O céu é líquido

Não como a modernidade, o amor, o tempo ou a vida. Não a “liquidade”, a liquidez, a liquefação à la Bauman, aquele que tão belamente escreveu sobre aquilo que, em nossos tempos, escorre pelos dedos sem restar. Tempos sem apego, sem rastro, sem lastro, perdidos no escorrer das pessoas, dos espaços, das horas. Não, o céu é líquido de uma maneira diferente.

O céu é vinho. Tinto. De um vermelho escuro rubi que lembra os céus azuis incendiários do verão daqui. No verão do pequeno vilarejo de Utopia, como quero nomeá-lo pois é assim que ele se nos apresenta, o céu esturricado do verão seco, árido, com pouca água, cercado de montanhas e de vegetação rasteira, com um nada de sombra periga incendiar tudo o que ali se apresenta. Esse ambiente hostil é o cenário no qual os vinhedos decidem fazer morada. Criar raízes, o contrário do tempo líquido que corre e escoa sem deixar rastros, Utopia é convite ao enraizamento, ao tempo que passa devagar, ao sabor das estações.

Um vinhedo para sobreviver tem que mergulhar fundo entre calcário e xisto, forçando suas raízes entre pedras e terra seca, raízes e tronco retorcidos como as pessoas de muita idade, cheios de rugas, de reentrâncias e saliências, de texturas, de marcas do tempo inscritas na carne. Todo ano perdem tanto que chego a pensar que morrem, apenas para se mostrar na primavera tão verdes como nunca, tão capazes de produzir frutos, explodindo de vida justamente nesse verão árido que vem incendiar todo o resto. Os vinhedos são sobreviventes e, ali em Utopia, eles se enraízam há muito mais tempo que as pessoas, que já vieram, já foram, já abandonaram tudo e recomeçaram em tantas gerações que a história da cidade é aquela dos vinhedos, que morrem e renascem como fênix a cada onda de gente disposta a fazer morada por ali.

Onde existem vinhedos, existem viticultores. O pioneiro, o rei do castelo, o businessman, o bom aluno, os tradicionais quase reacionários, o místico… Vez ou outra, existe um gênio. Disfarçado de bobo da corte.

Antigamente se dizia que apenas os bobos da corte e os loucos podiam dizer a verdade ao rei sem serem mortos por ele. E a verdade que esse aqui nos revela é que… o céu é líquido.

Já testemunhei as reações de alguns indivíduos super experts e ela é sempre de imensa surpresa, quase um susto. Você enfia o nariz no copo, sente o perfume agradável, calcário, quase nobre desse vinho. E então você deixa ele chegar na boca e… espanto! Eis ali o céu em forma de bebida. Um perfume de pêssego, de nectarina, essa suculência de uma fruta bem madura ali por detrás do árido. E assim que ele desaparece vêm outros perfumes, uma explosão na sua boca que vira novamente calcário, pedra. E então você quer renovar a descoberta, quer ver a magia se fazer de novo entre seu nariz e sua boca, quer aquilo tudo que aparece entre duas rochas, entre dois átimos de segundo e que é impossível capturar, como em um sonho. Um deleite que apenas os gênios são capazes de criar. Porque os outros fazem o que é certo, os outros seguem a tradição, os outros obedecem às regras.

Mais ou menos como a diferença entre Van Gogh e Renoir. Um era gênio, louco, marginal, fora de esquadro, cheio de arestas. O outro era bem comportado, educado, gentil, aristocrático… redondo. Renoir é um magnífico artista, mas nele encontramos o que já conhecemos, o confortável, o apaziguador. Van Gogh perturba, ele é surpresa em cores e em gestos. E o seu inusitado faz com que seja impossível esquecê-lo.

Com os vinhos, aqui em Utopia, acontece algo parecido. Todos os artistas se comportam muito bem, inovando dentro dos limites das regras da arte. E daí vem o louco gênio bobo da corte e te arremessa para uma outra dimensão na qual o céu é líquido. Vinho vira poesia. Música. Cores. Eis que você fica para sempre cativo dessa verdade do que é líquido e que, paradoxalmente, cria as mais profundas raízes.

Taí, nunca imaginei que um dia escreveria uma declaração de amor a um céu líquido…

Blog-vin-Jean-Philippe-Padié-Ciel-Liquide-2007-Côtes-du-Roussillon-Village

Como querer Caetanear…

Hoje o dia nasceu verão. Quente, abafado, quase Brasil. E em meio ao cotidiano mais banal de uma segunda-feira tão boba quanto qualquer outra veio subindo aquele banzo que só quem está longe há muito tempo conhece.

A moleza do verão que me deixou a vida inteira meio prostrada e com a cabeça em algodão doce, metáfora mais linda que aprendi por aqui recentemente com um sujeito que de tão melancólico já não sabe mais o que é viver diferente de um morto vivo. E o trajeto pela estrada, as montanhas ao fundo, aquele céu azul, aquele ar de férias…

Cresceu um buraco ali no peito e então lembrei do Djavan. Pai e mãe, ouro de mina. Quem escreve letras e músicas tão lindas que décadas depois são ainda capazes de te pegar numa curva de estrada e te arremessar direto para os recônditos mais distantes da tua história?

Me digam onde nesse mundo alguém conseguiu torcer palavra em poesia e criar esse buraco entre o peito e o estômago melhor que esses nossos músicos que eu vou lá. Aquele gozo da descoberta da palavra que virou outra coisa ali nas tripas da gente, um gozo que é metade prazer e metade dor. Reconhecimento, alguém descobriu o que vai por entre nossas entranhas.

Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul… cantou a Gal, cantora favorita de toda a vida do meu pai, quase uma tara, um fetiche nessa voz dessa mulher que conseguiu concentrar toda gostosura em voz de um jeito que deixava todo muito doido. Mais ou menos como no Ney, quando rebolava e cantava e dava aquela vontade de comer o sujeito junto com todas as suas letras.

Música que meu pai ouvia no toca-discos ali de casa, o jornal entre as mãos, aquele cheiro de fim de semana, o sol entrando pela janelona, passarinho cantando em uma ruela de São Paulo que nem parecia cidade grande. Música tocando no toca-fitas do carro rodando pela estrada de verão até chegar na praia. Dia de sol, aquele verão que cola e mela a pele, aquele salgado de verão que entra pelos poros e faz aquele bem tão sublime que dura quase um ano inteiro. Música tocando no meu carro com as amigas de faculdade, primeira vez, primeiras férias, primeiras músicas, o verde daquela costa de margeia a estrada de Ubatuba, o mar ao fundo, o azul, as montanhas, aquele verde selvagem que não existe aqui, um verde caótico de natureza pura e simples, jamais domesticada.

Foi um instante e eu estava ali e aqui, lá longe e aqui, naquela história e no hoje. Essa estrada linda cercada de montanha e de mar e do verde daqui, árida porque é verão e toda vida que explodiu em cores começa a torrar, a torrar e é o começo do fim da beleza que vai voltar sempre, mais para frente, num outro dia, porque ainda bem ainda temos as estações e aqui as estações se sucedem e nos garantem que a beleza volta. O ar seco do verão que não mela, a falta que faz o sal na pele, aquela sensação de estar viva. Hoje foi assim nessa segunda boba, mistura de ontem e de hoje, de lá e daqui, como apenas quem começa a estar longe há muito tempo entende.

Pasárgada

O amigo do rei tem sempre, em todo lugar. Aqui é o chegado do produtor de vinho. Ele, o rei do castelo. Os outros, os amigos do rei. Ele soberano no topo da sua colina, entre mar e montanha, dominando através de olhos e vinhedos o mundo todo contido em seu olhar. Os outros prensados no buraco do vilarejo ali embaixo de seus pés.

Aqui todo mundo tem história e na história tem briga, tiro de fuzil, gente que não gosta de gente por um sem número de motivos cruciais tão tolos quanto a ignorância da própria desimportância. Pessoas erigem muralhas contra outras pessoas por razões que insistem em ignorar a evidente insignificância de nosso ser. No final, como me disse um garoto de 11 anos: “vou morrer”. No final morremos todos e o mundo não se paralisará nem por um segundo por conta disso. Por que a espécie humana é a única que, frente à sua insignificância, se fecha em uma armadura de negação, delírio de grandeza e violência? Vai entender…

Daqui desse lugar das pequenas diferenças e dos tolos conflitos pelos pequenos poderes cotidianos tão banais, tão pueris, olho para o que acontece aí, nesse lugar que foi minha vida durante quase uma vida inteira. Aí o rei do castelo e os amigos do rei chegaram a um nível de negação de sua própria insignificância tão violento, tão perverso que para garantirem a palavra final eles estão dispostos a trucidar um país inteiro. Síndrome do vira-lata que precisa dar uma de leão. Custe o que custar.

Assassinam Marielle, assassinam um garoto que teve a ousadia de ser preto, pobre e botar o uniforme para ir para a escola em um dia em que, simplesmente, era dia de sair atirando em todo mundo. Maré de mortos. Controle populacional, política de extermínio de quem não importa, de quem nunca importou. Foda-se escrito em letras garrafais sobre os corpos de pessoas mortas dia e noite sem razão nenhuma. Nunca as obras de Antonio Manuel e de Rosângela Rennó foram tão atuais. Nunca as obras, as letras, os versos, as músicas foram tão obsoletos, tão pouco condizentes com a realidade que é ainda pior que o pior. Nunca foram tão pouco perto de tudo isso que se escancara na nossa cara dia após dia. Os artistas se envergonham de poderem criar enquanto um menino toma um punhado de tiros e morre sem entender como é que o ser humano padrão ali do outro lado do fuzil não o viu. Como é que ele não viu? Como é que ele não me viu? Como é que ele não viu quem eu era? Olhar que atravessa como bala o menino transparente que é ninguém.

Ele não era amigo do rei. Foi isso. Ele era apenas um insignificante que não teve condições de mascarar sua insignificância com a aura de amigo do rei para poder esquecer um pouco de quem era. Marcos. Ele era o Marcos. Tenho ao menos 3 Marcos que amo nessa vida e, se fosse um deles, estaria despedaçada. Se fosse um dos meus filhos, estaria despedaçada. E o problema que não chega a ser um é que estou totalmente despedaçada. Como se fosse um dos meus. Porque É um dos meus. A política do avestruz não funciona por aqui faz tempo. Mas, aparentemente, por aí e para uma imensa maioria das pessoas, funciona muito bem.

Os seres humanos por aí torcendo para o Brasil na Copa enquanto mais agrotóxicos serão ingeridos cotidianamente por cada indivíduo, inclusive pelas crianças. Todas. Não adianta comprar orgânico. Nem deixar de comer frutas, verduras e carnes e passar a comer apenas biscoito e batatas fritas. No final, morremos todos. Alguns sem nem ao menos terem vivido.

Prédios desabam, gente morre soterrada, assassinada, baleada e a massa vai continuar bebendo do próprio veneno enquanto olha para o outro lado, aquele da telinha, e se regozija em passar para a segunda fase. Não é comigo. Foda-se. Mas não se culpem, futebol é jogo, é arte, é coração, é algo que não se explica. Não é hora de fazer política, é hora de comer veneno gritando gol e idolatrando um cara como Neymar. O Brasil é realmente a cara do Brasil.

Imagino o Temer e seus asseclas. Ele é o rei do castelo. Eles são amigos do rei. Não precisam nem mais disfarçar suas crenças ou suas intenções. A violência de seus propósitos é tão abjeta que as pessoas não conseguem percebê-la a não ser como máscara. Piada. Situação passageira e sem importância. O abjeto fragmentado em mil derivados para não revelar a verdade do que é: o terror puro e simples. Hannah Arendt nunca foi tão atual. Deveríamos todos assistir ao julgamento de Eichmann em Nuremberg para quando formos levados a dizer: “mas eu não sabia”, “estava apenas seguindo ordens”. A leveza típica da negação daqueles que preferem se abster em suas vidinhas de poliana ao invés de arcar com o peso insustentável de estarem vivos em um tempo como o nosso. Ninguém quer se responsabilizar por isso que estamos vivendo. Foda-se. A psicanálise nunca foi tão atual e tão indesejável, a nos lembrar incomodamente que, sim, a responsabilidade no final é tão somente sua. Que você saiba ou não.

Mas, tudo bem, não se preocupem. Vocês não estão sozinhos. Palestinos são fuzilados diariamente. Trump separa crianças de seus pais nas fronteiras com o México e as engaiola como no pior pesadelo nazista revivido. Milhares e milhares de refugiados não chegam mais às praias da Europa pois são resgatados, maltratados, violentados, escravizados e reenviados para morrer nalgum canto discreto pelos países que aceitaram fazer o serviço sujo. O verão europeu está garantido, ufa! Como a Copa, Brasil passou para a segunda fase. Vamos tomar uma breja / verre de vin para comemorar?

Quando a música retorna.

Sou daquelas pessoas que sempre teve trilha sonora. Bailarina, a música acompanhava os passos, fazia mover o corpo. A música era corpo.

Mesmo depois que o ballet se foi, a dança ficou e a música também. Música do rádio e do toca discos do meu pai, lendo jornal ao som de Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal. Música de minhas primeiras músicas, discos comprados com a mesada nunca suficiente. Música das festas, primeiros bailes, domingueiras, música eletrônica, festas, lambada, forró, raves… Uma música toca, uma memória retorna, uma época, uma situação. Coisa de rir. Ou de chorar.

Os tempos sem trilha sonora foram tempos difíceis. Tempos em que os sons e as palavras perderam sentido. Acrescentar um som a algumas situações teria sido dor demais. Dor traduzida na dor das canções que traduziriam minha dor demasiado bem para poder olhá-las de frente. Silêncio. Houveram épocas de silêncio.

Depois que ele surgiu na minha vida, a música durou pouco tempo, tão pouco tempo quanto a ilusão do grande amor. Nossa filha nasceu, houve um tanto de música que logo escorreu no ralo das decepções, da falta de apoio, da solidão. Por alguns anos escutar música me feria de morte, até que ela voltou forçada, como uma violência da traição. As músicas que eles escutavam agora invadiam meus ouvidos, prolongamentos dos encontros deles forçados no meu cotidiano. Minhas músicas e minha sensibilidade usadas como isca por quem não tinha o que mostrar nem oferecer.

No desespero, enviava-lhe músicas, na esperança que as minhas suplantassem as dela. Na esperança que ele finalmente entendesse. Ele voltou. Mas apenas para não voltar. Voltou com aquelas músicas e com a convicção de ter vivido algo extraordinário. Às minhas custas, às nossas custas, pagamos todos o preço mais caro pela prioridade absoluta dada aos desejos realizados à qualquer preço. Ela se foi à fórceps, as músicas ficaram como agulhas que rasgam a pele a cada vez que se repetem em algum lugar desavisado.

Essas músicas recentes, elas me doem em lugares que nem consigo explicar. A única sonoridade tolerável por um bom tempo foram as músicas das crianças que embalam nossos trajetos de carro entre casa, creche, escola. Músicas tolas, músicas belas, músicas cantadas com eles, risadas, poder cantar gritado no carro. Agora não mais sozinha, mas com eles. Senti vontade de mostrar minhas músicas para eles, mas o que mostrar? Fomos fazendo listas do que amamos eu e eles, uma Palavra Cantada ali, uma Madonna acolá, Sting, Galinha Pintadinha, Vaiana, Frozen, Rei Leão…

As músicas eletrônicas, as músicas brasileiras, as músicas francesas… tudo ganhou um ar meio fake, forçado, fora de esquadro, distante de mim. Quem eu fui, não sou mais, as músicas deixaram de servir perfeitamente. Como as roupas, os sapatos, as palavras, as frases que sempre me definiram, as verdades, os gostos… Tudo arrastado na avalanche da vida e eu junto.

Daí, outro dia, quis enviar uma música. O que mandar? O que não estaria totalmente contaminado pelo amargor da vida vivida como decepção do sonho negado? Procurei nos arquivos, na memória, nas músicas das crianças, nas músicas recentes… nada.

Em um concerto de um senegalês em um vilarejo de 250 habitantes teve alguém que veio tocar do meu lado. Faz vinho e ama música. Descobri Gäel Faye e as músicas do exílio. Lembrei das músicas debaixo d’água dos filmes de Nery e Gautier… Mergulhar fundo, se lançar… e dançar

Fui tentar oferecer uma música e ela voltou para mim.

Minha mais recente trilha sonora. Sem dor. Ou sem amargor. Ou sem amarDOR.

Apenas vento nos cabelos e a sensação de estar planando em algum lugar ainda cheio de beleza e de vida: aqui.

Quem gosta de vinho?

Noutro dia escrevi sobre os vinhos naturais, biodinâmicos e bio aqui na França, uma “moda” que começou há mais de uma década e se reforça dia a dia. Em um mundo preocupado em comer saudável e em diminuir tanto quanto possível a quantidade de pesticidas, hormônios e outras químicas com as quais nos envenenamos enquanto comemos, nada mais coerente que se preocupar também com beber saudável. Afinal, não tem muito glamour pensar que você está tomando Monsanto junto com aquele bordeaux de 500 reais, né?

Algumas pessoas por aqui defendem que o vinho natural sempre existiu porque sempre existiram viticultores que não seguiram muito a onda de trabalhar com produtos demais, nem se renderam ao mercado em busca de um sabor fácil, redondo e padrão. Esses viticultores já não trucavam muito o vinho e continuaram não fazendo. Outros perceberam a importância de voltar às bases e foram testar novas velhas maneiras de cultivar, tratar a vinha e produzir o vinho. E uns ainda sentem a pressão atual por um vinho mais limpo e menos padronizado e começam a lançar uma “fornada” bio em meio à produção costumeira. Sinal dos tempos?

Um amigo enólogo me disse outro dia que o vinho que ele aprendeu como sendo vinho é esse das tecnologias, dos pesticidas, das interferências na fabricação. Esse gosto é o que ele entende como “a verdade” do vinho. E segundo essa verdade, um vinho natural não é um bom vinho. Por isso que a maior parte deles não entra nas denominações controladas, pois não se enquadram nos parâmetros do que deve ser um bordeaux, um bourgogne… Então eles são labelizados como vin du paysvin de France, títulos que costumam ser dados a vinhos “menores”. Alguns preferem denominar-se vins libres.

Um vinho livre é aquele que não segue a receita para ser isso ou aquilo, não segue as cépages para poder ser considerado tal ou qual tipo de vinho. Ele mistura, inventa. Ou como disse tão sabiamente esse amigo enólogo, é o vinho que te permite descobrir o que estava escondido por trás daqueles outros cheios de química.

O que existe por detrás de um vinho redondo e arrumadinho?

Eles brincam.

Temos aqui um jardim. E eles brincam. Muito.

Antes, vivendo em apartamento meio sombrio no centro da cidade, a bagunça era maior, brinquedo jogado para todo lado, crianças pulando e gritando, nervosas e entediadas ao longo do dia, precisávamos sair para tomar ar, sol, desanuviar.

Então veio a campagne, o jardim, o sol entre as folhas, as estações do ano entrando pelas janelas.

A natureza tem um efeito direto e quase mágico sobre as pessoas. Pena que nos esquecemos disso empilhados uns sobre os outros, sem horizonte a respirar ar de escapamento. A luz que entra pela janela de manhã regula o sono, o frescor da brisa batendo nas ventas desperta e traz energia, o verde acalma a respiração e o peito.

As crianças acusaram a mudança. Os brinquedos ficam mais arrumados, as explosões motoras acontecem lá fora. Elas descobrem os insetos, as plantas, os ritmos e os sons do cotidiano no campo. O terraço vira a varanda de um castelo, os galhos de árvore viram espadas em um duelo, eles querem plantar as flores e ficam felizes quando descobrem os morangos avermelhando na horta.

Agora mesmo tem um passarão preto pesando em um galho da cerejeira selvagem que, até poucas semanas atrás estava coberta de flores rosas e de um perfume delicado e estonteante. Ele se joga de um galho ao outro e as árvores sacodem de tão brutal visita.

Sim, as crianças assistem filmes na TV. E brincam com seus brinquedos. O pequeno ama os quebra-cabeças e pode passar uma boa hora montando e desmontando 20 peças sobre o tapete da sala. Ou então enfileirar todos os animais de sua arca, imitando o som de cada um deles. Ambos dançam quando a música preenche o espaço, rodando e criando passos insuspeitos recém saídos de seus corpos criativos. Ela ama desenhar, pintar e, principalmente, escrever os nomes. Descobrir as letras que fazem um nome faz com que ela ria, mistério das coisas que viram palavras. Eles pedem que leiamos estórias e depois recontam um ao outro folheando os livros. E brincam.

Lá foram se jogam na rede, guardando o pedaço de brasilidade que lhes cabe e que os aproxima da infância que eu vivi, ao menos um pouquinho. Brincam de casinha e inventam mil cenas curiosas entre leões, unicórnios brilhantes, heróis, princesas, bichos, monstros. Ela por vezes o arrasta pelo braço para seu mundo e ele concorda em participar. Noutras não quer, vai fazer sua vida ali do lado, fascinado por alguma descoberta que insiste em partilhar conosco. Olha, mamãe, olha! Olha, mamãe!

Dizer que a vida é melhor no campo pode parecer coisa de baba cool abestalhado e talvez seja. Porque a vida no campo é mais dura que isso para quem trabalha no campo. Basta ver a rotina dos produtores de vinho daqui para entender que é zero glamour e muito suor. Mas experimentar uma vida melhor, mais simples e mais rica vivendo próxima e com a natureza é legítimo, mesmo para uma urbanóide de toda a vida como eu. Basta ter sensibilidade e abertura para perceber a diferença.

O passarão está ali petiscando pelo chão. E agora voltou a fazer terremoto sobre as árvores. Olha, crianças!

Guernica

Tinha uma reprodução da Guernica em casa quando eu era criança. A pintura em preto, branco e tons de cinza me incomodava. Menina, gostava do que é belo e o belo era o clássico, o tradicional, de fácil digestão.

Picasso me perturbava, aquele quadro me perturbava, dos ismos todos, o cubismo era o que mais me irritava. Mal sabia eu que arte boa é essa que irrita, perturba, incomoda… E permanece. Estava na sala e ali estavam aquelas figuras a me espreitar. A vela com a sombra triangular cinza, o grito da mulher, o bebê. Deitada no sofá em frente à TV e eles todos por ali, como o lugar para onde o pensamento retorna na hora do intervalo. Meus pais gostavam de Picasso, gostavam da Guernica, do cubismo, das vanguardas… Por isso o quadro. Eu não. Eu não entendia nada.

Cresci com esse quadro em casa.

Um dia minha irmã, que sempre foi muito melhor do que eu em tudo, em uma visita a um museu me apresentou a um outro ismo. E diante das instalações de Duchamp me explicou o quanto aquela janela era genial. Olhei, olhei… E vi. Nesse dia começou minha história de amor com a arte. E alguns daqueles quadros tornaram-se tão importantes na minha vida quanto o ar que eu respiro. Perfeitas traduções de mim, das minhas entranhas, do humano demasiado humano em mim e em toda gente.

Em uma viagem à Madrid com ela- sempre ela- passeávamos pelo Reina Sofia. Um misto de atenção flutuante, cansaço de viagem longa de férias de verão, coisa que sempre adoramos fazer juntas. Os corredores do Reina Sofia são um pouco escuros, bem largos, abrigos frescos em dia de verão, contornam um jardim e você os contorna olhando mais para dentro que para fora.

E eis que chegamos ali. Naquela sala. Não sei se minha irmã sabia. Eu não. Na parede estava ele. O quadro. Imenso. Uma imensidão de cinza, branco e preto gritando enorme naquela parede de museu. A Guernica.

Me vi menina minúscula olhando aquele quadro imenso. E entendi o amor dos meus pais por aquele quadro, instantâneo eterno de uma guerra, de uma ditadura, de uma injustiça. O medo, o desespero. A fatalidade. Não é dramático. Não é triste. É um fato seco, surdo, uma arma que dispara e a vida implacável que se impõe e que se estanca.

Gostei e desgostei de Picasso mil vezes nos últimos anos. Gostei e desgostei dos ismos por diversos motivos. Vim para a França fazer pesquisa em arte e psicanálise. Conheci o cara-metade. Mudei para o sul da França.

Aqui estamos nos Pirineus Orientais, vulgo Catalunha do Norte para os locais. Durante a guerra civil espanhola que bombardeou a cidade de Guernica matando milheres de civis, muitos cruzaram a fronteira e vieram se refugiar por aqui, cruzando os Pirineus com frio e fome para serem alojados em campos, um episódio nada glorioso da história francesa que às vezes esquece que foi palco da declaração dos direitos humano. Como ultimamente em relação aos refugiados.

Picasso era catalão. Dali também. Guernica fica no País Basco, outra região de conflitos e de defesa de uma identidade outra que a espanhola. Muitos artistas das vanguardas se refugiaram por essas bandas daqui, em Collioure, em Ceret ou do outro lado da fronteira, em busca das paisagens vertiginosas entre montanha e mar, das cores e da luminosidade indescritíveis. Minha filha e meu filho nasceram aqui. São franco-brasileiros. E são catalães segundo os donos do lugar.

O Brasil voltou a ser uma ditadura e quase ninguém viu. Nesses últimos tempos muitas mães brasileiras gritaram o horror de seus filhos mortos. Entre Marielle, o menino baleado no carrinho de bebê, o prédio incendiado no centro de São Paulo e o dia das mães do domingo passado, Guernica nunca foi tão atual.

Ano passado fomos os 4 para Madrid. Percorri lugares conhecidos e descobri novos, nessa cidade que é tão despretensiosa e tão pulsante. Fiz questão de apresentar minha filha e meu filho às Meninas de Velásquez, ao Jardim das Delícias de Bosch e à toda série negra de Goya. E fomos também ao Reina Sofia.

Lá, passeamos pelos corredores frescos. Adiei o climax por um tempo, só para prolongar o prazer da descoberta. Fui mostrar a Guernica aos meus filhos.

Naquela sala a mesma sensação de reencontrar pela primeira vez o que se conheceu a vida inteira. O estrangeiro familiar. O reencontro com aquele quadro, a casa dos meus pais, as cores, os cheiros, a minha infância e a minha adolescência. Meus pais deram o seu melhor. O reencontro com a minha irmã, aquela conexão que faz o coração doer da distância atual. Meus filhos sentados no chão e eu contando a história. Uma história que passa de geração em geração, minha filha com os olhos brilhando cheios de questões, meu filho em silêncio a contemplar o touro e o cavalo. A vida tem uns caminhos curiosos que te fazem habitar dentro de um quadro de devastação para poder semear depois.

Parabéns, Sis. Te amo.

Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

Quem gosta de vinho?

Eis algo sobre o que nunca tinha pensado antes de começar a pensar: os vinhos, como todos os produtos alimentares em nossos dias, podem ser modificados e conter uma imensidão de produtos químicos. Quem já tinha se dado conta que, também para os vinhos, temos que considerar a opção bio?

Beber melhor e mais saudável, eis algo que um número cada vez maior de viticultores se preocupa na França. Retornar às raízes, retornar ao sabor das raízes, mágica que os vinhos deixaram muitas vezes de fazer, tendo que se adaptar ao consumo de massa e ao sabor médio buscado pela maioria. O gosto fácil ou a ousadia dos sabores específicos? Eis a questão.

As uvas, os vinhedos, podem ser tratados com uma quantidade mais ou menos importante de pesticidas e eles vão parar no vinho. Assim como umas ou outras coisinhas que os viticultores vão acrescentar para “arrumar” o vinho na hora da produção. Por aqui, descobri que tem quem coloque açúcar, sulfitos além dos naturais vindos da própria uva, conservantes. Quando abrimos uma garrafa, aquilo que chega no nariz e na boca é o conjunto da obra, ou seja, as uvas, o terroir e toda a porcariada que eventualmente o viticultor terá acrescentado para que o vinho seja redondo e que ele agrade ao gosto e às exigências de seus consumidores. O que é uma pena, se pensarmos bem, pois um vinho é uma descoberta tão incrível e inesperada do lugar onde ele foi feito que trabalhar para torná-lo palatável como todos os outros é tirar dele o que o faria único. E nisso a diversidade se perde.

Pois bem, por aqui encontramos mais e mais viticultores passando ao bio, ao natural e ao biodinâmico. Colheita manual, sem uso de pesticidas, sem acréscimo do que quer que seja, fermentação com o uso apenas de produtos naturais, doses de sulfitos acrescentados bem menores do que se vê por aí. Uma pequena revolução, feita por apaixonados do terroir, essa beleza poética que é como chamam por aqui a terra, a terra de cada pequeno terreno que muda de um metro a outro.

Descobrir um vinho natural é desafiar os hábitos que temos, o gosto que pica na boca, a espera de que o vinho aere, uma certa opacidade… coisas esquisitas. Uma descoberta e tanto, especialmente para paladares habituados aos sabores bem alterados.

Um vinho é uma descoberta. Tenho descoberto nesses vinhos bio, biodinâmicos e naturais todo um mundo novo dos gostos não redondos, que não aparam arestas, que não maquiam nem disfarçam nada. Um vinho vivo, é o que dizem. Um vinho como um ser humano, cheio de falhas e idiossincrasias. Um deleite.

Vins naturels.

Vins naturels, algumas sugestões.

Ainda sobre vinhos bio, naturais e biodinâmicos.

Errâncias

Sempre gostei desse termo, errâncias. Errar como um misto de vagar, se perder, sair sem rumo. Não necessariamente com uma conotação ruim, errância não apenas como algo potencialmente angustiante, mas como uma quase liberdade da ausência de rota.

Quando cheguei aqui, o que mais me encantou nessa vida de estrangeira foi ter a liberdade de errar. Tornar-se um livro branco, zerado, em que o futuro poderia ser construído a partir de um presente no qual eu parecia ter a possibilidade de inventar o que quisesse. A angústia frente ao papel branco com tudo por escrever tornou-se o prazer do papel branco, do reinventar, do começar de novo.

Claro, ninguém parte do zero e nenhuma vida, a partir do momento em que começa, nos permite recomeços sem nenhuma marca, sem nenhuma história. Podemos jogar o passado para debaixo do tapete e usar a estratégia do avestruz mas a vida sempre tem um jeito de reapresentar os mesmos impasses.

Então estava aqui em uma vida nova que pode acontecer justamente porque eu aproveitei toda a bagagem de minha antiga vida, sem recusá-la. Meus estudos, meus talentos, minha curiosidade pesquisadora, todo um percurso profissional que permitiu que eu pudesse vir e viver o novo aqui tendo como ponto de apoio a pessoa que tinha sido e o caminho que construi.

Levei muitos e muitos anos e um bom tanto de psicanálise pessoal para poder existir, ter alguma coerência comigo mesma e sentir-me bem na minha pele. Engraçado como estar vivo não é algo que se conquista compulsoriamente por meio do nascimento. Estar vivo se constrói, se conquista. Levei pouco mais de 30 anos para ter isso, me ter, me sentir, ser. Supondo que possa ter existido no começo e me perdido em algum ponto, coisa de que não tenho muita certeza, mas prefiro acreditar assim do que imaginar que tenha nascido e vivido sem existir até mais ou menos meus 35 anos.

Não há nada de novo nisso. Muita gente, se não a maioria, vive nesse limbo da não existência, um minuto após o outro, um dia após o outro, a vida acontecendo e tombando sobre suas cabeças e tendo como resposta o eco de um vazio de vida, um vazio de existência, um nada de ser. Muita gente não sente a vida correr pelas veias, não sente o tempo, não sabe o que é perder o fôlego em um instante de presença absoluta. Muita gente apenas passa e a vida passa por elas até se extinguir e ir se instalar em outro lugar, em outra gente, em outra potencial história.

Quando finalmente me encontrei em mim e experimentei esse deslumbramento com a vida, foi quando vim para cá. E a vida acontecendo não espera que a gente aprenda a respirar e a existir, ela simplesmente vai. E você acompanha ou não. E foi nesse fluxo que encontrei o homem com quem imaginei poder construir minha vida. E foi nesse fluxo vertiginoso e inebriante que tive meus filhos. E é aí que a história se desloca.

Porque a maternidade desloca a gente, desconjunta, desmonta, desterritorializa. E isso é coisa que só entende vivendo, mesmo que a teoria pareça de uma grande evidência. A proporção, a intensidade desse deslocamento é algo que se vive ou não se sabe. E então me vi, depois de tantos anos trabalhando para chegar em algum lugar em relação a mim mesma, posta novamente para fora de mim.

Onde a coisa se complica é em não saber até onde esse deslocamento foi obra de tornar-me mãe e até onde ele se radicalizou tanto por conta do contexto em que me tornei mãe: estrangeira, vivendo em outro país, mudando para uma cidade e uma região em que não conhecia ninguém, tendo por parceiro nessa jornada um homem com um passado mal resolvido, um modo de funcionar bastante duvidoso e que muito rapidamente me deu todas as mostras de que não iria sustentar nada… Até que ponto foi ser mãe ou ser mãe aqui, junto com esse homem, nessas circunstâncias tão dolorosas o que me tirou do prumo para nunca mais?

A pessoa que eu era foi como que arrancada de mim. E no entanto ela está aqui, é quem permite que eu possa pensar dessa maneira, trabalhar como trabalho, ter certos valores, uma certa posição ética, uma capacidade de amar… Mas apesar de estar presente, ela não existe mais. Não sou mais essa pessoa, não falo igual, não penso como, minha aparência mudou. Tem horas em que me sinto apenas rio correndo no vai da valsa, seguindo a correnteza sem nem poder existir. Tem horas em que luto, quero me segurar em alguma coisa, ser. Ter aquela alegria de viver a errância como libertação. E não como agonia. Sentir-me envelhecendo e o tempo passando e levando alguma coisa de muito importante que nunca mais vou recuperar.

Isso é consequência da maternidade? Não, porque ter me tornado mãe não me trouxe arrependimento. Não gostaria de ter continuado naquela vida em que ainda não tinha filhos. Ter filhos não me deixou no vazio, sem perspectiva, sem projeto, apenas passando e sendo passada pela vida. Perdi-me de mim, sim, mas essa foi a errância que liberta.

Será que é porque estou envelhecendo? Talvez. Penso nisso às vezes, se essa perda irremediável não é o primeiro sinal de que a vida ultrapassa aquela curva a partir da qual a gente vislumbra mais os finais do que os começos. Mas então penso que daqui a dez anos vou lembrar disso que estou escrevendo hoje e vou me achar muito idiota por ter pensado dessa maneira aos 40 e poucos, quando ainda não era o fim, quando ainda havia tanto tempo. E a gente tem uma tendência estranha em decretar o fim bem antes do tempo, bem antes que ele esteja realmente próximo, deve ser para ter a última palavra, para não ser pego de surpresa, para achar que somos nós que decidimos e não a vida ela mesma… Vai saber…

Talvez sejam as circunstâncias que tornem tão difícil as reconstruções sem pontos de apoio. Errância é libertação mas também é tentar se apoiar suspensa no ar. O exílio não é fácil mesmo quando é promessa.