estava vivendo mergulhada em outro caldo, o brasileiro. E isso, não tem youtube, curso de línguas ou leitura de blog de como ser integrado, inserido, (in)descolado no país dos outros que resolva.

Algo te escapa e vai te escapar sempre. E depois que você estiver por muito tempo em outro país, vai começar a te escapar pelos dois lados. Frase cheia de duplos sentidos em português, não? Mas, aqui na França, você teria que explicar a piada.

E isso vale para todo e qualquer mínimo detalhe de uma vida, não apenas para a linguagem falada, mas para tudo aquilo que comunica a respeito de uma cultura, de um lugar, de uma época, de um contexto. Cada pequeno detalhe de uma vida em um outro país traz em si potencialmente uma revelação, um estranhamento, um desconhecimento, um incômodo, uma incompreensão. E cada pequeno detalhe conquistado é como uma grande vitória, uma chave de acesso que garante poder navegar por mais uma camada da tal cebola.

Por isso o estranhamento com os brasileiros que se puseram a comemorar com todo o conhecimento de causa da perspectiva deles e nenhum da perspectiva daqueles de quem estavam falando que a vitória da França na copa do mundo seria uma vitória dos “africanos”. Teve até um norte-americano que se prestou a isso. Como se o prisma pelo qual brasileiros e americanos vivem e entendem o racismo e os gestos anti-racistas fossem válidos na França. E as pessoas donas das suas verdades absolutas querendo discutir o porquê elas teriam razão, mesmo quando os ganhadores em questão estariam afirmando justamente o contrário. Eu sei mais de você do que você mesmo. Você não entendeu nada, ainda não viu a luz.

Isso me lembra a postura de alguns psicanalistas que teimavam e teimam ainda hoje em dia em usar tudo o que você disser contra você. E se você não aceitar, é resistência da sua parte. Alguém te avisou que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que você não detém a verdade absoluta sobre nada? Que tal experimentar deixar o outro dizer dele mesmo com mais conhecimento de causa do que você, mesmo que você saiba que o inconsciente existe? Porque, sejamos honestos, o seu também existe e te prega umas pecinhas de quando em quando, né?

Humildade, minha gente. A gente não está com essa bola toda não.

 

O racismo de cá e de lá

Pronto, a França foi campeã da Copa do Mundo de 2018. E meus pequenos experimentaram essa coisa de ser campeão na França, sendo franceses, em um ambiente calmo de restaurante de vilarejo no meio do mato. Sem aquela euforia, sem aquela catarse dos movimentos de massa tão inebriante que o Brasil sabe fazer tão bem.

Então surgiram aqueles comentários de brasileiros “homenageando” a seleção “africana” da França. E um arrepio me percorreu a espinha. Porque nada mais racista que esse comentário. E nada mais tão tipicamente racista do racismo do Brasil do que não conseguir entender que esse é um comentário racista. Racismo no Brasil é um pouco diferente do racismo daqui. E as respostas dadas por aqui  para o racismo são um pouco diferentes daquelas dadas no Brasil.

No Brasil, ninguém é brasileiro. Um dos assuntos mais comuns em conversas é perguntar ao outro de onde ele vem. O que remete às origens, de onde vem seu sobrenome, sua família, seus antepassados. Isso, especialmente quando você tem uma origem migrante européia, por exemplo, é cheio de valor. Todo mundo branco no Brasil gosta de dizer que veio de outro lugar. Como se isso fosse uma grande vantagem.

Só que a França não é o Brasil e a história francesa não é a brasileira. Aqui, o que tem valor é ser francês. Ninguém te pergunta de onde você veio e se você começar esse tipo de conversa com um francês ele vai se ofender com sua questão e vai te responder: eu sou francês. Mesmo que tenha um sobrenome não francês. Ou que seja preto. Ou árabe. Ele vai dizer: sou francês. E você vai se sentir bem besta tentando explicar a sua pergunta. Acredite, aconteceu comigo muitas vezes. E isso quer dizer muita coisa.

Historicamente, a França colonizou e explorou meio mundo. E tudo o que ela é de bom, inclusive o país do droit des hommes, podemos dizer que é também por conta disso. Porque alguém pagou a conta para eles. E alguém paga até hoje. Então, talvez por uma culpabilidade histórica, para uma parte desse mundo ela deu a possibilidade de que as pessoas que foram seus aliados (vide Algéria e seus maquis, por exemplo) viessem à França e vivessem como franceses. O que significa que uma boa parte dos descendentes do Magrebe, por exemplo, são franceses pois nasceram na França filhos ou netos de magrebinos que exerceram seu direito de viver na França. Eles não se naturalizaram franceses, esses filhos e netos que nasceram aqui. Eles são franceses.

Algo parecido vale para os nascidos na França filhos ou netos de migrantes da África subsaariana. Seus antepassados vindos de seus países, muitos ex-colônias francesas, se instalaram por aqui e tiveram filhos e netos. Que são franceses. Nasceram aqui, não se naturalizaram franceses. São franceses.

O problema do racismo aqui na França aparece justamente quando tentam negar que essas pessoas são franceses. Porque seriam filhos ou netos de migrantes. Porque são pretos. Porque são árabes. Porque são sulamericanos. Sim, sulamericanos. Latinos. Porque aqui na Zooropa não somos brancos, minha gente. Somos latinos. Tão dignos do desprezo e do racismo europeu quanto os pretos e os árabes. Não adianta vir aqui brandindo sua ascendência italiana, portuguesa, espanhola, o diabo. Aqui você é e sempre será um… latino. Que é outra coisa que um branco europeu. E seus filhos ou netos… eles serão… franceses. Que é outra coisa do que você é.

Existem duas maneiras de ser francês segundo a lei: uma é nascendo de pai e mãe, ou pai ou mãe franceses. Você tem um dos pais francês, você nasce por aqui ou onde for no mundo… você é francês. Outra maneira, quando seus pais são estrangeiros que vivem na França e você nasce por aqui é… você tem a nacionalidade dos seus pais e à partir de uma certa idade pode pedir a nacionalidade francesa. Que é seu direito. Porque se você nasceu aqui, vive aqui, vai à escola aqui, fala francês, está mergulhado na cultura, no cotidiano, nos costumes, então, meu caro, você é obvia e legalmente um… francês.

A França tem uma imensa dívida com suas colônias e ex-colônias. Colônias que ela insiste em chamar de DOM TOM para dizer que fazem parte da França ainda. E ex-colônias que ela abandonou em melhor ou pior estado, deixando para trás uma porção de gente que, se não tivesse vindo para cá em seguida, teria morrido como traidor por ter lutado ao lado da França em alguma guerra. Essa mesma França que hoje em dia participa de acordos para dificultar a entrada dos refugiados que, segundo a extrema direita adora espalhar por aqui, estariam invadindo a Europa aos milhões atrás da riqueza, dos benefícios sociais e de uma vida cheia de conforto e privilégio, roubando os empregos dos europeus de verdade. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da migração.

Durante muito tempo foi proibido nas escolas daqui que as crianças aprendessem outra língua que o francês. Ninguém podia falar catalão na Catalunha nem bretão na Bretanha, nem occitano na Occitânia. Isso era fruto de um posicionamento político que privilegiava algo como a “união nacional” em torno de uma idéia de França em detrimento das diferenças entre os povos que a compõem. O contrário do que fez a Inglaterra, por exemplo. Mas isso é outra história. E serve apenas para lembrar que a questão da dívida histórica francesa é muito maior do que a gente se dá conta e começa dentro das suas próprias fronteiras.

Então, é evidente que a reivindicação da diferença, das origens, da língua, dos costumes é algo importante aqui na França. As pessoas vão responder que são franceses. Mas se você sair dos grandes centros e for para as fronteiras do país, esse ser francês aparecerá misturado com a defesa de um pertencimento outro. Aliás, nem precisa sair dos grandes centros. Basta prestar atenção em quantos “ser francês” diversos cabem nessa definição de ser francês em uma cidade como Paris, por exemplo.

E isso, a reivindicação das diferenças, é legítimo também para os migrantes. Para pretos, árabes e latinos que vêm construir sua vida por aqui. E que vivem sob a pressão de se “integrar” por vezes em detrimento dessas mesmas origens que são suas únicas referências sobre como existir, circular e compreender o mundo. Algo doloroso, um acordo entre cisão e integração que nunca se faz totalmente.

Mas o problema – ou a vivência – dos migrantes não é a mesma de seus filhos e netos. Sim, eles têm essa origem e, sim, as coisas se passam bem melhor quando ela não é negada, recusada, reprimida e sim integrada em suas subjetividades de alguma maneira. Pode ser na comida, na língua, na festa, no canto, na dança, na roupa, na risada, na religião… Um traço que resta e que diz daqueles sujeitos quem eles são. Mas é um traço entre outros, pois a identidade nunca vem de um lugar apenas, é colcha de retalhos. E para outros tantos traços, esses filhos e netos de migrantes são… franceses. E tão ou mais difícil para eles do que encontrar um lugar em suas origens é poderem ser e usufruir do fato de serem franceses. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da igualdade. Vejam o paradoxo. Negar a migração e a diferença. E negar a igualdade. Igualdade que faz parte do lema maior que define este país.

E é isso que essa “homenagem” de uma perspectiva brasileira que acha bonito acentuar que os jogadores da equipe de futebol francesa seriam africanos não consegue entender. Que a questão, para eles, é se afirmarem como franceses. E obrigarem a França a se afirmar como plural, mestiça, preta, branca, árabe, latina e asiática.

(Não fosse racista a “homenagem” teriam atentado para o fato de que outros jogadores dessa mesma equipe não são pretos mas possuem, basta ver os sobrenomes, origens não francesas. Mas então…)

Talvez se o orgulho de ser brasileiro fosse além do futebol ou de vestir camisa para defender posições políticas absurdas e retrógradas e se as pessoas tivessem uma necessidade subjetiva de se afirmarem como brasileiros quando alguém perguntasse de onde elas vêm, talvez nesse caso nós, brasileiros, seríamos capazes de entender um pouco melhor o que essa afirmação tem de revolucionário.

E não, eu não estou negando a importância da afirmação das diferenças no Brasil por aqueles para os quais a diferença sempre foi sinônimo de preconceito, violência e humilhação. Acho lindo e importante, ou até mais do que isso, fundamental, que pretos possam finalmente impor que sua voz seja escutada. E que os não-pretos tenham que engolir essa fala afirmativa. Finalmente. E entendo que essa seja uma forma de ação contra o racismo. E que o mesmo ato poderia ser considerado um protesto contra o racismo na França. E que pode ser um protesto contra o racismo na França essa afirmação das origens africanas de seus jogadores de futebol. Só que também não. Porque não é tão simples assim, nem aqui, nem aí. E toda afirmação de uma diferença cria potencialmente um gueto. E por aqui tanto quanto por aí as pessoas vivem no gueto há muito tempo. E a solução, por aqui, tem sido: ou a afirmação da diferença absoluta e da vontade de destruição da França encontrada nos atos terroristas que foram executados por… franceses, veja só. Ou então a afirmação de um pertencimento a algo como uma França e a pressão que isso causa nessa tal de França que precisa se alargar afim de incluir todos os que se reivindicam como franceses.

Qual o melhor jeito? Qual o jeito certo? Não sei. Nisso estou de acordo com quem defende a mestiçagem como melhor jeito. Mas isso também é uma outra história.

Eu levei muitas décadas e uma mudança de país para entender que eu sou… brasileira. E que por aqui eu não sou branca. Sou latina. Ou, como minha filha gosta de dizer, quando fala da cor das nossas peles: marrom. O que para ela, felizmente, quer dizer uma cor, não um crime. Nem uma condenação.

E meus filhos são… franceses. Mesmo tendo dupla nacionalidade. E esse é um luto que eu tive que fazer quanto aos meus filhos, porque é claro que eu os via como brasileiros e é claro que isso nem era uma questão até eles começarem a falar francês entre eles… E é claro que eles são também brasileiros e que essa brasilidade faz parte do modo como eles existem. Mas na afirmação de que são franceses existe uma reivindicação, percebem? Que é política, ideológica e ética e que vale para todo mundo que está por aqui e que tem o direito de estar por aqui ou por onde quiser nesse planeta. É essa reivindicação de pertencimento e de ser respeitado nesse pertencimento. E esse é um luto que penso que a França precisa fazer quanto a essa imagem de uma França branquinha e pura que já não existe mais há muitas décadas, se é que um dia existiu. E é para ajudar nesse luto francês que eu escolho afirmar que os jogadores que venceram a copa do mundo ontem são, todos, 100% franceses.

O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

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Pra não dizer que não falei das flores…

Uma das minhas descobertas nessa vida francesa e, especialmente, no campo, são as estações do ano. No Brasil temos verão e inverno, ou um combinado de dias mais ou menos quentes e mais ou menos chuvosos o ano todo. Aqui, a primavera explode dia após dia em cores, formas e perfumes variados. E as flores selvagens que brotam do nada são de uma beleza extrama. Vontade de contemplar e ao mesmo tempo de sair explodindo também em cores e em vida.

Ou algo assim:

Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

Quem gosta de vinho?

Eis algo sobre o que nunca tinha pensado antes de começar a pensar: os vinhos, como todos os produtos alimentares em nossos dias, podem ser modificados e conter uma imensidão de produtos químicos. Quem já tinha se dado conta que, também para os vinhos, temos que considerar a opção bio?

Beber melhor e mais saudável, eis algo que um número cada vez maior de viticultores se preocupa na França. Retornar às raízes, retornar ao sabor das raízes, mágica que os vinhos deixaram muitas vezes de fazer, tendo que se adaptar ao consumo de massa e ao sabor médio buscado pela maioria. O gosto fácil ou a ousadia dos sabores específicos? Eis a questão.

As uvas, os vinhedos, podem ser tratados com uma quantidade mais ou menos importante de pesticidas e eles vão parar no vinho. Assim como umas ou outras coisinhas que os viticultores vão acrescentar para “arrumar” o vinho na hora da produção. Por aqui, descobri que tem quem coloque açúcar, sulfitos além dos naturais vindos da própria uva, conservantes. Quando abrimos uma garrafa, aquilo que chega no nariz e na boca é o conjunto da obra, ou seja, as uvas, o terroir e toda a porcariada que eventualmente o viticultor terá acrescentado para que o vinho seja redondo e que ele agrade ao gosto e às exigências de seus consumidores. O que é uma pena, se pensarmos bem, pois um vinho é uma descoberta tão incrível e inesperada do lugar onde ele foi feito que trabalhar para torná-lo palatável como todos os outros é tirar dele o que o faria único. E nisso a diversidade se perde.

Pois bem, por aqui encontramos mais e mais viticultores passando ao bio, ao natural e ao biodinâmico. Colheita manual, sem uso de pesticidas, sem acréscimo do que quer que seja, fermentação com o uso apenas de produtos naturais, doses de sulfitos acrescentados bem menores do que se vê por aí. Uma pequena revolução, feita por apaixonados do terroir, essa beleza poética que é como chamam por aqui a terra, a terra de cada pequeno terreno que muda de um metro a outro.

Descobrir um vinho natural é desafiar os hábitos que temos, o gosto que pica na boca, a espera de que o vinho aere, uma certa opacidade… coisas esquisitas. Uma descoberta e tanto, especialmente para paladares habituados aos sabores bem alterados.

Um vinho é uma descoberta. Tenho descoberto nesses vinhos bio, biodinâmicos e naturais todo um mundo novo dos gostos não redondos, que não aparam arestas, que não maquiam nem disfarçam nada. Um vinho vivo, é o que dizem. Um vinho como um ser humano, cheio de falhas e idiossincrasias. Um deleite.

Vins naturels.

Vins naturels, algumas sugestões.

Ainda sobre vinhos bio, naturais e biodinâmicos.

Quem paga o preço?

Nos últimos tempos, especialmente depois da crise político-econômico-social que anda devastando meu querido Brasil, vira e mexe escuto gente dizer que vai mudar de país. França, Itália, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá… Qualquer destino de primeiro mundo com o qual tenhamos alguma familiaridade parece perfeito como válvula de escape de um Brasil caótico, violento e avacalhado. Nessas horas, as pessoas se lembram dos amigos que moram fora e vez ou outra decidem ter essa conversa comigo. Aí é que é bom… país de m-primeiro mundo, gente educada, povo civilizado. Então eu lanço mão daquela perguntinha capciosa que qualquer pessoa honesta que more em outro país se vê na obrigação de fazer quando um de seus compatriotas cogita vir para cá: “sim, sim, é tudo muito bom mas, diga lá, você aceita pagar o preço?”

Viver em um país civilizado tem um preço e, lamento dizer, custa caro. Sim, caro financeiramente e mais caro ainda em termos de mudanças de hábitos e de costumes.

Um exemplo: é época de declarar imposto de renda por aqui. Como aí. Mas diferentemente daí, pelo menos 25% do que eu ganho como profissional liberal já foi pago em encargos sociais. O quê? Sim, isso mesmo que você leu: encargos sociais. Aquilo que a gente paga para financiar todos os benefícios sociais de um país, como saúde pública, educação, auxílios sociais, aposentadoria… Pois é, 1/4 do que eu ganho paga os benefícios aos quais eu e mais todas as outras pessoas daqui teremos direito a usufruir. E ainda nem comecei a falar de impostos. Porque esses vão levar mais ou menos uns 10% do que eu ganhei. Para pagar toda a estrutura que existe por aqui. Segurança, infra-estrutura, cultura…

Imagino que existam pessoas que soneguem imposto por aqui. Mas é algo tão ínfimo, mas tão ínfimo que quando sua declaração mostra que você tem direito a uma restituição, ninguém te chama no equivalente da receita federal para você prestar contas. Ninguém desconfia que você poderia estar dando um truque. Eles te mandam um cheque que chega na sua casa pelo correio e que ninguém rouba, pasmem! E junto do qual vem uma cartinha-tipo do diretor da receita dizendo que eles estão felizes em te enviar aquele cheque. Felizes. De te enviar um cheque de restituição. Porque é seu direito. Percebe? Um modo de funcionar baseado na confiança em que cada um vai fazer a sua parte em nome de um bem comum que vai beneficiar a todos.

Aqui todo mundo tem direito aos benefícios sociais. Sabe aquele bolsa-família que você despreza no Brasil como se fosse uma esmola dada para vagabundo? Então, aqui o equivalente disso é creditado na conta de toda família que tem filhos, de acordo com sua renda. Toda família. Rica ou pobre. Com um filho ou com dez. Proporcionalmente. Percebe o que é uma mentalidade na qual se compreende que é importante dividir um pouco dos benefícios criados por todos entre todos? Porque é isso que vai diminuir as desigualdades e criar uma sensação de justiça e de proteção. É o que vai dar às pessoas a convicção de que elas contam. Ou seja, é isso que vai fazer com que você possa sacar seu telefone celular último tipo no meio do metrô lotado no final do dia sem que ninguém arranque ele das suas mãos e saia correndo. Não tem assalto? Tem. Não tem roubo de carteira, celular, máquina fotográfica no metrô? Tem. Mas você pode usar seu celular no metrô. E sua máquina fotográfica pode ficar pendurada no pescoço quando você está turistando no meio da rua olhando para todos os lados como um abestado. E você pode abrir sua carteira no meio da rua para procurar uma moeda. E você pode andar com brinco, anel, colar. Em tudo quanto é lugar.

Sabe o que é isso? Eu, vivendo em São Paulo, não sabia. Isso é o que você ganha quando aceita pagar o preço de viver em um mundo mais justo do que aquele em que vivemos no Brasil. Isso é o que você ganha quando aceita que sua empregada doméstica tem a filha na mesma escola que você, tira férias como você, viaja de avião, tem carro, ganha 10€ por hora, é registrada e não tem nenhuma obrigação de limpar a merda que você deixa na privada ou de recolher suas meias sujas pela casa.

Então me soa bem estranho quando escuto as pessoas dizendo que vão morar aqui. As mesmas pessoas que desprezam os benefícios sociais e as pessoas que deles usufruem e que aplaudem a retirada dos mesmos e dos poucos direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas. E que acham que quem paga imposto é otário e arrumam mil gambiarras para sonegar tudo o que for possível. E que se justificam com a balela do “por que vou pagar se não tenho nada em troca?” E que preferem não pagar do que reivindicar saúde e educação de qualidade nos serviços públicos. E utilizá-los.

Infelizmente no Brasil crescemos com uma mentalidade meio perversa segundo a qual o mundo teria que mudar para então começarmos a agir certo. Porque o mínimo deslize do lado de fora de nós justificaria que possamos continuar a fazer tudo do jeito que queremos. No dia em que o país mudar a gente para de ser desonesto, né? Pois é, não. Não é assim que a coisa funciona. No dia em que você parar de ser desonesto você terá começado uma mudança. E então poderá exigir do mundo ao seu redor que ele também mude. Pague o preço.