De tudo e de nada

Tenho aqui para mim mesma que só podemos afirmar que conhecemos mesmo um país quando começamos a pagar impostos. Sim, impostos. Podemos viajar milhares de vezes a um lugar durante as férias, fazer cursos, intercâmbio, pós-graduação, bolsa-sanduíche, período de trabalho como expatriado e o escambau. E cada uma dessas incursões nos dá uma idéia daquele lugar, nos oferece um percurso, uma paisagem, uma descoberta. E retornamos pensando que sabemos bem do que estamos falando ao descrever um outro país quando, na verdade, ficamos apenas a arranhar a superfície.

Veja, não tem problema nenhum. É bom ser turista no país dos outros, é bom conhecer os lugares pelas bordas, é bom voltar com a sensação de ter vivido um pouco de uma realidade que não é a sua. É bom se apaixonar pela vida de outro lugar e guardar em algum canto da memória que ali sim você seria feliz. É maravilhoso ter a sensação do vislumbre, do desvelamento de uma realidade, de uma cultura, de uma língua, de um modo de vida. Por isso que tanta gente viaja e se sente vivo apenas na medida em que viaja. Mas em uma época em que as pessoas falam sobre qualquer assunto sem nenhum constrangimento em relação ao que não conhecem, o número de especialistas do país dos outros onde você passou suas férias, fez seu estágio, curso, pós e afins e do qual você fala de boca cheia como se tivesse descoberto o graal daquele lugar que nenhum outro ser vivente e viajante do seu país entendeu é… bom… imenso. E o problema de toda essa falação é que se criam verdades ocas sobre tantos assuntos e situações que passam a existir enquanto tais em algum universo paralelo no qual tudo pode ser dito e tudo pode ser verdadeiro desde que seja verdade na opinião de alguém. E mesmo que não corresponda a nada do mundo real. Se eu disse, está valendo. Tempos estranhos esses em que aquilo que eu penso sobre alguma coisa vale mais do que aquilo que ela é.

Quando cheguei à França, já tinha daqui a experiência de turista. E conhecia bem aquela França para turista. E achava que tinha entendido o que era a França e o que era a vida por aqui. O fato de falar francês me permitia acessar um pouco mais em profundidade o “ser francês” ou eu assim o imaginava. E foi aos poucos que percebi que o país dos outros a gente descobre, acessa e entende em camadas, como uma cebola, e sem nunca chegar ao cerne. Camadas infinitas de códigos mais ou menos identificáveis e partilháveis com os quais nos confrontamos quanto mais tentamos nos embrenhar nesse outro universo. E quanto mais nos embrenhamos, mais se torna difícil, pois os códigos se tornam mais e mais sutis.

Você pode falar francês, mas isso não significa que você entenda necessariamente o duplo sentido das palavras, os jogos de palavras, os chistes, as piadas de referência. Você não entende, você não capta, sua linguagem é operacional, ela comunica apenas o que ela diz, mas tudo o que jaz sob a ponta do iceberg te escapa como fumaça entre os dedos. Já me disseram uma vez que um estrangeiro é como um autista na língua dos outros, a quem tudo o que é não-literal escapa. Me parece bastante preciso como imagem.

Você faz algo “com o pé nas costas?” Isso não existe na França. Mas aqui eles fazem algo “les doigts dans le nez”. Ainda bem, isso os livros e tutoriais de youtube ensinam. Mas e quando as pessoas jogam com o duplo sentido das palavras? Ou com o som das mesmas que pode dar margem à outros sentidos? E quando a linguagem desliza? É pavê ou pacomê?

Mas então, digamos que você consiga atingir um nível de refinamento que te permite até mesmo acompanhar e rir das piadas em tempo real. E alguém, de repente, no meio da conversa, solta uma frase da qual todos riem. E você… boia.

“Depois de um sono bom, a gente levanta…” Quem quer tomar um café “concreto”? Dentre as tantas coisas compartilhadas pelas pessoas de um mesmo país ou de uma mesma cultura estão, justamente, as referências culturais. As frases, as músicas, os slogans publicitários, a novela das 7… Tudo aquilo que você não tem como entender ou acessar porque, simplesmente, enquanto essas pessoas estavam vivendo mergulhadas nesse caldo francês de signos, você estava vivendo mergulhada em outro caldo, o brasileiro. E isso, não tem youtube, curso de línguas ou leitura de blog de como ser integrado, inserido, (in)descolado no país dos outros que resolva.

Algo te escapa e vai te escapar sempre. E depois que você estiver por muito tempo em outro país, vai começar a te escapar pelos dois lados. Frase cheia de duplos sentidos em português, não? Mas, aqui na França, você teria que explicar a piada.

E isso vale para todo e qualquer mínimo detalhe de uma vida, não apenas para a linguagem falada, mas para tudo aquilo que comunica a respeito de uma cultura, de um lugar, de uma época, de um contexto. Cada pequeno detalhe de uma vida em um outro país traz em si potencialmente uma revelação, um estranhamento, um desconhecimento, um incômodo, uma incompreensão. E cada pequeno detalhe conquistado é como uma grande vitória, uma chave de acesso que garante poder navegar por mais uma camada da tal cebola.

Por isso o estranhamento com os brasileiros que se puseram a comemorar com todo o conhecimento de causa da perspectiva deles e nenhum da perspectiva daqueles de quem estavam falando que a vitória da França na copa do mundo seria uma vitória dos “africanos”. Teve até um norte-americano que se prestou a isso. Como se o prisma pelo qual brasileiros e americanos vivem e entendem o racismo e os gestos anti-racistas fossem válidos na França. E as pessoas donas das suas verdades absolutas querendo discutir o porquê elas teriam razão, mesmo quando os ganhadores em questão estariam afirmando justamente o contrário. Eu sei mais de você do que você mesmo. Você não entendeu nada, ainda não viu a luz.

Isso me lembra a postura de alguns psicanalistas que teimavam e teimam ainda hoje em dia em usar tudo o que você disser contra você. E se você não aceitar, é resistência da sua parte. Alguém te avisou que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que você não detém a verdade absoluta sobre nada? Que tal experimentar deixar o outro dizer dele mesmo com mais conhecimento de causa do que você, mesmo que você saiba que o inconsciente existe? Porque, sejamos honestos, o seu também existe e te prega umas pecinhas de quando em quando, né?

Humildade, minha gente. A gente não está com essa bola toda não.

 

Quem paga o preço?

Nos últimos tempos, especialmente depois da crise político-econômico-social que anda devastando meu querido Brasil, vira e mexe escuto gente dizer que vai mudar de país. França, Itália, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá… Qualquer destino de primeiro mundo com o qual tenhamos alguma familiaridade parece perfeito como válvula de escape de um Brasil caótico, violento e avacalhado. Nessas horas, as pessoas se lembram dos amigos que moram fora e vez ou outra decidem ter essa conversa comigo. Aí é que é bom… país de m-primeiro mundo, gente educada, povo civilizado. Então eu lanço mão daquela perguntinha capciosa que qualquer pessoa honesta que more em outro país se vê na obrigação de fazer quando um de seus compatriotas cogita vir para cá: “sim, sim, é tudo muito bom mas, diga lá, você aceita pagar o preço?”

Viver em um país civilizado tem um preço e, lamento dizer, custa caro. Sim, caro financeiramente e mais caro ainda em termos de mudanças de hábitos e de costumes.

Um exemplo: é época de declarar imposto de renda por aqui. Como aí. Mas diferentemente daí, pelo menos 25% do que eu ganho como profissional liberal já foi pago em encargos sociais. O quê? Sim, isso mesmo que você leu: encargos sociais. Aquilo que a gente paga para financiar todos os benefícios sociais de um país, como saúde pública, educação, auxílios sociais, aposentadoria… Pois é, 1/4 do que eu ganho paga os benefícios aos quais eu e mais todas as outras pessoas daqui teremos direito a usufruir. E ainda nem comecei a falar de impostos. Porque esses vão levar mais ou menos uns 10% do que eu ganhei. Para pagar toda a estrutura que existe por aqui. Segurança, infra-estrutura, cultura…

Imagino que existam pessoas que soneguem imposto por aqui. Mas é algo tão ínfimo, mas tão ínfimo que quando sua declaração mostra que você tem direito a uma restituição, ninguém te chama no equivalente da receita federal para você prestar contas. Ninguém desconfia que você poderia estar dando um truque. Eles te mandam um cheque que chega na sua casa pelo correio e que ninguém rouba, pasmem! E junto do qual vem uma cartinha-tipo do diretor da receita dizendo que eles estão felizes em te enviar aquele cheque. Felizes. De te enviar um cheque de restituição. Porque é seu direito. Percebe? Um modo de funcionar baseado na confiança em que cada um vai fazer a sua parte em nome de um bem comum que vai beneficiar a todos.

Aqui todo mundo tem direito aos benefícios sociais. Sabe aquele bolsa-família que você despreza no Brasil como se fosse uma esmola dada para vagabundo? Então, aqui o equivalente disso é creditado na conta de toda família que tem filhos, de acordo com sua renda. Toda família. Rica ou pobre. Com um filho ou com dez. Proporcionalmente. Percebe o que é uma mentalidade na qual se compreende que é importante dividir um pouco dos benefícios criados por todos entre todos? Porque é isso que vai diminuir as desigualdades e criar uma sensação de justiça e de proteção. É o que vai dar às pessoas a convicção de que elas contam. Ou seja, é isso que vai fazer com que você possa sacar seu telefone celular último tipo no meio do metrô lotado no final do dia sem que ninguém arranque ele das suas mãos e saia correndo. Não tem assalto? Tem. Não tem roubo de carteira, celular, máquina fotográfica no metrô? Tem. Mas você pode usar seu celular no metrô. E sua máquina fotográfica pode ficar pendurada no pescoço quando você está turistando no meio da rua olhando para todos os lados como um abestado. E você pode abrir sua carteira no meio da rua para procurar uma moeda. E você pode andar com brinco, anel, colar. Em tudo quanto é lugar.

Sabe o que é isso? Eu, vivendo em São Paulo, não sabia. Isso é o que você ganha quando aceita pagar o preço de viver em um mundo mais justo do que aquele em que vivemos no Brasil. Isso é o que você ganha quando aceita que sua empregada doméstica tem a filha na mesma escola que você, tira férias como você, viaja de avião, tem carro, ganha 10€ por hora, é registrada e não tem nenhuma obrigação de limpar a merda que você deixa na privada ou de recolher suas meias sujas pela casa.

Então me soa bem estranho quando escuto as pessoas dizendo que vão morar aqui. As mesmas pessoas que desprezam os benefícios sociais e as pessoas que deles usufruem e que aplaudem a retirada dos mesmos e dos poucos direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas. E que acham que quem paga imposto é otário e arrumam mil gambiarras para sonegar tudo o que for possível. E que se justificam com a balela do “por que vou pagar se não tenho nada em troca?” E que preferem não pagar do que reivindicar saúde e educação de qualidade nos serviços públicos. E utilizá-los.

Infelizmente no Brasil crescemos com uma mentalidade meio perversa segundo a qual o mundo teria que mudar para então começarmos a agir certo. Porque o mínimo deslize do lado de fora de nós justificaria que possamos continuar a fazer tudo do jeito que queremos. No dia em que o país mudar a gente para de ser desonesto, né? Pois é, não. Não é assim que a coisa funciona. No dia em que você parar de ser desonesto você terá começado uma mudança. E então poderá exigir do mundo ao seu redor que ele também mude. Pague o preço.

 

As belezas daqui…

Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que eu iria viver em um vilarejo de cerca de 300 habitantes e, ainda por cima, que iria adorar, eu trataria a pessoa de louca. Na minha cabeça urbana cosmopolita workaholic nunca existiu espaço para imaginar que a vida poderia ser outra coisa que prédios altos a perder de vista, gente saindo por todos os lados, 12 horas de trabalho, carro, casa, carro, consultório, carro… Mesmo tendo passado todos os verões da minha infância e juventude na beira do mar e todos os invernos no meio do mato. Mesmo sentindo o bem que me faziam esses momentos misturados de quebra de rotina e imersão na natureza. Mesmo tendo pensado, em algum momento, em morar no interior de São Paulo sem nunca realmente fazer algo de concreto nesse sentido… Não. Precisei vir para o “centro do mundo” para conhecer o alento que é poder sair de casa e ter um horizonte no qual pousar os olhos. Horizonte assim, com montanha, com mar, com céu, com sol, com nuvens…

O caminho que sai do vilarejo até levar as crianças na escola e eu ao trabalho passa por montanhas baixas. Cercado de vinhedos dos dois lados, acompanhamos o trabalho dos vinicultores todos os dias. As flores começam a aparecer pelas amendoeiras selvagens nas bordas da estrada. São rosadas e têm um perfume enlouquecedor de bom. Depois vêm as flores brancas esparramadas pelos campos, as amarelas, algumas azuis quase violetas… Cada um com seu cheiro, disputando a preferência de abelhas e outros insetos que começamos a ouvir zumbir por todo lado. É a vida que reaparece depois do inverno, que é longo.

O Canigou, a montanha mais conhecida da região e sua forma de dente de cachorro aparecem lá no fundo, uma imponência branca de neve que ainda não derreteu, contraste entre a vida que a primavera anuncia e o inverno que ainda não se foi por completo. Essa montanha que você reencontra em vários percursos que faz ao longo do dia, como a visão do Corcovado e do Cristo que se tornam um porto seguro do olhar de quem mora e se desloca pelas ruas do Rio de Janeiro. Cada esquina a surpresa apaziguadora de trombar com o Cristo ali no alto. Cada curva de estrada e a surpresa de reencontrar essa montanha.

De um lado, as montanhas seguem enevoadas até que uma pequena se destaca, ali onde chamam de Força Real. Sobre ela uma antena, duas construções de épocas diferentes, uma delas um antigo monastério e uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos incrédulos já descobriram nessa vida. Montanha, mar, neve, sol, inverno, verão, tudo ali num único giro de 360°. Do outro lado, as montanhas seguem até o mar, não sem antes desfilar suas torres antigas, como a Madeloc. Quando o dia é bonito, pode-se ver até a Espanha.

Nos aproximamos e nos afastamos da montanha, percorremos planícies, plantações, vinhedos, atravessamos por sobre o rio Têt, mais montanhas, mais planícies, os ângulos mudam sobre a paisagem que nos cerca, sempre a mesma e sempre tão diferente. Cada dia é uma nova luz, cada dia permite a descoberta de um ângulo, de um detalhe. Difícil ficar imune a um tal antídoto contra a ansiedade, a tristeza ou a raiva. Não sei se seria capaz de voltar a viver longe da natureza.

Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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Coisas que os brasileiros pensam que conhecem… – parte 1 (O inverno)

… mas não sabem mesmo o que é até morar por aqui. E que eu amei descobrir.

Decidi começar por uma das minhas preferidas, o Inverno. Porque eu AMO o inverno. Amo o frio, a neve, mesmo depois de tanto tempo por aqui. E mesmo tendo coisas que detesto no inverno. E, te prometo, eu não sabia o que era inverno antes de morar na França, mesmo já tendo viajado por países frios em períodos invernais.

Inverno mesmo, temperaturas em graus negativos, quando faz perto de 10°C você pensa: nossa, que dia ameno! Sim, esse inverno da neve, do vento invernal e infernal, que a gente idealiza como uma romântica declinação das férias de julho em Campos, com um chocolate quente numa mão, um fondue na mesa de centro e muita lenha na lareira até que…

Talvez os estados e as cidades bem ao sul saibam do que se trata mas a imensa maioria de nós, brazucas, não sabemos o que é inverno de verdade até vir morar num país frio. Inverno que dura muitos meses no ano, com dias curtos, você sai pela manhã para o trabalho e é noite, você sai do trabalho no final do dia e é noite e você passa um bom tempo vivendo de noite a maior parte do tempo. Seu relógio biológico fica maluco e você fica com sono às 5 da tarde e quando o despertador toca pela manhã você não acredita que são 7 horas. As pessoas por aqui deprimem no inverno, reclamam do escuro, do cinza, não querem sair.

Nos meus dois primeiros anos eu achava isso uma bravata, tinha um pique interminável para ganhar as ruas e conhecer tudo o que a novidade parisiense me oferecia. No terceiro ano entendi. Tem um aspecto biológico aí, a falta da vitamina D que é produzida pela pele quando tomamos sol e que tem uma influência no humor e nos estados depressivos. E tem uma porção de aspectos emocionais, sociais, culturais.

A vida do inverno é mais para dentro, dentro das casas, dentro dos lugares aquecidos. Quanto mais frio, menos tempo se passa na rua. As pessoas continuam a viver suas vidas, fazem muito mais coisas do que nós, brazucas, nos animamos a fazer no nosso inverno. Aqui não é comum deixar de levar filho na escola porque está frio ou porque nevou. Se fosse assim, as pessoas passariam um bom tempo a cancelar compromissos. Mas mesmo que a vida continue, ela tem o aspecto de um urso hibernando na sua caverna. Quem fica errando de bobeira na rua por horas a fio, em pleno inverno, é turista.

Em um dos meus anos parisienses, minha tia passou um tempo comigo nessa época do ano. Todo dia olhávamos pela janela do apartamento antes de sairmos pela manhã, eu para trabalhar, ela para passear. Todo dia era cinzento, feio, úmido, desencorajador. Até que amanhece um dia lindo de sol e céu azul. O termômetro marca -7°C. Ela se empolga com o dia bonito e decide sair para passear na rua. Eu, já calejada, aviso: vai estar muito frio. Imagina, dia lindo! OK. Ela retorna meia hora depois para acrescentar umas camadas. Dia lindo de sol e céu azul e temperatura muito baixa é dia daquele frio que faz doer os ossos. O que me leva a uma outra constatação sobre nós, brazucas e o inverno…

Não sabemos nos vestir para o frio. Você está em Paris de férias em dezembro ou janeiro, feliz da vida com o glamour e a elegância parisienses e tão a fim de se misturar na paisagem que prepara sua mala com todos os nossos itens essenciais de inverno brasileiro? Não. Sinceramente, não.

Não para aquelas botas de salto maravilhosas. Não para os cinco casacos, cada um de uma cor. Mulher andando nas ruas da França como se fosse modelo de capa da Vogue ou é turista ou é… modelo de capa da Vogue. O que quer dizer, possivelmente, uma pessoa rica que vai apenas sair do carro na frente do restaurante descolado em que vai almoçar para entrar no mesmo carro logo em seguida, no qual o motorista a aguarda para transportá-la ao compromisso seguinte. Nós, reles mortais, andamos na rua, encaramos o vento, a chuva, a neve nos pés, no rosto, nas mãos. Pegamos metrô, ônibus, carro estacionado longe. Na vida real do inverno, sapato tem que ser quente, confortável, anti-derrapante e bom para durar alguns anos porque custa caro. Casaco é um, impermeável, quente, do tipo que encontramos em países onde existe inverno e, quando encontramos no Brasil, custam uma fortuna desencorajadora. Vestir-se para o inverno é colocar algo por baixo da calça, meia quente, uma camiseta ou camisa ou aquilo que você vai querer mostrar quando entrar nos lugares. Dentro dos lugares a calefação obriga a tirar o super casaco e você fica de camisa, camiseta ou com algo por cima disso, um blazer, um pull, uma peça quentinha mas não muito.

O inverno me ensinou a me vestir e, principalmente, me ensinou que proteger as extremidades é fundamental. Sair na rua de cabelo molhado como eu fazia em tempos brazucas? Suicídio. Gorro, cachecol para proteger o pescoço e o queixo e às vezes até a boca e o nariz do frio, luvas… tudo isso se coloca antes de sair para a rua. A gente sai para o inverno pronto, coberto, enrolado e tudo o que for preciso. Se arrumar na porta de casa é incômodo e, com crianças, é pedir para escutar choradeira. Criança com frio chora, se irrita. Fora que eles perdem temperatura muito mais rápido do que os adultos porque são menores, então a atenção precisa ser dobrada. E os bebês que mal se mexem, deitados em carrinhos… aí é risco triplicado e é preciso ter muita atenção. Normalmente o indicado é cobrir como nos cobrimos e, com bebês que vão ficar parados em carrinho, colocar uma camada a mais, uma coberta por cima ou um daqueles equivalentes dos sacos de dormir feitos especialmente para carrinhos de bebê. Quando o pequeno vai no sling ou no porta-bebê não precisa de tanto, porque ele compartilha do calor do nosso corpo. Não cobrir demais, não cobrir de menos, não deixar as crianças todas encapotadas no carro, no restaurante ou onde for porque é mais fácil para o adulto que tem um trabalhão para cobrir e descobrir pequenos mil vezes ao dia, contando com as rebeliões contra luvas, gorros e cachecóis e é só um minutinho, que mal faz… Criança superaquecida passa mal, chora, vomita… Não, morar em país frio é aprender a se vestir e aprender a vestir os pequenos e a aceitar toda lenga-lenga do cobre descobre que se repete centenas de vezes em um único dia. O que me leva a uma outra coisa que aprendi com o inverno…

Calefação. Palavrinha mágica, linda, alentadora, que faz as temperaturas subirem acima dos 20°C quando faz menos de 0 lá fora, dia e noite… Nos meus primeiros tempos parisienses, meus amigos franceses brincavam comigo dizendo que chegar na minha casa era como chegar nos trópicos. Era sempre verão por ali. Todo mundo de camiseta regata, feliz, tomando caipirinha… Só que não é assim que funciona.

Primeiro porque lugares superaquecidos fazem um mal danado para a saúde. Você lembra da sua avó que gritava da janela te mandando colocar um casaquinho para não tomar friagem? Então, sua avó tinha razão. Só que não é o frio que te deixa doente. É o monte de bactérias e vírus acumulados nos lugares quentinhos e mal arejados das casas e afins que ninguém abre uma janela do inverno. E quanto mais quente, mais os bichinhos gostam e se proliferam. Então, uma casinha a 18°C, 19°C quando faz grau negativo lá fora já é bem bom. E te permite usar todos os casaquinhos de inverno leves. E as botas. E tudo que não dá para usar na vida real. Fora que todos dormem melhor com o ar fresco e o cobertor quentinho por cima. Tem coisa melhor do que dormir enrolada num cobertor quentinho?

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Os cabeça-de-vento

Aqui nos Pirineus Orientais venta. Muito.

Os ventos daqui têm nome tamanha a intimidade que adquirimos com eles. Como os furacões nas regiões do mundo onde são frequentes. Têm aqueles ventos marinhos, que sopram do mar para o continente. Têm os que fazem o caminho inverso. Têm os que levam as nuvens para longe. E os que fazem os dias quentes esfriar. É tanto vento que essa é a região onde existem os mais importantes campos de energia eólica da França. Hélices girando fazem parte da paisagem. E é por aqui também que a Airbus testa seus aviões contra as intempéries. E onde os pilotos aprendem a manobrar em condições adversas.

Para mim, vento sempre foi vento. Aquela brisa na beira do mar que ajuda a respirar em dias quentes. Aquele sopro friozinho em dias de inverno que gela a ponta do nariz e avermelha as bochechas. Vento, aquele fenômeno simpático e reconfortante… Até ser apresentada à Tramontane.

Ele vem dos Pirineus para o mar e é um vento forte, violento, frio. O inverno que não é tão rigoroso por essas bandas fica intolerável quando a Tramontane se levanta (aqui os ventos fazem a beleza de se levantar, como as ondas). Que casaco, que gorro, que luvas, que cachecol são capazes de evitar quando esse sopro dos infernos dos invernos mais gelados decide acariciar sua pele desesperada sob mil camadas que viram uma prisão de onde não se consegue fugir e da qual seu cérebro só é capaz de enviar a mensagem: socooooooorro!? 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto e você já começa a se questionar sobre o significado da existência. 100 quilômetros por hora de açoites frios sobre seu rosto quando você tem caminhar contra um muro de gelo com duas crianças pelas mãos para chegar em algum lugar imprescindível? A vida na Zooropa perde qualquer glamour.

Só que as duas crianças em questão adoram vento. A. DO. RAM. Não há argumento que os convença a colocar um gorro e acabo tendo que lidar sozinha com a angústia extrema de ver cabelinhos loiros como o trigo e cabelinhos castanhos cor de mel esvoaçarem para todos os lados envoltos de sorrisos e de olhos que deixam lágrimas escorrer (vento frio faz algumas pessoas lacrimejarem). Enquanto eu só consigo maldizer o tal sopro de Éole, meus cabecinhas de vento avançam quase agachados pelas ruas. E as palavras da minha avó retornam: “sai do vento, não toma friagem, vai ficar doente, menina!”

As pessoas que nasceram por essas bandas amam o vento. Conheço um que sobe a montanha em dia de vento forte para “arejar as idéias” e “desanuviar”. Outro que fica triste quando não venta por um longo período. Dizem que as pessoas enlouquecem com a Tramontane. Viver em um mundo no qual o vento revira a cabeça das pessoas…

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Da cidade grande para o meio dos vinhedos – parte 2

Então, como veio a paulistana parisiense parar no meio dos vinhedos do sul da França?

Aquilo que move as pessoas que se instalam em um outro país não foge muito de uma dessas opções: fugir de um ambiente marcado por algum conflito ou guerra, buscar uma condição vida melhor – sobretudo economicamente, propostas de trabalho e/ou de estudos mais ou menos temporárias, situações afetivo-familiares. Meu caso é esse último: fiquei por conta dos assuntos do coração. E como o cara-metade mora aqui no Sul, e como meu projeto de pós-doutorado parisiense terminou, e como decidimos ter um filho… a solução mais razoável era a de que eu viesse.

Eis-me aqui, na região dos Pyrénées-Orientales, uma das regiões mais ao sul da França, na fronteira com a Espanha. Entre o mar e a montanha. Por montanha leia-se os Pirineus, vulgo montanha de verdade, com direito a altas altitudes, neve e pista de ski no inverno. Natureza. Muita natureza. Das grandes megalópoles para a maior cidade dessa região foi como sair de um lugar habitado para, digamos, o meio de um deserto?! O choque total…

É bem simples: você quer sair num domingo e está tudo fechado. Você quer ir a um restaurante numa segunda-feira e 99% deles estão fechados. Você quer ir ao supermercado e ele está… fechado. A farmácia? Fechada. As lojas? Fechadas, muitas delas, do meio dia às 15 horas. Todos os dias. Porque as pessoas fazem a siesta. No inverno? Ruas vazias. No verão? Praias cheias demais. E, no entanto…

Foi minha pequena que me ensinou alguma coisa também nesse ponto. Muito antes do segundinho chegar, examinando de perto cada florzinha, cada folha, caminhando tranquilamente pelo parque, feliz sob o sol, em meio à natureza. A alegria dessa conexão me fez perceber que um lugar pacato poderia ser o melhor lugar para se viver. Sobretudo com filhos pequenos. Existem coisas mais importantes que restaurantes descolados e galerias de arte. Ao menos para mim. E para eles. Mesmo que seja tão legal ir a bons restaurantes. E ter milhares de filmes à disposição nos muitos cinemas da cidade. E poder ir ao supermercado às dez da noite. É legal mas… é disso tudo que uma pessoa precisa realmente?

E qual não é minha surpresa quando a oportunidade de mudar do apartamento no centro da cidade pacata para uma casa me faz encontrar uma num vilarejo de pouco mais de 200 pessoas em meio aos vinhedos. Mais calmo que isso só se fosse um bangalô no meio do mato. Ah, mas aqui não tem mato. Nem bangalô. Tem refúgio de pedra na montanha, serve?

Dizem que a gente não encontra o que procura, mas o que necessitava mesmo sem o saber. Aqui encontramos.

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