Eles esqueceram que são colonizadores

Quando cheguei por aqui, conhecia a França berço: da revolução francesa, dos direitos humanos, do feminismo. Tudo – ou quase – de mais valioso inventado pelo ser humano nasceu por aqui ou ganhou daqui sua forma revolucionária. Ciências humanas, filosofia, psicanálise, impossível transitar por um desses territórios sem passar pela França, pelos autores franceses, pelo pensamento francês. Nas artes, a mesma coisa. E então você chega aqui e se deslumbra com os lugares por onde passaram essas pessoas, por onde esses pensamentos foram gerados, toda sua vida culminando em pisar nos passos de um Diderot, de uma Beauvoir, de um Foucault, de um Charcot, de um Lacan, de uma Simone Veil… Enfim.

Mas você chega aqui e percorre todos esses caminhos, todos esses nomes, todas essas histórias, todas essas referências e se depara, no dia-a-dia, com a realidade de pessoas que são, muitas vezes, machistas, misóginos, racistas e xenófobos. E como faz para conciliar essa França que produziu boa parte dos valores que circulam como os mais altos da civilização ocidental em um meio que criou, paradoxalmente, um povo com mentalidade de colonizador?

Ninguém menciona o assunto, até nas escolas é algo que fica quase fora da grade escolar, mas a França foi colonizadora. Ela se esparramou, como todos os senhores dos séculos passados, por todos os continentes deixando seu rastro, seus traços e levando consigo tudo o que é riqueza. E, ao sair, deixou precariedade, morte, guerra, também como seus congêneres. E em alguns casos, para não sair de posições estratégicas, criou o artifício simpático dos territórios e dos departamentos além mar, que nada mais são do que algumas ex-colônias que fazem parte da França, mesmo estando do outro lado do mundo e sendo povos com culturas, línguas e hábitos totalmente diferentes.

Você mora na metrópole? é como perguntam. A metrópole é a França e o restante são o que eu provocadoramente chamo de outros países, que me corrigem sempre dizendo DOM-TOM e ressalvando que são franceses. Ah, sim, com certeza. Basta perguntar para alguém que tenha morado em um desses “territórios” ou “departamentos” como é a vida por ali que a pessoa vai rapidinho diferenciar os “franceses” dos “locais” e te contar sobre toda sorte de preconceito existente na relação entre tais grupos. Ou então conversar com quem nasceu na Île de la Réunion e pedir para eles te contarem como são tratados aqui na “metrópole”. DOM-TOM é maquiagem de colônia.

Daí, como as pessoas convenientemente esquecem que foram e são colonizadores, eles parecem sempre muito espantados quando migrantes vindo de ex-colônias devastadas pelo humanismo francês chegam por aqui e não querem “se integrar”. Palavrinha curiosa essa tal de integração, que joga sempre com a assimilação do outro ao ponto de perder-se de si mesmo. Por aqui, tem quem pense que migrante bom é aquele que passa desapercebido, que a gente nem nota que é migrante, tão bem comportado ele é. Só que, se isso funciona bem com os portugueses que migraram em massa para a França por questões econômicas e que se construíram discretos e silenciosos zeladores de prédios e motoristas de táxi, falar de integração para magrebinos, por exemplo, é acender um fósforo em cima de um barril de pólvora.

A França saiu da Algéria, por exemplo, criando uma guerra entre os contra e os favoráveis à independência. Quem foi contra e lutou do lado dos franceses tornou-se traidor com o desenrolar dos acontecimentos. E tiveram, como opção, vir à França, promessa de integração mais do que merecida pelos serviços prestados. Vieram para serem recebidos em campos, alojados em bairros periféricos e tratados como cidadãos de segunda categoria que ocupam os postos de trabalho que nenhum francês quer e recebem, em geral, cerca de 30% a menos que qualquer francês pelo mesmo serviço. E, em cima disso, acrescentem o preconceito de serem tratados como migrantes mesmo quando são franceses já de segunda ou terceira geração. E quando essas pessoas encontram no radicalismo religioso uma condição de existirem e de serem valorizados, todos ficam chocados. Mas como assim eles nos querem mortos? Por que é que eles não se integram simplesmente e de boca fechada? Por que ficam querendo usar véu?

Migrante bom em terra de colonizador é aquele que não dá trabalho, não aparece, paga seus impostos e não reclama. E quando alguém faz algo diferente disso, os franceses não entendem. Eles não entendem que existe uma história que precede todo e qualquer magrebino e todo e qualquer migrante vindo de um país ex-colônia francesa e que essa história é marcada por uma violência que fará com que, para o sujeito que aqui chega, a relação com esse país seja, no mínimo, ambígua. Porque o país que os recebe matou, violou e explorou seus antepassados às vezes nem muito distantes. E ainda querem que eles se integrem. Sem perceber que integração é violência.

Não conheço forma de resolver esse tipo de impasse que não passe por um acerto de contas com a própria história o que significa, por aqui, com o passado de colonizador. Que é tão negado quanto o direito à revolta dos colonizados. Mentalidade de colonizador e revolta de colonizado que se transmitem em silêncio, de geração em geração. Sem que ninguém entenda.

Sim, a França tem seus lados não tão admiráveis.

 

Flores e pedras

Ele tem alma de artista. Dá para perceber pela névoa espessa e inquieta que atravessa seus olhos cada vez que eles encontram o olhar daquele com quem fala. As palavras saem como canção fluída, como um rio e se atrapalham apenas no encontro dos olhares. Aí ele fica opaco, os olhos brilham e se escondem. Uma conexão perturbadora, daquelas que dá vontade de continuar em conversa, refazer o mundo contando histórias. Mas não.

Houve quem acreditasse que a vida deveria ser feita em torno dessa conexão, que esse encontro é raro demais para não se fazer nada dele. Há quem se move a partir dos encontros mais significativos, busca de uma vida que seja plena de sentido, nenhum gesto desperdiçado. Será o tempo ou a própria vida que fazem com que não se acredite mais? Em outros tempos, esse encontro seria decisivo.

A fala que flui como música tem todo um cenário, um cheiro de madeira úmida, o mesmo que cola no fundo na garganta, um fundo de cereja naquilo que, na superfície, é rocha. Cereja ou pêssego, nunca sei ao certo. Mas eles certamente se encontram em algum lugar de suas diferenças. Frutas escondidas na rocha seca, áspera, pegajosa. Um oásis no deserto, um encontro de frutas escavadas em meio às pedras secas, como uma mão desesperada que cava em busca de vida, um homem à beira da morte que precisa estar vivo, precisa sentir a vida pulsar ali, no meio do peito, mesmo que isso custe tudo o que ele tem e tudo o que ele não viveu. Como quem procura no fundo de um copo a redenção derradeira, a verdade enfim revelada de si mesmo, a sensação única e fugaz de estar ali, presente, inteiro.

Uma flor nasce no meio de um calhau de pedras. Como deflorar, como desabrochar delicadeza no lugar mais improvável. Como não destruir flores que nascem no deserto? Como ser flores fortes que resistem a tudo disfarçadas de rocha, mascarando sua extrema delicadeza? Um artista saberia o segredo?

Ele diz e se esconde. Ele se cala. Porque dizer demais é desdizer o mais importante. E porque talvez nem ele mesmo saiba o que está dizendo quando não diz. Ele tem alma de artista, mas ele procura também. Ele escava entre as pedras em busca da mesma verdade que oferece quando fala. Ele a possui, mas ela lhe escapa e por isso precisa procurá-la novamente. E assim, a cada estação, lá se vai ele entre os campos a procurar.

Amendoeiras em flor

Fevereiro. E aparecem as primeiras flores. São as amendoeiras selvagens que crescem na beira da estrada e entre as vinhas. Massas arredondadas de cinza, quando vistas de longe. E você se diz que parece tolo acrescentar mais cinza ao já tão cinzento inverno de nuvens cinza sob céu cinza e frio cinza. Como se um acumulo de cinzas se concentrasse em alguns pontos da paisagem, cinzas que podem se dissipar a todo momento por um sopro, por uma brisa, por um vento. Essas massas de aparente e passageiro cinza são elas, as amendoeiras. Verdadeiro disfarce de prenúncios de primavera mascarados de cinza e fumaça que, quando você se aproxima, se revela em toda sua surpreendente beleza.

O cheiro. Ah, o cheiro das amendoeiras em flor é algo que nem os melhores perfumistas franceses conseguiram igualar. Um perfume suave, doce, delicado e discreto que te obriga a parar no meio do caminho, se aproximar. Será que senti direito? Será mesmo isso? E você para e respira aquele perfume. E olha os galhos nus das amendoeiras agora cobertos de centenas de pequenas flores. Brancas. Rosas. De um rosa tão claro que é quase branco de um branco rosado. Umas coladas às outras, balançando seu perfume ao vento, em cachos e cachos de beleza primaveril invadindo o inverno.

Eu não conhecia amendoeiras, ainda mais em flor. Quando cheguei por aqui no ano passado, fui pega de surpresa entre o parquinho e o caminho de volta à casa. Pensei que eram cerejeiras, como aquelas do Japão, pela semelhança nas formas, nos cachos, Aquele cheiro, aquelas pequenas flores, aquelas cores. Não a beleza e o perfume quase ofensivos de uma rosa. Uma presença delicada, sutil, de uma beleza simples e sem artifícios.

Eu fico realmente encantada com a aparição das amendoeiras em flor em fevereiro.

A neve e a neve

Este ano demorou, mas finalmente chegou a neve. E eu ADORO neve. Conheço pessoas que estão aqui há tanto ou mais tempo que eu e que dizem que isso passa. Mas até agora não passou. A neve desperta em mim o lado mais pueril, o deslumbre mais ingênuo, o entusiasmo mais verdadeiro. Todo ano espero a neve chegar e, desde que cheguei ao sul da França, olho a montanha mais alta das redondezas esperando vê-la branca num amanhecer qualquer.

Existe, no entanto, a neve e a neve. A neve das grandes cidades, como de Paris, que é linda apenas para os turistas. Porque para quem vive ali, é o inferno branco na terra. A neve que se acumula em Paris logo vira uma lama marrom pegajosa que espirra em sapatos, calças e casacos desde que você sai do metrô ou bota os pés fora de casa. A quantidade de gente faz com que a neve repisada vire uma meleca nojenta, no melhor estilo rave com chuva. Só que, quando você vive em Paris, não tem música boa, você não está de folga e nem dá para fazer a festa. Você tem que ir ao trabalho, à escola, a não sei onde e precisa atravessar aquele mar de cola marrom. E você odeia a neve.

Fora que, em Paris, acontece um fenômeno incompreensível para mim a cada vez que neva. Neva todos os anos naquela cidade e mais de uma vez por ano. E, todos os anos, a cada vez que neva, é como se fosse uma surpresa. Como se estivéssemos em Salvador em pleno mês de janeiro e caísse uma tempestade de neve. Tudo para. Não estavam preparados. Como assim? Não sabiam que ia nevar? Sim, o serviço de metereologia é excelente. Não sabiam o que tem que fazer quando neva? Sim, a França é um país onde neva desde sempre, todos sabem o que deve ser feito. Então por que não fazem? Mistério. Neva em Paris e os ônibus não podem circular, as escolas fecham, todo ano aquele clima de catástrofe natural. Em um país como a França e em uma cidade como Paris, onde teoricamente tudo deveria funcionar. Até hoje ninguém conseguiu me explicar o que acontece, mas todo ano tem as mesmas reportagens, o mesmo improviso, o mesmo espanto. Gente, é inverno, no inverno neva.

Já tive um primo que morou em Nova Iorque na mesma época em que vim morar em Paris. No inverno, ele postou umas fotos de um dia em que os ônibus não circularam, as escolas fecharam e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa em Nova Iorque. A neve estava COBRINDO os carros! Tinha um muro de neve nas calçadas e foi só então que a cidade se tornou intransitável. Mas em Paris neva 5 cm e ninguém sabe o que fazer. Depois quando digo que os franceses são muito ineficientes para uma série de coisas, as pessoas acham que estou chorando de barriga cheia.

Ainda bem que tem a neve. A neve na montanha, nos vilarejos, nos lugares afastados dos grandes centros. Neve que cai branquinha e fica branquinha, fofa sobre jardins e outros lugares abertos por onde as pessoas não circulam. Você pode se jogar naquele tufo de neve e o único risco é aterrissar em cima de um cocô de cachorro desavisado que decidiu se aliviar por ali. Porque mesmo no inverno bichinhos e bichanos dão suas voltas. Dá para escorregar de luge (uma espécie de trenó) no meio de um descampado. Dá para fazer um boneco com cenoura no nariz e galhos no lugar dos braços. Dá para fazer guerra de neve. Dá para ser criança. A neve é um salvo conduto branco que silencia os barulhos do mundo, adormece a natureza e te autoriza a rir e a brincar.

Existe todo um ritual ligado à neve. Existe por aqui duas semanas de férias escolares que são as chamadas férias de inverno. As famílias vão para as montanhas, para as estações de esqui. Alugam um alojamento e passam ali uma semana subindo e descendo montanha de teleférico, esquiando todos pelos mesmos lugares, num congestionamento de bastões, esquis e roupas fluo. Como nossas férias de verão na praia, aqui férias de inverno são “no esqui”. Restaurantes ruins lotados, carros estacionados na calçada, gente passando uns em cima dos outros, todo caos a que se tem direito quando milhões de pessoas saem de férias para os mesmos lugares ao mesmo tempo. Francês é classudo, glamouroso, elegante e educado até você passar suas primeiras férias “no esqui”. Daí você percebe que era tudo fachada. E nem adianta ir nas estações dos super ricos, as mais caras e exclusivas que é exatamente a mesma coisa. Uma grande farofada. A neve é um negócio da China.

Mas existe a neve e a neve. A neve dos lugares perdidos fora de temporada e de férias. A neve que eu vejo nas montanhas ao redor, iluminada pelos céus em tons de rosa e dourado inacreditáveis de inverno. A neve pano de fundo dos milhares de pássaros voando em uníssono em busca de lugares mais quentes. A neve sobre árvores e plantas, pesando galhos e folhas, criando desenhos inesperados. Essa neve que cobre tudo, que cria um silêncio quando cai como eu nunca ouvi antes de presenciar neve caindo. Ela abafa os ruídos, impõe calma e recolhimento.

Eu adoro a neve e os céus azuis de inverno. Fora quando venta. Quando venta, eu reclamo tanto ou mais que parisiense quando neva. Mas da boca para dentro, que o vento faz engolir as palavras, faz olhos chorarem sem querer e faz a gente andar de ré.

 

 

Disse me disse

Aqui em Utopia já é 2019.

O rei do castelo não gosta da esposa do bobo da corte genial. Especialista em enterrar relacionamentos e cadáveres de mulheres destruídas em seu jardim, ele dispõe. E o bobo da corte genial não. E a culpa, obviamente, como não poderia deixar de ser em toda história vista pela perspectiva do homem, é dela. Ela é a megera da vez, ela deixa ele infeliz, ela impede ele de viver, de existir, de respirar. E todo o séquito do rei aplaude, mostra os dentes e repete a mesma ladainha. E ninguém se coloca nenhuma questão.

Porque ela fez um filho nas costas do bobo da corte quando ele finalmente tinha tomado coragem em ir embora. Ela fez um filho. Misto de imaculada concepção e bruxaria, ela fez um filho à revelia dele. Um tipo de cilada argumento que tantos homens gostam de usar, até mesmo em Utopia, até mesmo na França. Tenho um paciente que veio com uma dessas noutro dia: a companheira, que agora é ex, fez um filho nas costas dele, à revelia dele. Ele não quer a criança, ela não quis abortar então, para ele, o futuro bebê não existe. Assim. Fácil. Como é prerrogativa masculina quando o assunto é filhos: eles podem dispor como bem entendem, sempre vai ter alguém que vai assumir tudo de um jeito ou de outro porque não conta com a maravilhosa opção de delegar a um outro que homens possuem. Esse alguém é a mulher.

Pois então, esse meu paciente, a mulher fez um filho nas costas dele. Ele transou com ela. Ele gozou nela. Ela engravidou. Mas ele não participou ativamente e voluntariamente da coisa, sabe? É como o bobo da corte. Ela fez um filho dele só para amarrar ele na relação, coitado. Ele nem participou de nada. E aqui na França, em pleno século 21, homens se permitem usar esse argumento perverso da mulher fazer filho para segurar homem em relacionamento. Na França, onde mais da metade dos casais se separam, onde filho não segura absolutamente nada, onde homens vão embora mais depressa do que você seria capaz de dizer “touché“. Aqui na França e até mesmo em Utopia um homem usa o argumento dela fez um filho nas costas dele para prendê-lo no relacionamento contra uma mulher, para justificar seu ódio por uma mulher e todo mundo repete, todo mundo aplaude, todo mundo fala de lado sobre essa mulher.

Cada vez que o bobo da corte não aparece em um evento, torcem o nariz: viu, é por causa dela. Ela faz ele infeliz. Ela não deixa ele fazer nada. Os “amigos” se permitem dizer essas coisas nas costas dela, uns aos outros. Sem o menor pudor. Sem a menor decência. Sem um pingo de empatia. Mas quando se encontram… ah, é só beijo, abraço e amor.

Minha opinião? O bobo da corte genial não comparece aos eventos porque, simplesmente, ele não quer. As pessoas querem ele, o rei do castelo quer ele ali, mansinho, fazendo parte da corte, dando aval para o reinado dele. Mas ele é o bobo da corte e de bobo ele não tem nada e ele não se interessa nem um pouco por essa cena toda que só faz maldizer, sugar, usar, cada um se afirmando naquilo que é pelo número de notáveis que carrega consigo. Bobos da corte, lembrem-se, eles aparecem apenas para dizer a verdade, não são os palhaços de circo nenhum, não estão ali para entreter a audiência. Ou seja, em bom português, ele está cagando e andando.

Ou será que eles pensam que essa maledicência subterrânea com aqueles a quem ele ama não se faz sentir? Ou será que eles pensam pensam que ele está com ela por obrigação e que não existem mil outras razões para isso? Ou será que eles pensam que é fácil ser a mulher de um gênio alcóolatra? Porque sim, é muito divertido ter um bobo animando a corte, bêbado, fazendo todo tipo de merda possível para você rir, especialmente quando você aproveita das extravagâncias do outro e ri da cara dele e se convence que ele é feliz sendo aquilo e fazendo aquilo tudo e te fazendo tão feliz às custas dele, mas quando ele volta para a casa cheio de toda merda que fez, quem é que está ali para ele? Não, não é você, nem o rei do castelo, nem nenhum outro palhaço da corte. É ela. E é ela quem tem que aguentar isso. E todas as suas falas maledicentes e subterrâneas, e todos os seus comentários nos quais ela é a única responsável da infelicidade dele, e todas as suas acusações e julgamentos de quem não conhece nada, não sabe de nada, mas está sempre pronto a condenar aquele que faz o papel menos simpático, menos sorridente, menos sociável, menos agradável da história. O que, com frequência, cabe à mulher dos gênios, dos brilhantes, dos bem sucedidos. Tudo o que eles são é mérito deles, tudo em que eles pecam é culpa delas. Tão cômodo.

É como a cena sempre atualizada da nova mulher do velho cara para quem ele conta que a ex era uma louca, perversa e todos os afins. E a nova mulher acredita, porque é sempre melhor acreditar que a culpa foi de uma megera qualquer do que ver que aquele homem ali do seu lado não é tão bom assim. Um homem que é capaz de enlouquecer uma mulher, tirar dela o que ela tem de pior, amargá-la, fazê-la secar no ódio, no ressentimento ou na tristeza não é um pobre homem manipulado por uma megera que, além de tudo, fez um filho nas costas dele. Ele é provavelmente um ser com grandes chances de ser alguém que usa os outros, suga até a última gota, deixa a pessoa morrendo de fome emocionalmente falando e daí joga fora. E passa para a seguinte. Mas é melhor acreditar que o problema é ela, né? E que contigo vai ser diferente, vai ser melhor, vai ser lindo. Até o dia em que você acorda na pele daquela louca, ressentida, amargurada que faz filho nas costas dos outros. E daí não consegue entender como é que foi acontecer contigo. E nem porque todo mundo te odeia e fala mal de você pelas costas do mesmo jeito que você fez com a ex. Esse discurso serve muito bem a alguém e certamente não é às mulheres.

Acho que o rei do castelo e sua corte não conseguem entender que o bobo e ela não vão porque não querem. Não querem estar ali com eles. Não querem isso para a vida deles. Não querem quem julga sem nem conhecer ou perguntar. Não querem quem espera deles um espetáculo, uma cena para diverti-los. Não querem conviver com quem se lixa com o fato de que toda essa diversão, toda essa alegria custam um preço muito alto no final. Que quem paga é eles, não o rei, nem a corte.

As pessoas ganhariam muito em se olhar um pouco no espelho antes de começar a vomitar suas barbaridades sobre as outras.

Onde foram as palavras ?

Passei assim, esse último mês, entre o estupor e o excesso. Nunca pensei que no intervalo de uma vida veria meu país sair de uma ditadura, construir um arremedo de democracia, prosperar economicamente para cair no precipício apenas 3 décadas mais tarde. Por pior que fosse a nossa pseudo-cordial, a-ética e cínica brasilidade, acreditei que, frente ao pior possível escancarado na nossa cara, cada qual seria capaz de ver, de perceber, de acordar. E de fazer um esforço de ser melhor e de se colocar do lado do melhor. Do possível. Não foi o que aconteceu.

Um mês entre dois mundos, tentando recuperar uma proximidade que não existia mais. Com as pessoas, com as inquietações, com o cotidiano do meu país. Tentando entender onde foi que me separei dele e onde foi que a distância virou ruptura e incompreensão. Descobri, com horror, que o Brasil havia se tornado um lugar abjeto. As pessoas haviam se tornado seres raivosos, cheios de ódio, desprovidos de racionalidade, de respeito e de empatia. Tornaram-se ? Ou foram sempre assim e os ventos sopraram de cima deles aquela fina camada que tinham de falsa civilidade ? As pessoas se tornaram feias, se revelaram feias, medonhas, personagens monstruosos de um pesadelo que não termina. Fui habitada por sentimentos muito ruins nesse mês. Raiva. Ódio. Desprezo. Nojo. Intoxiquei-me das palavras, da sombra, do hálito fétido de ódio saído da boca de gente que, até bem outro dia, me parecia um igual. Como se descobrir igual a gente que te enche de nojo ? Dela, de você mesma, da vida, da espécie humana ?

Esse ódio que torna as pessoas feias, burras, cafonas. Viramos uma piada mundial novamente e, ainda mais, um exemplo do pior que existe no ser humano quando ele deixa à solta suas piores intenções. Ninguém que conheço quer mais ir ao Brasil, mesmo de férias. Todos estão horrorizados e com medo. Se pode acontecer aí, também pode aqui. Ninguém quer que o Brasil de hoje seja o futuro da Europa.

Então terminaram as conversas com pessoas de discursos herméticos que não faziam outra coisa além de repetir frases feitas e acéfalas. Terminaram as conversas com pessoas que ergueram um muro intransponível entre elas e qualquer traço de humanidade além da capacidade de odiar e de fazer o mal. Terminaram as eleições e a crua realidade foi vomitada na minha e em muitas outras caras. Nojenta e irrefutável. No meio de uma viagem de trem de retorno depois de duas longas viagens em um mês para deseseperadamente lutar com o pouco que me restava. Meu direito ao voto.

Retornei dessa viagem pelo pior do que se tornou meu país esgotada. Morta de uma alma mortificada de quem se sente exilada de um Brasil que não existe mais. O país que eu deixei desapareceu no final desse mês de outubro. Não consigo encontrá-lo mais, tornei-me uma apátrida. Ele não está mais nas pessoas, no que elas dizem, no que exprimem, nos seus gestos. Ele ficou em algum lugar entre o ódio e a sede de vingança. O Brasil morreu.

E como a gente imaginou que seria?

Em um país que se recusa desde sempre a acertar suas contas e a pagar suas dívidas históricas? Em um país que joga tudo para debaixo do tapete sob o nome abolição, anistia ou o que seja? Em um país do deixa disso, em que fazer justiça à verdade não possui significado algum? Como a gente imaginou que seria?

Achamos que bastaria dizer “pensem”, “reflitam”, “raciocinem” para que as pessoas fossem iluminadas pela obviedade da farsa e que, ainda por cima, a recusassem? No Brasil, um país no qual a educação foi totalmente sucateada nas últimas décadas e onde pensar foi vendido como um artigo de luxo, inacessível, destinado apenas a alguns poucos privilegiados? O que a gente queria?

O problema nunca foi econômico, mas o abismo econômico foi vendido como o único e como aquele a ser combatido. Como se igualdade, ou eqüidade, fossem feitas apenas com redistribuição de renda. E, sim, todos os países mais ricos do mundo que exploraram e enriqueceram às custas dos mais pobres já sabem que, dentro de suas fronteiras a regra é outra. A regra é redistribuir riqueza, minimizar a desigualdade. Então, sim, para um país enriquecer ele precisar minimizar suas desigualdades e para isso precisa redistribuir riqueza. O que significa redistribuir dinheiro. Mas não apenas.

O que a gente queria? Melhorar sozinho deixando todo mundo em volta se foder? Pois é, não deu.

O que se construiu no Brasil foi a convicção que redistribuir riqueza era redistribuir renda e que apenas com isso nos aproximaríamos de ser um país mais justo e mais próspero. Sem considerarmos que durante décadas o que se fez foi justamente inviabilizar qualquer outra redistribuição de riquezas que não fosse a financeira. Porque riqueza é educação, riqueza é cultura. É o acesso a todas as formas de enriquecimento, não apenas o econômico.

E como poderia ser diferente em um país no qual a educação pública de qualidade da geração dos meus pais deu lugar a uma educação prioritariamente no ensino privado, qualidade associada a quem pode pagar mais, marca da minha geração toda criada em escolas particulares das mais ou menos prestigiosas? Como poderia ser diferente em um país em que filosofia deixou de ser matéria obrigatória porque não interessava a ninguém que as pessoas aprendessem a pensar? Como poderia ser diferente em um país em que matemática se tornou algo tão difícil que as crianças já chegam acreditando que aquilo não é para elas? Um país em que física, química, biologia são matérias chatas, complicadas, desinteressantes? É assim que a elite cria um abismo na divisão das riquezas, é através dessa transformação, durante gerações, da educação em um bicho de sete cabeças ao qual praticamente mais nenhuma pessoa sente que tem direito. Ou pior, capacidade. Em nosso país, o projeto foi fazer com que as pessoas acreditassem que a educação era muito complicada e que quase todos fora os poucos eleitos seriam capazes de aprender o que quer que seja. Essa foi a riqueza da qual fomos privados, a riqueza de partilhar do acesso ao conhecimento geral e irrestrito.

Depois as pessoas estranham que quando um museu queima, metade da população de todas as classes sociais nem se importa. Mas, afinal, há décadas batem com uma marreta na nossa cabeça que isso não é para a gente, que cultura, arte, literatura, música, poesia, tudo isso é muito complicado. Que ir ao museu ver obra de arte contemporânea é chato e inacessível, que você não vai conseguir entender. Como a matemática, a filosofia, a física, a química, a biologia e até mesmo sua própria língua. Nada disso é para você. Tudo é muito chato e complicado e apenas uns poucos dão conta de acessar. Faz décadas, ou talvez até séculos, mas estou falando aqui apenas do momento mais recente, que nos dizem que nós estamos excluídos de compartilhar toda essa riqueza e vocês acham que o problema é apenas econômico, de distribuição de renda?

Conseguimos, por um breve período de tempo em nossa história recente, redistribuir renda. Tentamos até redistribuir as riquezas de uma forma mais abrangente, com quotas, vias de acesso à educação, incentivos culturais e o que aconteceu? Aquele 0,01% não suportou. O foi mais insuportável ver empregada no aeroporto e o povo no museu em grandes exposições com repercussão midiática do que ter que pagar encargos sociais aos seus funcionários. O povo frequentando os mesmos lugares que a gente? Acabou o hype, deixou de ser descolado, massificou, deturpou. A música, os lugares, os eventos. Ninguém gostou de ter que abrir a porta do clubinho para fazer entrar todo mundo.

E o que nós esperávamos? Se isso tem sido construído desde que o Brasil atende por esse nome e que ninguém, absolutamente ninguém aqui se responsabiliza por nada de nossa história? Massacramos os índios, escravizamos, exploramos, violentamos e assassinamos os negros? Não sei, eu não estava lá, não fui eu quem fiz. Construímos um país em cima da exploração, do uso, do saque, dispondo de tudo o que pudemos encontrar pela frente e essa é a nossa mentalidade básica desde o princípio e as pessoas insistem em posar de inocentes porque analisadas, porque desconstruídas, porque esclarecidas, porque educadas. Para, gente, isso é má-fé. E a nossa má-fé é exatamente o que torna possível que nos dias de hoje mais de 30% da população do Brasil possa se assumir claramente como perversa.

Porque, sim, é de perversão que se trata. Quando uma pessoa assume que a lei não se aplica a ela e que ela pode dispor do mundo, das pessoas, das coisas, dos lugares e das riquezas segundo sua vontade, impondo essa vontade aos outros pela força, isso tem um nome e se chama perversão. O Brasil é um país em que os perversos podem finalmente mostrar as garras sem nenhum constrangimento de serem enquadrados por uma autoridade qualquer que se sobreponha às vontades que o governam. E se esse perverso é da nossa família, nosso amigo de infância, nosso conhecido, se é preto, pobre, mulher, gay, professor, torturado da ditadura, artista ou o escambau, pouco importa, é de perversão que se trata. E de contágio, como o Freud dizia ali no psicologia das massas, onde todos os iguais se sentiam liberados pela força de manada para expressar tudo aquilo que sempre foram constrangidos a esconder. Abriram a caixa de Pandora e ninguém explicou como é que faz para colocar todos os demônios de volta ali dentro.

O problema é que nenhum de nós vai poder se consolar no “eu não votei nele”, “eu votei contra ele”, “eu nem votei”, “eu votei nulo” como se a responsabilidade não fosse também nossa. É. A psicanálise já nos ensinou que somos responsáveis até por aquilo que nos atravessa e que nos escapa. E principalmente pelo que nos atravessa e pelo que nos escapa. E nós, particularmente, nós a elite intelectual bem pensante e esclarecida somos responsáveis por termos gozado de toda riqueza do nosso país nos contentando em arrotar nossos conhecimentos entre nós, os escolhidos, nas defesas de tese, nos congressos, nos artigos, nas exposições, nos vernissages, na fila do cinema de arte, lendo nosso Foucault em francês tranquilamente enquanto filosofia tornou-se sem importância e matemática tornou-se difícil. Somos responsáveis em nosso compartilhar cotidiano de mensagens inteligentes que tocam aquelas 15 ou 20 pessoas enquanto todo o resto do mundo sente que não pode fazer parte do clubinho. Nem ir na abertura da exposição do museu. Nem entrar na loja descolada. Enquanto estamos aqui batendo punheta argumentativa nessa nossa masturbação coletiva com pouquíssima sacanagem incluída, as pessoas em geral se lixam das nossas frases lacradoras e vão se informar nos grupos de whatsapp, nas igrejas e nos guetos que se tornaram todos os espaços de compartilhamento de pensamentos e de lugares comuns. E o nosso grito só ecoa mesmo em nossos ouvidos e nos ouvidos dos outros tão desesperados quanto a gente, que não entendemos quando foi que perdemos o bonde, quando foi que fomos deixados falando sozinhos.

Fomos deixados falando sozinhos quando nos recusamos a partilhar a riqueza de nosso saber e de nossa cultura de outra forma que não em uma relação mentor discípulo, professor aluno, nós os sábios iluminando e salvando os pobres ignorantes das trevas do seu não saber. Nos fodemos. Ninguém precisa mais da gente. Somos os próximos a irmos para a vala comum dos assassinados sem nome, sem reconhecimento e sem sepultura.

Tenho estado em uma espécie de sideração vendo se perfilarem palavras, pesquisas, acontecimentos, cenas e mais cenas de uma decadência de velocidade meteórica se abatendo sobre todos nós e nós, a tal elite, apenas agora desesperados porque a água bateu na bunda e finalmente somos diretamente ameaçados enquanto que a desgraça vinha sendo anunciada aos 4 ventos desde o impeachment da Dilma. Quem assistiu ao show de decrépitas justificativas naquele dia tenebroso sabe que ali começou o grand finale armado para esse mês de outubro e do qual somos todos espectadores prisioneiros de olhos arregalados como no filme Laranja Mecânica, obrigados a ver. Obrigados a ver até saturar, até vomitar, até que toda essa perversidade nos torne completamente indiferentes, completamente amorfos, completamente dóceis.

E a gente imaginando que seria diferente?

Qualquer que seja o resultado dessas eleições, o pior parece ainda estar por vir.