Lá fora.

O inverno por aqui termina demorado. Ele se estica, se estica, neva, chove, venta. Você acha que ele está indo e ele faz uma viravolta e te obriga a conservar ainda os casacos por algum tempo. Chega o mês de abril e ninguém aguenta mais.

Quando cheguei à Paris não entendia muito esse chorume dos franceses com relação ao inverno. Eu animada, querendo sair, programar um jantarzinho, um apéro e meus amigos querendo hibernar por seis meses, dizendo-se sem ânimo para nada. Como assim? Aquela cidade linda, tudo a visitar, tudo a descobrir e as pessoas desanimadas encarapitadas dentro de casa?

No terceiro ano de vida na gringa bateu. Essa zica do inverno, efeito da falta de luz, do excesso de cinza prolongando-se por muitos dias, de sair com o dia ainda escuro e voltar já de noite. Bate um desânimo, uma deprê. Coisa de quem tem inverno, que eu achava que conhecia até que… Falta vitamina B e esse tal inverno dura uma eternidade. E olha que nem estamos tão ao norte, imagino o que não deve ser na Escócia, por exemplo. Enfim, conhecer o inverno para valer me fez começar a entender o que é esse loucura que toma de assalto as pessoas lá pelo final de abril, começo de maio e que faz com que gente brote do chão, como zumbis renascidos pela luz do sol e pelo céu azul. Pois é assim, começam os belos dias e a cidade vazia vira um formigueiro, os terraços dos restaurantes e dos bares lotam de óculos escuros, taças de vinho branco, cafés, livros, jornais. Os parques parisienses são invadidos por mães e seus bebês, suas crianças, seus carrinhos, suas patinetes. Uma turba de gente se joga nos gramados, abre uma toalha ou improvisa um piquenique comprado no supermercado da esquina. A cidade volta a ser ruidosa, o sorriso volta para o rosto das pessoas.

Aqui na campagne a volta dos belos dias significa ir para a beira do mar brincar com as crianças. Ou para a beira do rio fazer um piquenique. Ou no meio do mato, em algum lugar, estender uma coberta e sentir o sol bater e despertar cada pedacinho do corpo maltratado pelo frio. A primavera colore tudo de flores que desabrocham quando outras começam a murchar e assim numa sequência que parece infinita e que você deseja que dure mesmo para sempre porque é um desfile de flores selvagens e de verdes os mais variados e de cores e de cheiros e de abelhas, mosquitos, moscas… ops… sim, nada é tão romântico ou bucólico na vida real onde existem moscas e mosquitos. Mas depois de seis meses de inverno você sorri até para as moscas, ao menos na chegada da primavera. E escuta os pássaros e vê a luz dançar entre as folhas e se diz que a vida pode mesmo ser muito boa.

Por aqui, a chegada da primavera lota terraços, restaurantes e, o que mais me fascina, faz todo mundo botar a mesa para fora de casa. Pode ser numa varanda pequena de um prédio, pode ser num belo jardim, não importa. Aqui as mesas na varanda não são objeto de decoração. Elas pegam chuva, poeira e desbotam com o tempo mas, se vocês espiarem bem, elas estão sempre ocupadas e cheias de vida desde que os belos dias aparecem.

A mesa fora de casa é o convite para reunir amigos, conhecidos, vizinhos, pouco importa. É pretexto: vem, vamos fazer uma grillade, cada um traz algo para acompanhar, vinho bom é obrigatoriamente parte do programa, pão e aí se opera uma das magias mais fascinantes do povo francês.

Uma vez li em algum lugar que não lembro onde que os franceses sabem como ninguém a arte dessas ocasiões sociais. Nada mais verdadeiro. Você pode colocar pessoas que não se conhecem, que não têm nada em comum, vinda de diferentes lugares da sua vida e, contrariamente ao que vi tantas vezes no Brasil, mesmo em reunião de amigos onde cada qual ficava restrito ao seu grupinho próximo, aqui as pessoas vão simplesmente conversar com todas as outras presentes. Eu não sei como eles fazem, mas confesso que adoro criar essas situações e observar a beleza de pessoas que conseguem arrumar não sei o que em comum de totalmente improvável e daí sai uma conversa e você chega a pensar que aquelas pessoas vão virar os melhores amigos da vida. Não vão. Possivelmente eles não vão mais se falar a não ser que se encontrem novamente na sua varanda ou no seu jardim na primavera seguinte. Mas pelo espaço de uma refeição, eles conversam, encontram do que falar e criam um ambiente em que todos ficam felizes e sentem prazer na companhia um do outro. Talvez seja essa alegria reencontrada depois dos dias escuros e frios que coloque as pessoas num estado de espírito sorridente, quem sabe?

Então, se um dia você vier à França quando começa a primavera, não perca a oportunidade de ir a um parque se largar sobre a grama com um piquenique improvisado. Coloque a mesa do seu airbnb para fora. E se for convidado para um churrasco que não chega aos pés do nosso num jardim qualquer, releve a parte gastronômica, compre uma garrafa de vinho e vá. Converse com todo mundo que estiver ao seu redor e me diga se não dá uma alegria de estar vivo. Se tiverem crianças correndo e brincando em volta enquanto os adultos conversam, comem e bebem, eu te garanto, é o deleite absoluto.

Quem paga o preço?

Nos últimos tempos, especialmente depois da crise político-econômico-social que anda devastando meu querido Brasil, vira e mexe escuto gente dizer que vai mudar de país. França, Itália, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá… Qualquer destino de primeiro mundo com o qual tenhamos alguma familiaridade parece perfeito como válvula de escape de um Brasil caótico, violento e avacalhado. Nessas horas, as pessoas se lembram dos amigos que moram fora e vez ou outra decidem ter essa conversa comigo. Aí é que é bom… país de m-primeiro mundo, gente educada, povo civilizado. Então eu lanço mão daquela perguntinha capciosa que qualquer pessoa honesta que more em outro país se vê na obrigação de fazer quando um de seus compatriotas cogita vir para cá: “sim, sim, é tudo muito bom mas, diga lá, você aceita pagar o preço?”

Viver em um país civilizado tem um preço e, lamento dizer, custa caro. Sim, caro financeiramente e mais caro ainda em termos de mudanças de hábitos e de costumes.

Um exemplo: é época de declarar imposto de renda por aqui. Como aí. Mas diferentemente daí, pelo menos 25% do que eu ganho como profissional liberal já foi pago em encargos sociais. O quê? Sim, isso mesmo que você leu: encargos sociais. Aquilo que a gente paga para financiar todos os benefícios sociais de um país, como saúde pública, educação, auxílios sociais, aposentadoria… Pois é, 1/4 do que eu ganho paga os benefícios aos quais eu e mais todas as outras pessoas daqui teremos direito a usufruir. E ainda nem comecei a falar de impostos. Porque esses vão levar mais ou menos uns 10% do que eu ganhei. Para pagar toda a estrutura que existe por aqui. Segurança, infra-estrutura, cultura…

Imagino que existam pessoas que soneguem imposto por aqui. Mas é algo tão ínfimo, mas tão ínfimo que quando sua declaração mostra que você tem direito a uma restituição, ninguém te chama no equivalente da receita federal para você prestar contas. Ninguém desconfia que você poderia estar dando um truque. Eles te mandam um cheque que chega na sua casa pelo correio e que ninguém rouba, pasmem! E junto do qual vem uma cartinha-tipo do diretor da receita dizendo que eles estão felizes em te enviar aquele cheque. Felizes. De te enviar um cheque de restituição. Porque é seu direito. Percebe? Um modo de funcionar baseado na confiança em que cada um vai fazer a sua parte em nome de um bem comum que vai beneficiar a todos.

Aqui todo mundo tem direito aos benefícios sociais. Sabe aquele bolsa-família que você despreza no Brasil como se fosse uma esmola dada para vagabundo? Então, aqui o equivalente disso é creditado na conta de toda família que tem filhos, de acordo com sua renda. Toda família. Rica ou pobre. Com um filho ou com dez. Proporcionalmente. Percebe o que é uma mentalidade na qual se compreende que é importante dividir um pouco dos benefícios criados por todos entre todos? Porque é isso que vai diminuir as desigualdades e criar uma sensação de justiça e de proteção. É o que vai dar às pessoas a convicção de que elas contam. Ou seja, é isso que vai fazer com que você possa sacar seu telefone celular último tipo no meio do metrô lotado no final do dia sem que ninguém arranque ele das suas mãos e saia correndo. Não tem assalto? Tem. Não tem roubo de carteira, celular, máquina fotográfica no metrô? Tem. Mas você pode usar seu celular no metrô. E sua máquina fotográfica pode ficar pendurada no pescoço quando você está turistando no meio da rua olhando para todos os lados como um abestado. E você pode abrir sua carteira no meio da rua para procurar uma moeda. E você pode andar com brinco, anel, colar. Em tudo quanto é lugar.

Sabe o que é isso? Eu, vivendo em São Paulo, não sabia. Isso é o que você ganha quando aceita pagar o preço de viver em um mundo mais justo do que aquele em que vivemos no Brasil. Isso é o que você ganha quando aceita que sua empregada doméstica tem a filha na mesma escola que você, tira férias como você, viaja de avião, tem carro, ganha 10€ por hora, é registrada e não tem nenhuma obrigação de limpar a merda que você deixa na privada ou de recolher suas meias sujas pela casa.

Então me soa bem estranho quando escuto as pessoas dizendo que vão morar aqui. As mesmas pessoas que desprezam os benefícios sociais e as pessoas que deles usufruem e que aplaudem a retirada dos mesmos e dos poucos direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo das últimas décadas. E que acham que quem paga imposto é otário e arrumam mil gambiarras para sonegar tudo o que for possível. E que se justificam com a balela do “por que vou pagar se não tenho nada em troca?” E que preferem não pagar do que reivindicar saúde e educação de qualidade nos serviços públicos. E utilizá-los.

Infelizmente no Brasil crescemos com uma mentalidade meio perversa segundo a qual o mundo teria que mudar para então começarmos a agir certo. Porque o mínimo deslize do lado de fora de nós justificaria que possamos continuar a fazer tudo do jeito que queremos. No dia em que o país mudar a gente para de ser desonesto, né? Pois é, não. Não é assim que a coisa funciona. No dia em que você parar de ser desonesto você terá começado uma mudança. E então poderá exigir do mundo ao seu redor que ele também mude. Pague o preço.

 

Quem gosta de vinho?

 

O vinho segue os ritmos e os caprichos da natureza e o inverno é a época da poda, da taille. O primeiro gesto que o vigneron faz para preparar as vinhas para a colheita do ano. Então, todas as manhãs quando saio com as crianças para a escola, a paisagem de vinhas é entremeada de carros esparsos estacionados em estradas de terra. E um ou dois indivíduos que se movem lentamente entre as vinhas, meticulosamente cortando alguns galhos, num gesto preciso. As vinhas adquirem variadas formas, uns galhos finos brotando dos pés, uns galhos compridos, outros tão curtos… A paisagem das vinhas nessa época é em tons de marrom e ocre, sem folhas, sem flores, sem frutos, apenas as linhas retas da terra revirada, os fios, as vinhas… A montanha nevada ao fundo e as amendoeiras em flor dizem que nesse encontro de estações alguma coisa germina. Alguma coisa se prepara.

O primeiro vinho pelo qual me apaixonei nessa região foi o vinho de Collioure. Como se não bastasse a essa cidadezinha ser uma das mais charmosas da região, na beira do mar, cheia de estreitas ladeiras e construções antigas, Collioure com seu exclusivo farol, seu forte no centro da cidade impressiona artistas desde os 1900. Encantados pela luz, pelas cores, pela paisagem, pelo magnífico encontro entre montanha e mar, não poucos ali se instalaram, de maneira mais ou menos perene, a pintar a beleza contida de uma cidade encravada entre o azul do mar, a tour Madeloco solo rochoso entre o preto acinzentado e o marrom sanguíneo, tudo sempre mais explosivo e monumental do que ela. E as vinhas… Collioure é cercada de vinhas penduradas em montanhas íngremes e impossíveis, um capricho do homem a se impor em lugares tão improváveis. E o vinho desse lugar… Os tintos são poderosos e deixam uma lembrança longa na boca. Sem pesar, sem amargar, eles são redondos e ricos, uma benção. E os brancos… ah, os brancos. Amar vinhos brancos foi algo que descobri aqui na França, eles têm gostos tão variados, tão surpreendentes. E os de Collioure são cheios de sabor.

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Para saber mais sobre a taille. Outro texto.

As hipocrisias francesas…

Quando o assunto é traição, a França é um dos países mais hipócritas que já conheci. Um dos berços do feminismo, um modelo para todo o mundo ocidental, os franceses pregam uma liberdade nos atos correspondente a uma liberdade dos desejos: todos são livres para fazerem o que quiserem. Apenas esquecem de acrescentar ao final da frase a cláusula importante sobre a gestão dos desejos de cada um: desde que todos estejam de acordo.

Desejo é responsabilidade e parece que por aqui muita gente esqueceu desse pequeno detalhe. Mulheres que pensam que o auge de sua liberação é transar com quem quiserem, mesmo que sejam homens que estão com outras mulheres, casados e afins. Oi? O exercício de sua liberdade enquanto mulher é fazer algo que vai magoar e eventualmente destruir a vida de uma outra mulher? Ah, ok. Foi nesse ponto que comecei a me dar conta que o feminismo foi instrumentalizado para se tornar apenas um discurso de pseudo-liberdade feminina que garante que os homens tenham mais mulheres disponíveis no seu mercado de carne. E, ainda por cima, convictas de que estão fazendo algo revolucionário.

Mas o mais espantoso nessa mentalidade francesa quanto à traição é que mulheres e homens parecem convictos que tudo bem, não faz mal nenhum, desde que o outro não fique sabendo. Ou seja, uma porção de casais trai e é traído e não têm problema porque o outro não ficou sabendo de nada. E, afinal, é algo tão natural desejar outras pessoas, né?

O que ninguém conta, inclusive esses homens e mulheres que traem a go-go e que eu tenho a ocasião de testemunhar infinitas vezes, não apenas na minha história pessoal mas no discurso de pacientes, de amigos e de conhecidos é que essas traições são responsáveis pelo fim de muitos relacionamentos. O que não seria nenhum problema, afinal relacionamentos começam e terminam. Só que essas pessoas, essas mesmas que fazem a apologia da traição chegam nas sessões com seus psicólogos ou nas consultas com seus psiquiatras totalmente destruídas. Pois é, emocionalmente, psicologicamente, moralmente destruídas. E tenho visto tanta gente destruída por conta de um ato que aqui na França gostam tanto de naturalizar que começo a me questionar sobre o porquê de tanta hipocrisia.

Vejam, pessoas adultas decidem da vida que elas querem ter e das parcerias que elas vão formar. Decidem. E para algo que implica mais de uma pessoa, decidem a dois. A três. Quantos sejam. Pessoas que consideram minimamente as mazelas e as responsabilidades quanto aos próprios desejos aceitam o risco de estabelecerem acordos tácitos, falados, escritos, murmurados com seus pares. Aceitam o risco que o outro, do auge da sua capacidade de decidir ele também, não concorde com o que propõem. Aceitam o risco que o outro não queira a mesma coisa que elas e que a relação termine. Pessoas adultas aceitam o risco da vida, das relações e dos próprios desejos e não tentam mascarar tudo isso com mentiras e falsas aparências para não perder nada enquanto se dão ao direito de fazerem tudo. Isso não é ser uma pessoa livre. Isso é ser escravo: de si mesmo, das próprias covardias, das convenções sociais, do medo que o outro não queira mais estar contigo se ele souber quem você é e como quer viver sua vida realmente. E aqui na França, no país do livre pensar, do bem pensar e dos analisados de Lacan, bem pouca gente parece disposta a correr os riscos.

Então, fica todo mundo engambelando. Fala em prol dos desejos e das liberdades e age como o contrário de tudo o que prega. E quando a verdade vem à tona… poucas pessoas seguram a onda. E o que vemos por aqui é uma quantidade assustadora de gente arrasada, deprimida, terra desolada depois de um incêndio que levou muito mais do que tinham imaginado que poderiam perder. O preço acaba sendo muito mais caro do que pensavam.

Há alguns anos atrás os franceses deploraram o escândalo da divulgação do presidente “normal” na sua motoca de capacete saindo da casa da amante em fotos tiradas pelos paparazzi de plantão. Deploraram que alguém desse atenção a isso, afinal aqui na França não se mistura vida pessoal com vida profissional. Não somos como os americanos ultramoralistas, conservadores, puritanos. Somos mais civilizados, mais realistas, essas coisas fazem parte da vida. Tudo muito bonito no discurso oficial de dez em cada dez franceses na época do ocorrido. O que esqueceram de dizer nos seus discursos e que apareceu nas entrelinhas é que muita gente estava achando lindo que a atual esposa do tal presidente que acabara de tornar-se corna em rede nacional era, em suas origens, a amante do tal presidente pelo qual ele largou esposa e filhos, num escândalo que a França também evitou comentar porque tudo é verdadeiramente tão “normal”. E que essa amante tornada esposa e primeira dama esqueceu de imaginar que o mesmo poderia acontecer com ela dali a um tempo pois um dos clichês da traição é que ela se repete e que a crença do “comigo vai ser diferente” não passa de intenção histérica de mulher que ainda não entendeu que “não, você não é especial para alguém que te colocou no lugar de uma outra, porque isso é uma mentalidade de homem que vê mulher como mercadoria”. E as pessoas tão liberadas e maduras estavam agora a se regozijar em rede nacional dessa pequena vingança do destino. E que essas mesmas pessoas tão civilizadas estavam pouco se importando que a ex-amante agora esposa tentasse se matar. E que tudo fosse abafado por essa espessa camada de normalidade dos acontecimentos e pelo silêncio sobre a dor que ela poderia estar sentindo. E que quando apareceu um livro arrasador de autoria dessa mulher destruindo o então presidente (uma vingança, por que não?) todos se mostraram ainda uma vez escandalizados, ultrajados por mais esse desrespeito ao savoir faire francês que diz que frente a uma traição todos ficam em silêncio e o traído se sai tão mais dignamente quanto menos falar e quanto menos deixar transparecer o que quer que sinta em suas entranhas. A França é um dos países menos empáticos com a dor alheia quando ela é vinculada a uma questão moral. Ninguém pode falar, ninguém pode perguntar, todos se convertem repentinamente em pessoas pudicas, reservadas, cheias de dedos, distantes. Porque os franceses, em geral, têm medo de se envolver com assuntos que os obriguem a se posicionar moralmente e a assumir uma opinião com base em um julgamento moral.

A consequência disso é que uma parte impressionante dos adultos com quem tenho contato contam histórias de traição cujas consequências foram catastróficas. Para eles, para os filhos, para um monte de gente. Um monte de gente sofrendo pela hipocrisia de não poder assumir que, não, não é ok trair. Mesmo que seja algo que aconteça. Mesmo que faça parte da vida. Isso não legitima a atitude de ninguém. É ok fazer o que quiser da própria vida desde que as pessoas envolvidas saibam e concordem. Ponto. Tudo o mais é má-fé, covardia e violência. Mesmo aqui na França.

Quem gosta de vinho?

Quando cheguei na França eu gostava, mas conhecia pouco… Bordeaux, champagne e praticamente só. E foi na convivência com os franceses e com seus hábitos cotidianos que aprendi que vinho é muito mais do que esse pequeno universo do qual temos notícias esparsas noutros cantos do planeta. Vinho é quase um sacerdócio.

Difícil encontrar um francês que não beba vinho e que não fale de vinho sabendo do que está falando. E como eles aprendem? Não, não é fazendo curso de degustação, embora isso exista por aqui… é pela convivência. Como a arte, quanto mais a gente frequenta, melhor conhece.

O que melhor me ensinou sobre vinhos foram: os garçons dos restaurantes e os cavistas. Na França é bastante comum pedir uma indicação ao garçon sobre qual vinho tomar. E é ainda mais comum eles saberem indicar um bom vinho, que não é o mais caro do cardápio, ainda por cima. As pessoas pedem uma taça de vinho com a refeição, apenas para acompanhar. E os restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, têm como princípio oferecer algo de qualidade. Bem diferente do Brasil onde se bebe muito vinho sobrevalorizado e sobretaxado por preços astronômicos em restaurantes por vezes apenas pretensiosos. Não que não se beba bem no Brasil, mas…

E os cavistas? Ah, os cavistas. Toda cidade, todo bairro, todo pequeno vilarejo dos confins da França tem eventualmente um cavista. E não se trata apenas de uma loja de comercialização de vinhos. Cada cavista pesquisa, procura, descobre, degusta e oferece seus pequenos achados e seus tesouros secretos à sua clientela. O que significa que cada cavista vai oferecer vinhos que outros não têm. E que da próxima vez que você for ao cavista comprar o vinho que achou maravilhoso, pode ser que tenha terminado e que… nunca mais… porque não existe um estoque.

Na minha vida parisiense, haviam dois cavistas na rua em que morava. A cada vez que ia comprar um vinho, a primeira pergunta que faziam, depois de tinto ou branco, era: qual faixa de preço quer gastar? Sim, um cavista ama vinhos, ama o que faz e não vai te empurrar qualquer coisa pelo maior preço que puder. Ele vai tentar te indicar algo bom pelo preço que você pode pagar. E isso é uma das coisas mais bonitas que descobri por aqui: os cavistas, os queijeiros, todos os que lidam com os produtos do terroir, com produtos produzidos na França, tradicionais, históricos, culturalmente importantes e valorizados têm um imenso orgulho do que fazem e um grande prazer em apresentar seu mundo a quem se interesse.

Foi por meio do cavista da simpática rua de bairro parisiense que descobri as delícias aveludadas dos vinhos de Bourgogne, os sabores delicados dos Beaujolais que não são aquele golpe publicitário do nouveau, o sabor amanteigado de um dos meus vinhos preferidos, o Pouilly Fumé que vem do vale do Loire.

Sim, o vinho na França é um sacerdócio que vai muito além dos bordeaux e do champagne que conhecemos. Quem ama descobrir universos nunca fica indiferente à beleza desse mundo dos vinhos.

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Coisas que os brasileiros pensam que conhecem… – parte 1 (O inverno)

… mas não sabem mesmo o que é até morar por aqui. E que eu amei descobrir.

Decidi começar por uma das minhas preferidas, o Inverno. Porque eu AMO o inverno. Amo o frio, a neve, mesmo depois de tanto tempo por aqui. E mesmo tendo coisas que detesto no inverno. E, te prometo, eu não sabia o que era inverno antes de morar na França, mesmo já tendo viajado por países frios em períodos invernais.

Inverno mesmo, temperaturas em graus negativos, quando faz perto de 10°C você pensa: nossa, que dia ameno! Sim, esse inverno da neve, do vento invernal e infernal, que a gente idealiza como uma romântica declinação das férias de julho em Campos, com um chocolate quente numa mão, um fondue na mesa de centro e muita lenha na lareira até que…

Talvez os estados e as cidades bem ao sul saibam do que se trata mas a imensa maioria de nós, brazucas, não sabemos o que é inverno de verdade até vir morar num país frio. Inverno que dura muitos meses no ano, com dias curtos, você sai pela manhã para o trabalho e é noite, você sai do trabalho no final do dia e é noite e você passa um bom tempo vivendo de noite a maior parte do tempo. Seu relógio biológico fica maluco e você fica com sono às 5 da tarde e quando o despertador toca pela manhã você não acredita que são 7 horas. As pessoas por aqui deprimem no inverno, reclamam do escuro, do cinza, não querem sair.

Nos meus dois primeiros anos eu achava isso uma bravata, tinha um pique interminável para ganhar as ruas e conhecer tudo o que a novidade parisiense me oferecia. No terceiro ano entendi. Tem um aspecto biológico aí, a falta da vitamina D que é produzida pela pele quando tomamos sol e que tem uma influência no humor e nos estados depressivos. E tem uma porção de aspectos emocionais, sociais, culturais.

A vida do inverno é mais para dentro, dentro das casas, dentro dos lugares aquecidos. Quanto mais frio, menos tempo se passa na rua. As pessoas continuam a viver suas vidas, fazem muito mais coisas do que nós, brazucas, nos animamos a fazer no nosso inverno. Aqui não é comum deixar de levar filho na escola porque está frio ou porque nevou. Se fosse assim, as pessoas passariam um bom tempo a cancelar compromissos. Mas mesmo que a vida continue, ela tem o aspecto de um urso hibernando na sua caverna. Quem fica errando de bobeira na rua por horas a fio, em pleno inverno, é turista.

Em um dos meus anos parisienses, minha tia passou um tempo comigo nessa época do ano. Todo dia olhávamos pela janela do apartamento antes de sairmos pela manhã, eu para trabalhar, ela para passear. Todo dia era cinzento, feio, úmido, desencorajador. Até que amanhece um dia lindo de sol e céu azul. O termômetro marca -7°C. Ela se empolga com o dia bonito e decide sair para passear na rua. Eu, já calejada, aviso: vai estar muito frio. Imagina, dia lindo! OK. Ela retorna meia hora depois para acrescentar umas camadas. Dia lindo de sol e céu azul e temperatura muito baixa é dia daquele frio que faz doer os ossos. O que me leva a uma outra constatação sobre nós, brazucas e o inverno…

Não sabemos nos vestir para o frio. Você está em Paris de férias em dezembro ou janeiro, feliz da vida com o glamour e a elegância parisienses e tão a fim de se misturar na paisagem que prepara sua mala com todos os nossos itens essenciais de inverno brasileiro? Não. Sinceramente, não.

Não para aquelas botas de salto maravilhosas. Não para os cinco casacos, cada um de uma cor. Mulher andando nas ruas da França como se fosse modelo de capa da Vogue ou é turista ou é… modelo de capa da Vogue. O que quer dizer, possivelmente, uma pessoa rica que vai apenas sair do carro na frente do restaurante descolado em que vai almoçar para entrar no mesmo carro logo em seguida, no qual o motorista a aguarda para transportá-la ao compromisso seguinte. Nós, reles mortais, andamos na rua, encaramos o vento, a chuva, a neve nos pés, no rosto, nas mãos. Pegamos metrô, ônibus, carro estacionado longe. Na vida real do inverno, sapato tem que ser quente, confortável, anti-derrapante e bom para durar alguns anos porque custa caro. Casaco é um, impermeável, quente, do tipo que encontramos em países onde existe inverno e, quando encontramos no Brasil, custam uma fortuna desencorajadora. Vestir-se para o inverno é colocar algo por baixo da calça, meia quente, uma camiseta ou camisa ou aquilo que você vai querer mostrar quando entrar nos lugares. Dentro dos lugares a calefação obriga a tirar o super casaco e você fica de camisa, camiseta ou com algo por cima disso, um blazer, um pull, uma peça quentinha mas não muito.

O inverno me ensinou a me vestir e, principalmente, me ensinou que proteger as extremidades é fundamental. Sair na rua de cabelo molhado como eu fazia em tempos brazucas? Suicídio. Gorro, cachecol para proteger o pescoço e o queixo e às vezes até a boca e o nariz do frio, luvas… tudo isso se coloca antes de sair para a rua. A gente sai para o inverno pronto, coberto, enrolado e tudo o que for preciso. Se arrumar na porta de casa é incômodo e, com crianças, é pedir para escutar choradeira. Criança com frio chora, se irrita. Fora que eles perdem temperatura muito mais rápido do que os adultos porque são menores, então a atenção precisa ser dobrada. E os bebês que mal se mexem, deitados em carrinhos… aí é risco triplicado e é preciso ter muita atenção. Normalmente o indicado é cobrir como nos cobrimos e, com bebês que vão ficar parados em carrinho, colocar uma camada a mais, uma coberta por cima ou um daqueles equivalentes dos sacos de dormir feitos especialmente para carrinhos de bebê. Quando o pequeno vai no sling ou no porta-bebê não precisa de tanto, porque ele compartilha do calor do nosso corpo. Não cobrir demais, não cobrir de menos, não deixar as crianças todas encapotadas no carro, no restaurante ou onde for porque é mais fácil para o adulto que tem um trabalhão para cobrir e descobrir pequenos mil vezes ao dia, contando com as rebeliões contra luvas, gorros e cachecóis e é só um minutinho, que mal faz… Criança superaquecida passa mal, chora, vomita… Não, morar em país frio é aprender a se vestir e aprender a vestir os pequenos e a aceitar toda lenga-lenga do cobre descobre que se repete centenas de vezes em um único dia. O que me leva a uma outra coisa que aprendi com o inverno…

Calefação. Palavrinha mágica, linda, alentadora, que faz as temperaturas subirem acima dos 20°C quando faz menos de 0 lá fora, dia e noite… Nos meus primeiros tempos parisienses, meus amigos franceses brincavam comigo dizendo que chegar na minha casa era como chegar nos trópicos. Era sempre verão por ali. Todo mundo de camiseta regata, feliz, tomando caipirinha… Só que não é assim que funciona.

Primeiro porque lugares superaquecidos fazem um mal danado para a saúde. Você lembra da sua avó que gritava da janela te mandando colocar um casaquinho para não tomar friagem? Então, sua avó tinha razão. Só que não é o frio que te deixa doente. É o monte de bactérias e vírus acumulados nos lugares quentinhos e mal arejados das casas e afins que ninguém abre uma janela do inverno. E quanto mais quente, mais os bichinhos gostam e se proliferam. Então, uma casinha a 18°C, 19°C quando faz grau negativo lá fora já é bem bom. E te permite usar todos os casaquinhos de inverno leves. E as botas. E tudo que não dá para usar na vida real. Fora que todos dormem melhor com o ar fresco e o cobertor quentinho por cima. Tem coisa melhor do que dormir enrolada num cobertor quentinho?

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