Quem gosta de vinho?

Noutro dia escrevi sobre os vinhos naturais, biodinâmicos e bio aqui na França, uma “moda” que começou há mais de uma década e se reforça dia a dia. Em um mundo preocupado em comer saudável e em diminuir tanto quanto possível a quantidade de pesticidas, hormônios e outras químicas com as quais nos envenenamos enquanto comemos, nada mais coerente que se preocupar também com beber saudável. Afinal, não tem muito glamour pensar que você está tomando Monsanto junto com aquele bordeaux de 500 reais, né?

Algumas pessoas por aqui defendem que o vinho natural sempre existiu porque sempre existiram viticultores que não seguiram muito a onda de trabalhar com produtos demais, nem se renderam ao mercado em busca de um sabor fácil, redondo e padrão. Esses viticultores já não trucavam muito o vinho e continuaram não fazendo. Outros perceberam a importância de voltar às bases e foram testar novas velhas maneiras de cultivar, tratar a vinha e produzir o vinho. E uns ainda sentem a pressão atual por um vinho mais limpo e menos padronizado e começam a lançar uma “fornada” bio em meio à produção costumeira. Sinal dos tempos?

Um amigo enólogo me disse outro dia que o vinho que ele aprendeu como sendo vinho é esse das tecnologias, dos pesticidas, das interferências na fabricação. Esse gosto é o que ele entende como “a verdade” do vinho. E segundo essa verdade, um vinho natural não é um bom vinho. Por isso que a maior parte deles não entra nas denominações controladas, pois não se enquadram nos parâmetros do que deve ser um bordeaux, um bourgogne… Então eles são labelizados como vin du paysvin de France, títulos que costumam ser dados a vinhos “menores”. Alguns preferem denominar-se vins libres.

Um vinho livre é aquele que não segue a receita para ser isso ou aquilo, não segue as cépages para poder ser considerado tal ou qual tipo de vinho. Ele mistura, inventa. Ou como disse tão sabiamente esse amigo enólogo, é o vinho que te permite descobrir o que estava escondido por trás daqueles outros cheios de química.

O que existe por detrás de um vinho redondo e arrumadinho?

Quem gosta de vinho?

Eis algo sobre o que nunca tinha pensado antes de começar a pensar: os vinhos, como todos os produtos alimentares em nossos dias, podem ser modificados e conter uma imensidão de produtos químicos. Quem já tinha se dado conta que, também para os vinhos, temos que considerar a opção bio?

Beber melhor e mais saudável, eis algo que um número cada vez maior de viticultores se preocupa na França. Retornar às raízes, retornar ao sabor das raízes, mágica que os vinhos deixaram muitas vezes de fazer, tendo que se adaptar ao consumo de massa e ao sabor médio buscado pela maioria. O gosto fácil ou a ousadia dos sabores específicos? Eis a questão.

As uvas, os vinhedos, podem ser tratados com uma quantidade mais ou menos importante de pesticidas e eles vão parar no vinho. Assim como umas ou outras coisinhas que os viticultores vão acrescentar para “arrumar” o vinho na hora da produção. Por aqui, descobri que tem quem coloque açúcar, sulfitos além dos naturais vindos da própria uva, conservantes. Quando abrimos uma garrafa, aquilo que chega no nariz e na boca é o conjunto da obra, ou seja, as uvas, o terroir e toda a porcariada que eventualmente o viticultor terá acrescentado para que o vinho seja redondo e que ele agrade ao gosto e às exigências de seus consumidores. O que é uma pena, se pensarmos bem, pois um vinho é uma descoberta tão incrível e inesperada do lugar onde ele foi feito que trabalhar para torná-lo palatável como todos os outros é tirar dele o que o faria único. E nisso a diversidade se perde.

Pois bem, por aqui encontramos mais e mais viticultores passando ao bio, ao natural e ao biodinâmico. Colheita manual, sem uso de pesticidas, sem acréscimo do que quer que seja, fermentação com o uso apenas de produtos naturais, doses de sulfitos acrescentados bem menores do que se vê por aí. Uma pequena revolução, feita por apaixonados do terroir, essa beleza poética que é como chamam por aqui a terra, a terra de cada pequeno terreno que muda de um metro a outro.

Descobrir um vinho natural é desafiar os hábitos que temos, o gosto que pica na boca, a espera de que o vinho aere, uma certa opacidade… coisas esquisitas. Uma descoberta e tanto, especialmente para paladares habituados aos sabores bem alterados.

Um vinho é uma descoberta. Tenho descoberto nesses vinhos bio, biodinâmicos e naturais todo um mundo novo dos gostos não redondos, que não aparam arestas, que não maquiam nem disfarçam nada. Um vinho vivo, é o que dizem. Um vinho como um ser humano, cheio de falhas e idiossincrasias. Um deleite.

Vins naturels.

Vins naturels, algumas sugestões.

Ainda sobre vinhos bio, naturais e biodinâmicos.