Eles esqueceram que são colonizadores

Quando cheguei por aqui, conhecia a França berço: da revolução francesa, dos direitos humanos, do feminismo. Tudo – ou quase – de mais valioso inventado pelo ser humano nasceu por aqui ou ganhou daqui sua forma revolucionária. Ciências humanas, filosofia, psicanálise, impossível transitar por um desses territórios sem passar pela França, pelos autores franceses, pelo pensamento francês. Nas artes, a mesma coisa. E então você chega aqui e se deslumbra com os lugares por onde passaram essas pessoas, por onde esses pensamentos foram gerados, toda sua vida culminando em pisar nos passos de um Diderot, de uma Beauvoir, de um Foucault, de um Charcot, de um Lacan, de uma Simone Veil… Enfim.

Mas você chega aqui e percorre todos esses caminhos, todos esses nomes, todas essas histórias, todas essas referências e se depara, no dia-a-dia, com a realidade de pessoas que são, muitas vezes, machistas, misóginos, racistas e xenófobos. E como faz para conciliar essa França que produziu boa parte dos valores que circulam como os mais altos da civilização ocidental em um meio que criou, paradoxalmente, um povo com mentalidade de colonizador?

Ninguém menciona o assunto, até nas escolas é algo que fica quase fora da grade escolar, mas a França foi colonizadora. Ela se esparramou, como todos os senhores dos séculos passados, por todos os continentes deixando seu rastro, seus traços e levando consigo tudo o que é riqueza. E, ao sair, deixou precariedade, morte, guerra, também como seus congêneres. E em alguns casos, para não sair de posições estratégicas, criou o artifício simpático dos territórios e dos departamentos além mar, que nada mais são do que algumas ex-colônias que fazem parte da França, mesmo estando do outro lado do mundo e sendo povos com culturas, línguas e hábitos totalmente diferentes.

Você mora na metrópole? é como perguntam. A metrópole é a França e o restante são o que eu provocadoramente chamo de outros países, que me corrigem sempre dizendo DOM-TOM e ressalvando que são franceses. Ah, sim, com certeza. Basta perguntar para alguém que tenha morado em um desses “territórios” ou “departamentos” como é a vida por ali que a pessoa vai rapidinho diferenciar os “franceses” dos “locais” e te contar sobre toda sorte de preconceito existente na relação entre tais grupos. Ou então conversar com quem nasceu na Île de la Réunion e pedir para eles te contarem como são tratados aqui na “metrópole”. DOM-TOM é maquiagem de colônia.

Daí, como as pessoas convenientemente esquecem que foram e são colonizadores, eles parecem sempre muito espantados quando migrantes vindo de ex-colônias devastadas pelo humanismo francês chegam por aqui e não querem “se integrar”. Palavrinha curiosa essa tal de integração, que joga sempre com a assimilação do outro ao ponto de perder-se de si mesmo. Por aqui, tem quem pense que migrante bom é aquele que passa desapercebido, que a gente nem nota que é migrante, tão bem comportado ele é. Só que, se isso funciona bem com os portugueses que migraram em massa para a França por questões econômicas e que se construíram discretos e silenciosos zeladores de prédios e motoristas de táxi, falar de integração para magrebinos, por exemplo, é acender um fósforo em cima de um barril de pólvora.

A França saiu da Algéria, por exemplo, criando uma guerra entre os contra e os favoráveis à independência. Quem foi contra e lutou do lado dos franceses tornou-se traidor com o desenrolar dos acontecimentos. E tiveram, como opção, vir à França, promessa de integração mais do que merecida pelos serviços prestados. Vieram para serem recebidos em campos, alojados em bairros periféricos e tratados como cidadãos de segunda categoria que ocupam os postos de trabalho que nenhum francês quer e recebem, em geral, cerca de 30% a menos que qualquer francês pelo mesmo serviço. E, em cima disso, acrescentem o preconceito de serem tratados como migrantes mesmo quando são franceses já de segunda ou terceira geração. E quando essas pessoas encontram no radicalismo religioso uma condição de existirem e de serem valorizados, todos ficam chocados. Mas como assim eles nos querem mortos? Por que é que eles não se integram simplesmente e de boca fechada? Por que ficam querendo usar véu?

Migrante bom em terra de colonizador é aquele que não dá trabalho, não aparece, paga seus impostos e não reclama. E quando alguém faz algo diferente disso, os franceses não entendem. Eles não entendem que existe uma história que precede todo e qualquer magrebino e todo e qualquer migrante vindo de um país ex-colônia francesa e que essa história é marcada por uma violência que fará com que, para o sujeito que aqui chega, a relação com esse país seja, no mínimo, ambígua. Porque o país que os recebe matou, violou e explorou seus antepassados às vezes nem muito distantes. E ainda querem que eles se integrem. Sem perceber que integração é violência.

Não conheço forma de resolver esse tipo de impasse que não passe por um acerto de contas com a própria história o que significa, por aqui, com o passado de colonizador. Que é tão negado quanto o direito à revolta dos colonizados. Mentalidade de colonizador e revolta de colonizado que se transmitem em silêncio, de geração em geração. Sem que ninguém entenda.

Sim, a França tem seus lados não tão admiráveis.

 

Amendoeiras em flor

Fevereiro. E aparecem as primeiras flores. São as amendoeiras selvagens que crescem na beira da estrada e entre as vinhas. Massas arredondadas de cinza, quando vistas de longe. E você se diz que parece tolo acrescentar mais cinza ao já tão cinzento inverno de nuvens cinza sob céu cinza e frio cinza. Como se um acumulo de cinzas se concentrasse em alguns pontos da paisagem, cinzas que podem se dissipar a todo momento por um sopro, por uma brisa, por um vento. Essas massas de aparente e passageiro cinza são elas, as amendoeiras. Verdadeiro disfarce de prenúncios de primavera mascarados de cinza e fumaça que, quando você se aproxima, se revela em toda sua surpreendente beleza.

O cheiro. Ah, o cheiro das amendoeiras em flor é algo que nem os melhores perfumistas franceses conseguiram igualar. Um perfume suave, doce, delicado e discreto que te obriga a parar no meio do caminho, se aproximar. Será que senti direito? Será mesmo isso? E você para e respira aquele perfume. E olha os galhos nus das amendoeiras agora cobertos de centenas de pequenas flores. Brancas. Rosas. De um rosa tão claro que é quase branco de um branco rosado. Umas coladas às outras, balançando seu perfume ao vento, em cachos e cachos de beleza primaveril invadindo o inverno.

Eu não conhecia amendoeiras, ainda mais em flor. Quando cheguei por aqui no ano passado, fui pega de surpresa entre o parquinho e o caminho de volta à casa. Pensei que eram cerejeiras, como aquelas do Japão, pela semelhança nas formas, nos cachos, Aquele cheiro, aquelas pequenas flores, aquelas cores. Não a beleza e o perfume quase ofensivos de uma rosa. Uma presença delicada, sutil, de uma beleza simples e sem artifícios.

Eu fico realmente encantada com a aparição das amendoeiras em flor em fevereiro.

Alguns anos atrás…

Conversei com um amigo esses dias e ele me lembrou desse texto, que não era de um blog, mas de um diário de viagem que enviava à minha família e amigos. Curiosas impressões de quem acabara de chegar à Paris, uma alegria eufórica, me sentindo bem na minha própria pele pela primeira vez na vida. Umas tantas coisas mudaram. Anos, filhos, cidades e modos de vida depois, a inocência dessa época ficou distante. Até para escrever mudei.

Então, ouvindo “Caros amigos” do Chico, pensei nessa viagem de volta aos anos 70 que o Brasil de 2019 se tornou, com direito a exilados, perversidades, presos políticos e uma pesada melancolia. Tempos estranhos.

Sem mais e a quem interessar possa, apresento eu de 21/09/2009. Dez anos. Para os amigos. Com saudades.

Em tempo, a faxina também mudou. Tornou-se uma rotina que divido eventualmente com uma faxineira paga em euro por hora, com a qual não tenho uma relação de escravo e senhor de engenho. Os hábitos de higiene franceses não melhoraram, mas minha tolerância a cracas ancestrais e recentes se aprimorou muito.

Bom, meus queridos familiares e amigos.

Hoje não teve jeito. Sei que muitos de vocês devem pensar que morar em Paris é tão glamouroso quanto caminhar às margens do Sena, com uma écharpe, óculos escuros e cabelos ao vento em um dia de sol e céu azul mas… NÃO. Não se iludam. Quem mora em Paris também faz faxina e não queiram nem saber o que isso significa quando se mora em Paris.

Atentem: resido em um prédio que deve ter sido construído mais ou menos na época em que os vizinhos portugas aqui do lado tentavam domesticar nossos ancestrais com uma desculpa esfarrapada de apresentá-los a Deus e salvar suas almas (desculpem-me, Joo e Alê, nada contra Portugal. Estive em Lisboa noutro dia e realmente adorei a cidade, o bacalhau, as sardinhas, os vinhos e até mesmo os pastéis de Belém, mas que esses caras eram bem estranhos em arrumar justificativas para saquear, explorar e matar os outros, ah, isso eram. E bem parece que deixaram isso de herança a nossos outros vizinhos, os tais americanos, mas isso é outra história e não vamos mexer com ela agora… portanto, fim dessa digressão).

Enfim, uns cem ou quiçá uns duzentos anos depois que nos batíamos com nossas mazelas em terras tropicais devem ter construído por aqui este prédio no qual agora reside esta que vos escreve. Possivelmente, na época, o conceito de faxina não havia ainda sido criado e, ao que parece, não teve muita atenção ou dedicação por parte dos povos dessas bandas desde então. O que significa, em termos pouco polidos, que cogitar uma faxina, para uma brasileira que tem por costumes ancestrais aqueles de nossos higiênicos índios (com quem os vizinhos portugas e, de resto, os vizinhos dos vizinhos bem poderiam ter aprendido algumas coisinhas básicas), o que inclui banhos diários, roupas limpas, cabelos cheirosos, dentes escovados e, SIM, uma moradia bem cuidada por uma magnífica faxina semanal… cogitar aplicar todos os ensinamentos passados de geração em geração por mães e avós dedicadas, junto com traços de obssessividade direcionada a um bom fim, incrustrados em nossa cultura como uma obviedade cotidiana significa, nesse caso, ver-se às voltas com a abjeta tarefa de remover cracas ancestrais de uma ancestralidade que nem ao menos nos pertence. Assim, e não podendo adiar mais a agora famigerada faxina semanal que teria e terá que ser feita, enquanto eu aqui permanecer, por essas minhas próprias mãozinhas não tão acostumadas com a labuta cotidiana de quem dispõe de santas Marias para cuidarem daquilo tudo que bagunçamos sem a menor cerimônia (sim, uma herança nefasta e interminável de nossa cultura escravagista, algo de que nem podemos culpar os índios, mas tão somente nossos “colonizadores” e de que, infelizmente, usamos com certo constrangimento, mas sem muita gana de por em questão, o que é ainda uma terceira história, ainda bem que vocês são minha família e meus amigos e sabem bem que eu sou barroca, perdão.), vi-me na situação de ter que decidir se me manteria fiel aos costumes e faria frente a essa ancestralidade xexelenta ou se rapidamente me adaptaria aos costumes locais, a me contentar com uma vassourinha, um espanador e com o consolo de que a iluminação indireta faz valer o ditado de que o que os olhos não vêem…

Deixo a vocês, meus queridos, o benefício da dúvida.

Fato é que meu apartamentinho antigo, bem perto de Les Halles, não apenas é bastante confortável como, também, charmoso. O bairro que o cerca mistura lojas, restaurantes e bares a outros prédios residenciais tão antigos quanto este, em uma região de ruas em que apenas circulam pedestres. Aqui ao lado há um jardim sobre o Fórum des Halles, com muitas lojas no subterrâneo, fora uma piscina pública na qual recomecei, depois de tantos anos, a nadar. Sim, caros, não me imaginem apenas glamourosamente andando pelas margens do Sena feito uma diva dos anos 50, nem como uma intelectual descabelada enterrada em uma biblioteca por dez horas ao dia, afundada em livros e grandes idéias, feito uma feminista dos anos 60, porque, no meio disso tudo, há a natação. Bom ter um corpo, não?

Assim é que este corpinho que vos escreve passa os dias entre bibliotecas incríveis com acervos inacreditáveis, pés-direitos altos e janelas banhadas de sol que fazem com que se afundar em livros seja tarefa das mais prazerosas, e passeios pela cidade, indo a pé para todos os cantos para investigar cada mínimo detalhe guardado por esses telhados escuros, essas construções todas meio cinzentas e todo esse verde incrustrado por entre as construções dessa cidade fresca, banhada de rio e, por enquanto, de sol e luz. O Louvre e o Musée d’Orsay ficam a algumas quadras de caminhada e, para o outro lado, logo se chega à Place des Vosges e ao Marais, com uma quantidade imensa de lojinhas que não são aquelas das marcas que se encontra no mundo todo, mas apenas aqui, bem parisienses, atiçando minha vontade de virar diva de novo e desfilar bolsas e sapatos novos junto a novas roupas como se a fatura do cartão de crédito jamais fosse chegar. A cada padaria, um pain au chocolat, meu verdadeiro vício (por isso a natação, eu sei, vocês já sacaram tudo: queijo de cabra, vinho, pain au chocolat, façam as contas das calorias a perder para não perder todas essas delícias…).

Noutro dia, andando por Sain-Germain, topei com a Sorbonne impondo toda uma deferência, já que entre as heranças ancestrais sempre esteve o valor do trabalho intelectual para o qual a simples menção da Sorbonne funcionava como para uma modelo deve funcionar a referência a Gisele Bündchen. E, bem ali ao lado, o Collège de France, frente ao qual quase caí de joelhos, pela simples lembrança de que, ali, Michel Foucault fez alguns de seus famosos seminários. Em meio à craca herdada aqui por este povo que não entende o conceito de faxina e, tampouco, sua prática, há Michel Foucault entre tantos outros e daí é possível entender o estranhamento de ver dezenas de jovens entrarem nessas universidades como se nada fosse, como se aquilo tudo lhes pertencesse quase por osmose e, ao mesmo tempo, o peso dessa herança que faz com que, para que se possa pensar livremente por aqui, seja necessário se bater com muita gente. Quem consegue pensar sob o peso de Foucault, Lacan e afins? A ver.

Por sorte, para essa cidade, Paris agora parece ser mais africana e árabe do que qualquer outra coisa. Coalhada de gentes de outras heranças, sobre as quais não pesa o peso de Foucaults e Lacans, vi ontem uma parada de música eletrônica passar 400 mil pessoas pelas ruas de Paris, de todas as origens e idades, mas cheia de jovens que pouco se importam por onde passam, tanto que podem dançar escalando o monumento na praça da Bastilha, agora que liberdade, igualdade e fraternidade parecem uma ironia em um evento desses em que tais ideais ficam escancaradamente postos em questão. Discute-se a imigração aqui como se discute futebol em nossa terra. Imigração, gripe suína e crise econômica são OS assuntos dos jornais televisivos. E os assuntos do Sarkozy, que vive nas teles. A França se tornou bastante conservadora. Sorte que existem esses imigrantes que não ligam para isso e sobem no monumento na Bastilha, nos pontos de ônibus e nas escadarias da Opéra-Bastille em dia da Techno Parade, colocando tudo em questão. Não há como tergiversar diante desses novos franceses. Ou a verdade, ou a pancadaria.

Assim, depois de minha primeira faxina parisiense, presenteei-me com um almoço no restaurante do telhado do Museu Georges Pompidou, que fica praticamente no quintal da minha casa, para voltar a parecer glamourosa, tendo a meus pés, em dia lindo de sol, uma vista de Paris de quase 360°, com direito a Louvre, Orsay, Torre Eiffell, Sacre Coeur e todos os outros cartões postais que povoam agora minha retina como povoaram por muito tempo minhas fantasias e minhas lembranças das viagens de férias de outrora com gente tão querida e de quem sinto enormes saudades. E, após tão linda vista, aproveitei o domingo percorrendo a exposição “elles” que está no Pompidou, sobre mulheres artistas e, para minha alegria, mostrando trabalhos de algumas das que mais importância tiveram para mim nos últimos tempos, tais como Cindy Sherman, Marina Abramovic, Nan Goldin, Sophie Calle, Valérie Export, Mona Hatoum, Ana Mendieta, Carolee Schneemann, as Guerilla Girls, Orlan em primeiros momentos mais inspirados e por aí vai uma lista imensa. A arte traz, sempre, encontros felizes, não?

Enfim, queridos, partilho esse diário com as pessoas que me são caras e que suponho que gostariam de ter notícias minhas, cheias de glamour e bossa. A quem não agradar meus excertos de novela barroca, basta dizer que não mando mais. No mais, dêem notícias que sinto saudades.

Beijos

A neve e a neve

Este ano demorou, mas finalmente chegou a neve. E eu ADORO neve. Conheço pessoas que estão aqui há tanto ou mais tempo que eu e que dizem que isso passa. Mas até agora não passou. A neve desperta em mim o lado mais pueril, o deslumbre mais ingênuo, o entusiasmo mais verdadeiro. Todo ano espero a neve chegar e, desde que cheguei ao sul da França, olho a montanha mais alta das redondezas esperando vê-la branca num amanhecer qualquer.

Existe, no entanto, a neve e a neve. A neve das grandes cidades, como de Paris, que é linda apenas para os turistas. Porque para quem vive ali, é o inferno branco na terra. A neve que se acumula em Paris logo vira uma lama marrom pegajosa que espirra em sapatos, calças e casacos desde que você sai do metrô ou bota os pés fora de casa. A quantidade de gente faz com que a neve repisada vire uma meleca nojenta, no melhor estilo rave com chuva. Só que, quando você vive em Paris, não tem música boa, você não está de folga e nem dá para fazer a festa. Você tem que ir ao trabalho, à escola, a não sei onde e precisa atravessar aquele mar de cola marrom. E você odeia a neve.

Fora que, em Paris, acontece um fenômeno incompreensível para mim a cada vez que neva. Neva todos os anos naquela cidade e mais de uma vez por ano. E, todos os anos, a cada vez que neva, é como se fosse uma surpresa. Como se estivéssemos em Salvador em pleno mês de janeiro e caísse uma tempestade de neve. Tudo para. Não estavam preparados. Como assim? Não sabiam que ia nevar? Sim, o serviço de metereologia é excelente. Não sabiam o que tem que fazer quando neva? Sim, a França é um país onde neva desde sempre, todos sabem o que deve ser feito. Então por que não fazem? Mistério. Neva em Paris e os ônibus não podem circular, as escolas fecham, todo ano aquele clima de catástrofe natural. Em um país como a França e em uma cidade como Paris, onde teoricamente tudo deveria funcionar. Até hoje ninguém conseguiu me explicar o que acontece, mas todo ano tem as mesmas reportagens, o mesmo improviso, o mesmo espanto. Gente, é inverno, no inverno neva.

Já tive um primo que morou em Nova Iorque na mesma época em que vim morar em Paris. No inverno, ele postou umas fotos de um dia em que os ônibus não circularam, as escolas fecharam e as pessoas foram aconselhadas a ficar em casa em Nova Iorque. A neve estava COBRINDO os carros! Tinha um muro de neve nas calçadas e foi só então que a cidade se tornou intransitável. Mas em Paris neva 5 cm e ninguém sabe o que fazer. Depois quando digo que os franceses são muito ineficientes para uma série de coisas, as pessoas acham que estou chorando de barriga cheia.

Ainda bem que tem a neve. A neve na montanha, nos vilarejos, nos lugares afastados dos grandes centros. Neve que cai branquinha e fica branquinha, fofa sobre jardins e outros lugares abertos por onde as pessoas não circulam. Você pode se jogar naquele tufo de neve e o único risco é aterrissar em cima de um cocô de cachorro desavisado que decidiu se aliviar por ali. Porque mesmo no inverno bichinhos e bichanos dão suas voltas. Dá para escorregar de luge (uma espécie de trenó) no meio de um descampado. Dá para fazer um boneco com cenoura no nariz e galhos no lugar dos braços. Dá para fazer guerra de neve. Dá para ser criança. A neve é um salvo conduto branco que silencia os barulhos do mundo, adormece a natureza e te autoriza a rir e a brincar.

Existe todo um ritual ligado à neve. Existe por aqui duas semanas de férias escolares que são as chamadas férias de inverno. As famílias vão para as montanhas, para as estações de esqui. Alugam um alojamento e passam ali uma semana subindo e descendo montanha de teleférico, esquiando todos pelos mesmos lugares, num congestionamento de bastões, esquis e roupas fluo. Como nossas férias de verão na praia, aqui férias de inverno são “no esqui”. Restaurantes ruins lotados, carros estacionados na calçada, gente passando uns em cima dos outros, todo caos a que se tem direito quando milhões de pessoas saem de férias para os mesmos lugares ao mesmo tempo. Francês é classudo, glamouroso, elegante e educado até você passar suas primeiras férias “no esqui”. Daí você percebe que era tudo fachada. E nem adianta ir nas estações dos super ricos, as mais caras e exclusivas que é exatamente a mesma coisa. Uma grande farofada. A neve é um negócio da China.

Mas existe a neve e a neve. A neve dos lugares perdidos fora de temporada e de férias. A neve que eu vejo nas montanhas ao redor, iluminada pelos céus em tons de rosa e dourado inacreditáveis de inverno. A neve pano de fundo dos milhares de pássaros voando em uníssono em busca de lugares mais quentes. A neve sobre árvores e plantas, pesando galhos e folhas, criando desenhos inesperados. Essa neve que cobre tudo, que cria um silêncio quando cai como eu nunca ouvi antes de presenciar neve caindo. Ela abafa os ruídos, impõe calma e recolhimento.

Eu adoro a neve e os céus azuis de inverno. Fora quando venta. Quando venta, eu reclamo tanto ou mais que parisiense quando neva. Mas da boca para dentro, que o vento faz engolir as palavras, faz olhos chorarem sem querer e faz a gente andar de ré.

 

 

De tudo e de nada

Tenho aqui para mim mesma que só podemos afirmar que conhecemos mesmo um país quando começamos a pagar impostos. Sim, impostos. Podemos viajar milhares de vezes a um lugar durante as férias, fazer cursos, intercâmbio, pós-graduação, bolsa-sanduíche, período de trabalho como expatriado e o escambau. E cada uma dessas incursões nos dá uma idéia daquele lugar, nos oferece um percurso, uma paisagem, uma descoberta. E retornamos pensando que sabemos bem do que estamos falando ao descrever um outro país quando, na verdade, ficamos apenas a arranhar a superfície.

Veja, não tem problema nenhum. É bom ser turista no país dos outros, é bom conhecer os lugares pelas bordas, é bom voltar com a sensação de ter vivido um pouco de uma realidade que não é a sua. É bom se apaixonar pela vida de outro lugar e guardar em algum canto da memória que ali sim você seria feliz. É maravilhoso ter a sensação do vislumbre, do desvelamento de uma realidade, de uma cultura, de uma língua, de um modo de vida. Por isso que tanta gente viaja e se sente vivo apenas na medida em que viaja. Mas em uma época em que as pessoas falam sobre qualquer assunto sem nenhum constrangimento em relação ao que não conhecem, o número de especialistas do país dos outros onde você passou suas férias, fez seu estágio, curso, pós e afins e do qual você fala de boca cheia como se tivesse descoberto o graal daquele lugar que nenhum outro ser vivente e viajante do seu país entendeu é… bom… imenso. E o problema de toda essa falação é que se criam verdades ocas sobre tantos assuntos e situações que passam a existir enquanto tais em algum universo paralelo no qual tudo pode ser dito e tudo pode ser verdadeiro desde que seja verdade na opinião de alguém. E mesmo que não corresponda a nada do mundo real. Se eu disse, está valendo. Tempos estranhos esses em que aquilo que eu penso sobre alguma coisa vale mais do que aquilo que ela é.

Quando cheguei à França, já tinha daqui a experiência de turista. E conhecia bem aquela França para turista. E achava que tinha entendido o que era a França e o que era a vida por aqui. O fato de falar francês me permitia acessar um pouco mais em profundidade o “ser francês” ou eu assim o imaginava. E foi aos poucos que percebi que o país dos outros a gente descobre, acessa e entende em camadas, como uma cebola, e sem nunca chegar ao cerne. Camadas infinitas de códigos mais ou menos identificáveis e partilháveis com os quais nos confrontamos quanto mais tentamos nos embrenhar nesse outro universo. E quanto mais nos embrenhamos, mais se torna difícil, pois os códigos se tornam mais e mais sutis.

Você pode falar francês, mas isso não significa que você entenda necessariamente o duplo sentido das palavras, os jogos de palavras, os chistes, as piadas de referência. Você não entende, você não capta, sua linguagem é operacional, ela comunica apenas o que ela diz, mas tudo o que jaz sob a ponta do iceberg te escapa como fumaça entre os dedos. Já me disseram uma vez que um estrangeiro é como um autista na língua dos outros, a quem tudo o que é não-literal escapa. Me parece bastante preciso como imagem.

Você faz algo “com o pé nas costas?” Isso não existe na França. Mas aqui eles fazem algo “les doigts dans le nez”. Ainda bem, isso os livros e tutoriais de youtube ensinam. Mas e quando as pessoas jogam com o duplo sentido das palavras? Ou com o som das mesmas que pode dar margem à outros sentidos? E quando a linguagem desliza? É pavê ou pacomê?

Mas então, digamos que você consiga atingir um nível de refinamento que te permite até mesmo acompanhar e rir das piadas em tempo real. E alguém, de repente, no meio da conversa, solta uma frase da qual todos riem. E você… boia.

“Depois de um sono bom, a gente levanta…” Quem quer tomar um café “concreto”? Dentre as tantas coisas compartilhadas pelas pessoas de um mesmo país ou de uma mesma cultura estão, justamente, as referências culturais. As frases, as músicas, os slogans publicitários, a novela das 7… Tudo aquilo que você não tem como entender ou acessar porque, simplesmente, enquanto essas pessoas estavam vivendo mergulhadas nesse caldo francês de signos, você estava vivendo mergulhada em outro caldo, o brasileiro. E isso, não tem youtube, curso de línguas ou leitura de blog de como ser integrado, inserido, (in)descolado no país dos outros que resolva.

Algo te escapa e vai te escapar sempre. E depois que você estiver por muito tempo em outro país, vai começar a te escapar pelos dois lados. Frase cheia de duplos sentidos em português, não? Mas, aqui na França, você teria que explicar a piada.

E isso vale para todo e qualquer mínimo detalhe de uma vida, não apenas para a linguagem falada, mas para tudo aquilo que comunica a respeito de uma cultura, de um lugar, de uma época, de um contexto. Cada pequeno detalhe de uma vida em um outro país traz em si potencialmente uma revelação, um estranhamento, um desconhecimento, um incômodo, uma incompreensão. E cada pequeno detalhe conquistado é como uma grande vitória, uma chave de acesso que garante poder navegar por mais uma camada da tal cebola.

Por isso o estranhamento com os brasileiros que se puseram a comemorar com todo o conhecimento de causa da perspectiva deles e nenhum da perspectiva daqueles de quem estavam falando que a vitória da França na copa do mundo seria uma vitória dos “africanos”. Teve até um norte-americano que se prestou a isso. Como se o prisma pelo qual brasileiros e americanos vivem e entendem o racismo e os gestos anti-racistas fossem válidos na França. E as pessoas donas das suas verdades absolutas querendo discutir o porquê elas teriam razão, mesmo quando os ganhadores em questão estariam afirmando justamente o contrário. Eu sei mais de você do que você mesmo. Você não entendeu nada, ainda não viu a luz.

Isso me lembra a postura de alguns psicanalistas que teimavam e teimam ainda hoje em dia em usar tudo o que você disser contra você. E se você não aceitar, é resistência da sua parte. Alguém te avisou que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que você não detém a verdade absoluta sobre nada? Que tal experimentar deixar o outro dizer dele mesmo com mais conhecimento de causa do que você, mesmo que você saiba que o inconsciente existe? Porque, sejamos honestos, o seu também existe e te prega umas pecinhas de quando em quando, né?

Humildade, minha gente. A gente não está com essa bola toda não.

 

O racismo de cá e de lá

Pronto, a França foi campeã da Copa do Mundo de 2018. E meus pequenos experimentaram essa coisa de ser campeão na França, sendo franceses, em um ambiente calmo de restaurante de vilarejo no meio do mato. Sem aquela euforia, sem aquela catarse dos movimentos de massa tão inebriante que o Brasil sabe fazer tão bem.

Então surgiram aqueles comentários de brasileiros “homenageando” a seleção “africana” da França. E um arrepio me percorreu a espinha. Porque nada mais racista que esse comentário. E nada mais tão tipicamente racista do racismo do Brasil do que não conseguir entender que esse é um comentário racista. Racismo no Brasil é um pouco diferente do racismo daqui. E as respostas dadas por aqui  para o racismo são um pouco diferentes daquelas dadas no Brasil.

No Brasil, ninguém é brasileiro. Um dos assuntos mais comuns em conversas é perguntar ao outro de onde ele vem. O que remete às origens, de onde vem seu sobrenome, sua família, seus antepassados. Isso, especialmente quando você tem uma origem migrante européia, por exemplo, é cheio de valor. Todo mundo branco no Brasil gosta de dizer que veio de outro lugar. Como se isso fosse uma grande vantagem.

Só que a França não é o Brasil e a história francesa não é a brasileira. Aqui, o que tem valor é ser francês. Ninguém te pergunta de onde você veio e se você começar esse tipo de conversa com um francês ele vai se ofender com sua questão e vai te responder: eu sou francês. Mesmo que tenha um sobrenome não francês. Ou que seja preto. Ou árabe. Ele vai dizer: sou francês. E você vai se sentir bem besta tentando explicar a sua pergunta. Acredite, aconteceu comigo muitas vezes. E isso quer dizer muita coisa.

Historicamente, a França colonizou e explorou meio mundo. E tudo o que ela é de bom, inclusive o país do droit des hommes, podemos dizer que é também por conta disso. Porque alguém pagou a conta para eles. E alguém paga até hoje. Então, talvez por uma culpabilidade histórica, para uma parte desse mundo ela deu a possibilidade de que as pessoas que foram seus aliados (vide Algéria e seus maquis, por exemplo) viessem à França e vivessem como franceses. O que significa que uma boa parte dos descendentes do Magrebe, por exemplo, são franceses pois nasceram na França filhos ou netos de magrebinos que exerceram seu direito de viver na França. Eles não se naturalizaram franceses, esses filhos e netos que nasceram aqui. Eles são franceses.

Algo parecido vale para os nascidos na França filhos ou netos de migrantes da África subsaariana. Seus antepassados vindos de seus países, muitos ex-colônias francesas, se instalaram por aqui e tiveram filhos e netos. Que são franceses. Nasceram aqui, não se naturalizaram franceses. São franceses.

O problema do racismo aqui na França aparece justamente quando tentam negar que essas pessoas são franceses. Porque seriam filhos ou netos de migrantes. Porque são pretos. Porque são árabes. Porque são sulamericanos. Sim, sulamericanos. Latinos. Porque aqui na Zooropa não somos brancos, minha gente. Somos latinos. Tão dignos do desprezo e do racismo europeu quanto os pretos e os árabes. Não adianta vir aqui brandindo sua ascendência italiana, portuguesa, espanhola, o diabo. Aqui você é e sempre será um… latino. Que é outra coisa que um branco europeu. E seus filhos ou netos… eles serão… franceses. Que é outra coisa do que você é.

Existem duas maneiras de ser francês segundo a lei: uma é nascendo de pai e mãe, ou pai ou mãe franceses. Você tem um dos pais francês, você nasce por aqui ou onde for no mundo… você é francês. Outra maneira, quando seus pais são estrangeiros que vivem na França e você nasce por aqui é… você tem a nacionalidade dos seus pais e à partir de uma certa idade pode pedir a nacionalidade francesa. Que é seu direito. Porque se você nasceu aqui, vive aqui, vai à escola aqui, fala francês, está mergulhado na cultura, no cotidiano, nos costumes, então, meu caro, você é obvia e legalmente um… francês.

A França tem uma imensa dívida com suas colônias e ex-colônias. Colônias que ela insiste em chamar de DOM TOM para dizer que fazem parte da França ainda. E ex-colônias que ela abandonou em melhor ou pior estado, deixando para trás uma porção de gente que, se não tivesse vindo para cá em seguida, teria morrido como traidor por ter lutado ao lado da França em alguma guerra. Essa mesma França que hoje em dia participa de acordos para dificultar a entrada dos refugiados que, segundo a extrema direita adora espalhar por aqui, estariam invadindo a Europa aos milhões atrás da riqueza, dos benefícios sociais e de uma vida cheia de conforto e privilégio, roubando os empregos dos europeus de verdade. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da migração.

Durante muito tempo foi proibido nas escolas daqui que as crianças aprendessem outra língua que o francês. Ninguém podia falar catalão na Catalunha nem bretão na Bretanha, nem occitano na Occitânia. Isso era fruto de um posicionamento político que privilegiava algo como a “união nacional” em torno de uma idéia de França em detrimento das diferenças entre os povos que a compõem. O contrário do que fez a Inglaterra, por exemplo. Mas isso é outra história. E serve apenas para lembrar que a questão da dívida histórica francesa é muito maior do que a gente se dá conta e começa dentro das suas próprias fronteiras.

Então, é evidente que a reivindicação da diferença, das origens, da língua, dos costumes é algo importante aqui na França. As pessoas vão responder que são franceses. Mas se você sair dos grandes centros e for para as fronteiras do país, esse ser francês aparecerá misturado com a defesa de um pertencimento outro. Aliás, nem precisa sair dos grandes centros. Basta prestar atenção em quantos “ser francês” diversos cabem nessa definição de ser francês em uma cidade como Paris, por exemplo.

E isso, a reivindicação das diferenças, é legítimo também para os migrantes. Para pretos, árabes e latinos que vêm construir sua vida por aqui. E que vivem sob a pressão de se “integrar” por vezes em detrimento dessas mesmas origens que são suas únicas referências sobre como existir, circular e compreender o mundo. Algo doloroso, um acordo entre cisão e integração que nunca se faz totalmente.

Mas o problema – ou a vivência – dos migrantes não é a mesma de seus filhos e netos. Sim, eles têm essa origem e, sim, as coisas se passam bem melhor quando ela não é negada, recusada, reprimida e sim integrada em suas subjetividades de alguma maneira. Pode ser na comida, na língua, na festa, no canto, na dança, na roupa, na risada, na religião… Um traço que resta e que diz daqueles sujeitos quem eles são. Mas é um traço entre outros, pois a identidade nunca vem de um lugar apenas, é colcha de retalhos. E para outros tantos traços, esses filhos e netos de migrantes são… franceses. E tão ou mais difícil para eles do que encontrar um lugar em suas origens é poderem ser e usufruir do fato de serem franceses. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da igualdade. Vejam o paradoxo. Negar a migração e a diferença. E negar a igualdade. Igualdade que faz parte do lema maior que define este país.

E é isso que essa “homenagem” de uma perspectiva brasileira que acha bonito acentuar que os jogadores da equipe de futebol francesa seriam africanos não consegue entender. Que a questão, para eles, é se afirmarem como franceses. E obrigarem a França a se afirmar como plural, mestiça, preta, branca, árabe, latina e asiática.

(Não fosse racista a “homenagem” teriam atentado para o fato de que outros jogadores dessa mesma equipe não são pretos mas possuem, basta ver os sobrenomes, origens não francesas. Mas então…)

Talvez se o orgulho de ser brasileiro fosse além do futebol ou de vestir camisa para defender posições políticas absurdas e retrógradas e se as pessoas tivessem uma necessidade subjetiva de se afirmarem como brasileiros quando alguém perguntasse de onde elas vêm, talvez nesse caso nós, brasileiros, seríamos capazes de entender um pouco melhor o que essa afirmação tem de revolucionário.

E não, eu não estou negando a importância da afirmação das diferenças no Brasil por aqueles para os quais a diferença sempre foi sinônimo de preconceito, violência e humilhação. Acho lindo e importante, ou até mais do que isso, fundamental, que pretos possam finalmente impor que sua voz seja escutada. E que os não-pretos tenham que engolir essa fala afirmativa. Finalmente. E entendo que essa seja uma forma de ação contra o racismo. E que o mesmo ato poderia ser considerado um protesto contra o racismo na França. E que pode ser um protesto contra o racismo na França essa afirmação das origens africanas de seus jogadores de futebol. Só que também não. Porque não é tão simples assim, nem aqui, nem aí. E toda afirmação de uma diferença cria potencialmente um gueto. E por aqui tanto quanto por aí as pessoas vivem no gueto há muito tempo. E a solução, por aqui, tem sido: ou a afirmação da diferença absoluta e da vontade de destruição da França encontrada nos atos terroristas que foram executados por… franceses, veja só. Ou então a afirmação de um pertencimento a algo como uma França e a pressão que isso causa nessa tal de França que precisa se alargar afim de incluir todos os que se reivindicam como franceses.

Qual o melhor jeito? Qual o jeito certo? Não sei. Nisso estou de acordo com quem defende a mestiçagem como melhor jeito. Mas isso também é uma outra história.

Eu levei muitas décadas e uma mudança de país para entender que eu sou… brasileira. E que por aqui eu não sou branca. Sou latina. Ou, como minha filha gosta de dizer, quando fala da cor das nossas peles: marrom. O que para ela, felizmente, quer dizer uma cor, não um crime. Nem uma condenação.

E meus filhos são… franceses. Mesmo tendo dupla nacionalidade. E esse é um luto que eu tive que fazer quanto aos meus filhos, porque é claro que eu os via como brasileiros e é claro que isso nem era uma questão até eles começarem a falar francês entre eles… E é claro que eles são também brasileiros e que essa brasilidade faz parte do modo como eles existem. Mas na afirmação de que são franceses existe uma reivindicação, percebem? Que é política, ideológica e ética e que vale para todo mundo que está por aqui e que tem o direito de estar por aqui ou por onde quiser nesse planeta. É essa reivindicação de pertencimento e de ser respeitado nesse pertencimento. E esse é um luto que penso que a França precisa fazer quanto a essa imagem de uma França branquinha e pura que já não existe mais há muitas décadas, se é que um dia existiu. E é para ajudar nesse luto francês que eu escolho afirmar que os jogadores que venceram a copa do mundo ontem são, todos, 100% franceses.

Errâncias

Sempre gostei desse termo, errâncias. Errar como um misto de vagar, se perder, sair sem rumo. Não necessariamente com uma conotação ruim, errância não apenas como algo potencialmente angustiante, mas como uma quase liberdade da ausência de rota.

Quando cheguei aqui, o que mais me encantou nessa vida de estrangeira foi ter a liberdade de errar. Tornar-se um livro branco, zerado, em que o futuro poderia ser construído a partir de um presente no qual eu parecia ter a possibilidade de inventar o que quisesse. A angústia frente ao papel branco com tudo por escrever tornou-se o prazer do papel branco, do reinventar, do começar de novo.

Claro, ninguém parte do zero e nenhuma vida, a partir do momento em que começa, nos permite recomeços sem nenhuma marca, sem nenhuma história. Podemos jogar o passado para debaixo do tapete e usar a estratégia do avestruz mas a vida sempre tem um jeito de reapresentar os mesmos impasses.

Então estava aqui em uma vida nova que pode acontecer justamente porque eu aproveitei toda a bagagem de minha antiga vida, sem recusá-la. Meus estudos, meus talentos, minha curiosidade pesquisadora, todo um percurso profissional que permitiu que eu pudesse vir e viver o novo aqui tendo como ponto de apoio a pessoa que tinha sido e o caminho que construi.

Levei muitos e muitos anos e um bom tanto de psicanálise pessoal para poder existir, ter alguma coerência comigo mesma e sentir-me bem na minha pele. Engraçado como estar vivo não é algo que se conquista compulsoriamente por meio do nascimento. Estar vivo se constrói, se conquista. Levei pouco mais de 30 anos para ter isso, me ter, me sentir, ser. Supondo que possa ter existido no começo e me perdido em algum ponto, coisa de que não tenho muita certeza, mas prefiro acreditar assim do que imaginar que tenha nascido e vivido sem existir até mais ou menos meus 35 anos.

Não há nada de novo nisso. Muita gente, se não a maioria, vive nesse limbo da não existência, um minuto após o outro, um dia após o outro, a vida acontecendo e tombando sobre suas cabeças e tendo como resposta o eco de um vazio de vida, um vazio de existência, um nada de ser. Muita gente não sente a vida correr pelas veias, não sente o tempo, não sabe o que é perder o fôlego em um instante de presença absoluta. Muita gente apenas passa e a vida passa por elas até se extinguir e ir se instalar em outro lugar, em outra gente, em outra potencial história.

Quando finalmente me encontrei em mim e experimentei esse deslumbramento com a vida, foi quando vim para cá. E a vida acontecendo não espera que a gente aprenda a respirar e a existir, ela simplesmente vai. E você acompanha ou não. E foi nesse fluxo que encontrei o homem com quem imaginei poder construir minha vida. E foi nesse fluxo vertiginoso e inebriante que tive meus filhos. E é aí que a história se desloca.

Porque a maternidade desloca a gente, desconjunta, desmonta, desterritorializa. E isso é coisa que só entende vivendo, mesmo que a teoria pareça de uma grande evidência. A proporção, a intensidade desse deslocamento é algo que se vive ou não se sabe. E então me vi, depois de tantos anos trabalhando para chegar em algum lugar em relação a mim mesma, posta novamente para fora de mim.

Onde a coisa se complica é em não saber até onde esse deslocamento foi obra de tornar-me mãe e até onde ele se radicalizou tanto por conta do contexto em que me tornei mãe: estrangeira, vivendo em outro país, mudando para uma cidade e uma região em que não conhecia ninguém, tendo por parceiro nessa jornada um homem com um passado mal resolvido, um modo de funcionar bastante duvidoso e que muito rapidamente me deu todas as mostras de que não iria sustentar nada… Até que ponto foi ser mãe ou ser mãe aqui, junto com esse homem, nessas circunstâncias tão dolorosas o que me tirou do prumo para nunca mais?

A pessoa que eu era foi como que arrancada de mim. E no entanto ela está aqui, é quem permite que eu possa pensar dessa maneira, trabalhar como trabalho, ter certos valores, uma certa posição ética, uma capacidade de amar… Mas apesar de estar presente, ela não existe mais. Não sou mais essa pessoa, não falo igual, não penso como, minha aparência mudou. Tem horas em que me sinto apenas rio correndo no vai da valsa, seguindo a correnteza sem nem poder existir. Tem horas em que luto, quero me segurar em alguma coisa, ser. Ter aquela alegria de viver a errância como libertação. E não como agonia. Sentir-me envelhecendo e o tempo passando e levando alguma coisa de muito importante que nunca mais vou recuperar.

Isso é consequência da maternidade? Não, porque ter me tornado mãe não me trouxe arrependimento. Não gostaria de ter continuado naquela vida em que ainda não tinha filhos. Ter filhos não me deixou no vazio, sem perspectiva, sem projeto, apenas passando e sendo passada pela vida. Perdi-me de mim, sim, mas essa foi a errância que liberta.

Será que é porque estou envelhecendo? Talvez. Penso nisso às vezes, se essa perda irremediável não é o primeiro sinal de que a vida ultrapassa aquela curva a partir da qual a gente vislumbra mais os finais do que os começos. Mas então penso que daqui a dez anos vou lembrar disso que estou escrevendo hoje e vou me achar muito idiota por ter pensado dessa maneira aos 40 e poucos, quando ainda não era o fim, quando ainda havia tanto tempo. E a gente tem uma tendência estranha em decretar o fim bem antes do tempo, bem antes que ele esteja realmente próximo, deve ser para ter a última palavra, para não ser pego de surpresa, para achar que somos nós que decidimos e não a vida ela mesma… Vai saber…

Talvez sejam as circunstâncias que tornem tão difícil as reconstruções sem pontos de apoio. Errância é libertação mas também é tentar se apoiar suspensa no ar. O exílio não é fácil mesmo quando é promessa.

Quem paga o preço?

Nos últimos tempos, especialmente depois da crise político-econômico-social que anda devastando meu querido Brasil, vira e mexe escuto gente dizer que vai mudar de país. França, Itália, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá… Qualquer destino de primeiro mundo com o qual tenhamos alguma familiaridade parece perfeito como válvula de escape de um Brasil caótico, violento e avacalhado. Nessas horas, as pessoas se lembram dos amigos que moram fora e vez ou outra decidem ter essa conversa comigo. Aí é que é bom… país de m-primeiro mundo, gente educada, povo civilizado. Então eu lanço mão daquela perguntinha capciosa que qualquer pessoa honesta que more em outro país se vê na obrigação de fazer quando um de seus compatriotas cogita vir para cá: “sim, sim, é tudo muito bom mas, diga lá, você aceita pagar o preço?”

Viver em um país civilizado tem um preço e, lamento dizer, custa caro. Sim, caro financeiramente e mais caro ainda em termos de mudanças de hábitos e de costumes.

Um exemplo: é época de declarar imposto de renda por aqui. Como aí. Mas diferentemente daí, pelo menos 25% do que eu ganho como profissional liberal já foi pago em encargos sociais. O quê? Sim, isso mesmo que você leu: encargos sociais. Aquilo que a gente paga para financiar todos os benefícios sociais de um país, como saúde pública, educação, auxílios sociais, aposentadoria… Pois é, 1/4 do que eu ganho paga os benefícios aos quais eu e mais todas as outras pessoas daqui teremos direito a usufruir. E ainda nem comecei a falar de impostos. Porque esses vão levar mais ou menos uns 10% do que eu ganhei. Para pagar toda a estrutura que existe por aqui. Segurança, infra-estrutura, cultura…

Imagino que existam pessoas que soneguem imposto por aqui. Mas é algo tão ínfimo, mas tão ínfimo que quando sua declaração mostra que você tem direito a uma restituição, ninguém te chama no equivalente da receita federal para você prestar contas. Ninguém desconfia que você poderia estar dando um truque. Eles te mandam um cheque que chega na sua casa pelo correio e que ninguém rouba, pasmem! E junto do qual vem uma cartinha-tipo do diretor da receita dizendo que eles estão felizes em te enviar aquele cheque. Felizes. De te enviar um cheque de restituição. Porque é seu direito. Percebe? Um modo de funcionar baseado na confiança em que cada um vai fazer a sua parte em nome de um bem comum que vai beneficiar a todos.

Aqui todo mundo tem direito aos benefícios sociais. Sabe aquele bolsa-família que você despreza no Brasil como se fosse uma esmola dada para vagabundo? Então, aqui o equivalente disso é creditado na conta de toda família que tem filhos, de acordo com sua renda. Toda família. Rica ou pobre. Com um filho ou com dez. Proporcionalmente. Percebe o que é uma mentalidade na qual se compreende que é importante dividir um pouco dos benefícios criados por todos entre todos? Porque é isso que vai diminuir as desigualdades e criar uma sensação de justiça e de proteção. É o que vai dar às pessoas a convicção de que elas contam. Ou seja, é isso que vai fazer com que você possa sacar seu telefone celular último tipo no meio do metrô lotado no final do dia sem que ninguém arranque ele das suas mãos e saia correndo. Não tem assalto? Tem. Não tem roubo de carteira, celular, máquina fotográfica no metrô? Tem. Mas você pode usar seu celular no metrô. E sua máquina fotográfica pode ficar pendurada no pescoço quando você está turistando no meio da rua olhando para todos os lados como um abestado. E você pode abrir sua carteira no meio da rua para procurar uma moeda. E você pode andar com brinco, anel, colar. Em tudo quanto é lugar.

Sabe o que é isso? Eu, vivendo em São Paulo, não sabia. Isso é o que você ganha quando aceita pagar o preço de viver em um mundo mais justo do que aquele em que vivemos no Brasil. Isso é o que você ganha quando aceita que sua empregada doméstica tem a filha na mesma escola que você, tira férias como você, viaja de avião, tem carro, ganha 10€ por hora, é registrada e não tem nenhuma obrigação de limpar a merda que você deixa na privada ou de recolher suas meias sujas pela casa.

Então me soa bem estranho quando escuto as pessoas dizendo que vão morar aqui. As mesmas pessoas que desprezam os benefícios sociais e as pessoas que deles usufruem e que aplaudem a retirada dos mesmos e dos poucos direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas. E que acham que quem paga imposto é otário e arrumam mil gambiarras para sonegar tudo o que for possível. E que se justificam com a balela do “por que vou pagar se não tenho nada em troca?” E que preferem não pagar do que reivindicar saúde e educação de qualidade nos serviços públicos. E utilizá-los.

Infelizmente no Brasil crescemos com uma mentalidade meio perversa segundo a qual o mundo teria que mudar para então começarmos a agir certo. Porque o mínimo deslize do lado de fora de nós justificaria que possamos continuar a fazer tudo do jeito que queremos. No dia em que o país mudar a gente para de ser desonesto, né? Pois é, não. Não é assim que a coisa funciona. No dia em que você parar de ser desonesto você terá começado uma mudança. E então poderá exigir do mundo ao seu redor que ele também mude. Pague o preço.

 

Coisas que os brasileiros pensam que conhecem… – parte 1 (O inverno)

… mas não sabem mesmo o que é até morar por aqui. E que eu amei descobrir.

Decidi começar por uma das minhas preferidas, o Inverno. Porque eu AMO o inverno. Amo o frio, a neve, mesmo depois de tanto tempo por aqui. E mesmo tendo coisas que detesto no inverno. E, te prometo, eu não sabia o que era inverno antes de morar na França, mesmo já tendo viajado por países frios em períodos invernais.

Inverno mesmo, temperaturas em graus negativos, quando faz perto de 10°C você pensa: nossa, que dia ameno! Sim, esse inverno da neve, do vento invernal e infernal, que a gente idealiza como uma romântica declinação das férias de julho em Campos, com um chocolate quente numa mão, um fondue na mesa de centro e muita lenha na lareira até que…

Talvez os estados e as cidades bem ao sul saibam do que se trata mas a imensa maioria de nós, brazucas, não sabemos o que é inverno de verdade até vir morar num país frio. Inverno que dura muitos meses no ano, com dias curtos, você sai pela manhã para o trabalho e é noite, você sai do trabalho no final do dia e é noite e você passa um bom tempo vivendo de noite a maior parte do tempo. Seu relógio biológico fica maluco e você fica com sono às 5 da tarde e quando o despertador toca pela manhã você não acredita que são 7 horas. As pessoas por aqui deprimem no inverno, reclamam do escuro, do cinza, não querem sair.

Nos meus dois primeiros anos eu achava isso uma bravata, tinha um pique interminável para ganhar as ruas e conhecer tudo o que a novidade parisiense me oferecia. No terceiro ano entendi. Tem um aspecto biológico aí, a falta da vitamina D que é produzida pela pele quando tomamos sol e que tem uma influência no humor e nos estados depressivos. E tem uma porção de aspectos emocionais, sociais, culturais.

A vida do inverno é mais para dentro, dentro das casas, dentro dos lugares aquecidos. Quanto mais frio, menos tempo se passa na rua. As pessoas continuam a viver suas vidas, fazem muito mais coisas do que nós, brazucas, nos animamos a fazer no nosso inverno. Aqui não é comum deixar de levar filho na escola porque está frio ou porque nevou. Se fosse assim, as pessoas passariam um bom tempo a cancelar compromissos. Mas mesmo que a vida continue, ela tem o aspecto de um urso hibernando na sua caverna. Quem fica errando de bobeira na rua por horas a fio, em pleno inverno, é turista.

Em um dos meus anos parisienses, minha tia passou um tempo comigo nessa época do ano. Todo dia olhávamos pela janela do apartamento antes de sairmos pela manhã, eu para trabalhar, ela para passear. Todo dia era cinzento, feio, úmido, desencorajador. Até que amanhece um dia lindo de sol e céu azul. O termômetro marca -7°C. Ela se empolga com o dia bonito e decide sair para passear na rua. Eu, já calejada, aviso: vai estar muito frio. Imagina, dia lindo! OK. Ela retorna meia hora depois para acrescentar umas camadas. Dia lindo de sol e céu azul e temperatura muito baixa é dia daquele frio que faz doer os ossos. O que me leva a uma outra constatação sobre nós, brazucas e o inverno…

Não sabemos nos vestir para o frio. Você está em Paris de férias em dezembro ou janeiro, feliz da vida com o glamour e a elegância parisienses e tão a fim de se misturar na paisagem que prepara sua mala com todos os nossos itens essenciais de inverno brasileiro? Não. Sinceramente, não.

Não para aquelas botas de salto maravilhosas. Não para os cinco casacos, cada um de uma cor. Mulher andando nas ruas da França como se fosse modelo de capa da Vogue ou é turista ou é… modelo de capa da Vogue. O que quer dizer, possivelmente, uma pessoa rica que vai apenas sair do carro na frente do restaurante descolado em que vai almoçar para entrar no mesmo carro logo em seguida, no qual o motorista a aguarda para transportá-la ao compromisso seguinte. Nós, reles mortais, andamos na rua, encaramos o vento, a chuva, a neve nos pés, no rosto, nas mãos. Pegamos metrô, ônibus, carro estacionado longe. Na vida real do inverno, sapato tem que ser quente, confortável, anti-derrapante e bom para durar alguns anos porque custa caro. Casaco é um, impermeável, quente, do tipo que encontramos em países onde existe inverno e, quando encontramos no Brasil, custam uma fortuna desencorajadora. Vestir-se para o inverno é colocar algo por baixo da calça, meia quente, uma camiseta ou camisa ou aquilo que você vai querer mostrar quando entrar nos lugares. Dentro dos lugares a calefação obriga a tirar o super casaco e você fica de camisa, camiseta ou com algo por cima disso, um blazer, um pull, uma peça quentinha mas não muito.

O inverno me ensinou a me vestir e, principalmente, me ensinou que proteger as extremidades é fundamental. Sair na rua de cabelo molhado como eu fazia em tempos brazucas? Suicídio. Gorro, cachecol para proteger o pescoço e o queixo e às vezes até a boca e o nariz do frio, luvas… tudo isso se coloca antes de sair para a rua. A gente sai para o inverno pronto, coberto, enrolado e tudo o que for preciso. Se arrumar na porta de casa é incômodo e, com crianças, é pedir para escutar choradeira. Criança com frio chora, se irrita. Fora que eles perdem temperatura muito mais rápido do que os adultos porque são menores, então a atenção precisa ser dobrada. E os bebês que mal se mexem, deitados em carrinhos… aí é risco triplicado e é preciso ter muita atenção. Normalmente o indicado é cobrir como nos cobrimos e, com bebês que vão ficar parados em carrinho, colocar uma camada a mais, uma coberta por cima ou um daqueles equivalentes dos sacos de dormir feitos especialmente para carrinhos de bebê. Quando o pequeno vai no sling ou no porta-bebê não precisa de tanto, porque ele compartilha do calor do nosso corpo. Não cobrir demais, não cobrir de menos, não deixar as crianças todas encapotadas no carro, no restaurante ou onde for porque é mais fácil para o adulto que tem um trabalhão para cobrir e descobrir pequenos mil vezes ao dia, contando com as rebeliões contra luvas, gorros e cachecóis e é só um minutinho, que mal faz… Criança superaquecida passa mal, chora, vomita… Não, morar em país frio é aprender a se vestir e aprender a vestir os pequenos e a aceitar toda lenga-lenga do cobre descobre que se repete centenas de vezes em um único dia. O que me leva a uma outra coisa que aprendi com o inverno…

Calefação. Palavrinha mágica, linda, alentadora, que faz as temperaturas subirem acima dos 20°C quando faz menos de 0 lá fora, dia e noite… Nos meus primeiros tempos parisienses, meus amigos franceses brincavam comigo dizendo que chegar na minha casa era como chegar nos trópicos. Era sempre verão por ali. Todo mundo de camiseta regata, feliz, tomando caipirinha… Só que não é assim que funciona.

Primeiro porque lugares superaquecidos fazem um mal danado para a saúde. Você lembra da sua avó que gritava da janela te mandando colocar um casaquinho para não tomar friagem? Então, sua avó tinha razão. Só que não é o frio que te deixa doente. É o monte de bactérias e vírus acumulados nos lugares quentinhos e mal arejados das casas e afins que ninguém abre uma janela do inverno. E quanto mais quente, mais os bichinhos gostam e se proliferam. Então, uma casinha a 18°C, 19°C quando faz grau negativo lá fora já é bem bom. E te permite usar todos os casaquinhos de inverno leves. E as botas. E tudo que não dá para usar na vida real. Fora que todos dormem melhor com o ar fresco e o cobertor quentinho por cima. Tem coisa melhor do que dormir enrolada num cobertor quentinho?

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Os cabeça-de-vento

Aqui nos Pirineus Orientais venta. Muito.

Os ventos daqui têm nome tamanha a intimidade que adquirimos com eles. Como os furacões nas regiões do mundo onde são frequentes. Têm aqueles ventos marinhos, que sopram do mar para o continente. Têm os que fazem o caminho inverso. Têm os que levam as nuvens para longe. E os que fazem os dias quentes esfriar. É tanto vento que essa é a região onde existem os mais importantes campos de energia eólica da França. Hélices girando fazem parte da paisagem. E é por aqui também que a Airbus testa seus aviões contra as intempéries. E onde os pilotos aprendem a manobrar em condições adversas.

Para mim, vento sempre foi vento. Aquela brisa na beira do mar que ajuda a respirar em dias quentes. Aquele sopro friozinho em dias de inverno que gela a ponta do nariz e avermelha as bochechas. Vento, aquele fenômeno simpático e reconfortante… Até ser apresentada à Tramontane.

Ele vem dos Pirineus para o mar e é um vento forte, violento, frio. O inverno que não é tão rigoroso por essas bandas fica intolerável quando a Tramontane se levanta (aqui os ventos fazem a beleza de se levantar, como as ondas). Que casaco, que gorro, que luvas, que cachecol são capazes de evitar quando esse sopro dos infernos dos invernos mais gelados decide acariciar sua pele desesperada sob mil camadas que viram uma prisão de onde não se consegue fugir e da qual seu cérebro só é capaz de enviar a mensagem: socooooooorro!? 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto e você já começa a se questionar sobre o significado da existência. 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto quando você tem caminhar contra um muro de gelo com duas crianças pelas mãos para chegar em algum lugar imprescindível? A vida na Zooropa perde qualquer glamour.

Só que as duas crianças em questão adoram vento. A. DO. RAM. Não há argumento que os convença a colocar um gorro e acabo tendo que lidar sozinha com a angústia extrema de ver cabelinhos loiros como o trigo e cabelinhos castanhos cor de mel esvoaçarem para todos os lados envoltos de sorrisos e de olhos que deixam lágrimas escorrer (vento frio faz algumas pessoas lacrimejarem). Enquanto eu só consigo maldizer o tal sopro de Éole, meus cabecinhas de vento avançam quase agachados pelas ruas. E as palavras da minha avó retornam: “sai do vento, não toma friagem, vai ficar doente, menina!”

As pessoas que nasceram por essas bandas amam o vento. Conheço um que sobe a montanha em dia de vento forte para “arejar as idéias” e “desanuviar”. Outro que fica triste quando não venta por um longo período. Dizem que as pessoas enlouquecem com a Tramontane. Viver em um mundo no qual o vento revira a cabeça das pessoas…

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