O racismo de cá e de lá

Pronto, a França foi campeã da Copa do Mundo de 2018. E meus pequenos experimentaram essa coisa de ser campeão na França, sendo franceses, em um ambiente calmo de restaurante de vilarejo no meio do mato. Sem aquela euforia, sem aquela catarse dos movimentos de massa tão inebriante que o Brasil sabe fazer tão bem.

Então surgiram aqueles comentários de brasileiros “homenageando” a seleção “africana” da França. E um arrepio me percorreu a espinha. Porque nada mais racista que esse comentário. E nada mais tão tipicamente racista do racismo do Brasil do que não conseguir entender que esse é um comentário racista. Racismo no Brasil é um pouco diferente do racismo daqui. E as respostas dadas por aqui  para o racismo são um pouco diferentes daquelas dadas no Brasil.

No Brasil, ninguém é brasileiro. Um dos assuntos mais comuns em conversas é perguntar ao outro de onde ele vem. O que remete às origens, de onde vem seu sobrenome, sua família, seus antepassados. Isso, especialmente quando você tem uma origem migrante européia, por exemplo, é cheio de valor. Todo mundo branco no Brasil gosta de dizer que veio de outro lugar. Como se isso fosse uma grande vantagem.

Só que a França não é o Brasil e a história francesa não é a brasileira. Aqui, o que tem valor é ser francês. Ninguém te pergunta de onde você veio e se você começar esse tipo de conversa com um francês ele vai se ofender com sua questão e vai te responder: eu sou francês. Mesmo que tenha um sobrenome não francês. Ou que seja preto. Ou árabe. Ele vai dizer: sou francês. E você vai se sentir bem besta tentando explicar a sua pergunta. Acredite, aconteceu comigo muitas vezes. E isso quer dizer muita coisa.

Historicamente, a França colonizou e explorou meio mundo. E tudo o que ela é de bom, inclusive o país do droit des hommes, podemos dizer que é também por conta disso. Porque alguém pagou a conta para eles. E alguém paga até hoje. Então, talvez por uma culpabilidade histórica, para uma parte desse mundo ela deu a possibilidade de que as pessoas que foram seus aliados (vide Algéria e seus maquis, por exemplo) viessem à França e vivessem como franceses. O que significa que uma boa parte dos descendentes do Magrebe, por exemplo, são franceses pois nasceram na França filhos ou netos de magrebinos que exerceram seu direito de viver na França. Eles não se naturalizaram franceses, esses filhos e netos que nasceram aqui. Eles são franceses.

Algo parecido vale para os nascidos na França filhos ou netos de migrantes da África subsaariana. Seus antepassados vindos de seus países, muitos ex-colônias francesas, se instalaram por aqui e tiveram filhos e netos. Que são franceses. Nasceram aqui, não se naturalizaram franceses. São franceses.

O problema do racismo aqui na França aparece justamente quando tentam negar que essas pessoas são franceses. Porque seriam filhos ou netos de migrantes. Porque são pretos. Porque são árabes. Porque são sulamericanos. Sim, sulamericanos. Latinos. Porque aqui na Zooropa não somos brancos, minha gente. Somos latinos. Tão dignos do desprezo e do racismo europeu quanto os pretos e os árabes. Não adianta vir aqui brandindo sua ascendência italiana, portuguesa, espanhola, o diabo. Aqui você é e sempre será um… latino. Que é outra coisa que um branco europeu. E seus filhos ou netos… eles serão… franceses. Que é outra coisa do que você é.

Existem duas maneiras de ser francês segundo a lei: uma é nascendo de pai e mãe, ou pai ou mãe franceses. Você tem um dos pais francês, você nasce por aqui ou onde for no mundo… você é francês. Outra maneira, quando seus pais são estrangeiros que vivem na França e você nasce por aqui é… você tem a nacionalidade dos seus pais e à partir de uma certa idade pode pedir a nacionalidade francesa. Que é seu direito. Porque se você nasceu aqui, vive aqui, vai à escola aqui, fala francês, está mergulhado na cultura, no cotidiano, nos costumes, então, meu caro, você é obvia e legalmente um… francês.

A França tem uma imensa dívida com suas colônias e ex-colônias. Colônias que ela insiste em chamar de DOM TOM para dizer que fazem parte da França ainda. E ex-colônias que ela abandonou em melhor ou pior estado, deixando para trás uma porção de gente que, se não tivesse vindo para cá em seguida, teria morrido como traidor por ter lutado ao lado da França em alguma guerra. Essa mesma França que hoje em dia participa de acordos para dificultar a entrada dos refugiados que, segundo a extrema direita adora espalhar por aqui, estariam invadindo a Europa aos milhões atrás da riqueza, dos benefícios sociais e de uma vida cheia de conforto e privilégio, roubando os empregos dos europeus de verdade. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da migração.

Durante muito tempo foi proibido nas escolas daqui que as crianças aprendessem outra língua que o francês. Ninguém podia falar catalão na Catalunha nem bretão na Bretanha, nem occitano na Occitânia. Isso era fruto de um posicionamento político que privilegiava algo como a “união nacional” em torno de uma idéia de França em detrimento das diferenças entre os povos que a compõem. O contrário do que fez a Inglaterra, por exemplo. Mas isso é outra história. E serve apenas para lembrar que a questão da dívida histórica francesa é muito maior do que a gente se dá conta e começa dentro das suas próprias fronteiras.

Então, é evidente que a reivindicação da diferença, das origens, da língua, dos costumes é algo importante aqui na França. As pessoas vão responder que são franceses. Mas se você sair dos grandes centros e for para as fronteiras do país, esse ser francês aparecerá misturado com a defesa de um pertencimento outro. Aliás, nem precisa sair dos grandes centros. Basta prestar atenção em quantos “ser francês” diversos cabem nessa definição de ser francês em uma cidade como Paris, por exemplo.

E isso, a reivindicação das diferenças, é legítimo também para os migrantes. Para pretos, árabes e latinos que vêm construir sua vida por aqui. E que vivem sob a pressão de se “integrar” por vezes em detrimento dessas mesmas origens que são suas únicas referências sobre como existir, circular e compreender o mundo. Algo doloroso, um acordo entre cisão e integração que nunca se faz totalmente.

Mas o problema – ou a vivência – dos migrantes não é a mesma de seus filhos e netos. Sim, eles têm essa origem e, sim, as coisas se passam bem melhor quando ela não é negada, recusada, reprimida e sim integrada em suas subjetividades de alguma maneira. Pode ser na comida, na língua, na festa, no canto, na dança, na roupa, na risada, na religião… Um traço que resta e que diz daqueles sujeitos quem eles são. Mas é um traço entre outros, pois a identidade nunca vem de um lugar apenas, é colcha de retalhos. E para outros tantos traços, esses filhos e netos de migrantes são… franceses. E tão ou mais difícil para eles do que encontrar um lugar em suas origens é poderem ser e usufruir do fato de serem franceses. Sim, a França é racista. E uma das formas desse racismo na França é a mentira e a negação da igualdade. Vejam o paradoxo. Negar a migração e a diferença. E negar a igualdade. Igualdade que faz parte do lema maior que define este país.

E é isso que essa “homenagem” de uma perspectiva brasileira que acha bonito acentuar que os jogadores da equipe de futebol francesa seriam africanos não consegue entender. Que a questão, para eles, é se afirmarem como franceses. E obrigarem a França a se afirmar como plural, mestiça, preta, branca, árabe, latina e asiática.

(Não fosse racista a “homenagem” teriam atentado para o fato de que outros jogadores dessa mesma equipe não são pretos mas possuem, basta ver os sobrenomes, origens não francesas. Mas então…)

Talvez se o orgulho de ser brasileiro fosse além do futebol ou de vestir camisa para defender posições políticas absurdas e retrógradas e se as pessoas tivessem uma necessidade subjetiva de se afirmarem como brasileiros quando alguém perguntasse de onde elas vêm, talvez nesse caso nós, brasileiros, seríamos capazes de entender um pouco melhor o que essa afirmação tem de revolucionário.

E não, eu não estou negando a importância da afirmação das diferenças no Brasil por aqueles para os quais a diferença sempre foi sinônimo de preconceito, violência e humilhação. Acho lindo e importante, ou até mais do que isso, fundamental, que pretos possam finalmente impor que sua voz seja escutada. E que os não-pretos tenham que engolir essa fala afirmativa. Finalmente. E entendo que essa seja uma forma de ação contra o racismo. E que o mesmo ato poderia ser considerado um protesto contra o racismo na França. E que pode ser um protesto contra o racismo na França essa afirmação das origens africanas de seus jogadores de futebol. Só que também não. Porque não é tão simples assim, nem aqui, nem aí. E toda afirmação de uma diferença cria potencialmente um gueto. E por aqui tanto quanto por aí as pessoas vivem no gueto há muito tempo. E a solução, por aqui, tem sido: ou a afirmação da diferença absoluta e da vontade de destruição da França encontrada nos atos terroristas que foram executados por… franceses, veja só. Ou então a afirmação de um pertencimento a algo como uma França e a pressão que isso causa nessa tal de França que precisa se alargar afim de incluir todos os que se reivindicam como franceses.

Qual o melhor jeito? Qual o jeito certo? Não sei. Nisso estou de acordo com quem defende a mestiçagem como melhor jeito. Mas isso também é uma outra história.

Eu levei muitas décadas e uma mudança de país para entender que eu sou… brasileira. E que por aqui eu não sou branca. Sou latina. Ou, como minha filha gosta de dizer, quando fala da cor das nossas peles: marrom. O que para ela, felizmente, quer dizer uma cor, não um crime. Nem uma condenação.

E meus filhos são… franceses. Mesmo tendo dupla nacionalidade. E esse é um luto que eu tive que fazer quanto aos meus filhos, porque é claro que eu os via como brasileiros e é claro que isso nem era uma questão até eles começarem a falar francês entre eles… E é claro que eles são também brasileiros e que essa brasilidade faz parte do modo como eles existem. Mas na afirmação de que são franceses existe uma reivindicação, percebem? Que é política, ideológica e ética e que vale para todo mundo que está por aqui e que tem o direito de estar por aqui ou por onde quiser nesse planeta. É essa reivindicação de pertencimento e de ser respeitado nesse pertencimento. E esse é um luto que penso que a França precisa fazer quanto a essa imagem de uma França branquinha e pura que já não existe mais há muitas décadas, se é que um dia existiu. E é para ajudar nesse luto francês que eu escolho afirmar que os jogadores que venceram a copa do mundo ontem são, todos, 100% franceses.

Pasárgada

O amigo do rei tem sempre, em todo lugar. Aqui é o chegado do produtor de vinho. Ele, o rei do castelo. Os outros, os amigos do rei. Ele soberano no topo da sua colina, entre mar e montanha, dominando através de olhos e vinhedos o mundo todo contido em seu olhar. Os outros prensados no buraco do vilarejo ali embaixo de seus pés.

Aqui todo mundo tem história e na história tem briga, tiro de fuzil, gente que não gosta de gente por um sem número de motivos cruciais tão tolos quanto a ignorância da própria desimportância. Pessoas erigem muralhas contra outras pessoas por razões que insistem em ignorar a evidente insignificância de nosso ser. No final, como me disse um garoto de 11 anos: “vou morrer”. No final morremos todos e o mundo não se paralisará nem por um segundo por conta disso. Por que a espécie humana é a única que, frente à sua insignificância, se fecha em uma armadura de negação, delírio de grandeza e violência? Vai entender…

Daqui desse lugar das pequenas diferenças e dos tolos conflitos pelos pequenos poderes cotidianos tão banais, tão pueris, olho para o que acontece aí, nesse lugar que foi minha vida durante quase uma vida inteira. Aí o rei do castelo e os amigos do rei chegaram a um nível de negação de sua própria insignificância tão violento, tão perverso que para garantirem a palavra final eles estão dispostos a trucidar um país inteiro. Síndrome do vira-lata que precisa dar uma de leão. Custe o que custar.

Assassinam Marielle, assassinam um garoto que teve a ousadia de ser preto, pobre e botar o uniforme para ir para a escola em um dia em que, simplesmente, era dia de sair atirando em todo mundo. Maré de mortos. Controle populacional, política de extermínio de quem não importa, de quem nunca importou. Foda-se escrito em letras garrafais sobre os corpos de pessoas mortas dia e noite sem razão nenhuma. Nunca as obras de Antonio Manuel e de Rosângela Rennó foram tão atuais. Nunca as obras, as letras, os versos, as músicas foram tão obsoletos, tão pouco condizentes com a realidade que é ainda pior que o pior. Nunca foram tão pouco perto de tudo isso que se escancara na nossa cara dia após dia. Os artistas se envergonham de poderem criar enquanto um menino toma um punhado de tiros e morre sem entender como é que o ser humano padrão ali do outro lado do fuzil não o viu. Como é que ele não viu? Como é que ele não me viu? Como é que ele não viu quem eu era? Olhar que atravessa como bala o menino transparente que é ninguém.

Ele não era amigo do rei. Foi isso. Ele era apenas um insignificante que não teve condições de mascarar sua insignificância com a aura de amigo do rei para poder esquecer um pouco de quem era. Marcos. Ele era o Marcos. Tenho ao menos 3 Marcos que amo nessa vida e, se fosse um deles, estaria despedaçada. Se fosse um dos meus filhos, estaria despedaçada. E o problema que não chega a ser um é que estou totalmente despedaçada. Como se fosse um dos meus. Porque É um dos meus. A política do avestruz não funciona por aqui faz tempo. Mas, aparentemente, por aí e para uma imensa maioria das pessoas, funciona muito bem.

Os seres humanos por aí torcendo para o Brasil na Copa enquanto mais agrotóxicos serão ingeridos cotidianamente por cada indivíduo, inclusive pelas crianças. Todas. Não adianta comprar orgânico. Nem deixar de comer frutas, verduras e carnes e passar a comer apenas biscoito e batatas fritas. No final, morremos todos. Alguns sem nem ao menos terem vivido.

Prédios desabam, gente morre soterrada, assassinada, baleada e a massa vai continuar bebendo do próprio veneno enquanto olha para o outro lado, aquele da telinha, e se regozija em passar para a segunda fase. Não é comigo. Foda-se. Mas não se culpem, futebol é jogo, é arte, é coração, é algo que não se explica. Não é hora de fazer política, é hora de comer veneno gritando gol e idolatrando um cara como Neymar. O Brasil é realmente a cara do Brasil.

Imagino o Temer e seus asseclas. Ele é o rei do castelo. Eles são amigos do rei. Não precisam nem mais disfarçar suas crenças ou suas intenções. A violência de seus propósitos é tão abjeta que as pessoas não conseguem percebê-la a não ser como máscara. Piada. Situação passageira e sem importância. O abjeto fragmentado em mil derivados para não revelar a verdade do que é: o terror puro e simples. Hannah Arendt nunca foi tão atual. Deveríamos todos assistir ao julgamento de Eichmann em Nuremberg para quando formos levados a dizer: “mas eu não sabia”, “estava apenas seguindo ordens”. A leveza típica da negação daqueles que preferem se abster em suas vidinhas de poliana ao invés de arcar com o peso insustentável de estarem vivos em um tempo como o nosso. Ninguém quer se responsabilizar por isso que estamos vivendo. Foda-se. A psicanálise nunca foi tão atual e tão indesejável, a nos lembrar incomodamente que, sim, a responsabilidade no final é tão somente sua. Que você saiba ou não.

Mas, tudo bem, não se preocupem. Vocês não estão sozinhos. Palestinos são fuzilados diariamente. Trump separa crianças de seus pais nas fronteiras com o México e as engaiola como no pior pesadelo nazista revivido. Milhares e milhares de refugiados não chegam mais às praias da Europa pois são resgatados, maltratados, violentados, escravizados e reenviados para morrer nalgum canto discreto pelos países que aceitaram fazer o serviço sujo. O verão europeu está garantido, ufa! Como a Copa, Brasil passou para a segunda fase. Vamos tomar uma breja / verre de vin para comemorar?