Flores e pedras

Ele tem alma de artista. Dá para perceber pela névoa espessa e inquieta que atravessa seus olhos cada vez que eles encontram o olhar daquele com quem fala. As palavras saem como canção fluída, como um rio e se atrapalham apenas no encontro dos olhares. Aí ele fica opaco, os olhos brilham e se escondem. Uma conexão perturbadora, daquelas que dá vontade de continuar em conversa, refazer o mundo contando histórias. Mas não.

Houve quem acreditasse que a vida deveria ser feita em torno dessa conexão, que esse encontro é raro demais para não se fazer nada dele. Há quem se move a partir dos encontros mais significativos, busca de uma vida que seja plena de sentido, nenhum gesto desperdiçado. Será o tempo ou a própria vida que fazem com que não se acredite mais? Em outros tempos, esse encontro seria decisivo.

A fala que flui como música tem todo um cenário, um cheiro de madeira úmida, o mesmo que cola no fundo na garganta, um fundo de cereja naquilo que, na superfície, é rocha. Cereja ou pêssego, nunca sei ao certo. Mas eles certamente se encontram em algum lugar de suas diferenças. Frutas escondidas na rocha seca, áspera, pegajosa. Um oásis no deserto, um encontro de frutas escavadas em meio às pedras secas, como uma mão desesperada que cava em busca de vida, um homem à beira da morte que precisa estar vivo, precisa sentir a vida pulsar ali, no meio do peito, mesmo que isso custe tudo o que ele tem e tudo o que ele não viveu. Como quem procura no fundo de um copo a redenção derradeira, a verdade enfim revelada de si mesmo, a sensação única e fugaz de estar ali, presente, inteiro.

Uma flor nasce no meio de um calhau de pedras. Como deflorar, como desabrochar delicadeza no lugar mais improvável. Como não destruir flores que nascem no deserto? Como ser flores fortes que resistem a tudo disfarçadas de rocha, mascarando sua extrema delicadeza? Um artista saberia o segredo?

Ele diz e se esconde. Ele se cala. Porque dizer demais é desdizer o mais importante. E porque talvez nem ele mesmo saiba o que está dizendo quando não diz. Ele tem alma de artista, mas ele procura também. Ele escava entre as pedras em busca da mesma verdade que oferece quando fala. Ele a possui, mas ela lhe escapa e por isso precisa procurá-la novamente. E assim, a cada estação, lá se vai ele entre os campos a procurar.

Eles brincam.

Temos aqui um jardim. E eles brincam. Muito.

Antes, vivendo em apartamento meio sombrio no centro da cidade, a bagunça era maior, brinquedo jogado para todo lado, crianças pulando e gritando, nervosas e entediadas ao longo do dia, precisávamos sair para tomar ar, sol, desanuviar.

Então veio a campagne, o jardim, o sol entre as folhas, as estações do ano entrando pelas janelas.

A natureza tem um efeito direto e quase mágico sobre as pessoas. Pena que nos esquecemos disso empilhados uns sobre os outros, sem horizonte a respirar ar de escapamento. A luz que entra pela janela de manhã regula o sono, o frescor da brisa batendo nas ventas desperta e traz energia, o verde acalma a respiração e o peito.

As crianças acusaram a mudança. Os brinquedos ficam mais arrumados, as explosões motoras acontecem lá fora. Elas descobrem os insetos, as plantas, os ritmos e os sons do cotidiano no campo. O terraço vira a varanda de um castelo, os galhos de árvore viram espadas em um duelo, eles querem plantar as flores e ficam felizes quando descobrem os morangos avermelhando na horta.

Agora mesmo tem um passarão preto pesando em um galho da cerejeira selvagem que, até poucas semanas atrás estava coberta de flores rosas e de um perfume delicado e estonteante. Ele se joga de um galho ao outro e as árvores sacodem de tão brutal visita.

Sim, as crianças assistem filmes na TV. E brincam com seus brinquedos. O pequeno ama os quebra-cabeças e pode passar uma boa hora montando e desmontando 20 peças sobre o tapete da sala. Ou então enfileirar todos os animais de sua arca, imitando o som de cada um deles. Ambos dançam quando a música preenche o espaço, rodando e criando passos insuspeitos recém saídos de seus corpos criativos. Ela ama desenhar, pintar e, principalmente, escrever os nomes. Descobrir as letras que fazem um nome faz com que ela ria, mistério das coisas que viram palavras. Eles pedem que leiamos estórias e depois recontam um ao outro folheando os livros. E brincam.

Lá foram se jogam na rede, guardando o pedaço de brasilidade que lhes cabe e que os aproxima da infância que eu vivi, ao menos um pouquinho. Brincam de casinha e inventam mil cenas curiosas entre leões, unicórnios brilhantes, heróis, princesas, bichos, monstros. Ela por vezes o arrasta pelo braço para seu mundo e ele concorda em participar. Noutras não quer, vai fazer sua vida ali do lado, fascinado por alguma descoberta que insiste em partilhar conosco. Olha, mamãe, olha! Olha, mamãe!

Dizer que a vida é melhor no campo pode parecer coisa de baba cool abestalhado e talvez seja. Porque a vida no campo é mais dura que isso para quem trabalha no campo. Basta ver a rotina dos produtores de vinho daqui para entender que é zero glamour e muito suor. Mas experimentar uma vida melhor, mais simples e mais rica vivendo próxima e com a natureza é legítimo, mesmo para uma urbanóide de toda a vida como eu. Basta ter sensibilidade e abertura para perceber a diferença.

O passarão está ali petiscando pelo chão. E agora voltou a fazer terremoto sobre as árvores. Olha, crianças!

Guernica

Tinha uma reprodução da Guernica em casa quando eu era criança. A pintura em preto, branco e tons de cinza me incomodava. Menina, gostava do que é belo e o belo era o clássico, o tradicional, de fácil digestão.

Picasso me perturbava, aquele quadro me perturbava, dos ismos todos, o cubismo era o que mais me irritava. Mal sabia eu que arte boa é essa que irrita, perturba, incomoda… E permanece. Estava na sala e ali estavam aquelas figuras a me espreitar. A vela com a sombra triangular cinza, o grito da mulher, o bebê. Deitada no sofá em frente à TV e eles todos por ali, como o lugar para onde o pensamento retorna na hora do intervalo. Meus pais gostavam de Picasso, gostavam da Guernica, do cubismo, das vanguardas… Por isso o quadro. Eu não. Eu não entendia nada.

Cresci com esse quadro em casa.

Um dia minha irmã, que sempre foi muito melhor do que eu em tudo, em uma visita a um museu me apresentou a um outro ismo. E diante das instalações de Duchamp me explicou o quanto aquela janela era genial. Olhei, olhei… E vi. Nesse dia começou minha história de amor com a arte. E alguns daqueles quadros tornaram-se tão importantes na minha vida quanto o ar que eu respiro. Perfeitas traduções de mim, das minhas entranhas, do humano demasiado humano em mim e em toda gente.

Em uma viagem à Madrid com ela- sempre ela- passeávamos pelo Reina Sofia. Um misto de atenção flutuante, cansaço de viagem longa de férias de verão, coisa que sempre adoramos fazer juntas. Os corredores do Reina Sofia são um pouco escuros, bem largos, abrigos frescos em dia de verão, contornam um jardim e você os contorna olhando mais para dentro que para fora.

E eis que chegamos ali. Naquela sala. Não sei se minha irmã sabia. Eu não. Na parede estava ele. O quadro. Imenso. Uma imensidão de cinza, branco e preto gritando enorme naquela parede de museu. A Guernica.

Me vi menina minúscula olhando aquele quadro imenso. E entendi o amor dos meus pais por aquele quadro, instantâneo eterno de uma guerra, de uma ditadura, de uma injustiça. O medo, o desespero. A fatalidade. Não é dramático. Não é triste. É um fato seco, surdo, uma arma que dispara e a vida implacável que se impõe e que se estanca.

Gostei e desgostei de Picasso mil vezes nos últimos anos. Gostei e desgostei dos ismos por diversos motivos. Vim para a França fazer pesquisa em arte e psicanálise. Conheci o cara-metade. Mudei para o sul da França.

Aqui estamos nos Pirineus Orientais, vulgo Catalunha do Norte para os locais. Durante a guerra civil espanhola que bombardeou a cidade de Guernica matando milheres de civis, muitos cruzaram a fronteira e vieram se refugiar por aqui, cruzando os Pirineus com frio e fome para serem alojados em campos, um episódio nada glorioso da história francesa que às vezes esquece que foi palco da declaração dos direitos humano. Como ultimamente em relação aos refugiados.

Picasso era catalão. Dali também. Guernica fica no País Basco, outra região de conflitos e de defesa de uma identidade outra que a espanhola. Muitos artistas das vanguardas se refugiaram por essas bandas daqui, em Collioure, em Ceret ou do outro lado da fronteira, em busca das paisagens vertiginosas entre montanha e mar, das cores e da luminosidade indescritíveis. Minha filha e meu filho nasceram aqui. São franco-brasileiros. E são catalães segundo os donos do lugar.

O Brasil voltou a ser uma ditadura e quase ninguém viu. Nesses últimos tempos muitas mães brasileiras gritaram o horror de seus filhos mortos. Entre Marielle, o menino baleado no carrinho de bebê, o prédio incendiado no centro de São Paulo e o dia das mães do domingo passado, Guernica nunca foi tão atual.

Ano passado fomos os 4 para Madrid. Percorri lugares conhecidos e descobri novos, nessa cidade que é tão despretensiosa e tão pulsante. Fiz questão de apresentar minha filha e meu filho às Meninas de Velásquez, ao Jardim das Delícias de Bosch e à toda série negra de Goya. E fomos também ao Reina Sofia.

Lá, passeamos pelos corredores frescos. Adiei o climax por um tempo, só para prolongar o prazer da descoberta. Fui mostrar a Guernica aos meus filhos.

Naquela sala a mesma sensação de reencontrar pela primeira vez o que se conheceu a vida inteira. O estrangeiro familiar. O reencontro com aquele quadro, a casa dos meus pais, as cores, os cheiros, a minha infância e a minha adolescência. Meus pais deram o seu melhor. O reencontro com a minha irmã, aquela conexão que faz o coração doer da distância atual. Meus filhos sentados no chão e eu contando a história. Uma história que passa de geração em geração, minha filha com os olhos brilhando cheios de questões, meu filho em silêncio a contemplar o touro e o cavalo. A vida tem uns caminhos curiosos que te fazem habitar dentro de um quadro de devastação para poder semear depois.

Parabéns, Sis. Te amo.

Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

As belezas daqui…

Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que eu iria viver em um vilarejo de cerca de 300 habitantes e, ainda por cima, que iria adorar, eu trataria a pessoa de louca. Na minha cabeça urbana cosmopolita workaholic nunca existiu espaço para imaginar que a vida poderia ser outra coisa que prédios altos a perder de vista, gente saindo por todos os lados, 12 horas de trabalho, carro, casa, carro, consultório, carro… Mesmo tendo passado todos os verões da minha infância e juventude na beira do mar e todos os invernos no meio do mato. Mesmo sentindo o bem que me faziam esses momentos misturados de quebra de rotina e imersão na natureza. Mesmo tendo pensado, em algum momento, em morar no interior de São Paulo sem nunca realmente fazer algo de concreto nesse sentido… Não. Precisei vir para o “centro do mundo” para conhecer o alento que é poder sair de casa e ter um horizonte no qual pousar os olhos. Horizonte assim, com montanha, com mar, com céu, com sol, com nuvens…

O caminho que sai do vilarejo até levar as crianças na escola e eu ao trabalho passa por montanhas baixas. Cercado de vinhedos dos dois lados, acompanhamos o trabalho dos vinicultores todos os dias. As flores começam a aparecer pelas amendoeiras selvagens nas bordas da estrada. São rosadas e têm um perfume enlouquecedor de bom. Depois vêm as flores brancas esparramadas pelos campos, as amarelas, algumas azuis quase violetas… Cada um com seu cheiro, disputando a preferência de abelhas e outros insetos que começamos a ouvir zumbir por todo lado. É a vida que reaparece depois do inverno, que é longo.

O Canigou, a montanha mais conhecida da região e sua forma de dente de cachorro aparecem lá no fundo, uma imponência branca de neve que ainda não derreteu, contraste entre a vida que a primavera anuncia e o inverno que ainda não se foi por completo. Essa montanha que você reencontra em vários percursos que faz ao longo do dia, como a visão do Corcovado e do Cristo que se tornam um porto seguro do olhar de quem mora e se desloca pelas ruas do Rio de Janeiro. Cada esquina a surpresa apaziguadora de trombar com o Cristo ali no alto. Cada curva de estrada e a surpresa de reencontrar essa montanha.

De um lado, as montanhas seguem enevoadas até que uma pequena se destaca, ali onde chamam de Força Real. Sobre ela uma antena, duas construções de épocas diferentes, uma delas um antigo monastério e uma das vistas mais deslumbrantes que meus olhos incrédulos já descobriram nessa vida. Montanha, mar, neve, sol, inverno, verão, tudo ali num único giro de 360°. Do outro lado, as montanhas seguem até o mar, não sem antes desfilar suas torres antigas, como a Madeloc. Quando o dia é bonito, pode-se ver até a Espanha.

Nos aproximamos e nos afastamos da montanha, percorremos planícies, plantações, vinhedos, atravessamos por sobre o rio Têt, mais montanhas, mais planícies, os ângulos mudam sobre a paisagem que nos cerca, sempre a mesma e sempre tão diferente. Cada dia é uma nova luz, cada dia permite a descoberta de um ângulo, de um detalhe. Difícil ficar imune a um tal antídoto contra a ansiedade, a tristeza ou a raiva. Não sei se seria capaz de voltar a viver longe da natureza.

Quem gosta de vinho?

 

O vinho segue os ritmos e os caprichos da natureza e o inverno é a época da poda, da taille. O primeiro gesto que o vigneron faz para preparar as vinhas para a colheita do ano. Então, todas as manhãs quando saio com as crianças para a escola, a paisagem de vinhas é entremeada de carros esparsos estacionados em estradas de terra. E um ou dois indivíduos que se movem lentamente entre as vinhas, meticulosamente cortando alguns galhos, num gesto preciso. As vinhas adquirem variadas formas, uns galhos finos brotando dos pés, uns galhos compridos, outros tão curtos… A paisagem das vinhas nessa época é em tons de marrom e ocre, sem folhas, sem flores, sem frutos, apenas as linhas retas da terra revirada, os fios, as vinhas… A montanha nevada ao fundo e as amendoeiras em flor dizem que nesse encontro de estações alguma coisa germina. Alguma coisa se prepara.

O primeiro vinho pelo qual me apaixonei nessa região foi o vinho de Collioure. Como se não bastasse a essa cidadezinha ser uma das mais charmosas da região, na beira do mar, cheia de estreitas ladeiras e construções antigas, Collioure com seu exclusivo farol, seu forte no centro da cidade impressiona artistas desde os 1900. Encantados pela luz, pelas cores, pela paisagem, pelo magnífico encontro entre montanha e mar, não poucos ali se instalaram, de maneira mais ou menos perene, a pintar a beleza contida de uma cidade encravada entre o azul do mar, a tour Madeloco solo rochoso entre o preto acinzentado e o marrom sanguíneo, tudo sempre mais explosivo e monumental do que ela. E as vinhas… Collioure é cercada de vinhas penduradas em montanhas íngremes e impossíveis, um capricho do homem a se impor em lugares tão improváveis. E o vinho desse lugar… Os tintos são poderosos e deixam uma lembrança longa na boca. Sem pesar, sem amargar, eles são redondos e ricos, uma benção. E os brancos… ah, os brancos. Amar vinhos brancos foi algo que descobri aqui na França, eles têm gostos tão variados, tão surpreendentes. E os de Collioure são cheios de sabor.

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Para saber mais sobre a taille. Outro texto.

Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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Da cidade grande para o meio dos vinhedos – parte 2

Então, como veio a paulistana parisiense parar no meio dos vinhedos do sul da França?

Aquilo que move as pessoas que se instalam em um outro país não foge muito de uma dessas opções: fugir de um ambiente marcado por algum conflito ou guerra, buscar uma condição vida melhor – sobretudo economicamente, propostas de trabalho e/ou de estudos mais ou menos temporárias, situações afetivo-familiares. Meu caso é esse último: fiquei por conta dos assuntos do coração. E como o cara-metade mora aqui no Sul, e como meu projeto de pós-doutorado parisiense terminou, e como decidimos ter um filho… a solução mais razoável era a de que eu viesse.

Eis-me aqui, na região dos Pyrénées-Orientales, uma das regiões mais ao sul da França, na fronteira com a Espanha. Entre o mar e a montanha. Por montanha leia-se os Pirineus, vulgo montanha de verdade, com direito a altas altitudes, neve e pista de ski no inverno. Natureza. Muita natureza. Das grandes megalópoles para a maior cidade dessa região foi como sair de um lugar habitado para, digamos, o meio de um deserto?! O choque total…

É bem simples: você quer sair num domingo e está tudo fechado. Você quer ir a um restaurante numa segunda-feira e 99% deles estão fechados. Você quer ir ao supermercado e ele está… fechado. A farmácia? Fechada. As lojas? Fechadas, muitas delas, do meio dia às 15 horas. Todos os dias. Porque as pessoas fazem a siesta. No inverno? Ruas vazias. No verão? Praias cheias demais. E, no entanto…

Foi minha pequena que me ensinou alguma coisa também nesse ponto. Muito antes do segundinho chegar, examinando de perto cada florzinha, cada folha, caminhando tranquilamente pelo parque, feliz sob o sol, em meio à natureza. A alegria dessa conexão me fez perceber que um lugar pacato poderia ser o melhor lugar para se viver. Sobretudo com filhos pequenos. Existem coisas mais importantes que restaurantes descolados e galerias de arte. Ao menos para mim. E para eles. Mesmo que seja tão legal ir a bons restaurantes. E ter milhares de filmes à disposição nos muitos cinemas da cidade. E poder ir ao supermercado às dez da noite. É legal mas… é disso tudo que uma pessoa precisa realmente?

E qual não é minha surpresa quando a oportunidade de mudar do apartamento no centro da cidade pacata para uma casa me faz encontrar uma num vilarejo de pouco mais de 200 pessoas em meio aos vinhedos. Mais calmo que isso só se fosse um bangalô no meio do mato. Ah, mas aqui não tem mato. Nem bangalô. Tem refúgio de pedra na montanha, serve?

Dizem que a gente não encontra o que procura, mas o que necessitava mesmo sem o saber. Aqui encontramos.

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Da cidade grande para o meio dos vinhedos – parte 1

Sempre fui uma pessoa urbana. Urbana assim, a poucas quadras da avenida Paulista. Urbana daquelas que gostam de andar em dias de sol e céu azul nessa imensa avenida coalhada de gente a olhar os reflexos em prédios de vidro. Urbana daquelas que amam arquitetura e o vão livre do MASP. Urbana daquelas que nasceram e viveram em cidade grande praticamente a vida toda.

Vida de cidade grande é muito boa. Para quem tem o mínimo de condições de aproveitá-la, claro. Coisa que eu não sabia até virar gringa no país dos outros. Então, na minha vida paulistana o prazer era descobrir novos restaurantes descolados e com boa comida mesmo em bairros distantes. Ou convidar e ser convidada para a casa dos amigos. Ou as visitas às galerias de arte sempre maravilhosas.

A noite paulistana tem qualquer coisa de insuperável. Todas as tribos de todos os gêneros se cruzam sem necessariamente se encontrar. Mas é sempre possível encontrar um lugar e uma tribo com quem se divertir, dançar, escutar boa música, rir… A noite paulista é interminável, pode durar um fim de semana inteiro e acabar com a sua segunda-feira, te nocauteando por muitos dias em que o trabalho se arrasta e você só pensa com saudades na sua cama quentinha. A noite paulistana pode ser rude, violenta, suja como o dia, como a cidade. Mas pode revelar também seus mil encantos secretos aos quais apenas os iniciados conseguem aceder. Ah, a noite paulistana daquela minha vida de antigamente…

Mas então veio Paris. E Paris é… bom… Paris é Paris. Cheia de clichês e de lugares comuns. Mas de uma beleza estonteante. Estou convencida que Paris é como aquelas pessoas extremamente belas, ela ofusca todos os seus defeitos e crueldades através daquela luz amarelo-alaranjada que ilumina suas ruas e prédios a cada noite. Uma luz difusa que envolve de mistérios e de promessas de descobertas essa cidade espetacular. Existe sempre uma Paris a se oferecer para cada par de olhos encantados como se fosse exclusiva, a Paris de cada um jurando fidelidade eterna em troca do amor eterno que cada qual lhe dedica, para sempre cativo.

Para além do deleite de viver em uma cidade bonita, Paris te ensina a viver em um mundo onde é possível ser mais livre, ter menos medo. Parece paradoxal falar em liberdade e ausência de medo em um lugar que foi alvo de uns tantos atentados terroristas recentemente. Mas ainda assim é essa sensação que se pode sentir por aquelas ruas.

Minha experiência definitiva em Paris ocorreu bem cedo, voltando de uma balada. As amigas com quem fui não queriam partir e me sugeriram que eu voltasse para casa sozinha. A pé. As quatro horas da manhã. Achei que elas estavam de brincadeira e perguntei onde poderia pegar um táxi. Minha casa não era muito longe dali e elas é que acharam que eu estava de brincadeira. “Vai a pé”. “Sozinha? A essa hora? Não é perigoso?”. Diante da risada francesa delas achei melhor ceder. E numa noite de outono qualquer do ano de 2011 essa que vos escreve descobriu que existem um mundo em que uma mulher pode andar pelas ruas de madrugada sozinha até sua casa. Sem que nada lhe aconteça. Cruzando outras mulheres no caminho que fazem o mesmo. Sem que nada lhes aconteça. Sim, existe violência em Paris e existe violência contra as mulheres em Paris. Mas você pode andar pela rua de madrugada sozinha sem que ninguém te ameace de nenhuma forma. E isso para uma paulistana convicta é um argumento decisivo.

Continua aqui

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